Sob a luz do Sol, Economia e Religião

Alguns leitores me perguntaram se há bons textos explicando que a forte desaceleração da economia brasileira é fruto de erros de politica econômica do governo e não simplesmente efeito da desaceleração do resto do mundo, punição de Deus ou praga do demônio.

É claro que a desaceleração mundial e a redução do crescimento da China, no período recente, afetaram o Brasil. Isso é consensual. Mas mesmo com muita matemática e hipóteses heroicas, o efeito externo não explica mais de 1/3 da nossa desaceleração.

Há sim um grupo de economistas “que pensam fora da caixa”, seja lá o que isso significa, que acha que o mais importante para explicar nossos problemas atuais foi sim o fator externo, pois o governo benevolente, que olha e reza por todos nós, adotou políticas de estímulos e de desonerações para “salvar” o crescimento.

O mesmo poderia ser dito do regime militar, que na segunda metade da década de 1970, adotou vários estímulos e aumentou a dívida para financiar o investimento e crescimento do País. O resultado foi uma década perdida e uma inflação galopante, mas a intenção foi boa. Mas lá era uma ditadura que batia nas pessoas. Assim não vale.

Agora tínhamos um governo que, segundo o TCU e o Banco Central, escondia dados do gasto publico (pedaladas fiscais), mas com o objetivo de promover “o bem comum” e reduzir a pobreza. O desequilíbrio fiscal seria resultado da busca incessante e benevolente do governo para ajudar os mais necessitados.

Essa visão míope de várias pessoas, inclusive de economistas das nossas melhores universidades (acredite se quiser), serve para justificar todo tipo de desastre econômico. Se um governo causa um grave desequilíbrio fiscal e leva a uma situação de insolvência isso seria “perdoado” desde que a intenção fosse boa, ou seja, desde que fosse uma resposta aos anseios do nosso eleitor crente.

Assim, não seria necessário debater politicas publicas, mas apenas o desejo dos nossos “policy makers” em atender o desejo da população: aqueles que procuram fazer o bem seriam os “recompensados”, independentemente dos resultados da politica econômica.

O debate de política econômica passaria a ser algo muito próximo ao conforto que esperamos encontrar na religião. O que vale é a intenção de fazer o bem, mesmo com politicas desastrosas, “pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna”. Amén.

Pelo amor de Deus! será que usei a palavra do senhor em vão? Tenho que usar uma linguagem religiosa para entrar neste debate religioso, desculpe, debate econômico. Há farta evidência que a politica econômica dos últimos cinco anos foi um desastre, independentemente das boas ou más intenções. Uma boa leitura é a coletânea de artigos “Sob a Luz do Sol” publicada pelo Centro de Debate de Politicas Publicas (CDPP) – clique aqui. Nesta coletânea, há um texto do Samuel Pessoa e Fernando Holanda De Barbosa Filho no qual eles explicam os erros da Nova Matriz Econômica. Leiam por favor. Depois indico aqui vários livros que explicam o mesmo problema.

Paro por aqui porque preciso ler, digo rezar, para me preparar para um debate de politica econômica. Bom dia a todos. Xô Satanás!

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Fonte: http://www.monsters-in-america.com

 

27 pensamentos sobre “Sob a luz do Sol, Economia e Religião

  1. Sugiro a leitura do livro “Complacencia” de Giambiagi e Schwartzman. É interessante pq o livro foi escrito ao final de 2013 e preve toda a desaceleracao que aconteceu. E explica isso de uma maneira que um leigo entende.

    Basicamente o que aconteceu é que o Brasil estava totalmente despreparado para algo previsivel e ate inexoravel: a queda dos precos de commodities e consequentemente dos termos de troca.

    A causa é a Nova Matriz Economica que estragou os fundamentos e fragilizou a economia. O trigger final foi a queda das commodities.

  2. “Agora tínhamos um governo que, segundo o TCU e o Banco Central, escondia dados do gasto publico (pedaladas fiscais), mas com o objetivo de promover “o bem comum” e reduzir a pobreza. O desequilíbrio fiscal seria resultado da busca incessante e benevolente do governo para ajudar os mais necessitados.”

    Ainda que essa seja a argumentação, como justificar o aumento da miséria no país?

    A junção da economia e religião é um fenômeno mundial. As pessoas esperam que o Estado e os Bancos Centrais funcionem como se fossem uma espécie de Jesus, perdoando os dirigentes e bancos da ingerência e irresponsabilidade e livrando a população de todo mal, amém.
    Não existe almoço grátis e Jesus acabou crucificado.

