A dívida do Brasil é pequena? Não 

Há pessoas que insistem em falar que a dívida bruta do Brasil de 67% do PIB não é um problema. Isso está ERRADO. 

Primeiro, O Brasil para se financiar paga juros reais de mais de 6% ao ano e ninguém que comprar títulos longos de 30 anos. 

Segundo, dívida bruta média dos países emergentes – alô o Brasil não é desenvolvido – é de 40% do PIB. Nossa dívida já é alta e está em uma rápida trajetória de crescimento .

Assim, olhem os dados. No dia em que o Brasil conseguir vender um título de 10 anos ou 3o anos com juros reais negativos você pode falar que a dívida não é problema. 

Mas em um país que paga mais juros que a Grécia – % do PIB- na sua dívida e quase 25% da dívida é financiada em até  3 meses falar que dívida é baixa e não preocupa é, me desculpem, sem sentido. Uma tolice. 

Dívida do Estados

Notei que algumas pessoas, def forma equivocada, se alegraram muito como resultado fiscal de janeiro. Essa alegria vai durar um mês porque o resulta de fevereiro em diante será ruim. O próprio governo reconhece isso. Mas vamos deixar que algumas boas almas se se auto enganem por um mês.

Dito isso, este eu ano eu vou entrar um pouco mais forte na análise das contas dos Estados no Brasil. Essa é uma área que tem muitos dados, mas muito ruins. A definição de despesa com pessoal de um estado é diferente dos outros, o comprometimento da despesa com pessoal da receita corrente liquida é muito maior do que mostram os relatórios oficiais, e o cálculo do primário (acima da linha) pelos estados é repleto de falhas.

Dito isso, deixa eu explicar para vocês um ponto maio claro. A pauta de ajuste fiscal dos estados é diferente do governo central. Ajuste focal do governo central é alterar as regras do programs de transferência de renda, inclusive INSS.

E dos estados? uma coisa: gasto com pessoal ativo e inativo. Os estados não têm meios de reduzir o número de funcionários públicos, não conseguem controlar reajuste de funcionários porque governadores muitas vezes aprovaram reajustes para a gestão do próximoEnfim governador e funcionários públicos dos estados de carreiras especiais -policia, bombeiros, professores- se aposentam muito cedo.

Repito. Ajuste fiscal dos Estados é uma coisa: controlar despesa com pessoal ativo e inativo, reduzir burocracia. O ajuste proposto pelo governo vai tentar debater esse ponto, Se haverá ou não consenso não se saber. Mas sem mexer nisso esqueçam ajuste fiscal no âmbito dos Estados no Brasil.

Mas uma coisa é certa. A divida dos estados será renegociada e os pagamentos dos estados ao governo federal irá diminuir como já confirmado pelo Ministro da Fazenda Nelson Barbosa. A divida dos estados continuará elevada e corre o risco de crescer ainda mais. Em relação à divida, o mais problemas não são apenas os “big four”: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Mesmo Estados com endividamento abaixo de 100% (o limite definido pelo Senado é 200% da Rec. Corrente Líquida) terão problemas para arcar com o custo crescente de suas dívidas. E para reduzir a dívida precisam aumentar o primário o que requer controlar despesa com pessoal que o Estados não conseguem controlar e não tem mecanismos para reduzir o tamanho da burocracia rapidamente.

Não há alternativa. Teremos que controlar o crescimento do gasto com pessoal dos Estados se não, a renegociação da divida dos estados será apenas um mecanismo de empurrar o problema para frente.

Dívida dos Estados – % da Receita Corrente Líquida  – 2015 (não inclui Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Paraná e Paraíba). 

Divida

Entrevista Sen. Lindbergh Farias (PT-RJ)

Hoje vou sugerir apenas uma única matéria de jornal que para mim é um sinal muito importante para nos preocuparmos. A entrevista do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) no jornal o Estado de São Paulo (clique aqui).

Vale a pena ler a entrevista porque, infelizmente, mostra uma forte separação das ideias da presidente Dilma do PT. O problema disso tudo é que os outros partidos não toparão ajudar uma presidente do PT fazer um ajuste fiscal, aprovar uma reforma fiscal difícil com medidas duras, sem que o principal partido do governo abrace essa agenda e seja o seu grande defensor.

