A Fracassomania da América Latina

Notei que meus amigos estão “excessivamente” pessimistas, muito mais do que eu. Bom, vocês sabem que economistas são por natureza pessimistas, mas meus amigos economistas estão MUITO pessimistas.

Meus amigos alertam que os problemas são tão grandes que, um eventual governo Temer, não conseguirá resolver nossos problemas, pois os problemas do Brasil se tornaram tão grande e complicados que será preciso antes ter um debate muito claro antes das eleições para a sociedade optar por dois caminhos: (1) consolidar o não ajuste e partir de vez para o populismo; ou (2) dar mandato a um governo que deseja implementar um agenda ampla de reformas.

Confesso que tenho dúvidas do sucesso de um governo Temer para promover o ajuste porque a nossa sociedade e muitos politicos (não todos) ainda acham que é possível aumentar o gasto público e evitar medidas mais duras. Mas isso não significa que, necessariamente, as coisas precisarão piorar. Talvez sim, talvez não. Vai depender de nós, dos políticos e do governo.

Mas aqui entro em um tema mais sensível – pré condições para crescimento. Economistas são treinados para pensar sempre em relações causais: A determina B, etc. Em geral, por vício de origem, temos a tendência natural de elaborar uma lista de pré condições para o crescimento. Uma lista em geral longa que exigiria um esforço hercúleo de um governo “reformista”.

Aqui vai a discordância com meus amigos. Essa lista de pré condições é, a meu ver, uma grande tolice e aqui vou buscar apoio em Albert Hirschman que, na década de 1960, cunhou a expressão a “fracassomania da América Latina”. Hirschman escreveu que, quando visitava a  Am. Latin e perguntava como andavam as coisas na região, todos falavam mal. Os intelectuais de esquerda só conseguiam ver melhorar se houvesse uma revolução e, os de direita, só conseguiam perceber melhoras se houvesse a aprovação de uma lista extensa de reformas.

Segundo Hirschman, o fato de intelectuais e politicos de esquerda e direita ficarem presos a modelos teóricos dificultava que eles percebessem mudanças às vezes pequenas que poderiam, se percebidas e estimuladas, mudar as restrições econômicas e políticas que poderiam estimular reformas maiores, que poderiam tonar mais fáceis outras reformas.

Qualquer que seja o governo nas condições atuais do Brasil será muito difícil a retomada do crescimento. Mas achar que antes é preciso um amplo pacote de reformas para que o país volte a crescer é sem sentido, porque isso não acontece em países democráticos. Reformas são feitas de forma gradual e países crescem à medida que modificam o maior gargalo ao crescimento em um determinado momento.

O essencial, como falava Hirschman há mais de meio século, é perceber mudanças marginais e, a partir dessas mudanças, promover outras e, gradualmente, encontrar o conjunto de políticas que permitirá um país crescer mais rápido.

Assim, correndo o risco de brigar com meus amigos, não acreditem em coisas como “as pré condições para o crescimento”. Isso é um exercício teórico sem sentido, pois a solução da cada restrição modifica as demais. Infelizmente, coisas como “the rule of law” , por exemplo, são diversas o bastante para significar várias coisas diferentes em termos práticos.

Em 2011, com exceção do desequilíbrio fiscal, todo o resto era muito parecido com o que temos hoje, mas nossos melhores economistas apontavam que o Brasil cresceria entre 3,5% ao ano ou 4% ao ano na próxima década. Hoje, vejo meus amigos  carregando de baixo do braço a famosa lista de pré condições para o crescimento e, se não aprovarmos essa lista, estaríamos condenados a uma depressão longa. Não é bem assim. A situação é MUITO difícil, mas não vamos cair novamente na ideia da “fracassomania da América Latina”.

 

24 pensamentos sobre “A Fracassomania da América Latina

  1. O inverso tb é verdadeiro. Várias pequenas medidas econômicas foram tomadas durante os últimos anos até q chegamos ao buraco q estamos.

    • Mas nos últimos anos tomamos várias medidas econômicas erradas e não foram pequenas. Se voce tomar uma medida pequena correta e diversas erradas é claro que o efeito liquido será negativo.

