Jânio Quadros e o preço da gasolina

Quem assitiu recentemente alguma das palestras do ex-minitro do STF, Nelson Jobim, provavelmente escutou um história interessante. O ex-ministro conta uma historia que escutou do saudoso economista Roberto Campos  quando este era assessor do Ministro da Fazenda do Presidente Jânio Quadros, Clemente Mariani.

Roberto Campos mostrou certa ocasião para o Ministro Clemente Mariani a necessidade da Petrobras aumentar o preço da gasolina. O ministro falou que ele, Roberto Campos, deveria fazer uma apresentação e convencer o presidente Jânio Quadros da necessidade de tal medida.

Roberto Campos foi com o Ministro da Fazenda ao Presidente da República Jânio Quadros e fez a apresentação da necessidade de aumentar o preço da gasolina. Em certo momento, achou que o presidente Jânio Quadros não estava muito interessado e concentrado no assunto e, assim,  resolveu pular parte da apresentação.

No final, o presidente Jânio Quadros perguntou exatamente pontos da parte que Campos havia pulado e, para supresa ainda maior do economista, fez uma pergunta inusitada: “professor, quem são os inimigos?”  Campos não soube reponder e, o presidente, pediu que ele pensasse no assunto. No dia seguinte, como Roberto Campos não encontrou a resposta, o presidente Jânio Quadros pediu que ele o escutasse na rádio em cadeia nacional às 18:00 hs.

Roberto Campos, no Rio de Janeiro, pediu ao taxista que ligasse o rádio na hora marcada e, para sua surpresa, escutou o presidente Jânio Quadros falar por mais de 30 minutos contra os EUA e os interesses imperialistas dos americanos que queriam quebrar todas as companhias de petróleo e dominar a energia do mundo. Assim concluiu o presidente Jânio Quadros, para ir contra os interesses americanos, o Brasil aumentaria o preço da gasolina.

O taxista se virou para Roberto Campos e falou: “Está vendo doutor. Esses americanos são de lascar. É ruim aumentar o preço da gasolina, mas o presidente está correto em fazer isso para barrar os interesses desses americanos no mundo”.

O presidente Jânio Quadros, espertamente, criou um inimigo imaginário para tornar viável uma medida impopular. Aqui, ao invés de criarmos inimigos imaginários para justificar as reformas necessárias, estamos assistindo uma parte da esquerda criar inimigos imaginários para não fazer nada. Antes a culpa da recessão era do Joaquim Levy, agora é da China, tem também as  multinacionais que querem se apropria do pré sal, etc.

O Brasil está um situação ruim e ainda tem pessoas que acham que a crise é inventada pela imprensa e por análises pessimistas.  Assim, continuaremos em um cenário mediocre se isso não mudar e, o ideal, seria termos debates claros e transparentes sem a necessidade de criar inimigos imaginários para aprovar ou bloquear medidas importantes.

6 pensamentos sobre “Jânio Quadros e o preço da gasolina

  1. Caro Mansueto,
    Você é especialista em finanças públicas. Eu sou economista financeira, especializada em linguística, discurso profissional. Devemos sim, insistir em um debate transparente e qualificado. Porém lamento que jamais ocorrerá. Pelo simples motivo de que o que está em disputa não são propostas para o Brasil. A disputa é pelo poder no Brasil. E aí não interessa discutir o mérito da questão. Se chegarmos ao mérito podemos nos deparar com muitos pontos comuns e onde estão as verdadeiras divergências. Mas isso enfraquece a polarização. Sem ela é mais dificil disputar o poder.

    Recomendo ler o livro “A peoples tragedy” de Orlando Figes, sobre a revolução russa. Estou impressionada com os paralelos comportamentais entre os revolucionários russos e nossos esquerdistas brucutus.

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