Política é assim. Governar tem sim o custo de dizer a verdade, mostrar para a população que os recursos são limitados, e o custo de dizer não para demandas legitimas da sociedade devido à restrição orçamentaria. E o partido do governo tem que sim que arcar junto com o governo com o custo político de explicar os problemas difíceis para a sociedade. Mas o PT, por enquanto, não parece disposto a isso por não acredita que o programa de ajuste fiscal proposto pelo governo seja correto. Ponto.

Quando a receita real do governo central crescia 7% ao ano, crescimento médio que foi quase o dobro do crescimento anual do PIB de 1999 a 2012, havia espaço para atender diversos pleitos. Isso acabou. A receita vai crescer muito pouco até 2018 e o governo precisa aumentar o seu primário para, no mínimo, 3% a 3,5% do PIB até 2018 se quiser estabilizar a relação divida bruta/PIB. Como isso não acontecerá, o ajuste fiscal, infelizmente, será ainda a pauta do próximo governo (2019-2022).

A pauta de ajuste fiscal é difícil e vai além da reforma da previdência. O problema é acreditar que uma pauta difícil possa ser aprovada no congresso quando se ler essa entrevista do senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Destaco um trecho da entrevista:

“Minha tese é que a pauta que a Dilma está escolhendo vai contra a gente. É um movimento, na minha avaliação, consciente por parte da presidente de se afastar das nossas políticas, dos nossos programas. A reforma da presidente colide diretamente com o movimento sindical, com as nossas bases. Estamos no meio de uma guerra, a guerra do impeachment. E tem uma luta nas ruas inclusive. A presidente escolheu uma pauta que vai contra os nossos.”

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O Brasil que dá certo. Será?

Alguém me mandou um link para um apresentação dos professores de economia  Bresser Pereira (FGV-SP), Leda Paulani (USP) e Guilherme Mello (Unicamp) – clique aqui. O que mais me assustou, além das teses  equivocadas dos três (eles devem achar a mesma coisa da minhas),  foram várias coisas.

(1) Bresser: saudades do passado: Bresser insiste olhar para o crescimento médio do Brasil de 1930 a 1980 para tentar justificar um modelo falido. Se fosse assim,  a União Soviética que cresceu 6% ao ano de 1928 a 1960 e depois entrou em uma longa estagnação seria também um modelo de sucesso e o socialismo lá deveria voltar.

O problema é que tanto no Brasil como na União soviética, o processo inicial de industrialização leva necessariamente a taxas elevadas de crescimento com a migração do setor rural para o setor urbano (industria). Mas esse tipo de crescimento sem inovação, sem educação  de qualidade e sem instituições inclusivas, o crescimento não se sustenta. Repetir o passado não nos levará a crescer mais rápido.

E sobre os nossos juros altos? o professor Bresser tem uma resposta: ‘Diz a direita que isso decorre do mercado, da necessidade de combater a inflação, tolices desse tipo, mas decorre fundamentalmente do controle que eles têm sobre o BC, sobre a mídia e o pensamento brasileiro”, disparou.”

(2) Leda Paulani: Não há caos na economia brasileira

A professora Leda Paulani da USP falou que: ” não há caos na economia brasileira. Pelo contrário, o país teria hoje uma economia estruturada, que viabilizaria uma capacidade de reagir a momentos como o atual. “Essa capacidade de reação, ao meu ver, só pode ser minada por fatores estranhos e aleatórios, que acontecem pelo caos que se passa hoje, não na economia, mas na política e nas instituições. É aí que tem caos”, opinou.”

Mas continua e fala que: “Terrorismo econômico é você exagerar tudo que é ruim: ‘a economia está indo para o caos, há deficit primário, isso nunca aconteceu desde 2002!’. E quando você compara com outros momentos ou outros países, você vê que não há motivos para o tamanho do escândalo e da gritaria que se fez”, disse. A professora citou, como exemplo, a relação dívida-PIB, que chegou a 62% no Brasil, mas, no Reino Unido, é de 90% e, no Japão, de 230%. “Esses 62% não é caos, não é barbárie. É terrorismo econômico”

Como é que uma professora de economia da uSo compara o nosso endividamento com aquele de países desenvolvido que pagam juros reais negativos? o endividamento médio dos países emergentes é 40% do PIB. O Brasil com uma divida bruta de 66% do PIB já tem um endividamento  muito acima dos países emergentes e tudo indica que romperemos a barreira dos 80% do PIB de dívida bruta em 2018 ou antes. Mas isso não é o caos. Talvez seja indicador de crescimento sustentável para a professora da USP.

