Os economistas do bem

A ciência econômica é um ramo da ciência bastante infeliz. Para começar, muitos nem aceitam que a economia seja ciência, pois suas teorias são baseadas em hipóteses comportamentais de seres humanos que não são possíveis de replicar em um laboratório.

É claro que, ao longo do tempo, economistas desenvolveram técnicas estatísticas para fazer experimentos controlados, por exemplo, no caso de avaliação de políticas públicas. No entanto, mesmo assim, somos ainda dependentes da famosa hipótese “tudo o mais constante” na construção dos modelos e testes empíricos. Economia não é um ciência exata. Nós economistas sabemos disso.

No entanto, já há muita experiência acumulada e teorias que, se não explicam tudo, são bons indicadores do que se deve e o que não se deve fazer. Mesmo assim, há economistas que insistem em velhos dogmas ou buscam algo inédito, que não é necessário, para solucionar as mazelas do Brasil. Vou denominá-los aqui “economistas do bem”.

No caso da economia brasileira, as supostas soluções mágicas são muitas. Nessa lista destacam-se a expansão do gasto público para promover crescimento, o aumento da carga tributária sobre os mais ricos e redução forçada das taxas de juros.

Em relação à expansão do gasto público, esse remédio poderia funcionar em um país com elevado desemprego, inflação muito baixa, juros reais próximos de zero e com elevada capacidade de endividamento. Esse não é o caso do Brasil. Em apenas três anos, de 2012 a 2014, o Brasil experimentou cortes de impostos e uma forte expansão da despesa não financeira do setor público de quase 5% do PIB (incluindo aqui as pedaladas fiscais), algo próximo a R$ 300 bilhões.

Uma autêntica política Keynesiana, cujo resultado foi um grave desequilíbrio fiscal e uma longa recessão que teve início no segundo trimestre de 2014, quando o crescimento da despesa pública estava em pleno vapor. Ao invés de despertar o espírito animal, a política Keynesiana de 2012 a 2014 despertou o medo que o Brasil replique a experiência da expansão da dívida, na segunda metade dos anos 70, seguida por uma década perdida de estagnação da renda per capita.

No caso do aumento de impostos, a solução mágica dos economistas do bem concentra-se na criação de uma faixa nova de tributação do imposto de renda, com alíquota de 40%, e tributação dos dividendos. Nesse debate, raramente se explicita que o maior problema no caso do pagamento de dividendos, por exemplo, é a isenção dos dividendos pagos pelas empresas no regime de lucro presumido e do Simples; empresas que, muitas vezes, são constituídas por poucos sócios, sem empregados, e que têm carga tributária inferior a empresas no regime de lucro real que já pagam imposto de renda de 34% sobre o lucro, um taxa semelhante a cobrada em muitos países. Assim, tributar dividendos é possível, mas o potencial de arrecadação não será tão grande como muitos querem acreditar.

O problema maior do Brasil hoje é que, dada a dinâmica atual do gasto público, seria necessário um forte aumento de impostos para perto de 40% do PIB nos próximos cinco anos para conciliar superávit primário de 2% do PIB com a expansão do gasto público. Isso significa a necessidade de uma receita extra de, pelo menos, R$ 300 bilhões ao ano.

Não é preciso dizer o quão desastroso seria, dado o nosso nível de desenvolvimento, aumentar a carga tributária no Brasil para mais de 40% do PIB. Apenas países de elevada produtividade suportam carga tributária tão elevada e este não é o nosso caso.

Por fim, há ainda a solução mágica preferida dos “economistas do bem”: reduzir fortemente as taxas de juros. As taxas de juros no Brasil são elevadas? Sim, são muito elevadas. No entanto, mesmo uma taxa de juros de 14,25%, em 2015, não foi excessivamente elevada para uma inflação que, em 2015, foi de 11%. Será que alguém estaria disposto a financiar o governo brasileiro a uma taxa de juros real “zero”?

O que teria acontecido com a inflação, em 2015, e a esperada para 2016, se o governo tivesse mantido no ano passado a taxa de juros no mesmo valor de dezembro de 2014: 11,1% ao ano? Possivelmente, a inflação teria sido maior bem como a desvalorização do Real. No final, os juros mais baixos se transformariam em um Real mais desvalorizado, inflação maior e em uma maior parcela da divida indexada à inflação e, assim, o crescimento da dívida pública seria o mesmo ou até pior.

Na verdade, a redução forçada da taxa de juros para 7,25% aa, em 2012, exatamente como defendiam os “economistas do bem”, nos legou inflação mais alta e taxa de juros elevadas, ou seja, não funcionou. Por que agora seria diferente? A economia não precisa ser uma ciência exata como a física para responder esta pergunta.

