H1N1 e caos-2: obrigado

Aqui vai um post rápido sobre o anterior do meu drama de ver meu filho com H1N1. Primeiro, quero agradecer a todos pelos votos de melhoras ao meu filho. Ele já está em casa e bem melhor. Ele está bem porque conseguiu ser medicado no prazo de 48 horas de aparecimento do primeiros sintomas. O maior problema com H1N1 aparece quando se espera mais de cinco dias para começar o tratamento com o Tamiflu.

Segundo, passei com meu filho 14 horas na emergência de um hospital privado a espera de um leito. Nessas 14 horas na sala de emergência de um hospital privado, em Brasília, o doente e o acompanhante não têm direito a alimentação do hospital. Assim, tinha que sair para comprar comida para o meu filho e esposa. Uma maluquice. Mas enfim, depois de 14 horas, um leito. Uma simpática enfermeira ainda me falou: “mas tem gente que espera mais de um dia”.  O que fazer? olhei para ela e sorri.

Terceiro, um prima médica me explicou que não se vende mais Tamiflu nas farmácias desde 2009, mas que a maioria dos médicos não sabe disso. Esse remédio é distribuído apenas pelo setor público. No meu caso, depois que meu filho recebeu alta, o médico nos deu uma receita e fomos em um centro de distribuição do remédio, em Brasília, e conseguimos, finalmente, o Tamiflu.

Quarto, a minha prima médica do Recife me informou que na rede pública chega a se esperar um mês para o resultado do teste do H1N1. Em um laboratório particular é cerca de duas horas. Assim, na rede pública, os médicos começam o Tamiflu se o paciente tiver sintomas de H1N1, independentemente da confirmação do teste. Decisão sábia dos médicos da rede pública.

Quinto, preocupa no Brasil qualquer coisa que depende logística. Muitas das mortes de H1N1 decorrem do atraso para o início do tratamento. É duro saber que muitas das mortes poderiam ter sido evitadas. A verdade é que o setor público no Brasil não está preparado para agir rapidamente em caso de epidemia. O governo tem dificuldades tanto para distribuir o Tamiflu como para disponibilizar a vacina contra o H1N1.

Sexto, causa raiva saber que, em um país no qual temos um surto de dengue, chikungunya, zika, H1N1, etc., até bem pouco tempo atrás, em 2012, o nosso governo estava preocupado em desenvolver uma política industrial para o setor de fármacos.

A ideia era mais ou menos o seguinte: o Min da saúde poderia pagar um sobrepreço de até 25% sobre medicamentos, fármacos e insumos estratégicos produzidos no país para desenvolver a cadeia de produção local. O então Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou que:

Faz parte da política atual do Complexo Industrial da Saúde a concessão de benefícios a empresas nacionais, de forma a valorizar o produto brasileiro e torná-lo mais competitivo. A aplicação dessas margens de preferência vai estimular o desenvolvimento e a produção industrial de medicamentos no país”. (ver aqui).

Em um país que não consegue fazer o mais básico na área de saúde querer pagar mais caro para desenvolver uma indústria local de fármacos é, me desculpem, vou ser aqui extremante mal educado, uma burrice.

Inovação é algo muito mais complexo que reserva de mercado e a garantia de sobrepreço para compra de medicamentos produzidos no mercado doméstico. O Brasil não consegue nem mesmo fazer o básico nessa área como, por exemplo, ter regras claras que possibilite a atração de testes clínicos que é o mais básico na questão de inovação na área de saúde.

Uma matéria de 2014 da Folha de São Paulo descrevia que: “De acordo com o portal Clinical Trials, que reúne dados dessas atividades no mundo, o pais tem somente 2,32% –o equivalente a 3.447 estudos– entre os de 162 mil em andamento no planeta. Dos centros que realizam esses trabalhos em atividade no mundo, 1,4% está localizado no Brasil.”(clique aqui)

Como é que o Brasil quer fazer política industrial para o setor de fármacos se não consegue nem mesmo fazer o básico que é evitar o agravamento de epidemias que já sabemos como evitar e controlar?