(3) Guilherme Mello: ajuste fiscal forte em 2011 e captura

O professor da UNICAMP fala que: “Mas em 2011,  ela (Dilma) faz uma besteira, quando mais que dobrou o superavit e cortou o PAC. Havia uma série de investimentos planejados, que de repente desapareceram do horizonte. Fez isso para conter a inflação, mas também como estratégia: ‘eu vou entregar o fiscal, para poder baixar os juros’.” Para o professor, tal estratégia não deu certo, uma vez que os juros de fato baixaram, mas logo tornaram a subir.”

Se ele olhasse os dados viria que o aumento do primário, em 2011, veio do forte aumento da arrecadação em decorrência do efeito defasado do crescimento de 7,6% de 2010 na arrecadação. Para comparar os dados, tem que retirar de 2010, a capitalização da Petrobras. Não houve corte forte de investimento que passou de 1,1% do PIB, em 2010, para 1% do PIB em 2011.

Ainda tem essa: “Segundo ele, Dilma não produziu uma política econômica tresloucada, como alguns apontam. “Você tinha três motores: consumo, setor externo e investimento. O ciclo de consumo ia acabar, o setor externo estava dando marcha a ré. Sobrou o quê? O investimento. Aí a Dilma tomou uma decisão de apostar no investimento privado”, destacou o professor, fazendo críticas a esta escolha. Para ele, houve um erro de avaliação de Dilma.”

Bom, se apostou no investimento privado fez de forma errada com marcos regulatórios que afugentaram os investidores. Além do mais, no seu primeiro mandato, a presidente apostou  na Nova Matriz Econômica que herdou do Lula e aprofundou e que teve impactos negativos na Petrobras, setor elétrico, aumento de proteção e aumento do gasto publico que transformou um superávit de 3,1% do PIB, em 2011, em um déficit primário de 0,6% do PIB em 2014.

Resumo: Respeito opiniões divergentes. Mas não concordo com o diagnóstico dos três professores de três universidades importantes do Brasil: FGV-SP, USP e UNICAMP. Escuto muita gente falando mal de politicos que não são economistas, e o que podemos falar de economistas de universidades importantes que colocam como causa dos problemas do Brasil a direita e a burguesia?

O mais interessante é que, quando o governo que eles gostam erra várias vezes, falam em captura do setor público pelo setor privado que engana, corrompe e, porque não dizer, “mata”. É isso. Da para ser otimista? Não. “Maldito setor privado”.

Projeção de Superávit primário janeiro 2016

O jornal valor econômico publicou, nesta quarta feira, algumas projeções de mercado para o resultado primário de janeiro de 2016 que será divulgado nesta quinta-feira. As projeções do mercado estão excessivamente otimistas, com exceção da Rosenberg Associados que está excessivamente pessimista.

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Fonte: Valor Econômico

Qual a minha estimativa? R$ 7,9 bilhões, um resultado primário positivo, mas pior  do que o ano passado quando o superávit primário foi de R$ 10,4 bilhões. O primário deveria ter sido maior porque, em janeiro deste ano, o governo teve uma recita extraordinária de R$ 11 bilhões dos leilões de hidrelétricas.

E porque o primário não foi melhor? porque o governo central teve também duas despesas extras bem elevadas: (i) pagamento de subsídios de R$ 11 bilhões ante R$ 875 milhões no mesmo mês do ano passado, e (ii) pagamento de abono salarial de R$ 3,2 bilhões, ante R4 100 milhões em janeiro do ano passado.

Assim, minha aposta é primário de R$ 7,9 bilhões. Mas não me assustaria se o dado for pior.

 

 

Jânio Quadros e o preço da gasolina

Quem assitiu recentemente alguma das palestras do ex-minitro do STF, Nelson Jobim, provavelmente escutou um história interessante. O ex-ministro conta uma historia que escutou do saudoso economista Roberto Campos  quando este era assessor do Ministro da Fazenda do Presidente Jânio Quadros, Clemente Mariani.

