O Estado santificado

Há tempos não leio um artigo tão espetacular, daqueles que é uma verdadeira aula de história, como este do cientista político,  professor da Universidade Federal de Pernambuco e amigo Marcus Melo. 

O artigo, publicado hoje na Ilustríssima – clique aqui- contesta a tese do atual presidente do IPEA, Jesse de Souza, que afirmou em entrevista na mesma Ilustríssima em edição passada que, no Brasil, o Estado era satanizado – clique aqui. 

É justamente o contrário como prova Marcus Melo. No Brasil, sempre tivemos excesso de Estado, com uma elite estatal que arbitrava decisões que deveriam ser tomadas pela sociedade. O problema não é a demonização do Estado, mas sim a sua santificação. Transcrevo abaixo o ultimo parágrafo do artigo: 

” A forte tradição iliberal é a grande vencedora no processo histórico de construção do Estado no país. Sustentar o contrário é perder de vista o essencial: as instituições políticas brasileiras foram forjadas a partir de uma profunda rejeição de uma visão liberal “latu senso”. As raízes do Brasil político e econômico não estão fincadas na demonização do Estado: pelo contrário, estão profundamente imbricadas na sua santificação. A transição começou, embora a grande variedade de sintomas mórbidos cause perplexidade.” 

Por favor, leiam este artigo. 

 

8 pensamentos sobre “O Estado santificado

  1. Em que continente este cara (Jesse de Souza) vive?
    É só sair pelas ruas e contar quantas vezes você ouve expressões como “o governo devia proibir”, “o governo devia fazer alguma coisa” etc. etc.

  2. Mansueto, tenho acompanhado as reações a “entrevista” do Jesse Souza, FSP de 10/0’1, “Tolice pré-fabricada”, aliás uma tolice recalcitrante. O Demétrio Magnoli já havia rebatido no dia 16/01 na mesma FSP. Esse texto do Marcus Melo, com domínio peculiar, traduz o sonho da dita esquerda brasileira apenas como uma mudança de guarda; …antes eles, agora nós… aleluia!

  3. ótima ideia Mansu…colocar ambos para cotejo…tem também a crítica ao livro na Veja desta semana e o artigo do Demétrio…caso vc pudesse colocar os links também…

  4. Pela primeira vez entendi plenamente a piada psicossomática que o Rodrigo Constantino repete diariamente: “tomar um Plasil, um Engov, antes de ler”.
    Deu certo enjoo. De verdade.

  5. Mansueto, vi sua entrevista no estadao. Pq se fala tanto de superavit primario e se ignora o nominal que ta extremamente alto mesmo desconsiderando os gastos com swaps?

  6. “O Estado que nasce a partir da Independência será fortemente marcado pelas exigências do liberalismo moderno. A montagem de um aparelho estatal capaz de implementar uma ordem legal será um dos pontos centrais na agenda de conservadores ou de liberais. Entretanto, o liberalismo mobilizado pelas elites imperiais excluía da participação política as classes subalternas, fato que limitava o alcance da implementação da ordem legal. o Poder central teria um papel civilizador frente à sociedade, e neste sentido, ligado às ideias liberais. (…) a sociedade brasileira era fortemente marcada pelo facciosismo local, que buscava usar o aparelho público para perseguir adversários políticos e proteger aliados. Conforme as palavras de Oliveira Vianna, uma sociedade clânica e parental. Neste contexto, o Estado poderia vir a ser um fator de garantia contra a arbitrariedade da facção. Para os centralizadores, a expansão da máquina estatal pelo território nacional está umbilicalmente ligada à introdução de valores que não estão presentes na sociedade brasileira; aí presente a ideia de um aparelho judiciário neutro frente ao localizo e o seu papel no sentido de fazer com que os direitos civis fossem assegurados independentemente da filiação a um dos grupos políticos da localidade.” Marcus seria mais honesto se tivesse indicado a leitura de Evaldo Cabral de Mello Neto, ao invés de repetir de fio a pavio a tese do grande historiador pernambucano. Tese por sinal refutada pelo trabalho de Ivo Coser:”O pensamento político do Visconde do Uruguai e o debate entre centralização e federalismo no Brasil (1822-1866)”
    No essencial, o texto de Marcus tenta criar uma empulhação subliminar reversa: “O Estado é um vilão e o mercado é um bom mocinho.” Algo um tanto ralo, sem substancia e que pode ser rebatido numa simples consulta aos bons livros de história americana. Em nenhum momento da dita tradição liberal americana a autonomia garantida aos estados foi capaz de livrar aquele pais da corrupção, do patrimonialismo e do excesso de autoridade estatal. Basta pesquisar o governo de Andrew Jackson, o sétimo presidente dos Estados Unidos, para se dar conta deste disparate. Certamente na historia do Brasil governos corruptos colocaram-se acima ordem política e institucional da nação ao ocupar os espaços da máquina pública e tornar privado aquilo que é bem comum. No entanto, na nossa história nada pode ter sido tão cínico e descarado como o “Spoils System” instituído por Jackson. A frase que resume e que apresenta a sua relação com o Estado foi: “To the victor belong the spoils”. A situação de ocupação do aparato estatal por grupos privados chegou a um nível tão grande deterioração e “institucionalização” que, quase quarenta anos após o mandato de Jackson, é possível encontrar em certos textos uma anedota atribuída a ninguém menos do que Abraham Lincoln que afirmou a um de seus secretários: “desconfio que até a faxineira da casa branca seja uma indicação de algum partido.” Quanto a tese do Evaldo, apresentada as escondidas, na moita pelo professor Marcus Melo, esta toma como ponto de partida ideia de que ja existia antes da constituição de 1823 algo chamado Brasil, e que o movimento conservador (malvado, estatista e nacionalista ingênuo) apenas deslocou monopólio da força e do terror estatal de Lisboa para o Rio de Janeiro, garantindo assim interesses elitistas e que feriam a autonomia das províncias e dos indivíduos. Nesta visão a independência representava as aspirações de um federalismo de matiz liberal. Algo que a dita constituição havia negado. Bem a discussão em bem longa, e não pode sob pena de perdemos de vista o que significa isto que chamamos de Brasil ou Estado brasileiro. Não se pode esconder por trás de falsas mascaras o passado pois o risco aqui é de que: “sero sapiunt Phryges”. Portanto, trata-se de ler o livro de Coser para que se possa construir uma imagem em contraste.

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