A recuperação do crescimento. Qual crescimento?

O que mais me incomoda nesta crise é que ninguém consegue enxergar o fundo do poço. Um crescimento baixo esperado no início do ano está se transformando em uma queda do PIB de 3% este ano, que pode até ser maior, e um nova queda perto de 3% em 2016. Isso é um desastre. Vou repetir novamente: um desastre fruto de sucessivos erros de politica econômica desde 2009.

Neste cenário o que vai nos tirar da crise? Se olharmos o PIB pela ótica da demanda, as noticias são ruins. Estamos em um fase de desemprego em ascensão, queda da renda real das pessoas ocupadas e inflação alta. Assim, não se deve esperar aumento do consumo a partir da recuperação da renda das famílias.

Se o governo colocasse um Ministro da Fazenda bonzinho que leciona em uma certa universidade no interior de São Paulo e ele resolvesse aumentar a oferta de credito e reduzir juros, o efeito na expansão do consumo seria pequeno. Hoje, o nível de endividamento das famílias brasileiras é de 46% da sua renda anual, ante 18% em 2005. E, nos últimos anos, o crédito que cresceu foi o imobiliário que é uma divida de longo prazo. Assim, a forte expansão do credito para consumo a juros mais baixos não vai nos tirar da crise.

E que tal as exportações? Sim, o crescimento das exportações pode nos ajudar, mas aqui há um problema. Primeiro, apesar da desvalorização do Real de mais de 40% este ano, o efeito positivo nas exportações está sendo compensado, em parte, pela continua queda dos preços das commodities. As pessoas parecem que não perceberam que todo o nosso ganho fabuloso de termos de troca de quase 30% pós 2009 foi embora. O efeito positivo das exportações virá, mas o crescimento das exportações não será tão vigoroso a meu ver como muitos esperam.

E o investimento? Bom, o investimento público este ano terá forte queda –algo perto de 50% para o setor publico consolidado- e o investimento privado, que poderia nos salvar, está há cinco trimestres em queda. E como os índices de confiança da indústria, comércio e serviços continuam nos menores valores da série histórica da FGV, não há perspectiva de recuperação rápida do investimento privado, que será a principal fonte de demanda para nos tirar da crise.

Por fim, para piorar tudo, os empresários têm medo de serem chamados para pagar parte da conta do desajuste fiscal e, como o ajuste fiscal não avança, os juros continuarão elevados e os bancos públicos não terão capacidade de agradar aos seus cliente tradicionais.

O que poderia mudar esse cenário? Se o governo conseguisse avançar no ajuste fiscal e se o governo tivesse proposto e aprovado um agenda de reformas micro que é o oposto do que foi feito desde 2008/2009 nas áreas de politica comercial, regulação do setor de petróleo e gás, setor de energia, e concessões. Mas nada disso tem avançado e o governo nem mesmo tem ainda uma proposta factível para recuperar a Petrobras.

Assim, por enquanto, não vejo luz alguma no fim do túnel a não ser uma nuvem com inflação mais elevada e um Real mais desvalorizado. É um cenário ruim para todo mundo? Não. Se você tiver dinheiro vai poder comprar um bocado de ativos baratos e até parte dos seus concorrentes. Mas a população vai sofrer mais, em 2016, do que neste ano.

Quando uma pessoa perde o emprego, o efeito imediato é um aumento temporário da renda via multa rescisória, FGTS, 13o salario, seguro desemprego e abono salarial que irá receber. Depois de alguns meses, essa compensação desaparece, e com o mercado ainda em recessão, as pessoas que perderam o emprego há 4-5 meses começam a sentir o efeito do desemprego no bolso. Se elas irão ou não para as ruas não se sabe. Mas quem vai investir nessas condições?

Assim, gostaria de passar algum otimismo, mas não consigo quando escuto que políticos da base do governo ainda pensam que a simples troca do ministro da fazenda resolveria os nossos problemas e que a expansão do crédito barato via bancos públicos, exatamente o que se fez nos últimos seis anos, seria a solução da crise. Assim, a crise vai piorar.

2 pensamentos sobre “A recuperação do crescimento. Qual crescimento?

  1. Monsueto, Muito valido os seus comentários, acrescentando que o efeito da desvalorização do dólar não consegue resolver a questão da exportação e do alívio desta enorme crise, pois o que se verifica é que boa parte da vantagem do real desvalorizado se perde com o aumento dos custos de produção, do aumento dos insumos importados, alem de estarmos tecnologicamente atrasados em vários setores que poderiam se beneficiar do dólar forte, mas que não investem a muitos anos, tornando se empresas comercial-importadores e hoje não conseguem impor manufaturados e tecnológicos ‘made in Brasil’, continuamos fortes em produtos primários básicos, de baixo valor agregado e não gerador de empregos e tecnologia.

  2. Qual a importância destes números se estamos diante de um governo que pensa e faz pelo “social”? O comentário do líder petista na Câmara, José Guimarães, sobre a queda da nota do brasil na Standard & Poor’s resume muito bem o esclarecimento da turminha: “[…] Não é o rebaixamento de uma agência lá do fim do mundo que vai diminuir o ânimo do Governo de buscar soluções para equacionar os problemas da economia brasileira.”

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