Carta ao Povo Brasileiro – 2

Recentemente, assistindo ao programa da Globo News do Alexandre Garcia, com o ex-Ministro Moreira Franco e com o Senador Humberto Costa, um deles fez referência ao documento de 2002, a Carta ao Povo Brasileiro, na qual o candidato Luiz Inácio Lula da Silva usou para acalmar os mercados e brasileiros sobre a política econômica de um governo do PT.

A carta fazia uma critica contundente à política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso e sinalizava aos mercados que, se eleito, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva manteria a responsabilidade fiscal e combate à inflação. E de fato, até 2008, o governo do presidente Lula cumpriu com essa promessa.

Mas a partir de 2008/2009, muito do que estava nessa carta ao povo brasileiro, foi esquecido, em especial, o compromisso com o equilíbrio fiscal. O governo começou uma expansão vigorosa da divida pública para emprestar via bancos públicos para empresas e setores a juros camaradas as custas dos contribuintes, em um momento seguinte, a saúde financeira da estatais foi comprometida com o controle artificial do preço da energia e combustíveis, o governo começou a intervir excessivamente na economia,comprometendo o crescimento da produtividade, e o governo passou a fazer uso de truques contábeis para fechar suas contas.

O resultado da politica econômica de 2009 a 2014 foi um verdadeiro desastre que até demorou para aparecer, mas que era previsível por qualquer economista com formação razoável. O que não dava para prever era o tamanho do problema que surpreendeu até o mais pessimista dos economistas.

A minha supresa hoje foi que, ao ler a carta ao povo brasileiro, ela poderia, com poucas mudanças, se transformar em uma carta ao povo brasileiro – 2 só que deste vez assinada pelas oposições. Resolvi editar a carta como se ela  fosse escrita pelos partidos de oposição. Vejam aqui como ficou a carta de 2002 editada para a sua versão de 2016. Isso é claro um mero exercício. Mas é interessante ver como o mundo da voltas. 

Em 2002, o PT se comunicava com a sociedade que desejava mudanças por meio da carta ao povo brasileiro. Hoje, a mesma carta, com poucas alterações, serviria como uma luva para qualquer partido de oposição.

10 pensamentos sobre “Carta ao Povo Brasileiro – 2

  1. Mansueto, as mudanças que queríamos permanecem, o truque da carta, foi um bàlsamo para montarem no poder. Vamos usar para apea-los, se Deus quiser.

  2. Mansueto, a situação que exigiu essa carta era delicadíssima. O Brasil estava insolvente, sem reservas internacionais e a dívida publica bruta e divida publica líquida em 62% e 60% do PIB, respectivamente. Desemprego de 12,6%, inflação de 12,53%, juros de 25% e diversas parcelas de 13 bilhões de dólares penduradas no FMI. A “carta ao povo brasileiro” só destinava ao povo o título, pois o conteúdo objetivava acalmar os mercados local e internacional aflitos com a possibilidade de um novo calote. Hoje o Brasil é outro. Os pilares do plano real continuam os mesmos(Meta de Inflação, Superavit Primário e Cambio Flutuante(aperfeiçoado com os contratos de Swaps)). Não fosse o repasse para o BNDES e outros bancos a Embraer, por exemplo, não seria hoje a terceira maior fabricante de aviões a jato do mundo, inserindo o país num seleto grupo de países e “detonando” o mito de que estamos condenados a ser, por natureza, exportadores de commodities. São 1500 moderníssimos aviões a jatos médios cruzando os céus do mundo, 400 deles só na China. O que a oposição precisa fazer, ao meu ver, é o que toda oposição “tem que” fazer: ser oposição ao governo e não ao país. Derrubar o fator previdenciário, implementar desaposentação, conceder aumentos insustentáveis, como os do judiciário, em épocas que exigem ajustes fiscais não piora nenhum governo, piora o país. Os governos são como luvas.

    • Ou seja, recursos públicos subsidiam negócios privados. Se der certo, lucro para os acionistas, entretanto, dando certo ou errado, a conta é paga pelo contribuinte.