  3. Na semana que vem, o Banco Mundial vai publicar seu relatorio semestral sobre a economia da America Latina. Vai ter um capitulo interesante sobre o efeito do boom de commodities (termos de troca e cambio real). No Brasil e muito importante o efeito da valorizacao do cambio real, que teve como resultado uma expansao excessiva do consumo. Mas como vc falou, o fator externo so pode explicar uma parte da desaceleracao no Brasil, nao o tamnho da recessao atual.

  4. Acho que há dois comentários pertinentes.
    Me formei inicialmente pelo mainstream da ciência econômica (EPGE/FGV) e fiquei bastante desiludido com o potencial analítico dessa ciência para explicar ciclos econômicos e, especialmente, para explicar o desenvolvimento dos países. Sugiro a todos que leiam os textos do influente economista Dani Rodrik. Seu último livro (Economics Rules) faz uma análise e crítica sobre o potencial analítico da economia.
    Um segundo comentário merece ser feito sobre as acusações contra o governo atual. Discordo bastante da política econômica adotada pelo Mantega. Mas é fundamental não perder de vista a atribuição de responsabilidades. A política de desoneração da folha de pagamentos, por exemplo, foi bastante apoiada pelo PMDB. Houve um desvirtuamento grande no Congresso, que incluiu setores de forma injustificada, como o de radiodifusão, por exemplo. Isso foi feito goela abaixo contra a vontade da presidente que vetou inúmeras vezes o que fora aprovado no Congresso. A Fiesp tinha total interesse nisso e houve o respaldo do vice-presidente Temer.

  5. Estamos sim de um “xô satanás” forte, robusto. Fizeram tudo, menos priorizar os pobres, basta que verifiquemos a partilha do bolo, boa parte da grana foi para os ricos, com empréstimos com juros baixos e a longo prazo, é esse o governo da justiça social. É uma pena que brilhantes economistas coloquem em jogo a sua reputação, para fazer prevalecer a ideologia política na discussão acadêmica. Ainda bem que temos economistas muito mais brilhantes para fazer o contraponto e chamar atenção do povo brasileiro para o engodo que nos meteram.

    • Não subestime o poder de insinuação ou de mimetismo do Tinhoso!
      Ele somente aparecerá com a repulsiva aparência de diabo, com chifres, rabo, asco e fedor de enxofre depois de já ter capturado os incautos…

  6. Mansueto, quaisquer avaliações da situação da economia brasileira que não levem em consideração a severa crise hídrica, a maior em 110 anos, enfrentada pela Região Sudeste em 2014 e 2015, na minha opinião, é falha. A Região Sudeste concentra mais de 60% da atividade industrial e abriga cerca de 82 milhões de habitantes. É conhecido, por estudos anteriores, que as crises hídricas são acompanhadas por forte desaceleração econômica e queda brusca de consumo. Some-se a isso a forte desaceleração da economia global com reflexos diretos nos preços das commodities (petróleo e metálicas). Não é necessário ser um especialista para “pescar” que a única “conspiração” celeste foi o fenômeno climático “El Niño”. A Austrália deixou de ser a “menina dos olhos” da economia mundial, após um evento climático semelhante ao que ocorreu na Região Sudeste. Os números falam por si: De um milhão e setecentos e noventa mil empregos perdidos, um milhão e cem estão na Região Sudeste e destes 900 mil só em São Paulo onde faltou água até para beber. O mais interessante é que enquanto especialistas estrangeiros veem a tragédia, os daqui não fazem nem referencia. Muitas consultorias externas apontaram para os seus investidores a reativação da Hidrovia Tietê-Paraná como o “time” de retorno ao IBOVESPA, basta observar o movimento da bolsa e comparar as datas. Os investidores brasileiros “comeram moscas”, perderam o “time” da bolsa e dinheiro com a queda do dólar. Seguiam as sugestões feitas por consultorias envoltas com a crise politica. O arrefecimento da crise hídrica do Sudeste devolverá ao PIB mais de um ponto percentual este ano. As alegações que atribuem à crise política, lava jato, erros dos governos(o Brasil é uma Republica Federativa) não passam de abstrações que demandam tempo para serem comprovadas. Dos comentários acima tirei esta pérola: ” É uma pena que brilhantes economistas coloquem em jogo a sua reputação, para fazer prevalecer a ideologia política na discussão acadêmica.”

