A queda nos Termos de Troca

A crise econômica do final de 2008 afetou fortemente o Brasil. Mas a recuperação foi muito rápida. Em meados de 2009, a economia já estava em trajetória de recuperação que se intensificou nos trimestres seguintes.

O que muita gente não fala é que junto com a crise de 2008/2009, o sofrimento da nossa indústria foi mais que compensado pela forte recuperação dos preços das commodities o que propiciou um ganho de termos de troca de 30% – crescimento do preço unitário de nossas exportações em relação ao preço unitário de nossas importações.

O mundo que saiu da crise de 2009 foi um de preço de commodities elevados e crescentes e de preços de produtos manufaturados em queda. Como o Brasil é um grande exportador de commodities e grande importador de manufaturados nós fomos beneficiados: cada US$ 1 exportado elo Brasil passou a comprar 30% a mais de importações.

No entanto, o governo confiou demais na permanência do boom de commodities.  O investimento foi pequeno e consumo cresceu de mais. E, na primeira queda do crescimento, o governo aumentou subsídios e desonerações de forma irresponsável, dando início a forte piora fiscal de 2012 em diante (de 2012 a 2014, o crescimento da despesa primária do governo central foi equivalente ao que ocorreu nos 12 anos anteriores ao governo Dilma).

A forte desaceleração da China e a queda dos preços de commodities levaram embora todo o ganho de 30% dos termos de troca que o Brasil teve depois de 2009. Assim, precisaremos exportar muito mais e, em um cenário de queda de preços de commodities, precisaremos ter uma indústria muito mais competitivo para conseguir comprar o que comprávamos antes do resto do mundo.

Índice dos Termos de Troca – 2000-JUL/2015

TT

Fonte: FUNCEX

Dada a desvalorização do Real em mais de 40% este ano, sem dúvida a indústria brasileira vai se tornar mais competitiva, mas talvez não teremos o crescimento das exportações que muitos esperam. Não há taxa de câmbio que corrija o fato que o Brasil há décadas exporta um par de sapatos (ou tênis) por volta de US$ 10. Isso é diferente de um par de sapatos de US$ 400. Uma taxa de câmbio de R$ 3,80 vai ajudar muito, mas não levará a um novo boom de crescimento industrial e de exportações.

Não haverá saída fácil para a crise. De qualquer firma, a saída da crise dependerá de um novo ciclo de reformas domésticas. Não devemos esperar ajuda da China e/ou um novo boom de commodities. Estamos de volta ao cenário da década de 1990 com uma diferença: como a rede de assistência social do Brasil hoje é muito maior que há 20 anos e o salário mínimo mais elevado e indexado à inflação, o efeito perverso da crise nos mais pobres e aposentados será menor. Mas a nossa perspectiva de crescimento médio até 2020 é muito baixa: inferior a 2% ao ano.

10 pensamentos sobre “A queda nos Termos de Troca

  1. Aposentados? Ora, todos que se aposentaram pela extinta previdência com mais de um salário mínimo vêm perdendo há muitos anos. Qual o tamanho desse contingente? A maioria que fala em exportações nunca exportou nada. Tentem exportar produtos industrializados para saber exatamente onde está o furo.

  2. Boa noite Mansueto,

    O Brasil de fato esta num mato sem cachorro, a perspectiva politica esta na condição ótima de murphy, se poder piorar VAI PIORAR. KKK
    A econômica é vitima da incompetência politica e continua piora na confiança dos empresários e consumidores.
    Enquanto a politica não por em andamento uma postura seria de estado -nação esse país vai descer ribanceira abaixo. Os investidores externos estão descrentes e nossa credibilidade internacional esta totalmente perdida diante da letargia da presidente e de sua equipe de incompetentes. A Dilma, não aprendeu em um governo como se funciona uma democracia, não vai ser hoje ou amanha, ou em outra vida que vai aprender alguma coisa. Sofreremos as mazelas de sua exacerbada incoerente gerencia até 2018 e se o pais trouxer em 2018 uma agenda seria e convincente retomaremos o crescimento, se não, sofreremos mais uns anos.