Roberto Campos mostrou certa ocasião para o Ministro Clemente Mariani a necessidade da Petrobras aumentar o preço da gasolina. O ministro falou que ele, Roberto Campos, deveria fazer uma apresentação e convencer o presidente Jânio Quadros da necessidade de tal medida.

Roberto Campos foi com o Ministro da Fazenda ao Presidente da República Jânio Quadros e fez a apresentação da necessidade de aumentar o preço da gasolina. Em certo momento, achou que o presidente Jânio Quadros não estava muito interessado e concentrado no assunto e, assim,  resolveu pular parte da apresentação.

No final, o presidente Jânio Quadros perguntou exatamente pontos da parte que Campos havia pulado e, para supresa ainda maior do economista, fez uma pergunta inusitada: “professor, quem são os inimigos?”  Campos não soube reponder e, o presidente, pediu que ele pensasse no assunto. No dia seguinte, como Roberto Campos não encontrou a resposta, o presidente Jânio Quadros pediu que ele o escutasse na rádio em cadeia nacional às 18:00 hs.

Roberto Campos, no Rio de Janeiro, pediu ao taxista que ligasse o rádio na hora marcada e, para sua surpresa, escutou o presidente Jânio Quadros falar por mais de 30 minutos contra os EUA e os interesses imperialistas dos americanos que queriam quebrar todas as companhias de petróleo e dominar a energia do mundo. Assim concluiu o presidente Jânio Quadros, para ir contra os interesses americanos, o Brasil aumentaria o preço da gasolina.

O taxista se virou para Roberto Campos e falou: “Está vendo doutor. Esses americanos são de lascar. É ruim aumentar o preço da gasolina, mas o presidente está correto em fazer isso para barrar os interesses desses americanos no mundo”.

O presidente Jânio Quadros, espertamente, criou um inimigo imaginário para tornar viável uma medida impopular. Aqui, ao invés de criarmos inimigos imaginários para justificar as reformas necessárias, estamos assistindo uma parte da esquerda criar inimigos imaginários para não fazer nada. Antes a culpa da recessão era do Joaquim Levy, agora é da China, tem também as  multinacionais que querem se apropria do pré sal, etc.

O Brasil está um situação ruim e ainda tem pessoas que acham que a crise é inventada pela imprensa e por análises pessimistas.  Assim, continuaremos em um cenário mediocre se isso não mudar e, o ideal, seria termos debates claros e transparentes sem a necessidade de criar inimigos imaginários para aprovar ou bloquear medidas importantes.

PLs 131/2015 – Kit Sobrevivência

Com já falei nos posts anteriores, está em debate hoje no Senado Federal o PLs 131/2015, de autoria do Senado Jose Serra (PSDB-SP) que acaba com a obrigatoriedade da Petrobras ser operadora única do Pré Sal e investir pelo menos 30% em todos os campos no regime de partilha.

De acordo com os argumentos de alguns senadores que são contra o projeto, se o PLS 131/2015 for aprovado, segundo eles, as multinacionais tomariam conta do Brasil, haveria uma forte desindustrialização, a nossa soberania estaria em risco, etc.

Já pedi hoje aqui em casa para todo mundo ficar em silêncio para não chamar atenção das multinacionais “estrangeiras”. Tem ainda esse fato irônico. Parte da esquerda quando critica multinacional critica a “multinacional estrangeira“. E ser for multinacional brasileira criada com incentivos do governo ? Neste caso tudo bem.

De qualquer maneira, se alguém acreditar nos argumentos de parte da esquerda no Senado Federal, acho bom se preparar para o caos. Vou fazer um serviço de utilidade pública. Há vários endereços na internet, principalmente nos EUA, que vendem um espécie de Kit sobrevivência. Segue foto abaixo.

Uma observação. O kit custa mais de US$ 8 que, segundo os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Roberto Requião (PMDB-PR), é custo de extração de um barril de petróleo pela Petrobras no Pré Sal. Me desculpem, mas só brincando para aguentar as teorias de conspiração de parte da esquerda do Brasil que, ao invés de olhar para os erros que fizemos de política econômica desde 2008/2009, ficam atrás de um bode expiatória para culpar as grandes potências pelas nossas mazelas.

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