A verdade incômoda é que, mesmo com a taxa de juros Selic em 14,25% ao ano, não há segurança para o financiamento da nossa imensa dívida bruta, que já é a maior do mundo entre países emergentes, e com a tendência de crescimento para perto de 75% do PIB este ano.

Todos almejam o crescimento sustentável da renda per capita, redução das desigualdades e redução da pobreza. No entanto, os economistas do bem acreditam que mais tributação, expansão do gasto público e redução forçada dos juros resolveria o nosso grave desequilíbrio fiscal. Outro grupo, no qual me incluo, advoga um conjunto de politicas diferente que começaria com o aumento do superávit primário por meio da redução do gasto público, inclusive, com aprovação da reforma da previdência e rediscussão dos mecanismos de vinculação da receita e indexação da despesa.

A redução dos juros seria consequência do aumento do primário e, com a queda da despesa publica (% do PIB) ao longo do tempo, poder-se-ia discutir o aumento da carga tributária para os ricos e redução de impostos indiretos. Infelizmente, não há mágica que possa resolver, rapidamente, o nosso desequilíbrio fiscal, apesar da retórica fácil dos economistas do bem.

26 pensamentos sobre “Os economistas do bem

  1. É, mas os problemas dos economistas do Bem é a insistência em negar o sistema, que vivemos em 2015, com um mundo globalizado, em que as expectativas são ajustadas a todo segundo e que ninguém é enganado com medidas econômicas irracionais. Continuam a viver no próprio mundo e a perseguir o mesmo erro. É por isso que ninguém vê perspectiva nesse governo.

  2. Bom dia Mansueto,

    A propósito, qual a atualidade do documentário “ O Brasil deu Certo, e agora? ( organizado em 2013 pelo ex ministro Maílson da Nóbrega ).

    Ressalto que ainda não assisti – tenho uma lista gigantesca de livros e vídeos, mas agora, estou estipulando prazos para dar conta disso tudo. A crise atual não foi prevista pelos entrevistados ? Ora, o Brasil crescia “lastreado” pelo crédito. 2013, não era cedo demais, para dizer que deu certo?

    Sou economista por formação, mas não exerço a profissão. No entanto, me arrisco a escrever sobre temas econômicos de vez em quando. Vou postar um link de uma crônica para 2016, que publiquei num blog criado no final do ano passado, destinado a temas breves. Ali, há uma sugestão sobre como fazer o pais crescer. Em seguida, o link de outro blog, onde escrevo – raramente – há cinco anos, em que falo do mesmo assunto com mais detalhes. Verá que é um tema pouco explorado.

    Feliz 2016 !

    A crônica de ano novo…

    http://edupere64.blogspot.com.br/2015/12/em2016-conserte-suas-calcadas.html

    O mesmo tema, tratado com mais detalhes…

    https://algosolido.wordpress.com/2010/12/12/mais-filhos-para-o-mundo/

    • Eduardo, esse documentário do Mailson é até mais otimista do que eu esperava. O Brasil deu certo no sentido que o país melhorou em relação, por exemplo, aos anos 80. Mas se a base de comparação for 2008/2009 não há dúvidas que pioramos.

      Hoje nossa capacidade de crescimento é menos do que há seis anos atras e estamos mergulhado em uma trajetória medíocre de crescimento com o risco de ter uma década perdida. Então, teremos ainda que fazer muita coisa para o país dar certo, o que significa para mim um pais que tem condições para, pelo menos, duplicar sua renda per capita em 35 anos ou menos.

  3. Mansueto sou engenheiro e quero inovar e construir coisas com valor para o mercado interno e externo. Porque o governo não elimina carga tributaria de importação em bens de tecnologia? Porque não revoga a arcaica “Carta del Lavoro” para funcionários em empresas de tecnologia? Ao invés de ficarmos falando economês que tal fazer algo concreto pelo crescimento tecnológico-produtivo neste país? Para engenheiros de inovação o Brasil é uma grande PAPUDA feudal.

    • O governo na verdade voltou a aumentar a carga mesmo nos produtos que haviam sido favorecidos em 2004 pela Lei do Bem. No Brasil se dificulta muito importação de bens de tecnologia e há um lobby forte contra a redução desses impostos.

  4. Mansueto: há algum motivo conceitual para o aumento de impostos para os mais ricos ter que esperar o ajuste fiscal de curto prazo, como subentendido do final do seu texto? É óbvio que o aumento da progressividade dos impostos não é solução em si para a dívida pública, mas há algum impedimento de fazê-lo no curto prazo junto com as medidas de diminuição dos gastos, de forma a não aumentar ou aumentar o mínimo possível a carga tributária?