    • Meu caro, em que mundo você vive? Seus comentários me fazem pensar se vc supunha estar num blog de astrologia. Tudo bem, democracia é isso: liberdade de expressão. Mas o blog do Quiroga é outro…

      • byllie, obrigado por compreender que assim como você eu tenho o direito de me expressar. Não falei de astrologia, me referi a um fenômeno climático conhecido mundialmente como “El Niño”. É assunto de estudo da meteorologia, um ramo da ciência que investiga os fenômenos da atmosfera terrestre e de outros planetas. Eu moro em Manaus e tenho acompanhado o drama da seca da Região Sudeste, especialmente em São Paulo onde possantes bombas, ao custo de milhões de reais, foram instaladas para sugar água do fundo dos mananciais a fim de evitar que milhões de pessoas entrassem em desespero. A industria do Polo Industrial de Manaus sofreu os reflexos, pois SP é o destino da maior parte do que é produzido aqui. Não fossem as exportações para a Alemanha a coisa teria sido muito pior. Surpreendentemente em 2015 a Zona Franca de Manaus apresentou a menor relação importação/exportação desde sua criação em 1967. Consolidou-se também, no ano passado, o modal aeroviário como uma saída para as exportações, mas certamente a recuperação será lenta.

    • Ué!, não estou entendendo!
      Afinal, a crise hídrica em SP não era culpa de Alckmin?

      No meu parco entendimento, uma situação de escassez hídrica causa impacto muito mais profundo no setor agrícola do que na indústria. Cotejando o desempenho de ambos os setores nesse período fica fácil desmontar algumas falácias pueris.

      • As crises hídricas são fenômenos naturais o que dificulta apontar culpados. A Região Sudeste enfrentou nos anos de 2014 e 2015 a pior seca em 110 anos. Em 2001 tivemos uma crise hídrica de intensidade menor e limitada aquele ano, mesmo assim afetou fortemente a economia, basta analisar os dados da época disponíveis hoje na Internet. Eu não estou inventando nada e nem culpando quem quer que seja, apenas expressei a minha opinião ao comentar o assunto do post. Recentemente um especialista em crises hídricas no “Businessweek and Bloomberg News” afirmou que o Brasil enfrentaria problemas econômicos semelhantes aos da Califórnia e da Austrália e cheguei a comentar isso aqui no Blog.

    • Marcal,
      suas ponderações acerca da influência do clima na economia não é nenhuma falácia pueril Tem sentido e pertinência na discussão.

      O problema é quantificar este impacto qualitativo no resultado econômico de um país. Mas pode mesmo haver impacto considerável,.
      Acompanhei algumas notícias sobre o caso da Austrália até certo ponto e fica evidente tal influência. Não se resume apenas a indícios.

      Porém, ressalve-se que, comprovadamente, houve erro comprometedor na condução econômica do Brasil nos últimos anos, com ou sem participação do PMDB. E a responsabilização é o ônus de quem detém o poder.

      • Antonio Jaime Nunes, obrigado pela compreensão. Certamente a crise hídrica é apenas um dos fatores, mas é importante e não pode ficar fora das análises. A desaceleração da economia brasileira tem origem multifatorial e requer cuidadosa observação. Na minha opinião, todos os fatores, tem origem na economia real. Um deles, salta aos olhos: o esgotamento do consumo incrementado pelo contingente que ascendeu de classe refletido nas compras de bens de consumo duráveis como por exemplo: Microondas, Tv, enfim eletrodomésticos, automóveis, etc. Cito também a expressiva desaceleração da economia global quedando para além do inimaginável os preços das commodities (petróleo e metálicas). Escrever não é a mesma coisa que falar e às vezes, ao discordar do Mansueto em meus comentários pareço estar criticando de maneira contumaz suas ideias. Nada disso, muito longe disso. Ao Mansueto devoto grande admiração pelo conhecimento e domínio que possui no assunto “Contas Públicas”. Seus escritos e palestras me foram, são e serão muito úteis. Neste momento discordo dele com relação a origem dos problemas da economia brasileira, por não crer que seja financeira, pois se tem algo que o Brasil possui hoje, como nunca possuiu antes, na minha modesta opinião, é solidez financeira e liquidez.

