Para ler neste domingo

Há vários bons artigos e reportagens nos principais jornais (O Globo, Estado de São Paulo e Folha de São Paulo) neste domingo. Vou resumir rapidamente porque acho todos os artigos que vou indicar interessantes.

Jornal Folha de São Paulo

Vamos começar pela Folha de São Paulo. Na parte de economia, tem uma matéria que fala que os juros que os bancos públicos cobram já voltaram a ser iguais aos dos Bancos Privados (clique aqui).

Olhem os jornais em 2012 e 2013 e vocês verão vários colunistas e jornalistas defendendo a redução forçada de juros, em 2012, e alguns apostando que os bancos públicos passariam os bancos privados porque, segundo eles, a redução do juros aumentaria a concessão de crédito e isso ocasionaria mais lucros para os bancos. Mas se é assim, por que os bancos públicos não tinham reduzidos os juros antes vis-à-vis os bancos privados?

O resultado disso foi, na verdade, mais inflação, aumento da inadimplência e o que muitos apostam um buraco na CEF que precisará ser coberto, mais cedo ou mais tarde, por uma capitalização do Tesouro Nacional.

Ainda na folha tem o artigo de Samuel Pêssoa sobre o “Austericídio de Levy” (clique aqui). Como é do conhecimento de todos, vários economistas (procurem nos jornais), que se auto-denominam intelectuais, tentam culpar o ex-Ministro Joaquim Levy pela recessão do ano passado.

Samuel foi investigar a literatura econômica para ver se uma queda tão pequena dos gastos públicos do governo central, em 2015, quando se desconta o pagamento das pedaladas, poderia ter produzido queda tão grande do PIB. A resposta é não, pois o multiplicador do gasto público, no Brasil, teria que ser muito maior do que qualquer estimativa razoável. Algo na faixa dez a cinco vezes maior do que os valores estimados.

Samuel termina o artigo com uma provocação: “Os detratores da política econômica de Levy precisam explicar à sociedade em quais estimativas se baseiam para trabalhar com valores tão elevados para o multiplicador fiscal. (para justificar que Levy produziu a recessão de 2015).”

Acho que a resposta mais provável é que eles “chutaram”. Há uma turma no Brasil que sempre tem o mesmo diagnóstico, seja aqui ou em Marte, e que passam dias e noites tentando adivinhar o que o economista John Maynard Keynes sonhava e não escreveu. Puro dogmatismo para ser educado. Mas a palavra correta é outra.

Jornal O Estado de São Paulo

Neste domingo, quase todo o caderno Economia & Negócios está muito bom. Vou começar com a entrevista do economista Ilan Goldfajn (clique aqui). A tese básica que Ilan defende e que concordo é que “…O nosso problema principal é o “fiscal-político”, que gera incertezas enormes e não leva a nenhum investimento. Como não tem investimento, não tem recuperação e, se não tem recuperação, não tem renda. E, se não tem renda, não tem consumo. Vira uma bola de neve, um círculo vicioso”. 

Tem outras teses interessantes.Por exemplo, por que em um país que a dívida está em trajetória não é sustentável as pessoas, em especial, os estrangeiros, continuam enviando dinheiro para o Brasil? Porque  muitos acreditam que o Brasil pode ainda corrigir os rumos das coisas no médio prazo. Mas se não corrigirmos a rota, como fala Ilan, cairemos para “terceira divisão”, a taxa de câmbio vai para R$ 5 e os estrangeiros vão correr rapidinho.

Ilan está longe de ser um economista pessimista. Ele é realista e termina a entrevista com um ponto que já levantei recentemente neste blog: “A trajetória mais difícil é da dívida pública. A trajetória da inflação eu consigo ver caindo, e a de juros também consigo ver caindo. Também não acho que vai haver recessão para sempre. A trajetória da dívida me preocupa mais porque, com o déficit primário, vamos acabar tendo um déficit nominal grande. E a trajetória da dívida deve passar de 70% em direção a 80% em 2018”.

 Aqui há várias apostas que nem Ilan tem como fazer. Nada indica que a inflação em 2018 seja menor que a inflação de 2016. Depende de uma correção de rumos como ele mesmo fala ao longo da entrevista para a taxa de câmbio não disparar. Segundo, aposto que quando Ilan fala em Divida Bruta em direção a 80% na verdade deve ser em direção a 90% do PIB, pois as projeções do Itaú/Unibanco pelo que sei são de déficits primários contínuos até 2018 e ninguém espera forte crescimento até 2018, nem forte redução dos juros.

No mesmo jornal tem o artigo do José Roberto Mendonça de Barros, que pensa diferente do  seu irmão, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros. Há cerca de um mês estive com o Luiz Carlos no programa Painel da Globo News e ele insistiu na tese que o setor privado faria o ajuste, já em curso, independentemente do governo. Não parece ser esse o cenário do José Roberto Mendonça de Barros no seu artigo “O Brasil em Queda Livre” (clique aqui)

José Roberto Mendonça de Barros é talvez o melhor analista de economia real que conheço – conhece setores e empresas como ninguém. Desde setembro do ano passado, ele havia me alertado que no inicio deste ano teríamos o crescimento expressivo de casos de recuperação judicial de várias empresas como já está acontecendo.

