Brazilian Studies Association – BRASA

É muito estranho que um grupo de acadêmicos tome partido quanto ao processo de impeachment no Brasil. Segundo o jornal Folha de São Paulo (ver aqui), a Brasa aprovou um manifesto dizendo que a democracia brasileira está ameaçada pela crise política.

De acordo com a Folha de São Paulo, o manifesto gerou um racha entre brasilianistas e o ex-presidente da associação, o cientista político Anthony Pereira, renunciou a seu cargo no Comitê Executivo da Brasa e solicitou sua desfiliação da entidade.

Conheci o Tony Pereira há cerca de três anos por meio do cientista politico Marcus Melo da UFPE e Carlos Pereira da FGV. Um excelente pesquisador que conhece bem o Brasil. Fico feliz de saber que ele foi critico dessa postura da Brasa e pediu sua desfiliação.

Uma pena que a “Brazilian Studies Association” tenha feito opção por um manifesto inapropriado. Os professores poderiam falar o que quisessem sobre o assunto, mas quando isso se torna algo institucional de uma entidade que supostamente é formada por intelectuais que estudam o Brasil de forma isenta, confesso que isso para mim é uma grande decepção. Talvez a mesma que tenho quando vejo reitores de universidades federais usarem a página institucional das universidades para se pronunciar contra o impeachment e sobre a possibilidade de golpe.

O Brasil terá ainda que piorar muito para que as pessoas, em especial, os “intelectuais”, que parecem entender muito de direitos e pouco ou nada de restrição orçamentária, comecem a ter noção do tamanho dos problemas que o governo criou no últimos anos.

 

34 pensamentos sobre “Brazilian Studies Association – BRASA

  1. Não vejo, em princípio, razão para questionar a decisão dessa associação se posicionar. Diversas associações (por exemplo, a ABCP dos cientistas políticos) fizeram o mesmo. Conforme o que li, o questionamento foi em relação ao processo de elaboração do texto, que não teria sido sujeito a um maior tempo de debate. De qualquer forma, o texto apresentado foi submetido à votação pelos membros da BRASA.

      • E a Fiesp, manifestando sua posição contrária ao impeachment, sem abordar minimamente a existência de crime de responsabilidade e aproveitando o mecanismo do impeachment para defender sua agenda de redução de impostos, qual a legitimidade disso?

      • E você iguala a FIESP a uma associação de pesquisadores de universidades? FIESP e associação de classe. Compare com a CUT mas não com uma associação de pesquisadores.

      • Acho que a comparação com a Fiesp pode ser feita sim, considerando uma categoria analítica geral acerca da legitimidade dos posicionamentos de associações da sociedade civil.

    • Os brasilianistas tem uma visão padroeira das necessidades brasileiras. LAMENTAM MUITO, porém não entendem que o Brasil desfruta das condiçoes de todos os mundos, do 1o. ao 5o. O Brasil já não é o jovem pobre latino americano: é rico, de classe média, pobre e sobretudo otimista. Vamos sair dessa quando resolvermos 10% do sistema politico de corrupção.

  2. Sou associada à BRASA e acho deplorável que uma associação que se supõe tenha liability científica esteja se manifestando como militante!!!
    Realmente deplorável!

  3. Mansueto, os princípios, os valores e a visão de mundo dos economistas não pode subverter a democracia. Esse é o maior valor a ser prestigiado.

  4. Oi gente boa, eu não estava na conferência da BRASA na Brown University do mes passado, mas trabalho com Prof. James Green com estes assuntos aqui nos EUA. Não acho que o pronunciamento foi oficial da BRASA, foi independente e livre, pode ver aqui: https://community.avaaz.org/petitions/brazilian-democracy-is-seriously-threatened

    Acho que todos temos o direito de pronunciar sobre o tema de direitos humanos, inclusive políticos, seja como for o assunto ou pais. Estamos preocupados com o clamor de tirar Dilma do poder ao qualquer custo, inclusive pelos meios não constitucionais.

    Gente, debates e manifestações fazem parte da democracia. Vamos respeitar os direitos democráticos de todos.

    Mark Langevin

  5. Não acredito que “isenção” seja uma possibilidade humana. Todos sofremos de viés cognitivo. Nosso olhar é enviesado pelas nossas crenças, valores, moral, repertório de vida, conhecimento, etc. Além disso, o brasileiro – a cultura brasileira – nada entende de governança, diria até que é uma cultura anti-governança.

