As minhas surpresas do dia

1) Minha primeira surpresa do dia: a carta desabafo do vice-presidente Michel Temer. Não me parece que seja algo comum. O comum seria a presidente e seu vice conversarem e acertarem suas diferenças. Leiam a carta aqui. Destaco esse trecho da carta para mostrar como a relação entre a presidente e o seu vice está por um fio:

Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo”…

E termina com o trecho:

“Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.”

Alguém acha isso normal? A carta ainda teve uma boa repercussão no Jornal Nacional na voz do apresentador do programa. Uma carta desta não é normal.

2) Minha segunda surpresa do dia. A votação da chapa de oposição para comissão do impeachment (clique aqui). O governo não conseguiu barrar a eleição de uma chapa da oposição para analisar o pedido do impeachment e ainda comemorou por ter conseguido 199 votos para sua chapa derrotada, como se esse número, por ser superior aos 171 votos necessários para barrar o impeachment, fosse uma demonstração de força política do governo. Não é.

3) Minha terceira surpresa do dia. Fiquei surpreso com o tom da carta do IBRE-FGV, que circulou hoje e que é publicada na Revista Conjuntura Econômica (clique aqui). Li três vezes para ter certeza que era mesmo do IBRE-FGV. A carta traz várias teses polêmicas, sendo uma delas a que não há muita diferença entre os Ministros do Planejamento, Nelson Barbosa, e da Fazenda, Joaquim Levy. Confesso que não sei até que ponto os dois concordariam com isso.

Os dois ministros, segundo a carta, buscariam o mesmo ajuste fiscal de longo prazo sendo que, Nelson Barbosa, conhece as restrições de curto prazo e acha que a busca de um superávit primário, no curto prazo, tem mais custo do que beneficio. Por sua vez, Levy quer um ajuste de curto e de longo prazo, mesmo que o custo no curto prazo seja excessivo. A carta fala que não há como dizer qual a melhor estratégia.

Outra tese da carta que me incomodou foi a tese que os politicos são os culpados pela crise: “O pior, no entanto, é que se chegou a uma situação em que a classe política não consegue criar uma perspectiva de solução efetiva para o impasse fiscal.”

Por que não se consegue criar um consenso politico para superar o impasse fiscal? entre outras coisas, por uma imensa incapacidade da Presidente da República e do seu partido, o PT, de coordenarem um grande pacto politico. Os partidos de oposição e parte da base “aliada” do governo não confiam no governo e na presidente Dilma devido a erros políticos sucessivos do governo.

No seu discurso de vitória e na sua posse, a presidente não citou nenhuma vez o candidato de oposição que perdeu as eleições, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e nem mesmo abriu canal de comunicação com a oposição. E, logo no inicio de seu segundo mandato, a presidente ou algum dos seus conselheiros articularam um enfraquecimento do PMDB com a ajuda do presidente do PSD, Gilberto Kassab, com a criação do PL. Isso foi um erro grande que deixou marcas.

Assim, culpar “a classe política” pela crise é uma meia verdade. Políticos respondem a incentivos e, em um sistema presidencialista tão forte como o do Brasil, quem tem poder de criar a viabilidade politica para reformas é o Presidente da República, que nomeia desde motoristas até o diretor “daquela diretoria da Petrobras que fura poço”.

É claro que a agenda de reformas é a mesma quem quer que seja o presidente da república, mas a capacidade de articulação política e credibilidade do presidente importa sim.

É isso. Espero não me surpreender mais até a hora de dormir. Hoje, deixei muita gente assustada aqui em São Paulo. Amanhã, quarta feira dou palestra para empresários em Santa Catarina e, na quinta, me junto a Ilan Goldfjan, Affonso Celso Pastore e Beny Parnes para uma mesa na ANPEC em Santa Catarina.

 

 

5 pensamentos sobre “As minhas surpresas do dia

  1. Boa noite

    Acompanho sempre os seus posts.

    Você disse que deixou muita gente assustada em SP . Foi alguma palestra?
    Se for gostaria de ter acesso .

    Att

    M.C

  2. Temer foi profissional da política vindo a SP, e emendando com o lance da carta. Dilma não pagou para ver e chamou Temer para conversar. Temer, que não é bobo, já havia dado uma amaciada.

    Hoje colheu o que plantou: uma puta demonstração de força: 272 X 199.

    Li que hoje à noite Temer resolveu atender aos apelos de Dilma e marcou com ela uma conversa amanhã.

    Eu acho que ele vai fazer pra ela uma exposição realista da situação: a crise política não vai cessar e vai aprofundar. Não faço ideia do que Dilma dirá

    Outro dia @drunkeynesian perguntou sobre algum livro sobre o tema do vácuo e da política.

    A disputa do impeachment na oposição governistas X oposicionistas é um ótimo estudo de caso ainda em andamento para o tema.

    É preciso perguntar

    Quem lidera no campo governista? Quem poderia liderar o campo governista?

    Quem lidera no campo oposicionista? Quem poderia liderar o campo oposicionista?

    Não vejo liderança expressiva no campo do governista e sim expressivas defecções nesse campo e bateção de cabeça entre os que permanecem governistas.

    No campo da oposição eu penso que o Temer conquistou a liderança, dando mostra de muita habilidade política.

  3. A minha avaliação é que a carta ficou ruim tanto para Dilma como para Temer.

    Para ela porque expoe fraqueza no Governo e para ele porque vem se lamentar só apóes 5 anos e publicamente. Fica a pergunta, se não era prestigiado por que continuou no segundo mandato ? Oportunismo ?

    Temer não precisava disso. Sinto que ele ficou meio seduzido com a ideia de assumir a presidencia e ficou perdido. A melhor atuação que ele poderia ter é chamar a Presidente e dizer, que como é parte do Processo, vai se afastar e acompanhar de longe. É isso o que ele teria que fazer. Se ele quiser atuar nos bastidores é direito dele, mas se ele o fizer em pública ficará ruim para ele próprio.

    Nâo posso também deixar de manifestar sobre uma situação surreal.

    Dilma teve processo de impedimento aberto por decretos que teria feito, aumentando despesas. O Estadão deu uma matéria ontem mostrando que Temer assinou decretos semelhantes. Ora, dessa forma os dois deveriam estarem juntos no processo de impedimento. Não tem sentido algum ela cair por um fato A e ele entrar tendo praticado o mesmíssimo fato A.

    O STF não pode se esconder, tem que defender o País e a constituição, ainda mais com um sujeito totalmente sem moral presidindo a casa e manipulando o regimento a seu bel prazer.

    Se o impedimento for feito com base legal e tudo certinho é correto.

    Se for feito com manipulação de regimentos, de forçação de barra na imputação de crimes, como no caso, quem assume tendo cometidos os mesmos “crimes”, ai é golpe sim, não tem outro nome.

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