Controvérsia: porcos, ovelhas e outros bichos

Não tinha prestado atenção a essa polêmica. O economista Alexandre Schwartsman escreveu um texto na sua coluna semanal na Folha de São Paulo, “O Porco e o Cordeiro”, uma fábula econômica com um diálogo entre animais (ver aqui).

Um grupo de economistas e não economistas ficou irritado e enviou uma “Nota de Repúdio” contra Schwartsman à Folha de São Paulo (ver aqui). Pelo que entendi, o grupo de 154 profissionais que assinam a nota  reclamam da linguagem cifrada e, segundo eles, desrespeitosa, com que Schwartsman trata as pessoas de quem discorda.

Ao que parece, Schwartsman poderia ter “agredido de forma respeitosa”, chamando essas pessoas idiotas, mas jamais usando uma fábula, comparando as pessoas a animais. A crítica é essa? Pelo amor de Deus.

O interessante é que muitos dos que assinam a Nota de Repúdio não são também muito educados no debate público e costumam usar adjetivos bastante fortes para descrever ideias com as quais não concordam, seja em artigos, seja nos posts nas redes sociais.

Por exemplo, em entrevista em abril de 2015, o professor Belluzzo disse que muitas pessoas que saíam da USP eram “idiotas fundamentais”, como dizia Nelson Rodrigues (ver aqui), porque não aprendiam história e sociologia. Isso não seria uma ofensa para alguns ex-alunos de economia e engenharia da USP? Será que os físicos da USP seriam idiotas fundamentais? Será que quem discorda das ideias do professor Belluzzo seria um idiota fundamental? Ou só idiota?

O professor licenciado da USP, Carlos Eduardo Gonçalves, escreveu um post sobre essa polêmica no seu Blog no Estadão (clique aqui). O post é  curto e vai direto ao ponto. Concordo com Carlos Eduardo.

Schwartsman escreve bem, em geral está correto e muita gente, eu inclusive, aprende com seus artigos. É um grande economista que contribui MUITO para o debate. Ele tem um estilo agressivo como Paul Krugman, que, aliás, muitos dos que assinam a Nota de Repúdio adoram.

A Folha de São Paulo tem dado bastante espaço para ideias divergentes, algumas das quais  bastante malucas na minha opinião. Nem por isso há um abaixo assinado pedindo para que a Folha não publique certas ideias malucas.

O ideal é que no debate de ideias houvesse respeito de ambos os lados. Mas talvez uma parte dos economistas mais ortodoxos esteja cansado de ser chamado de idiota neoliberal, defensor de banqueiro, etc. por algumas pessoas que se auto denominam “intelectuais” e que se acham de esquerda porque defendem aumento do gasto público. Seriam “idiotas fundamentais” como fala o professor Belluzzo?

O nível do debate no Brasil é tão superficial  que, se você defende aumento da despesa pública, juros subsidiados, forte intervenção do governo na economia, proteção comercial, etc. é visto como uma pessoa boazinha, mesmo que quebre o país.

Mas se você prega austeridade, fim de subsídios para ricos, maior abertura comercial, aponta vários erros de politica econômica, etc. é taxado de entreguista, neoliberal burro, pessimista, etc.

Dada a maior exposição dos nossos jovens ao que vem lá de fora e um maior intercâmbio com o resto do mundo, com o tempo, teremos a chance de melhorar o debate aqui dentro. Enquanto isso, talvez não seja recomendável esperar  que os economistas liberais baixem a cabeça e aceitem ser xingados por se manifestar contra ideias que consideram equivocadas.

33 pensamentos sobre “Controvérsia: porcos, ovelhas e outros bichos

  1. Nome disso é tentativa de CENSURA, pura e simples. E só poderia vir mesmo dessa bandalha…
    E quem está mais próximo da definição rodrigueana é o próprio Doutor Bellezza, como diz Schwartzman. Só não o considero perfeito para a descrição porque antes de tudo, o ilustre professor é um completo PICARETA!