Enquanto a economia crescia 4% ao ano, a população pouco se importava com ideias malucas como, por exemplo, a ideia do Trem Bala, construir estádios de futebol que se tornaram verdadeiros elefantes brancos, etc.  Este não é mais o caso. O Brasil para voltar a crescer entre 3% e 4% ao ano precisa fazer várias reformas econômicas e precisa de um governo que promova a meritocracia, seja transparente e avalie todas as políticas públicas.

Muitos no Brasil ainda nutrem o sonho que somos um país destinado ao sucesso e que basta a boa vontade dos governantes. Acho que é bom acordarmos desse sonho porque, se não fizermos as reformas necessárias para que o pais volte a crescer, a tendência é as coisas piorarem. É quase certo que o PT já nos tenha legado uma década perdida de 2011-2021. Pelo menos é isso que mostra as projeções do FMI do world economic outlook de abril deste ano, que mostra que, em 2021, o PIB per capita no Brasil, será 3,6% inferior ao seu valor de 2011. Isso é uma década perdida.

De quem é a culpa? Eu preciso dizer ou é óbvio. Mais um vez, obrigado a todos pelos votos de saúde para o meu filho.

17 pensamentos sobre “H1N1 e caos-2: obrigado

  1. Prezado Mansueto,

    Você sintetizou exatamente o que penso em relacão ao assunto quando falou que,

    “Inovação é algo muito mais complexo que reserva de mercado”

    Parabéns pelo blog e melhoras pro seu filho.

    Abraços recifenses,
    Roberto
    PS: No penúltimo parágrafo do blog, quando você menciona década perdida, você quis dizer 2012 ou 2020?

    Roberto Perrelli
    Senior Economist
    Emerging Markets Division
    Strategy, Policy, and Review Department
    International Monetary Fund
    Tel: (202) 623 8782

  2. Mansueto, fico feliz que seu filho esteja se recuperando. Só quem é pai sabe como é isto.
    A melhor definição sobre o PT que já li até hoje foi a de Roberto Campos, que diz: “O PT é um partido de trabalhadores que não trabalham, estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam”.
    Posso até exemplificar cada uma destas situação, vejamos:
    a) trabalhador que fingia trabalhar: Lula;
    b) estudante que fingia estudar: Lindbergh Faria, hoje amigo de Collor; e
    c) intelectual que se diz intelectual e que finge pensar: Chico Buarque, Marilena Chaui, Leonardo Boff e outros tantos idiotas petistas.
    Abs

  3. Prezado Mansueto, no penúltimo parágrafo o ano “2012” na realidade é “2021”. Correto? De mais, obrigado pelos artigos e pelo seu trabalho de difusão de conhecimento sólido de economia. Acompanho seus artigos. Melhoras para o seu filho.

  4. Que bom que teu filho está melhor, que bom que ele teve o remédio , desejo que se cure totalmente e que não falte o remédio pra quem dele precisa. Mas sabemos que pra esse e outros remédios não faltem pra população gente como nós que temos alguma formação e informação façamos a nossa parte exercendo cidadania , cada um como pode, mas temos que reivindicar que os altos tributos pagos retornem pro povo pagante. Você com a tua formação e inteligência me aclara muitas coisas. Grata.

  5. Mansueto, desculpas! Só agora vi os posts “H1N1 e H1N1 e caos-2”. Receba minha solidariedade e compartilho a sua dor. Graças a Deus aqui em Manaus não há surto de nenhuma dessas doenças. Apareceram dois casos de “H1N1”, mas eram “importados”.

  6. Que bom que seu filho melhorou!

    Tava lembrando aqui, com essas notícias sobre limitação de internet, nos tempos de bonança o governo queria ter seu próprio serviço de banda larga. Risível. Que bom que não saiu do papel.

    Já a fabricação de navios petroleiros foi algo que saiu do mundo das idéias. E são como arenas da copa flutuantes.

    Somos uma fábrica com tecnologia de ponta em produzir basket cases, Mansueto.