  3. Mansueto,

    Gostei muito dessa sua postagem. Sobre a queda da economia em 2015, o Ministério da Fazenda diz que uns -2% do PIB derivam da Lava Jato (paralisação de investimentos na Petrobras e nas empreiteiras) e outros -2% do PIB derivariam da queda dos preços internacionais das commodities desde 2014 (pelo multiplicador da base exportadora). Enfim, o contrafactual sugere que poderíamos ter crescido aproximadamente 1%.

    Ainda que a equipe econômica tivesse conseguido fazer um superávit primário de 1% do PIB, a carga de juros (para combater a inflação e retomar a confiança dos gentes econômicos??) jogaria o resultado fiscal nominal para uns 7,5% do PIB de déficit. Não sei se você leu no Valor um dado sobre a sonegação fiscal no Brasil: ~ 10% do PIB, segundo o Sinprofaz.

    http://www.valor.com.br/legislacao/4319814/sonegacao-subtrai-r-500-bi-no-ano

    Bem, se houvesse um maior esforço na gestão da arrecadação fiscal (um verdadeiro “choque de gestão”) daria para reequilibrar a carga tributária em favor dos mais pobres, estimulando ainda um mercado popular de massas? Sei que há questões políticas imersas nessa discussão.

    Abraço,

    Rodrigo

    • Rodrigo, creio que tenha tocado no ponto exato. Como o País vai crescer sem as grandes obras de infra estrutura, com todas paradas ? É óbvio que haveria um decrescimento. Alguns inteligentes disseram, faceiros, ora, as médias empreiteiras vão assumir as obras ou as empreiteiras estrangeiras vão assumir….Até agora nada.

      Outro ponto, como os negócios serão fomentados se qualquer ilasão de jornal vira crime e prisão ? O empresário que tem dinheiro vai preferir deixá-lo guardado a tentar negociar algo, seja lícito ou não.

      O Governo errou e muito na economia, nas desonerações, na energia, no petréleo e no setor sucro alcooleiro, mas o pior erro, a meu ver é dar autonomia e não cortar as asas de setores do Estado que querem demostrar Poder em benefício próprio sem pensar no Páis a longo prazo.

      Nisso o Governo FHC foi preciso, saibamos reconhecer. O Procurador geral reconduzido 4 vezes era primo do vice presidente e de confiança absoluta, arquivador geral, sempre que necessário e muitas vezes foram necessárias. A PF sempre trabalhou com rédea curta. O PT hoje critica isso, mas era o correto a se fazer e hoje estamos vendo claramente. Nâo se Governo um País com o Brasil com divisão e esfacelamento do Estado, como está ocorrendo.

  4. Mansueto, para voce a lava jato e o clima persecutório no País não afetou em nada a economia ? Tem certeza ? Esses 3% de queda não tem nada a ver com isso, com o desmantelamento da cadeia de petréleo e gás, de grandes obras de infra estrutura paradas e medo dos empresários de investir em novas obras ?

    • Claro que tem, mas isso está no grupo de erros do governo do PT. Sem os desvios de recursos a situação de crescimento estaria melhor, mas com crescimento baixo mas não uma recessão nos moldes que estamos vendo. Mas a culpa não é do Lava Jato mas o cartel patrocinado pelo governo.

  5. Só não entendi Mansueto quando diz que devido a uma rede de proteção social maior e salário mínimo maior o cidadão estará mais protegido. Mas se tudo isso foi construído como um castelo de areia e não houver mais dinheiro para sustentar tudo isso?

    • Aino castelo cai. Mas por enquanto, esta garantido o reajuste de 10% sal mínimo próximo ano. Mas este é um bom ponto. Governo pode ser forçado a mudar reajuste por falta de recurso.

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