  2. Muito adequados os seus comentários, Mansueto. O patrulhamento ideológico realizado por militantes vermelhos seria patético, se não fosse patológico. Na fábula em questão, A. Schwartzman descreve com simplicidade e consistência o caos econômico promovido pelos asseclas da presidentA. Por sinal, os artigos de Schwartzman têm se tornado uma agradável ilha de bom senso na Folha de SP. Por sinal,também recomendo o último texto dele (Barboosa – ou o ministro irrelevante).

  3. Mansueto (e Roney Maurício):

    Sou seguidor e fã do Alexandre, mas isso não me impede de concluir que ele, no presente caso/artigo, avançou (em muito) o sinal vermelho.

    Mais do que deselegante ou mal-educado, seu artigo foi injurioso. Perpetrou crimes contra a honra mesmo. Ou chamar o Guido de “jumentinho Italiano”, e a Leda Paulani de leitoa se encontram dentro da esfera de mera crítica?

    Não se pode confundir liberdade de expressão ou divergência de opinião com crime contra a honra, quando se passa à agressão gratuita ao outro.

    Observe-se que, ao se chamar os economistas ortodoxos, em geral, de ” “muitos que se formam na USP” de idiotas, não se está individualizando quem seria o idiota, não se está imputando a qualidade negativa a X ou Y, pessoa determinada e, com isso, o próprio xingamento, por assim dizer, “se dilui” na própria generalidade da imputação.

    Muito diferente do artigo do Alex (veja que no blog dele, há links que conduzem a artigos de autoria das pessoas chamadas de “leitoa”, “porco”, etc), em que não há dúvidas de quem a ele quer se referir com os citados epítetos.

    Enfim: lamentável a situação, em que um PhD chega a esse ponto, de utilizar-se de espaço na grande mídia nacional para xingar o outro de quem discorda. Onde chegamos!? Tristes trópicos…

    • Pobre é o país em que fábulas são consideradas de mau-gosto. E é disso que se trata, uma fábula, uma alegoria. Não saber ler o texto do Alexandre com a leveza necessaria resulta nisso, essa visao torta.

      De resto, o porco entrou na história porque um dos expoentes maximos da heterodoxia brasileira foi presidente do Palmeiras o time do porco. Com os resultados conhecidos, diga-se. Fosse ele presidente do Corinthians (doce esperança), a fabula falaria dos gambás e dos cordeiros. Poderia ser também dos bambis e dos cordeiros… Enfim.

    • Acho que os senhores que acham que o Alexandre pegou pesado deveriam ler mais, da bíblia aos clássicos modernos. Este artificialismo educacional é que chegou a um patamar ridículo e indica a manifestação ou de ignorantes das nuances da língua ou usuários afetados que foram alvos das mesmas táticas que empregam.
      Além disso, a assinatura de 154 profissionais mostram o descarado patrulhamento ideológico (salve Saul Alinsky!) na profissão de economista, o desespero pelo fim do projeto de poder (é isso que eles estão pensando, não em debate acadêmico) e porque não conseguem de forma efetiva INSTRUMENTALIZAR a ciência econômica.
      Por fim, debate de alto nível deve ser realizado na academia ou em fórum específico, não em artigo de jornal e por este canal o qualquer autor é livre para escrever o que quiser e da forma que quiser em virtude do espaço reduzido para transmitir seu conteúdo.

  4. Eu acredito que esse debate é antigo e que pessoas que defendem aumento do gasto público e são associadas às ideias do Belluzo, em geral, possuem preconceito com quem difere do seu modo de pensar. Não acredito que isso seja correto pois colocar “bem e mal” no modo de pensar econômico é uma forma enviesada de falar….

  5. Há alguns anos vivemos uma guerra. A divisão do povo brasileiro num dos assuntos em que mais havia união, o futebol, na copa do mundo, com manifestos frente a estádios, é um exemplo muito claro disso. Brasileiros torcendo contra a seleção, tamanho o desgosto com o evento e com a política. A presidente sendo xingada. Mais recentemente, na Câmara, mais ofensas e até agressões físicas. O PT dividiu o país. “Nós e eles”. Nosso país virou um palco bélico não só de economistas. É triste. Muitas mentes férteis já deixam o país, que segue em frangalhos, um caos em vários aspectos. Esse tipo de “briga” vai será cada vez mais comum, se o país seguir como está. Os impeachments tanto da presidente, quanto do vice e de Cunha podem ser uma saída para trazer de volta ao país um senso de compromisso com o fim do caos, da impunidade e da opressão de umas ideias frente a outras. Os defensores do impeachment são golpistas e todos contrários ao PT são caracterizados com adjetivos agressivos. Chega? Ou vamos continuar num campo de batalhas de baixíssimo nível?