E José Roberto não vê ainda luz no fim do túnel. No seu artigo, fala também que “A dívida pública, como porcentagem do PIB, continuará se elevando aceleradamente, sem sinais de melhoras”.

No mesmo jornal tem também um longo artigo do Marcos Lisboa, Zeina Latif e Carlos Mello. – “Como chegamos até aqui”. A tese básica do artigo é que, ao contrário da tese que as instituições no Brasil funcionaram, os autores argumentam o contrário, as instituições no Brasil falharam. Se tivessem funcionado não estaríamos atolados na grave crise que nos encontramos. Os parágrafos seguintes resumem bem a tese do artigo:

“As instituições não se limitam a órgãos de controle e de investigação – que, aliás, estarão funcionando a contento quando efetivamente atenderem a um escopo mais amplo de casos e da população. Elas incluem os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, partidos políticos e organizações da sociedade civil, bem como procedimentos que regulam a relação entre as diversas instituições……. Desde o escândalo do mensalão, no entanto, o País desistiu de continuar com o processo de avanço institucional.”

No artigo, eles detalham os retrocessos institucionais: falha dos órgãos de controle (TCE e TCU) para evitar o desequilíbrio fiscal, falha do sistema politico, falha da oposição (confesso que aqui não entendi muito bem e acho que meus amigos têm uma visão de uma oposição superpoderosa difícil de existir em um país que fazia tudo errado e as pessoas acreditavam que iria dar certo), etc.

A tese do retrocesso institucional é consensual? Não. Eu compartilho da tese do Marcos Lisboa, Zeina Latif e Carlos Mello. Mas vários cientistas políticos do Brasil, como Fernando Limongi da USP, Marcus Melo da UFPE e Carlos Pereira da EBAPE-FGV argumentariam que não é bem assim. Para eles, por exemplo, o sistema de presidencialismo de coalizão no Brasil funciona bem e, se não funciona bem, a culpa seria muito mais da falta de capacidade politica de articulação da Presidente da República do que, por exemplo, do numero de partidos. Esse é um bom debate.

Jornal o Globo

O Jornal O Globo deu sequência neste domingo as suas importantes reportagens sobre a má gestão e rombos dos fundos de pensão de estatais – clique aqui. Os três principais fundos de pensão estatais – Petros (da Petrobras), Funcef (Caixa) e Postalis (Correios)- tiveram déficit de R$ 29,6 bilhões, de acordo com dados de agosto do ano passado.

Segundo a matéria do O Globo: “A maioria dos responsáveis pelos déficits das fundações públicas tem em comum a origem no ativismo sindical. Nos últimos 12 anos, os principais gestores dos fundos de Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e Correios saíram das fileiras do Sindicato dos Bancários de São Paulo.”

O rombo dos fundos de pensão é uma noticia péssima para os 500 mil aposentados que participam desses fundos e também para os contribuintes, pois as patrocinadoras terão que cobrir metade do rombo, o que significa nós contribuintes.

O único lado bom desse rombo é que os associados aprenderão a fiscalizar melhor o patrimônio dos seus fundos e se organizar para barrar a eleição de diretores que parecem mais preocupados em agradar ao governo do que aos aposentados e pensionistas do fundo que são os verdadeiros dono do patrimônio da Petros, Funcef e Postalis.

Por fim, já que me alonguei muito mais do que gostaria, termino com a indicação do artigo da jornalista Miriam Leitão que pergunta como a presidente Dilma quer ser lembrada no seu artigo “E se Dilma Entendesse” – clique aqui. A jornalista pergunta:

“A presidente Dilma Rousseff não tem muito a perder. Ela já sabe que não recuperará a popularidade porque o cristal se partiu. Não desconhece também que o PT tem outras lealdades e que a relação entre ela e o partido é circunstancial e volátil. E se diante disso ela entendesse que o melhor seria deixar um legado pelo qual fosse lembrada, ainda que perdesse a batalha?”

A última frase do artigo é: “E se Dilma entendesse? Mas, infelizmente, ela não entenderá”.

21 pensamentos sobre “Para ler neste domingo

  1. Mansueto, os 3 primeiros “clique aqui” estão com “mailto:” e redireciona para o email da pessoa para ela enviar o link para alguém, não abre o link no navegador.