    Dito isso, alguns pontos:

    – Acho que instituições podem se expressar livremente desde que não sejam financiadas por dinheiro do contribuinte e sigam seus próprios regimentos internos quanto à manifestações públicas. Nesse sentido, reitores de universidades públicas que se manifestarem contra o impeachment pelos canais institucionais de comunicação das instituições são deploráveis e deviam ser severamente punidos, pois educação pressupõe respeito à boa governança – no caso, não utilizar os canais da universidade para proselitismo político. Mas o brasileiro nada entende de governança.

    – A posição da tal associação de professores que se manifestou, não trouxe qualquer novidade, simplesmente reproduz a retórica do governo brasileiro sem qualquer criatividade, apenas dando a ela ares de intelectualidade para emprestar-lhe credibilidade.

    – As críticas que faz a imprensa, ou setores da imprensa, idêntica a que faz o governo – de que estariam atuando para formar a opinião pública – é pueril. Não há humano, jornalista ou veículo de comunicação isento. Mas isenção na imprensa não é ponto crítico. O fundamental na democracia é que haja liberdade de expressão e com ela a oportunidade de pluralidade de ideias e posições, veículos, etc.. Outro ponto importante é a transparência das informações, principalmente aquelas relacionadas ao uso dos recursos do contribuinte e do Estado – falo mais sobre isso abaixo. Precisamos parar de infantilizar o povo brasileiro tratando adultos como se criança fossem- sem capacidade de raciocínio independente e autonomia para exercer o direito de escolher os canais de informação que desejam utilizar e discernir o que acham tendencioso.

    – Um exemplo de má governança e falta de transparência está na atuação no governo do ex-presidente Lula. Não é ministro. Não foi contratado como prestador de serviços (sem licitação). No entanto, noticia-se que está em Brasília no balcão de negociação de votos e abstenções contra-impeachment. Com que capacidade formal faz isso? Quem paga suas despesas de hotel, alimentação e transporte? Temos transparência em relação a isso? É o contribuinte que paga? Como justificar esse tipo de uso de dinheiro público? Quem paga é o Instituto Lula? Por que? É caridade? É o PT? Que governança é essa?

  6. Prezado Mansueto,

    Sou fã do seu blog e das suas análises. São muito esclarecedoras e acrescentam muito ao debate público. Por isso, você está de parabéns.

    Contudo, discordo totalmente da sua avaliação. E, na verdade, creio que, com base nos argumentos que você apresentou para fundamentar sua crítica à Brasa, isso seja um tiro no pé.

    Primeiro, não é estranho que um grupo de acadêmicos tomem partido. Intelectuais são, historicamente, um grupo de tem uma predisposição muito maior a tomar partido que outros grupos da população sobre uma variedade de temas.

    Segundo, não é pré-requisito da atividade intelectual a isenção política, mas por objetividade e clareza de argumentos e evidências. Isenção política é necessária para o exercício da justiça, não da atividade intelectual, seja ela individual ou de grupos.

    Terceiro, todos sabem que você não é isento nessa discussão, afinal, você tem uma posição política clara. Contudo, não deveria ser discutida a qualidade da sua avaliação intelectual com base na sua posição política, mas sim na qualidade dos dados que você apresenta e da consistência das suas análises. Pela lógica que você usou para embasar sua decepção com a Brasa, suas análises deveriam ser desconsideradas, pois você não é isento.

    Assim, minha percepção é que sua decepção decorre do fato da Brasa ter assumido uma posição distinta da sua. Que, aliás, seria bastante aceitável. Entretanto, acho que você está equivocado por tentar justificar sua decepção pela suposta perda isenção da Associação, que, como escreviacima, não importa para o exercício da atividade intelectual, que está sujeita a uma série de pesos e contrapesos para avaliar a qualidade da análise apresentada, por quem quer que seja.

    • Mas voce tem toda razão. Tenho sim um viés muito claro. As minhas analises sobre o impeachment como dos demais aqui que escrevem tem sim um viés politico. Mas não tenho problema algum que o Brasil assuma uma posição, um caminho diferente do que acho correto, pois o que acho correto não é necessariamente o melhor.

      Quem decide como gastar ou como tributar, se quer dar mais ou menos subsídios é a população por meio de seus representantes legitimamente eleitos. Assim, não tenho problema algum em conviver, respeitar e aceitar ideias diferentes da minha. Mas o governo foi muito além disso e escondeu dados. Não haveria problema algum em fixar deficit primário e gastar co mo que quisesse desde isso estivesse claro. Mas o o governo foi muito além disso e tentou enganar a população em relação ao desequilíbrio fiscal e, mesmo Nelson Barbosa, quando estava fora do governo concordava com isso.