  6. Schwartzman, precisa de quantas assinaturas de apoio? Esses caras deviam ficar calados e quietinhos, o governo que eles matam e morrem defendendo vão nos atrasar em 10-12 anos. Estão reclamando de quê? Estamos cansados.

  7. Desculpe Mansueto, mas isso de saber quem é mais ou menos respeitoso, de quem começou a baixar o nível, de fato interessa pouco. Nosso amigo Alexandre pegou pesado, e tenho certeza de que ele o fez com consciência. Mas eu o entendo, comi entendo. O que interessa, o que é importante, é que um lado nessa querela tem razão. E o outro não. Simples assim.

  8. Parabéns por também contribuir para o debate.
    PS: correção – “tachado de entreguista”. Neste caso, é com ‘ch’, mesmo.

  9. Admiro o Alexandre, sou admirador de suas visões e, opiniões, talves tenha passado o sinal vermelho, mas, disse aquilo que eu acho, da situação econômica, o Brasil foi levado ao buraco e, nós junto, lamento o fracasso dos desenvolvimentistas, peço a eles, reconheçam o fracasso de suas teses(desenvolvimentistas). Não existe milagre em economia. Apenas responsabilidade. Algo em falta no nosso pais a muito tempo.

  10. A quantidade de gente medíocre no Brasil explica em muito nossas doenças econômica e sociais. A falta de conhecimento leva ao descontrole emocional.

  11. Acho que há algo passando despercebido: tanto o recurso (fábula) quanto os personagens (porcos), parecem inspirados na Revolução dos Bichos, de George Orwell. Terá sido a censura a ambos mera coincidência? AS prestou uma grande homenagem àquela obra. Conseguiu que sua crítica fosse além da teoria e política econômica em voga nesse momento no Brasil. Ao criticados, parece que faltou erudição para perceber isso.
    Parabéns ao autor.

  12. O país está pegando fogo, e logo alguém aqui e ali ia acabar passando do limite. Mas eu sou dos que acha que a paulada foi bem dada e ainda foi pouco perto da forma como já vi o Belluzzo se manifestar. Aliás, comparar o Mantega com um jumento é uma ofensa pro jumento, que não é otário como esse carcamano tapado. A lista de signatários é um caso a parte. Está cheia de nulidades, gazeteiros,fracassados e um ou dois maquiadores de contas públicas.

  13. Sinceramente,a cada dia me decepciono mais com este país.Estes esquizofrênicos que estão no poder se acham deuses,ninguém pode dizer nada.Quem é de carne e osso,se indigna com a destruição da nação.Então é natural às vezes uma crítica mais áspera.Pode me incluir no grupo dos pessimistas também.O impedimento já era.Com essa equipe econômica anti mercado,o molusco e a presidanta,não temos como ser otimista.Mas,vamos torcer por anos menos ruins…

  14. Prezado Carlos Suarez,

    serei franco, parece que estamos diante de uma discordância insuperável, Mas você pode ter a certeza de que nunca tentarei intimidá-lo ou censurá-lo por discordar de sua OPINIÃO. Você nunca verá meu nome aposto numa patética “nota de repúdio”, digna de soviet, contra qualquer coisa que tenha pronunciado. O nome disso é LIBERDADE DE EXPRESSÃO, que defendo veementemente, mas que é tão pouco cara aos que assinaram a verdadeira “nota de expurgo”!
    Não acho que Schwartzman avançou sinal algum, mesmo que, eventualmente, possa ser considerado deselegante (o que não é minha opinião; todos os 2 debates foram recheados de troca de chumbo e, se alguém não sabe brincar, que não desça para o playground!).
    O verdadeiro “pecado” cometido por Schwartzman foi não ter prestado reverência à vaca sagrada ex-presidente do Palmeiras (e daí a expressão “porco”, muito bem colocada), assim como aquele jovem em relação a Chico Buarque. Pior: desnudou a tão elementar IGNORÂNCIA de seu contendor em matéria econômica básica. E isto os lambe-botas acadêmicos não perdoam. Eles até nem ligam muito para o fato de terem virtualmente destruído o país, mas não suportam ver isso jogado em suas caras (de pau). Não querem perder a pose, nunca!