    • Não há nenhum consenso científico de que a crise hídrica foi a pior dos últimos 60 anos. Sugiro visitar o site do ilumina.org no qual diversos autores apontam que a terrível crise hídrica das décadas de 50/60 foi muito mais severa que a atual.
      Seria extremamente positivo para o debate que frases como “a maior crise hídrica dos últimos 110 anos” fosses acompanhadas de links com artigos que justifiquem a frase. Caso contrário o comentário se torna mais apropriado ao blog do Quiroga, como observado pelo colega anteriormente.
      Por sinal, 110 anos atrás existiam medições pluviométricas rigorosas? Eu suspeito que não! Mas gostaria de saber. Como fazer a comparação, se os dados da época forem pouco confiáveis? Talvez o especialista do setor hídrico, Marçal Trindade, possa responder tais indagações. Senão, podemos sempre perguntar ao Walter Mercado!

      • É possível encontrar no site da ANA, Agencia Nacional de Águas, registros sobre a crise hídrica de 2014/2015 em SP e no Sudeste. No site há referencia a São Paulo, de pluviometria, do ano de 1930(84 anos atrás) e para a região Sudeste há referencia de “seca extrema com ocorrência há mais de 100 anos”. A partir de quando se faz monitoramento, talvez os registros da “grande seca” ocorrida entre 1877 e 1879 no Nordeste sirva de horizonte. Tenho um Almanaque da cidade de Manaus de 1904 com acompanhamento diário da previsão do tempo. Se sobrar dúvidas sobre os efeitos devastadores da crise hídrica do Sudeste na economia, não é preciso retroceder muito no tempo, basta ir ao ano de 2001 para verificar o estrago que a seca daquele ano, muito menor do que a de 2014/2015 e restrita ao ano, causou na economia: achatou o PIB de 4,4% em 2000 pra 1,3% em 2001. Só lembrando o PIB de 2002 foi de 3,1%. Um pouco de humildade e elegância não faz mal a ninguém. link da ANA: http://www2.ana.gov.br/Paginas/imprensa/noticia.aspx?List=ccb75a86-bd5a-4853-8c76-cc46b7dc89a1&ID=12684

  7. Mansueto,

    Assumindo que a solução politica ganhe tração ate o terceiro trimestre, qual a tua sugestão para começar a colocar a casa em ordem?

    Quais seriam as primeiras ações, aumento da carga tributaria? Aumento mais forte da selic? Desvalorização cambial? Revisão dos gastos obrigatórios por lei?

    Abs.,
    Gabriel

  8. Concordo com byllie. Devemos respeitar a opinião de todos, mas Mansueto é muito paciente. Todos os últimos textos postados aqui o MC defende esse desgoverno e fica viajando na maionese. Nos poupe dessa ideologia. Vamos dialogar na real. A pior recessão desde os anos 1930. O Nordeste vive na seca e foi a região que mais cresceu nesse desastroso governo dessa facção criminosa que é o PT(palavras do STF).Desculpas…
    Abraços

  9. É, mas depois da decisão de hoje do STF sobre a dívida do estado de Santa Catarina, todas as nossas preocupações quanto a pedaladas e impeachment ficaram repentinamente menores.
    Não há nada suficientemente ruim que não possa piorar…

  10. Existe sim: Bureau for International Narcotics and Law Enforcement Affairs
    International Narcotics Control Strategy Report, Volume II, Money Laundering and Financial Crimes, March 2015. Houve flash crash na data da divulgação desse manual de exportação de nazifascismo e ditadura. Confira tb no Wikileaks os tratados confiscatórios pelo qual o governo Bush exportou esse calcanhar de Aquiles antes de grampear os telefones dos eleitos e elites e praticar o vazamento seletivo das suas contas financeiras.

  11. Mansu,

    O que tira gente da pobreza é economia estável e crescimento sustentável, que gera oportunidade de se capacitar, emprego e a oportunidade de empreender e em vantagens não tangíveis, dignidade e estabilidade pessoal.

    Reconheço todos os méritos do Bolsa Família, criado e entrando em vigor, é bom sempre lembrar, em 06/04/2001 no governo Fernando Henrique Cardoso, numa gama ampla de vários auxílios (Vale-Gás, Bolsa Escola, etc) a qual o sitiante que nada explica só fez juntar numa mesma bandeira, mas ele só não resolve, pois não tem porta de saída,mantendo as pessoas em situação de risco. É preciso ir além.
    Sendo assim, em hipótese alguma em minha modesta opinião é possível aceitar qualquer desculpa que imbuta as supostas boas intenções do governo

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