      Achei estranho que uma associação se manifestasse de forma institucional sobre risco de golpe. Mas soube aqui nos comentários que não foi uma posição institucional, mas sim de um grupo de associados da Brasa. Ótimo. Se foi assim ótimo e a matéria da Folha está errada.

  7. Mansueto, você é um pesquisador conhecido por seu conhecimento e domínio em contas publicas, por defender suas posições e dispõe, por seus méritos, de generoso espaço na mídia onde expõe livremente suas idéias. Por que os pesquisadores da BRASA não podem fazer a mesma coisa? o coletivo é a soma das parcelas de um todo e para aceitá-lo é necessário ter espírito de unidade e sobretudo humildade. A partir de hoje vou me limitar a comentar textos sobre economia, pois sou do tipo que acredita que a verdade existe e liberta, mas não possui dono e percebo que o autossabotamento tomou contas das pessoas.

    • Podem sim. Achei estranho que tenham feito isso de forma institucional como foi divulgado. No entanto, um colega aqui esclareceu que não foi algo institucional mas sim um iniciativa de um grupo. Achei estranho que Tony pereira que é um sujeito calmo tenha tomado a decisão de sair, Vou escrever diretamente para ele e perguntar. Claro que ninguém é dono da verdade.

  8. Mansueto e colegas,

    So pra clarificar, de acordo com a máteria de Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-manifesto-dos-brasilianistas-nao-foi-partidario), a BRASA votou em maioria de adotar a declaração que já existiu em forma publica, aberta pela AVAZZ.org, website dedicado de “petitions.” Já tem 2120 assinaturas.

    Gente, eu já perdi bastante eleições no Brasil, nos EUA e sim, dentro da minha propria familia (a maioria brasileira), puxa na democracia nos vamos perder, e ganhar de vez em quando também. As forças do Impeachment ganhou com a maioria no conselho federal da OAB, porque uma maioria não pode levar na BRASA?

    Sou admirador do trabalho de Pereira, Mansueto e outros, mas precisamos a transparência e respeito para debater as questões do dia, especialmente a política e a corrupção. Associação professional também pode~

    Obrigado, continuo aprendendo.

    Mark

    • Eu também. Seus comentários são válidos e me ajudam a pensar e tomar uma posiçõa mais moderada. respeito sim aqueles que são contra o impeachment. Não me cabe dizer quem está certo ou errado. São visões diferentes. Acho que me exaltei quando se fala que a democracia do país está em risco.

    • O que vejo é a desonestidade do Manifesto. Podem se posicionar contra o impeachment e, por mim, nem declinem as razões que os levam a tal decisão. Agora, é pura desonestidade alegar que a democracia brasileira corre risco por causa do impeachment e outras aleivosias. Isso é que é decepcionante. Clinton sofreu um processo de impedimento por causa de um boquete e nem por isso dissemos que a democracia americana estaria em risco. Oras, impeachment é um instrumento jurídico-politico válido, legal, constitucional, que fortalece a democracia, ao repelir condutas inaceitáveis de mandatários da nação.
      Por mim, a BRASA inteira pode se aboletar dentro do Palácio, naqueles comícios intermináveis que Dilma anda fazendo. O que esperamos é que sua posição seja calcada na honestidade intelectual de quem se diz estudar o Brasil, e não sair feito papagaio, repetindo as aleivosias dos defensores do governo.

  9. Se tantos intelectuais estão chegando a conclusão que a democracia pode estar ameaçada, então, pode ser que o ponto de vista deles seja válido. Dificilmente, perderam o poder de análise de um mês para o outro. De qualquer forma, a livre expressão funciona desta forma mesmo. A verdade se vier, apenas surge no futuro. No curto prazo, os fóruns são marcados por fortes emoções.

  10. Falar em déficit democrático quando todo o processo de impeachment é monitorado pelo STF, que tem a função precípua de zelar pela aderência de todos os procedimentos aos mandamentos constitucionais e legais, apenas demonstra a inconformidade de certos tipos com as regras do jogo democraticamente pactuadas: as regras só são boas quando lhes aprazem por seus cismas ideológicos. Qual democracia não tem defesas contra a arbitrariedade desastrosa de certos governantes que infelicitam a Nação?

