Lord Voldemort e a Dívida Pública-2

Algumas “mentes brilhantes” ficaram incomodadas com o gráfico que coloquei no post anterior e alguns chegaram mesmo a me chamar de desonesto porque, segundo eles, em todos os gráficos de barras o eixo Y sempre deve começar do zero. Isso é de uma estupidez tão grande que nem merecia resposta.

Mas respeito o leitor deste blog e, por causa disso, acho que vale a pena colocar aqui a tabela com os números do gráfico que fiz (segue a tabela no final do post). A informação é exatamente a mesma, mas facilitará as pessoas com poucos neurônios e mal intencionadas a compreenderem o problema.

Qual é exatamente o problema? A divida pública bruta do Brasil, que é caríssima, cresceu quase 15 pontos do PIB em 24 meses, passou de 51,7% do PIB, em dezembro de 2013, para 66,2% do PIB, em dezembro de 2015.

E qual a tendência? se você for doido ou desonesto, pode achar que a dívida pública vai permanecer em 66% do PIB até 2018. Mas as projeções de mercado apontam para estimativas que vão de 80% a 90% do PIB, e alguns mais afoitos já falam que caminha para 100% do PIB (acho isso exagerado).

O que a grande maioria dos analistas aqui e lá fora falam é que a trajetória da dívida pública bruta do Brasil se tornou insustentável. E por que as pessoas continuam financiando o governo? porque há espaço para ganhar muito dinheiro até que um eventual calote ocorra. O calote vai necessariamente ocorrer? Claro que não. Pode ocorrer? sim, se não fizermos nada. O governo tem convicção e base política para mudar o jogo e reduzir crescimento da divida publica até 2018? perguntem ao PT.

Em 2002, o Brasil tinha um problema de estoque da dívida publica que pela metodologia antiga bateu os 78% do PIB, mas tinha um resultado primário positivo acima de 3% do PIB. Em 2018, terminaremos o governo atual com um problema de fluxo e de estoque: resultado primário negativo (a não ser que haja uma forte recuperação da economia e forte aumento de carga tributária em cerca de 2 a 3 pontos do PIB) e dívida pública bruta acima de 80% do PIB.

O que pode mudar esse cenário? uma inflação bem alta lá na casa dos 15% ao ano que puxa o PIB nominal e dilui, temporariamente, a relação divida/PIB. Se o seu economista preferido não acreditar no crescimento da dívida pública, pergunte a ele como o governo vai conseguir estabilizar a divida pública bruta  (% do PIB) com um resultado primário negativo e uma economia que não cresce ou crescerá 1% ou 1,5% em 2018. Se ele falar que é só  Brasil crescer 6% ao ano e reduzir os juros reais para 2% ao ano ou “zero”, mande ele passear e nunca mais o escute porque ele é um péssimo economista ou é doido.

Há  alguma forma do crescimento da dívida bruta ficar “mais bonito”? sim, comece o gráfico com o eixo do Y em “zero” ou com um número negativo que a dívida mal cresce no gráfico. Olhem a tabela abaixo e, por favor, expliquem para todos que, se as coisas continuarem como estão, em 2018 poderemos (notou a condicional certo?) ter problemas.

Uma coisa é certa – se preparem para mais inflação e/ou mais carga tributária porque será impossível cortar as despesas de 4 a 5 pontos do PIB para voltarmos a ter superávit primário na casa de 3% do PIB até 2018/2019.

Série 13762 do Banco Central do Brasil – Dívida bruta do governo geral (% PIB) – Metodologia utilizada a partir de 2008 

divida bruta

 

 

 

19 pensamentos sobre “Lord Voldemort e a Dívida Pública-2

  1. No futebol muitos viraram ombudsman do jornalismo esportivo, todos querendo a “cobertura correta” para o seu time do coração. Além, claro, de serem todos técnicos com algo a ensinar ao Guardiola.
    Agora temos, também, ombudsman de gráficos e tabelas.
    Bom, vamos reconhecer: é uma inovação.
    O Brasil é inovador.

    De minha parte, estou recordando o que fiz e deixei de fazer nos 80 e começo dos 90 para sobreviver à inflação.
    Porque vamos chegar ao próximo Reveillon com a bichinha deixando de ser uma lagartona para ganhar cara de dragão.

    E…
    Tchan tchan tchan… Aguardem!

    Em breve o overnight estará de volta.

    Mais uma conquista do governo (?) Rousseff.

    • Os eleitores brasileiros escolheram a menos desonesta entre os candidatos de 32 partidos subsidiados. Muito mais elegante seria olhar pra ver se os partidos são todos eles proibicionistas e saqueadores e as eleições verificáveis do que atacar a personalidade do escolhido em eleições forçadas e secretas, desprovidas de partido libertário.

  2. Melhor ainda, se o gráfico começasse em +200. A dívida não cresceria nada! É mais ou menos o que é feito em alguns dados oficiais. É inteligente, criativo e eficiente. Principalmente para o público-alvo de quem se utiliza dessa artimanha.