  2. Prezado Mansueto, sou empresário, e inclusive atuo numa federação de indústria e na CNI como empresário voluntário. Para resolver o problema é bem simples, e é só o governo não fazer nada. Quero dizer com isto que basta o governo não atrapalhar. Reduzir a burocracia, agilizar licenciamentos, diminuir os funcionários, informatizar mais. Se o governo fizer coisas novas para tentar ajudar só vai conseguir atrapalhar. Deixe a indústria e o agronegócio trabalharem que a crise vai embora rapidinho.

  3. Realmente, o cenário é difícil.
    Mas alguns passos na direção certa pode mudar de forma considerável o nosso destino.
    Agora, discordo que tem que ser com calma. Temer precisa apresentar propostas rápidas, completas e contundentes para recuperarmos nossa reputação. Pode ser que essas propostas não passem, demorem para serem discutidas ou até mesmo aprovadas com ressalvas. Mas só gesto já mostra contrariedade ao modelo de conivência com a incompetência.

  4. CONCORDO COM FRANCO, MENOS BUROCRACIA, MENOS ESTADO NA ECONOMIA, QUE O GOVERNO CUIDE COM EFICIÊNCIA E BOA GESTÃO DA SAÚDE, DA EDUCAÇÃO, DA SEGURANÇA, DA INFRA ESTRUTURA. GOVERNO SEM POPULISMO, SEM PROPOGANDA UFANISTA, SEM CORRUPÇÃO, E AÍ O BRASIL, VERÁ DE FATO, “QUE O FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA ,TERRA ADORADA, DOS FILHOS TEUS, OH MÃE GENTIL, PÁTRIA AMADA, BRASIL”

  5. Estou com o Franco acima. São tantas coisas erradas, atualmente, que existem muitas oportunidades de melhora só com os “low-hanging fruit”. São pequenas mudanças na margem que apontam para a direção certa, aumentam a confiança e credibilidade (a dupla mais menosprezada por economistas) e acordam o espírito animal do setor privado. Se o Estado abrir um pouco de espaço para o setor privado atuar, os resultados serão surpreendentes. Afinal de contas, o potencial do país do futuro é óbvio, o espaço para crescer no catch-up com o mundo desenvolvido é grande e (algum)as instituições estão mostrando sinais de solidez que poucos esperavam. Neste sentido somos a inveja de muitos outros países. Agora, fica a dúvida: se melhorar rapidamente, vamos mesmo fazer as reformas necessárias ou vamos esperar a casa cair de vez?

  6. O simples fato do mercado entender que o novo governo será reformista, já abre caminho para as reformas necessárias. A pergunta que fica é, um possível governo Temer será de fato reformista? Ou teremos algumas medidas pífias? Teremos de fato um direcionamento para relações modernas entre capital e trabalho? O Estado vai diminuir e se tornar mais eficiente naquilo que é seu real papel? Neste momento temos muitas perguntas.

  7. Eu me preocupo com uma pesquisa feita por matemáticos (divulgada em um artigo no Valor) a qual detectou que 95% dos brasileiros têm dificuldade com matemática básica. Então questões de maior complexidade e que requerem raciocínio matemático devem ser difíceis de serem entendidas (reforma tributária, previdência, lei trabalhista, pedaladas). Os brasileiros podem não sentir-se representados pelos seus políticos, mas nosso congresso (vide votação na Câmara), Executivo e Judiciário, são reflexo do que é nossa sociedade. Não há espaço para ilusão. Se 95% não entende matemática, o Congresso/Executivo/Judiciário devem refletir isso. Portanto, mudar para valer, não será fácil. Mas Temer pode colocar a discussão na pauta de tal forma que as ideias e entendimentos já estejam mais maduros para um próximo governo eleito pelas urnas. O que não vale é continuar fingindo que tais questões não são problemas e não discuti-las.