  7. Mansueto. Aqui em SP minha filha teve o H1N1 ano passado e, felizmente, foi atendida nas primeiras 48 horas, e tomou Tamiflu no hospital ( o plano de saúde e o hospital são bons). Depois achei o tamiflu na farmacia. Acho que toda a dificuldade se deu além da falta de preparo na saúde pública, ao aumento vertiginoso de casos este ano.

  8. Prezado Mansueto, muito bom saber que seu filho já está bem. Às vezes uma quase tragédia vem para chamar todo mundo para a dura realidade do Brasil.

  9. Ótima notícia Mansueto! Deve-se avaliar se o custo do Tamiflu não é menor que o teste. Se for, melhor começar o o tratamento direto com os dados clínicos. Pagar mais para remédio nacional é bem diferente de quebrar patentes para atender mais gente. Como disse, tristeza ver que o Temporão foi embora

  10. Estou feliz pelas melhoras de seu filho, ele igual a muitos nesse sofrem pelo descaso destes quase quatorze anos de desgoverno petista, um governo que criou um monte de esqueletos inacabados, como muito bem você escreveu no seu post. parabéns Mansueto. Continue seu trabalho.

  11. apenas uma informação a prescrição do tamiflu mesmo sem o teste para H1N1na simples suspeita,é uma recomendação que esta em todos os documentos do ministério da saúde .

  12. Mansueto,

    Fico feliz pela melhora do molecão !

    Mas ao mesmo tempo penso em como o Estado é um péssimo gestor, pra tudo !!
    E tem gente que ainda quer entregar a vida na mão dele.
    Tou fora !!

  13. Mansueto,
    minha esposa é médica de uma Unidade Básica de Saúde aqui no DF. Posso te dizer que a situação é muito pior! H1N1 é “luxo” perto das mortes de crianças causadas por verminoses e chagas dentro do DF… vou repetir: dentro do DF (capital do país)! Nem te conto como é Minas Gerais, Vale do Jequitinhonha, etc. Nas unidades estão faltando remédio, instrumental; os gestores são despreparados, os gastos públicos são ineficazes, desorganização total e por aí se vai!
    Precisamos de políticas públicas básicas; precisamos de economistas, gestores e engenheiros “pé no chão” para fazermos o básico. Isso é, neste momento, o mais importante e, em paralelo, podemos pensar um reformas “estruturantes”, como a tributária, política, etc.

  14. A saúde pública está sucateada a tempos. Só não enxerga isso quem não quer. Profissionais de saúde, principalmente os “não-médicos” são tratados como lixo pelos estados. Profissionais que estudam 5 anos (1 a menos que os médicos), como os enfermeiros, fisioterapeutas, etc..ganham em média 1/5 do salário pago a um médico. Se os médicos que ganham em média mil reais por plantão de 12h nas UPA’s (exemplo em BH), reclamam que ganham pouco e com isso precisam fazer vários para ganhar a vida (traduzindo a queda da qualidade do atendimento, pois nenhum profissional cansado vai trabalhar bem), imagina um enfermeiro que ganha no mês o equivalente a 2 plantões do médico? Como exigir desses profissionais e de outros da área da saúde um trabalho de excelência? Além disso, ainda tem o problema político envolvido, onde por exemplo, diversos políticos como deputados federais e estaduais são donos de “casas de recuperação” que na verdade são prisões veladas, custeadas pelo governo. Na verdade, o problema da saúde nem é o dinheiro, pois dinheiro tem. Porém, ele precisa ser gasto da forma correta e acima de tudo com profissionais multidisciplinares bem pagos e qualificados para gerir essas políticas. O governo precisa acordar e parar de achar que o problema se resolve contratando médicos e abrindo posto de saúde pois isso não previne doenças. Se não há uma política correta de investimentos no SUS, principalmente com uma auditoria eficaz acerca do uso dos recursos, não veremos uma luz no fim do túnel tão cedo, basta vermos o ministro da saúde que temos….

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