Vamos malhar?

Eu tenho uma notícia triste. Estou gordo. Dado o agravamento da crise, passei a ser convidado para um número maior de palestras que, em geral, envolvem almoços e jantares.

Quando o convite vem de alguém rico, os pratos são sofisticados e pequenos (não sei porque ricos comem menos do que os outros). Mas a sobremesa sempre mata. O fato é que termino o ano mais gordo e, dado que não é saudável engordar, seria muito bom se o governo me desse algum incentivo fiscal para que eu fizesse um bem a mim mesmo e diminuísse a quantidade de calorias que ingiro todos os dias.

E não é que alguém em Brasilia pensou nisso? Meus problemas acabaram. Não vou precisar passar pelo incômodo de cortar minhas queridas batatas fritas e nem mesmo ter que andar no parque público.

Senhoras e senhores, acreditem se quiser: está tramitando, no Senado Federal, um projeto que permite que os gastos com academia de ginástica e professores de educação física sejam integralmente descontados da renda tributável no cálculo do imposto de renda pessoal física.

O PLS no 112 de 2012, de autoria do senador Eduardo Lopes (PRB-RJ) que é suplente do Senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), permite justamente isso:

“O projeto, de autoria do Senador Eduardo Lopes, pretende alterar o dispositivo da lei que, hoje, permite a dedução, da base de cálculo do imposto de renda, dos pagamentos efetuados, no ano-calendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (art. 8o, II, a). A alteração visa a incluir nesse rol os pagamentos a nutricionistas, professores de educação física e academias de ginástica”.

Será que dá para ser contra um projeto que permite que possamos abater uma mensalidade de R$ 300 ou mais naquela academia bonita do bairro? E se eu pagar a academia e não frequentar? Não tem problema: você pode abater assim mesmo. Há ainda a possibilidade de pagar o seu próprio personal trainer e ainda abater a despesa com ele (ou ela) da renda tributável.

Há alguma chance desse projeto ser aprovado? Mas é claro que sim. O relator do PLS é o Senador Romário (PSB-RJ) e o parecer do senador a favor do projeto foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado Federal no dia 7 de outubro de 2015 (clique aqui para ler o parecer).

O projeto agora está tramitando na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal em regime terminativo, o que significa que, se aprovado nesta comissão, vai direto para a Câmara dos Deputados. Enquanto o governo não me pagar, vou continuar engordando.

Nada contra a boa intenção dos senadores, mas estamos no meio de uma grave crise fiscal e seria melhor comer menos e andar mais nos parques públicos sem que, para isso, o governo tivesse que nos pagar. Aliás, eu pago academia e raramente vou. Mas, se este projeto for aprovado e virar lei, vou para uma daquelas academias mais sofisticadas – aquelas cheias de vidro e de pessoas bonitas que colocam perfume antes de malhar.

Vamos malhar? A República paga!!

malhada

12 pensamentos sobre “Vamos malhar?

  1. Exatamente isso que eu criticava outro dia. Até que enfim alguém acordou para esse esdruxulo projeto. Meu Deus, outros projetos com esse espírito virão: por exemplo: deduzir curso de culinária, pois se o fizermos, estaremos nos alimentando de forma mais saudável (aí vc poderá até sugerir cardápios a seus anfitriões rsrsrssr). Este não é um país sério!

  2. “Enquanto o governo não me pagar, vou continuar engordando.” kkkkkkkkk
    Caro Mansueto, eu concordo plenamente com Você e, vou fazer o mesmo que Você. kkkkkkkkk

  3. Enquanto isso, gastos com livros, cursos de idiomas e remédios não podem ser abatidos. O Brasil será o país da microcefalia em todos os sentidos. Mas as bundas estarão 100% em cima!!! Rir ou chorar?

  4. Seria irônico se não fosse trágico…O país passando por uma gravíssima crise fiscal e que pra resolvê-la a sociedade terá que discutir seriamente o tamanho do estado e um parlamentar propõe uma insanidade como essa.

  5. Eu ia fazer um comentário. Ia. Desisti.
    A menos que eu me disponha a elogiar a brilhante iniciativa do senador que relata o projeto.
    Eu, hein?
    Vou lá criticar o projeto de um sujeito que tem um assessor com 4 mortes a ele imputadas?
    E mais não digo e nem vou colocar uma carinha dando risada ou uma chorando.

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