  3. O altruísmo redistribucionista forçado dominou a política da Rússia desde 1917, e sua expansão e colapso sinalizam algo de errado com este modelo. Este algo aparece nitidamente nos gráficos que eu achei honestos. Mas cá entre nós, qual o adulto que espera encontrar honestidade na reação da corrente saqueadora a verdades inconvenientes?

  4. Mansueto é um cara poderoso. O seu gráfico é o responsável pelo endividamento público. Logo, reconfigurando o eixo e sua representação, problema resolvido.

    Os bolivarianos levaram essa “solução” às últimas consequências. Inflação, juros, câmbio, dívida… questão subjetiva, por assim dizer, “ponto de vista gráfico.” Decididamente, o subdesenvolvimento não se improvisa!

  5. Mansueto, na história do Brasil a maioria das vezes em que o País quebrou foi motivada por estrangulamento externo. Desta vez, a dívida pública interna está dragando o orçamento público (black hole). Vivemos efeito CROWDING-OUT. Não é uma CPMF nem outra reforminha que botará em pé o país novamente. O Brasil precisa de um governo de credibilidade (ancorar expectativas), de reformas PROFUNDAS e, principalmente, de honestidade intelectual de alguns economistas/professores heterodoxos que flertam com a noção de que o orçamento público seja algo infindável.

    Vivemos a falência da Nova República, tanto em termos de classe política e sistema político (presidencialismo de coalizão) como do ponto de vista econômico. Nossa carga tribútária disparou durante a Nova República – alcançamos um patamar incompatível de tributação vis a vis nossa renda per capita. O Brasil não é competitivo, salvo no agronegócio e em alguns segmentos muito específicos. Mais: não temos consenso na classe política, há uma mega fragmentação política em curso. O Brasil está à beira do desfiladeiro.

    Assim, não podemos mais permitir que discursos “politicamente corretos” pautem o debate. É preciso dizer a verdade nua e crua. O risco de calote e de crise bancária mais adiante é sim real. Obs: países europeus praticamente quebraram com divída bruta/pib na casa de 80 a 90%, isso que o custo financeiro era muito mais baixo que o nosso. O Brasil tem uma divida pública com custo financeiro explosivo (1/3 da dívida pública está atrelada a inflação – NTN-B), logo deixar a inflação correr solta também fará com que a dívida/pib dispare. A situação é muito crítica.

    Parabéns pelas análises.

  6. Mansueto, Muito Obrigado pelo raciocínio objetivo; Valeria talvez uma análise do ponto de vista do tributarista para “solucionar” a bola de neve e auxiliar a equilibrar as contas públicas.

    Tributar os ganhos em renda fixa a taxas de 25% a 35%, por exemplo ? O juro nominal manter-se-ia elevado, porém parte do custo retornaria ao Tesouro via tributação do Imposto de Renda – hoje esse retorno está entre os 15 – 22,5%.

    A sugestão anterior atenderia aos anseios do PT de manter a economia nominal crescendo, naturalmente à custa de uma inflação próxima a dois dígitos, via tributação de “rentistas”. O custo real de juros diminuiria, embora o Zé Brasileiro continue recebendo mais de 1% ao mês, também ilusórios.

    Mansueto sinto falta de uma análise sua sobre o efeito da recente retirada do grau de investimento pela S&P para a dívida soberana em Reais. Antes que outra agência retire o selo de “investment grade” não lhe parece que possa haver resgates (aumentando os juros no mercado secundário) e pressão sobre o usd/brl, eventualmente forçando a novos swaps pelo BC e, na equalização, aumento da dívida/PIB ?

    Mais uma vez Obrigado pela didática de sua abordagem.

    • Sugestão espúria. Primeiro que os “rentistas” já tem um rendimento líquido real próximo do zero. Veja p caso de quem consegue um retorno bruto de investimento de 13,5%, descontando o IR de 15%, ele fica com 11,47% de rendimento líquido. Descontada a inflação, fica com menos de 1% de rendimento real. Segundo que eles não são estupidos, certamente buscarão alternativas, como enviar o dinheiro para fora, levando a um desequilíbrio ainda maior, mais dificuldade para o governo se financiar e, portanto, a necessidade de juros ainda maiores para estancar a hemorragia.

  7. “Tributar os ganhos em renda fixa a taxas de 25% a 35%, por exemplo ?”

    Sugestão de esquerdista, obviamente não daria certo pois os valores seriam transferidos para outros lugares, o que daria um rombo ainda maior no governo, o forçando a aumentar os juros ainda mais para compensar o aumento dos impostos.
    Mas não se preocupe, não ocorrerá. Está mesmo achando que os rentistas são iguais a população comum que vota no partidão?

  8. Mansueto, não se incomode com essas mentes brilhantes(devem da turma deles), continue com seus comentários, e opiniões, elas são muito bem vindas.

  9. Será que não deveríamos expurgar o “dolar verde e amarelo” da dívida pública? Os swaps cambiais, essa jabuticaba da má-gestão, são 8% do PIB e “netam” um pedaço das reservas, sendo que no limite poderiamos trocar swaps por reservas, o que faria a dívida bruta cair 8%. Faz algum sentido. Não muda o racional do descontrole e da falta de confiança.

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