    Aliás, sobre a desigualdade e gasto público, tem algum trabalho econômico academico que aborde o problema exposto nesse post: http://sambadoaviao.blogspot.com.br/2014/07/mais-medicos-mais-caros-ou-de-como.html?m=1?

    • O aumento dos impostos sobre o mais ricos pode ser feito em conjunto com o controle da despesa. Mas sem mudanças da dinâmica da despesa, teremos que tributar mais os ricos e o pobres. Mas o debate de tributar os mais ricos acho que deveria ser acompanhado de um debate de redução de impostos indiretos. O debate que estou lendo na empresa é diferente: (1) aumentar impostos dos ricos; (2) não reduzir impostos indiretos; e (3) aumentar a despesa e não mudar nada nas regras de indexação e vinculação da despesa.

  5. Talvez o ideal, pensando pelo prisma político impactando no econômico (até porque em última instância são os políticos que tomam as decisões), seria a ruptura do governo por via do impedimento, e, que, nos levaria a novas eleições dado o nível de comprometimento generalizado das peças principais da elite política nacional com o sistema estabelecido que tenderiam a cair uma a uma. Essa substituição geraria novas expectativas aos agentes, considerando que os economistas opositores aos economistas do bem ocupassem os espaços principais, vide o ministério da fazenda principalmente e sua equipe. A partir da mudança política, com respeito as regras democráticas, poderíamos, em algum nível mínimo, iniciar um processo de recuperação de credibilidade internacional. Enquanto tivermos uma discussão pública entre governo e PT (partido do próprio governo) tentando se entender sobre qual politica inflacionista adotar, o fenômeno incerteza será o principal balizador dos agentes, e, não há “espírito animal” empreendedor que sobreviva a tamanho caos.

  6. Só uma perguntinha, no nosso caso, com o consumo tão baixo, qual o motivo para a subida do juros se a inflação só sobe, seria pelo não consumo? Nesse caso os juros são a causa da inflação. Me parece que vendendo menos a inflação é provocada pela queda no consumo com a tentativa de equilibrar o faturamento, um ciclo vicioso.

    • Juros não são causa da inflação. Se os juros reais fossem “zero” a inflação seria maior. O que é surpreendente é a inflação de preços livres (sem preços administrados) estar ainda em 8% ao ano apesar da forte recessão. Ao que parece, empresas no setor de serviços ainda encontram espaço para reajuste de preços. Sera muito difícil trazer a inflação para menos de 5% ao ano. E o fato de ninguém conseguir enxergar o ajuste fiscal piora a situação.

  7. Boa Tarde Mansueto, a alta taxa de juros (inibindo consumo e investimento internos) combinado com processo de desindustrialização brasileiro dos últimos anos e desvalorização cambial (com cenário temeroso de fortalecimento internacional do dólar) que reduz ainda mais a oferta interna, aliado, a falta de perspectiva em relação a mudança de horizonte quanto a curva de oferta de longo prazo dado a irrealização de medidas estruturais (reformas regulatórias em setores econômicos essenciais ao desenvolvimento econômico) por parte deste governo (em termos práticos), você acredita, dentro do quadro atual, em alguma mudança de rumo da politica econômica que nos traga ao centro da meta?

    • As taxas de juros elevadas são resultado dos erros passado que apareceram na forte queda do PIB e resultado primário negativo. O problema principal não é o juros. Juros em 2012 estava em 7,25% e nem por isso passamos a crescer mais rápido. Precisamos retomar uma ampla agenda de reformas: regras claras para novas concessões, mudanças nas regras de indexação e vinculação da despesa, simplificação tributaria, forte redução das exigência de conteúdo nacional, aprovar o projeto de mercerização, etc. No quadro atual nem vejo muito apetite para reformas e nem redução da inflação para a meta que acho que ficará para po proximo governo.

  8. “As leis matemáticas que regem o jogo de cara ou coroa repousam no fato de que “a moeda não lembra” que saiu coroa três vezes seguidas, as probabilidades na quarta jogada continuam sendo 50%.”

    Mas o mercado ( e tbm famílias, indivíduos e empresas ) TEM MEMÓRIA. Às vezes uma tendência se mantém apenas porque as pessoas esperam (ou temem) que isso aconteça.

  9. Simplificando e descomplicando é o que uma família endividada e que gasta mais do que ganha teria que fazer para restaurar seu crédito e seu bem estar.