  8. Mansueto, também tem uma coisa que você se esqueceu de mencionar.
    Se ficarmos esperando um governo legitimamente eleito com o mandato reformista pra fazermos alguma coisa, quando chegar a hora a situação será tão dramática e as perdas da sociedade tão grandes que o quadro poderá ser quase irreversível. Melhor começar com o que dá pra fazer, ainda que pequeno, e entregar um país menos pior daqui dois anos do que deixar aprofundar o buraco.

  9. Sua coluna é um passo num bom caminho. A história dos povos, nações não é a história de seus políticos e seu governo, é a história das pessoas. Se a população empurrar, produzir e crescer assim o será.
    Governos? Podem ajudar, e podem atrapalhar. Embora parece que tentem sempre tirar um naco cada vez maior de todos nós.

  10. Tudo bem, Mansueto, mas apenas a reforma da previdência não vai dar condições de sustento ao crescimento. Algum avanço na estrutura tributaria deve ser feito, e devido ao gargalo de receita do governo federal essa iniciativa seria muito boa se fosse tomada pelos governos estaduais em uma reforma progressiva do icms por exemplo. Os estados são ótimos arrecadadores e péssimos gestores, se fizessem o mínimo para diminuir a folha de pagamento com padrinhos políticos e se fizessem jus a apenas o que eh obrigação dos estados o País poderia melhorar muito. Mas o populismo democrático e as castas e clans familiares não permitem a evolução das governanças nas federações, so pensam em negociar a divida.

  11. Há reformas que são imprescindíveis, principalmente a reforma trabalhista. em 2014 a Justiça do Trabalho recebeu 3,3 milhões de novas causas. São cerca de 46 mil funcionários (incluindo 3.600 juízes)

    Em 2014 o custo real da Justiça do Trabalho foi de R$12,6 Bilhões (já deduzida a arrecadação de INSS e IR) sendo equivalente a 48% do Bolsa Família (R$ 26,1 bilhões). Esse custo se prolongará pois os funcionários se aposentam em sua grande maioria com os salários equivalentes aos funcionários da ativa.

    O custo médio anual por funcionário ( 273,8 mil R$) corresponde a 378 salários mínimos (R$ 724 em 2014).

    O custo médio mensal é de R$ 23 mil por funcionário (31,5 salários mínimos)
    O valor médio líquido das indenizações por caso novo é de R$ 3.370,00 – menor portanto que o custo da justiça por caso novo que é de R$3.879,00.

    Só como provocação: Isto significa que se acabasse a Justiça do Trabalho e o povo pagasse diretamente o valor líquido de todas as indenizações, além de ser mais barato, os empregadores infringentes economizariam em média R$ 4.684,96 por caso novo e poderiam aplicar esses recursos em atividades produtivas.

    A principal conclusão é que é necessário fazer uma ampla reforma trabalhista.

    É evidente que a Justiça do Trabalho tem outras atribuições como a fiscalização das condições de trabalho, incluindo trabalho de menores e trabalho escravo, mas anualmente ter mais de 3 milhões de questões trabalhistas demonstra que há algo de errado na nossa legislação.

  12. Mansueto, vc costuma dizer que a cpmf é inevitável apesar de ser um imposto ruim. Não tem alguma alternativa factível? O setor agrícola não tem um monte de isenções? Por que? O setor que mais competitivo e lucrativo não seria um bom candidato para um imposto temporário?

  13. me preocupa o populismo tanto da esquerda quanto da direita. A ideia vendida por aí que “há dinheiro para tudo, só não dá para tudo por causa da corrupção” impede completamente qualquer discussão real das prioridades do país. Afinal de contas a realidade é que, não há dinheiro para tudo.