      • Não são recursos públicos, pois os recursos do BNDES e outros bancos do governo não são arrecadados por intermédio do sistema tributário( impostos, taxas e contribuições). São títulos públicos transformados em formas de fomento. Os criadores do plano real aproveitaram a esterilização da Dívida Pública Interna executada no governo collor quitaram os esqueletos e trocaram a inflação crônica e galopante por dívida interna. As remarcações de preços foram combatidas pela ancoragem artificial do valor do real ao dólar o que permitiu a abertura das importações. As operações do BNDES e similares transformam dívida interna em modernização e alavancagem do parque industrial do país. Quem usa recursos públicos são os Programas Sociais e similares, mas tem seus prós e seus contras.

      • Marcal, o serviço da dívida do “título público transformado em forma de fomento” é maior que o serviço da dívida da “forma de fomento”. Ou seja, há aí um subsídio público, bancado com recurso público para a conta fechar.
        Não que eu ache que todas “formas de fomento” devam ser descartadas, mas este tipo de instrumento deve ser usado com cuidado, e não da forma indiscriminada e discricionária, que é usada pelo BNDES.

    • A Embraer é um bom caso de privatização, claro que conta com financiamento do BNDES, mas o sucesso foi na privatização, empresa pública má gerida, para uma referência de empresa privada.

  3. Parabéns Mansu! Vejo que ultimamente está com o gás todo(rsrs). A história se repete com atores invertidos. O PT está provando do seu veneno.Desde os anos 80 o mesmo pleiteou mais de 50 impedimentos e foi contra a tudo, inclusive contra o Plano Real, lei de responsabilidade Fiscal,etc.Esse governo á tempos já abandonou os bons fundamentos da economia para se aventurar na nova velha Matriz econômica.

  4. Infelizmente no país, mudam-se os atores mas o enredo permanece. O termo “política econômica” não funciona em nosso país pelo simples fato de serem antagônicos. Por aqui, política e economia não se coadunam numa mesma sinfonia. E isso se agrava em governos populistas como o que vem governando o país desde 2002. Não adiantar sustentar teses de políticas macro econômicas e de administração por resultados se quem governa não se preocupa com isso ou não consegue entender suas vantagens e desvantagens. Se um governo, seja qual for, estiver sendo atacado, a última coisa que ele irá se preocupar é com teorias econômicas e administrativas. Não consigo enxergar nenhum governo, inclusive fora, que conseguisse “agradar a todos”. Os políticos e os não-políticos visualizam os ciclos de forma diferente. Enquanto um governo planta, o outro colhe. E assim sucessivamente. Vejam com relação ao que estamos enfrentando agora: seria muito cômoda a saída do PT do governo nesse momento de extrema complicação das contas públicas. Pois num cenário como esse, seria fácil e conveniente virar oposição e em 2018 chegar com tudo apontando as falhas de um eventual governo de transição (isso inclusive é o que pensam alguns membros do PT). Li uma notícia semana passada na CBC (rede canadense de notícias) que o Canadá está entre os 7 países mais vulneráveis a crise da dívida. Vejam que economistas por lá estão alertando sobre um problema que pode acontecer durante os próximos 3 anos e que por aqui está acontecendo nesse exato momento e vejam o que foi escrito na matéria por lá: “Government stimulus programs and programs to support first-time home buyers can postpone the pain, he argues, but credit cannot keep growing at such a rapid rate, unless GDP is growing more rapidly.”. Ou seja, nós não estamos inovando, simplesmente aperfeiçoando a máquina governamental para beneficiar uns, em detrimento de outros. Resta saber até quando poderá se sustentar, pois mesmo que o PT não saia, sabemos que no Brasil a política é mais importante que a economia e me causa medo o que esse modelo de governo poderia fazer para se sustentar no poder, além do que já tem feito.

    • Concordo com várias das suas colocações. Só gostaria de acrescentar que o Canadá já enfrenta uma situação delicadíssima. Diversas petrolíferas que extraíam petróleo de rocha faliram demitindo milhares de trabalhadores e a Bombardier há 20 dias demitiu 7 mil de uma vez, portando eles não estão prevendo o futuro pois já o vivenciam.

  5. Impressionante! A melhor parte é a das reformas… Chegaria a ser engraçado, se não fosse triste ver quanto tempo perdemos.

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