  10. Capital de giro

    REPASSANDO…
    O que significa ”CAPITAL DE GIRO”
    Um viajante chega numa cidade e entra num pequeno hotel. Na recepção entrega duas notas de R$ 100,00 e pede para ver um quarto. Enquanto o viajante inspeciona os quartos, o gerente do hotel sai correndo com as duas de R$ 100,00 e vai até o açougue pagar sua divida com o açougueiro.
    Este pega as duas notas e vai ao criador de suínos a quem, coincidentemente também deve R$ 200,000 e quita a divida. O criador, por sua vez, pega também as duas notas e corre ao veterinário para liquidar uma divida de R$ 200,00.
    O veterinário, com as duas notas em mãos, vai até uma boate quitar a divida com uma das moças que ali prestam serviços. Coincidentemente, a divida era de R$ 200,00.
    a moça sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar onde, ás vezes, levava seus clientes e que ultimamente não havia pago pelas acomodações. Valor total da divida: R$ 200,00. Ela avisa ao gerente que está pagando a conta e coloca as notas em cima do balcão.
    Nesse momento, o viajante retorna dos quartos, diz não ser o que esperava, pega as duas notas de volta, agradece e sai do hotel. Ninguém ganhou ou gastou nenhum centavo, porém agora toda a cidade vive sem dividas, com crédito restaurado e começa a ver o futuro com confiança.
    Moral da Historia: ” Não queira entender Economia”

  11. Boa tarde Mansueto,

    Há uma discussão levantada por alguns grupos que sugerem uma revisão da dívida pública. Esta revisão poderia aliviar a necessidade da geração do superávit fiscal?

  12. em relação à tributação dos ricos, é bom lembrar de que a arrecadação do Imposto Territorial Rural é praticamente nula neste país, com tanta terra e uma péssima distribuição da propriedade…além disso, a parte da Previdência deficitária também é da área rural…onde há um contingente muito baixo de pessoas trabalhando…então, essas duas coisas deveriam ser alteradas…isso, se a bancada ruralista deixar…

  13. Não é muito fácil mensurar os efeitos da cobrança de mais imposto de renda sobre dividendos, em particular pelo problema que você citou. Você tem algum chute do tamanho disso? Quem é mais importante hoje, os que já pagam imposto sobre dividendo em % compatível com o resto do mundo ou os que não pagam?

  14. O principal problema econômico do país é o próprio governo, que não goza de nenhuma credibilidade. Há necessidade de extirpá-lo para que a credibilidade retorne e assim novos ventos possam levar a nação a um outro patamar. Com essa ruma de incompetentes usando discursos populistas vamos continuar sangrando.

  15. A “CIÊNCIA” ECONÔMICA A DESCOBERTO. The Journal of Economic Perspectives, um dos mais relevantes periódicos científicos do mundo na área econômica, publicou em seu último número (winter 2015) um trabalho que revela que 77% dos alunos de doutorado em economia das mais prestigiosas universidades dos EUA pensa que “a economia é a ciência social mais científica”. Entretanto, tão somente 9% dos entrevistados afirmam que há consenso a respeito de como responder perguntas básicas da ciência econômica. Com essa confirmação, parece que chegou o momento dos economistas trocarem o ar de superioridade e a arrogância intelectual por uma atitude mais humilde, e ver o que podem aprender com os outros…https://www.aeaweb.org/articles.php?doi=10.1257%2Fjep.29.1.89&fnd=s

  16. Uma questão além de quem tributar seria também dar uma racionalidade ao sistema. Eu acho que as pessoas não tem noção das dificuldades que uma empresa passa por pura burocracia irracional.
    Se eu emito uma nota fiscal com substituição tributária ou diferencial de alíquota e meu cliente não paga, este imposto é perdido para sempre.
    A complexidade do nosso sistema tributário não transfere renda, ele é neutro neste ponto. Prejudica ricos e pobres igualmente.
    Existe um ponto em que podemos ser otimistas. Existem tantas pequenas coisas que poderíamos fazer, tantas ineficiências que podemos eliminar que poderíamos ganhar alguns pontos, nem que 0,5%, de aumento do PIB só com estas medidas.

  17. Os entraves são, para muitos, uma tautologia. Porém, não há saídas possíveis que possam promover, ao longo do tempo, a redução do endividamento público e dos gastos públicos. Contra isso há o argumento dos que bradam ser contra a redução das benesses sociais. Ora, se não dá para fazer as duas coisas, redução da dívida pública e aumentos dos gastos sociais, caberia ao dilema de Damocles resolver o assunto. Por exemplo, todos os gastos estatais são necessários? Se forem, como ainda podemos ter gastos tão elevados e morros apinhados de pessoas, ribeirinhos em situação de insalubridade, periferia sem condução, escolas, assistência médica pública, segurança e segue um rosário de mazelas. Além de bons economistas, que os temos, falta o estadista, que não temos.

  18. Não entendo porque o artigo chama essa turma de “economistas do bem”. Eles só fazem absurdos e ajudam a destruir o país. Pra mim eles deveriam ser chamados “economistas do mal”. Aliás, “povo do mal” é comi eu chamos os esquerdistas. Acho muito apropriado.

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