  14. Mansueto, senão acompanhasse teria dificuldade de aceitar essa matéria como sendo de sua autoria. Cito: “Qualquer que seja o governo nas condições atuais do Brasil será muito difícil a retomada do crescimento.” e digo: qualquer que seja o governo que não leve em consideração a severa crise hídrica enfrentada pelo país em 2014/2015 e não busque rapidamente combater suas sequelas não resolverá nossos problemas. O Brasil apresenta excelentes números de conta corrente, os melhores desde 2009, os investimentos estrangeiros diretos subiram 30% no trimestre, a Balança Comercial está 300% maior, ante mesmo período de 2015, as reservas internacionais em 388 bilhões e o CDS em 343 pontos. Nossos problemas são internos e não diferem daqueles enfrentados pelas dez maiores economias, exceto no que tange ao efeitos da severa crise hídrica, a maior em mais de um século e que emperram o consumo e a produção, em particular na Região Sudeste. Em 2001 um evento climático severo, mas em proporções menores e limitado aquele ano derrubou o PIB de 4,4% em 2000 para 1,3% em 2001, à época, nenhum economista questionava os efeitos maléficos da seca e trataram de combatê-los. Por que agora teria que ser diferente? Seria prudente derrubar um governo legitimamente parido das urnas e jogar o país num labirinto de incertezas onde os problemas econômicas se transformarão em conflitos sociais? Nunca tive dificuldade em acreditar no Brasil porque busco sempre olhar para o lado positivo e feliz do país. O povo brasileiro não inclui na sua história os sacrifícios das grandes tragédias(guerras, terremotos…) e esperar que ele se submeta a sacrifícios coletivos é pura ilusão. Vide o que ocorreu com o atraso nos pagamentos de salários dos funcionários públicos em alguns Estados.

  15. Mansu,

    Na veia. Andei dando uma estudada e bancando um presidente da República. Descobri que muita coisa podia melhorar com decreto e portaria, principalmente pra destravar o ambiente de negócios.

  16. Economia vive de sinalizações e expectativas e a pré-condição fundamental é uma só: tirar o PT do poder. Após isso, um pequeno ajuste na estrutura de governo, com redução de ministérios e pessoas chaves nas pastas certas com medidas para redução de gastos será capaz de mudar o ânimo. As expectativas se renovarão no meio empresarial, estimulando uma visão com mais confiança no futuro, mesmo com situação fiscal muito ruim, fazendo aos poucos a roda voltar a girar.

    • Tertuliano, a menos que somente eu esteja vendo, o Temer é o vice da Dilma. Foi às ruas e ocupou os mesmos palanques, sempre acompanhado pela parcela do pmdb que agora decidiu aliar-se ao cunha e sua turma. Teria ele passado por algum processo de transfiguração? Creio que não. O que observei nele em algum momento do segundo mandato foi tentar sorrateiramente se descolar da figura da presidente e do governo ao qual ele faz parte. Isso ocorreu no momento em que mais a Dilma precisou dele. Empresários não precisam de sinalização de governos para por em prática aquilo que é a razão de suas próprias existências – o investimento. A última publicação do Caged traz um dado interessante: “O saldo de março originou-se de 1.374.485 admissões e 1.493.261 desligamentos”. Revela-se neles a pujança da economia brasileira. Mesmo perdendo 118.776 empregos, no período foram gerados 1.374.485 formais; e ainda há quem diga que o país está parado. O que as pessoas insistem em não aceitar é que a economia brasileira enfrentou entre 2014/0215 a maior crise hídrica da sua história, com impacto direto na Região Sudeste, a mais populosa e mais industrializada do país. As causas dos problemas da nossa economia residem em fatores reais e jamais serão resolvidos através da aplicação de conceitos abstratos.

  17. Eu concordo … nao precisa exagerar no pessimismo. Alias, para elevar os animos, basta reler o artigo de Keynes (economic perspectives for our grandchildren). Ele prognosticou em 1930, em plena crise mundial) que o PIB real por pessoa ia quintuplicar. Vale a pena reler o raciocínio que continua valido.
    Outra fonte de otimismo é o site gapminder do Hans Rosling.

  18. Concordo em geral…mas essa coisa de os economistas andarem com uma pasta de reformas necessárias debaixo do braço me cheira a “eu sou o homem, aquele que vai livrar a economia brasileira de todos os pecados”…se alguma mudança for feita, avaliando-se as vantagens e desvantagens…já acho que será uma boa coisa…vamos plantando hoje para colher no futuro…gostei também do comentário sobre a subtributação da agricultura, especialmente para contribuir para o deficit da previdência rural, já que é esse o vilão hoje em dia…

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