  15. Ah, me esqueci de um detalhe da maior importância: se alguém se sente ofendido (ou, para ser mais preciso, se derem chilique), que vá à justiça reclamar e não tente intimidar e censurar quem pensa diferente e até o veículo que o publica…

  16. O Michel Lopes acima, fez uma bela comparação da materia de AS com o livro de George Orwell. Sem censura deixem as pessoas se expressarem, sou solidario ao colega Alexandre Schwartzman, esse pessoal da esquerda quando fala de alguém, são mais ácidos do que sua matéria e, bem mais críticos. Força Alexandre.

  17. Concordo com Carlos Suarez (25/12 20:48).

    Não tenho simpatia às ideias de Belluzzo e Paulani e concordo com muita coisa que Schwartsman diz.

    Mas a linguagem que ele utilizou ali foi de uma agressividade juvenil lamentável. Acho que a Folha deve continuar a publicar ideias divergentes (mesmo que malucas), mas deve também evitar baixar o nível publicando textos que expressam tamanha infantilidade.

    Cabe lembrar que há algumas semanas os mesmos Schwartsman e Belluzzo protagonizaram uma discussão nas páginas da Folha. O jornal deu espaço para ambos, com uma tréplica final para encerrar o debate. Schwartsman aproveitou-se de seu espaço privilegiado como colunista fixo para continuar suas ofensas, como uma criança que não sabe a hora de parar.

    A comparação com o Krugman é extremamente ofensiva ao americano. O comportamento de Schwartsman foi mais semelhante a de blogueiros como Reinaldo Azevedo e Paulo Henrique Amorim, que adoram polemizar e adotar uma linguagem chula. Pelo menos o Schwartsman tem conteúdo, ao contrário desses dois. É uma pena que se expresse dessa maneira.

    Essa linguagem talvez seja aceitável e até encorajada em ambientes como o mercado financeiro e as redes sociais, mas qualquer publicação séria deveria evitar isso.

    Por fim, o fato de Belluzzo et al. também se expressarem mal não justifica de maneira alguma que Schwartsman faça o mesmo. Se assim fosse, um continuaria a se rebaixar ao nível do outro indefinidamente.

    • PS. Tenho a impressão de que todos (ou quase) os defensores de Schwartsman neste episódio são pessoas que geralmente concordam com as ideias dele. Dentre os que condenam a linguagem utilizada por ele, porém, há tanto pessoas que discordam quanto que concordam com as ideias dele. Ou seja, não é possível dizer que Schwartsman está sendo condenado apenas por pensar o que pensa. O ponto aqui é o seu comportamento.

  18. Pingback: Belluzzo e a Revolta dos Bichos - ECONOMISTAX

  19. Mansueto, você tem contribuído muito para melhorar o debate. Meus parabéns e espero que mantenha a contribuição por muito tempo!

    • O que eu posso fazer? Chorar? Deixa ele me castigar e me chamar de idiota. Faz parte da democracia. Nem por isso série agressivo com ele. O que posso fazer? Faz parte. Outras pessoas podem fazer o mesmo. Abs

  20. A esquerda é, por natural aptidão, ditatorial e adoradora da censura. Não concordar com suas ideias é um crime em sua visão – estão sempre certos e querem aniquilar qualquer posição discordante. Lutaremos todos pela existência de todos os pontos de vista, inclusive os que discordamos (por mais idiotas que sejam) – “discordo de tudo o que dizes mas defenderei até a morte o seu direito de dizer”, não era assim?

  21. É claro que todos tem o direito de se manifestar, mas quando essas “ovelhas” se manifestam mostram que não tem a inteligência suficiente para ser sutis….Vira uma grosseria da maior espécie…..

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