    Esses frustrados, como não têm vez em seu País, onde a governança é levada a sério e não haveria espaço para uma desconstrução brutal como a que presenciamos no Brasil (uma década perdida por caprichos ideológicos), querem fazer proselitismo de suas ideias anacrônicas, desfrutando de cobaias subdesenvolvidas (por isso que são ricos e o Brasil cada vez mais distante do primeiro mundo).

    • Desculpea, amigo, mas nâo tem lógica seu comentário.

      Se for assim, quer dizer que qualquer decisão que o STF tome é necessariamente democrática ?

      Claro que não.

      Se fosse como voce argumenta, o STF, em 68 teria barrado o AI-5, por ex.

      Outro exemplo, sempre, quem redige uma constituição em uma ditadura é um jurista.

      O direito não é necessariamente democrático.

      • O texto deixa claro que a função do STF é fazer prevalecer a legalidade pactuada na forma da CF 88 e demais leis agasalhadas pela mesma CF.

        A Constituinte de 87/88 foi eleita de forma livre pelo povo e a Constituição aprovada pela ampla maioria de seus membros, o que configura a plenitude democrática das lides políticas balizadas pelas regras ali assentadas.

        Bem entendo que os conceitos de democracia representativa e soberania do povo têm uma interpretação muito particular no seio de alguns segmentos do espectro político, onde o que conta é a maioria dos engajados (talvez daí a insistência em trazer à baila o período militar), mas prefiro trabalhar com o vernáculo e as definições das sociedades livres ocidentais (se calhar, até por isso, as mais evoluídas).

  11. Mansueto,

    Eu te admiro muito, você trata com clareza o tema quase sempre árido de finanças públicas. Mas nesse post deu um tiro no pé. Não necessariamente pelo fato de questionar o posicionamento da associação, mas sim por ter aberto uma porta para que os insanos defensores deste desgoverno possam te atacar. Acho que sofreu ataques desnecessários.

  12. Concordo inteiramente Mansueto, Da mesma forma que a OAB perde credibilidade ao se manifestar a favor do impeachment quando grande parte dos seus associados são contra o mesmo. Deveria ficar isenta e fiscalizar o processo.

  13. Mas é claro que a democracia está sim ameaçada.

    Hoje temos (ou tinhamos, por ele passou tanto do ponto que ficou feio) um juiz do interior que manda no País inteiro, tem jurisdição sobre tudo, quebra empresas e setores inteiros, divulga gravações envolvendo Ministros de Estado e da Presidente e não é punido.

    Nâo temos mais segurança jurídica ou Estado de Direito á medida que o STF decide ser decisão discricionária de um tribunal de 2 instancia (lembrando que os tribunais de 2 instancia são altamente aparelhadas por decisoes politicas e corporativistas no País todo) que decidem a prisão de condenados, sem o total transito em julgado.

    Há em andamento um processo Kafkano, contra uma Presidente, que ninguem sabe ao certo do que é acusada, por isso mesmo não tem como se defender.

    Hà enorme confusão entre os poderes. Um bandido conhecido é chefe de um. No outro, há um militante e empresário de ensino conhecido que toma decisões sozinho a respeito da manutenção ou nao no cargo de um Ministro de Estado e segura o processo 1 mes até que o leve ao plenário.

    É pouco ou querem mais ?

    Òbvio que a democracia no Brasil está sim ameaçada.

    • Obvio que em um pais que é uma democracia com o STF funcionando e definindo o rito do processo de impeachment, a minha opinião é que a democracia não está ameaçada. Por mais que se queira passar o contrário, impeachment está na nossa constituição e quem decide sobre o a admissibilidade do processo é a Câmara dos Deputados. Podemos ser contra ou a favor do impeachment e cada um tem sua opinião sobre o tema. Mas na minha opinião golpe não é.

  14. A Brasa tem sim o direito de se manifestar, seja como instituição ou através da opinião de parte de seus membros.
    Que brasilianistas estejam se colocando contra o direito dos brasileiros de, legitimamente e seguindo preceitos legais e constitucionais, determinar seu futuro, isso é deplorável ética e politicamente.
    Como estudiosos das ciências humanas, esse capítulo da história brasileira – o apoio de intelectuais à tomada do poder por uma organização criminosa – e internacional – a suspeita de intelectuais quanto ao direito e à capacidade dos brasileiros de viver numa democracia – deverá ser objeto de estudo pelas próximas gerações.

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