  2. Mansueto, sobre o presidencialismo de coalizão vale destacar que FHC com PSDB, PFL e PMDB angariava quase 300 deputados – além de ser um político bastante experiente e que desfrutava de credibilidade. Logo, só em votações que necessitavam de maioria qualificada que o Planalto precisava “suar a camisa” pra valer a fim de alcançar os votos. Atualmente (Dilma) se somarmos as três maiores legendas da Câmara não se chega a 190 deputados (soma de PSDB, PT e PMDB), sendo que o PSDB obviamente não faz parte da coalizão. Logo, denota-se o grau de fragmentação que está em curso, o que concatenado a crise econômica (debacle da Nova Matriz) e Lava Jato explicam a situação complexa da política brasileira. Por isso que não vai sair nenhum conjunto de grandes reformas que viabilizem melhora do quadro econômico. O Brasil desde a aprovação da LRF, só viveu de puxadinhos, boom de commodities e de ausência de reformas para satisfazer estratégias eleitorais. A crise atual não será resolvida com puxadinhos do tipo CPMF.

    Mais: atualmente, só o PMB (Partido da Mulher Brasileira), que conseguiu registro em Set/15, já possui mais de 20 deputados. Há também boatos de que parte da bancada do PT estaria negociando nova legenda; sem contar o Rede que deve angariar mais deputados. Ou seja, vivemos uma mega fragmentação na Câmara dos Deputados. Acredito que a eleição de 2018 será tão fragmentada quanto foi a de 1989 (vários presidenciáveis).

    É importante citar também, que as eleições majoritárias (presidente, governadores, senadores e principais prefeituras) são dominadas por PT, PSDB e PMDB. Tanto o PSDB como o PMDB apostam que o cenário atual de crise política e econômica vai devastar o PT nas eleições municipais. De forma nenhuma esses partidos vão colaborar muito para melhorar o cenário econômico, o que poderia gerar um refresco para o PT. Logo, entendem que chegou a hora de obter vitórias de impacto nas eleições e tomar espaço do PT. Mais: as eleições majoritárias são dominadas por PT, PSDB e PMDB (dominam as máquinas públicas), já as demais não. O multipartidarismo crescente é alimentado pois as tres principais legendas perderam muitas bandeiras históricas ao chegarem ao poder, não há cláusula de barreira e o fundo partidário pode ser “facilmente” acessado. Logo as novas legendas, em média, apresentam bandeiras específicas e algumas são dissidências do PT. Essas novas legendas vencem principalmente disputas para vereadores, prefeituras (exceção das mais importantes) e cadeiras na Câmara. A despeito disso, a Câmara sofre de alta fragmentação, há n legendas lá. Não é difícil eleger meia dúzia de deputados por partido. Para vencer eleições majoritárias há que se ter muitos recursos, não é fácil. Assim, atualmente para ser ter maioria qualificada na Camara – aprovar reformas – é preciso contar com dezenas de partidos – o fisiologismo reina e todo mundo sabe como acaba essa história.

    Em suma: o Brasil sofre de três graves problemas estruturais: estatismo (tudo deve ser resolvido pelo Estado) – ganharam 4 mandatos presidenciais vendendo isso; patrimonialismo (Lava Jato provou isso) e multipartidarismo crescente. Mais o fato conjuntural de atualmente termos um governo sem credibilidade.

    A academia precisa debater profundamente o atual problema do multipartidarismo crescente. Em minha opinião, não será fácil daqui pra frente para nenhum político formar maioria qualificada numa Câmara onde os 3 maiores partidos não alcançam 190 deputados e que existem 30 legendas. Da mesma forma como a economia pede reformas para equilibrar a dívida e tornar possível sair da recessão; a política chegou no limite do aceitável em termos de fragmentação (numero de legendas) e os impactos disso sobre a gestão do presidencialismo de coalizão. Por isso que a Nova República balança.

  3. Muito boa análise do Gouveia.
    Acredito também que a questão econômica só poderá ser resolvida após a solução desta crise política. Por isso, o governo tem derrapado na retomada, a oposição não tem propostas e os partidos já vislumbram 2018.
    O Brasil está numa posição muito difícil de sair, seria preciso líderes políticos muito altivos e comprometidos com o bem da nação para acertar uma trégua no congresso. Acho difícil de acontecer. O pior é que ainda estaremos sujeitos a algum salvador da pátria com apelo populista como foi o Collor foi 1989, ou Berlusconi na Itália. Tempos realmente difíceis.

  4. interessante a discussão sobre instituições. acho que os argumentos apresentados não são suficientes para chegar à conclusão apresentada, mas é uma boa discussão… e devo confessar que a (provável) posição dos três nomes que você mencionou depois me influencia um pouco. o limongi em especial é um gigante, e o carlos melo é academicamente muito fraco. aliás, o insper precisa de quadros melhores em ciência política, parece que até que escolhem com base em aparições na mídia!

  5. excelente resumo dos princípais jornais,algumas matérias eu li, uma análise muito bem feita, valeu a leitura, clara e bem comentada.

  6. Mansueto, hooje em uma palestra o Marcos Lisboa citou um artigo da American Economic Review de 2014 (Acho que de Maio) onde o autor explica os efeitos sobre subsidios no setor de siderurgia. Não achei esse artigo. Você sabe qual é?

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