Desejo à esquerda Latino Americana muitas derrotas

É com grande alegria que vejo a possibilidade de o candidato conservador Mauricio Macri vencer as eleições presidenciais na Argentina (clique aqui). É com alegria que vejo o desespero do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, com as eleições parlamentares na Venezuela, em dezembro.

É com curiosidade que vejo o esforço do PT para conciliar o seu passado de combate à corrupção com as denúncias de parlamentares e líderes do partido envolvidos no maior escândalo de corrupção pós ditadura no Brasil. Um partido que dois dos seus tesoureiros recentes foram condenados pela justiça já mostra muito bem qual foi o modus operandi de financiamento das campanhas eleitorais.

A esquerda Latino Americana está perdendo o apoio popular não por culpa de um suposto melhor programa da direita. Ao contrário. Muitas vezes, as ideias e teses da direita Latino Americana são tão ruins ou piores que as da esquerda.

Em uma região ainda marcada por índices de desigualdade excessivos no qual exemplos de privilégios para os ricos, típicos do capitalismo de compadres, ainda são abundantes, é difícil criticar politicas sociais sem antes quebrar o pacto da elite politica com a elite empresarial. No entanto, a esquerda Latino Americana longe de quebrar esse pacto o fortalece sob o mantra do desenvolvimentismo ou do fortalecimento da indústria nacional.

O grande aliado das politicas populistas dos governos Latino Americanos na primeira década do século XXI foi o boom de commodities, que teve por trás uma ditadura comunista que adora o capitalismo e que é invejada por vários “intelectuais” de esquerda e de direita que vêm na relação não transparente entre Estado e empresários um modelo de sucesso.

O boom de commodities acabou. A promessa do desenvolvimento fácil cuja maior preocupação era decidir como será gasto o aumento constante da receita acima do crescimento do PIB evaporou-se. A forte desvalorização da nossa taxa de câmbio nos lembra todos os dias que produtos domésticos e importados são hoje mais caros e que pegar um avião para fazer compras em Miami não nos deixa mais ricos.

A sensação de “relativo empobrecimento” vai aumentar para muitos e a frustração com o que estava planejado poderá ter consequências imprevisíveis. Não levará necessariamente a boas escolhas eleitorais, mas é fato que o desejo por mudança hoje na América Latina parece passar pela punição dos partidos de esquerda que prometeram o desenvolvimento rápido e sem restrições, que colocaram o debate eleitoral de uma forma simplista entre os que são contra e os que são a favor dos pobres, como houvesse na sociedade um grupo de pessoas “do mal” que deseja a perpetuação da pobreza.

O modelo Latino Americano de desenvolvimento sustentável recente ligado ao suposto circulo virtuoso de gastar mais com pobres e ricos foi na verdade um circulo vicioso que não se sustentava sem o crescimento continuou da China e do resto do mundo. Alguns achavam que políticos de esquerda que nasceram em famílias pobres, por terem vivido um período de carência e conhecer de perto a pobreza, teriam mais capacidade de promover o desenvolvimento sustentável. Mas bons governos resultam da construção história de boas instituições e não da história familiar da pobreza ou riqueza de políticos.

Assim, vejo com alguma alegria a possibilidade de derrotas de partidos de esquerda nas eleições na América Latina neste e nos próximos anos. Vejo isso com certa felicidade porque será uma boa oportunidade para a reflexão e até para o nascimento (ainda incerto) de uma esquerda Latino Americana mais responsável, que não tenha medo de avaliação de politicas públicas, que entenda o conceito de orçamento equilibrado, que não dê subsídios para os ricos e que promova um debate transparente sobre os prós e contras das diversas politicas publicas.

Quando afirmo que desejo à esquerda Latino Americana muitas derrotas não é com o intuito de denegrir a contribuição dos partidos de esquerda para o desenvolvimento da América Latina. O meu intuito é que com a derrota esses partidos passem da fase do “nós contra eles” para uma postura mais construtiva no debate sobre os rumos do desenvolvimento dos países da região. Se isso acontecer poderemos ter esperança.

26 pensamentos sobre “Desejo à esquerda Latino Americana muitas derrotas

  1. Pensei a mesma coisa quando saiu o resultado do 1o turno na Argentina. Infelizmente, o Brasil poderia ter sido o primeiro e pode acabar sendo o último a mudar.

  2. Caro Mansueto, compartilho o desejo de ver essa falácia chamada esquerda ruir na América Latina. Nem mencionarei a flagrante hipocrisa do totalitarismo que privilegia a elite vermelha em nome do “povo”, mas me aterei, somente, ao que dizia Hayek: se socialistas entendessem de economia eles não seriam socialistas.

  3. Mansueto, não há qualquer vínculo entre os ditos partidos de esquerda e o sentido daqueles que se preocupavam com as diferenças sociais na origem do termo, em face aos senhores/elites que apenas se preocupavam consigo mesmo. No caso latino americano, incluído o Brasil, os ditos de esquerda apenas querem substituir os adversos, uma simples troca de guarda, mantendo os mesmos vícios como, patrimonialismo, fisiologismo, corporativismo e toda sorte de apropriação do bem público em proveito próprio

  4. Mansueto, quando se fala de esquerda no país é um exercício tranquilo de identificação das partes, mas no campo oposto, o da direita, eu pergunto a você, quem poderíamos chamar de direita no campo política e economia brasileira? Lembrando que não vale citar o estatismo dos regimes militares, tampouco as privatizações feitas nos governos FHC que até hoje não sabemos ao certo se foram feitas por convicção ou necessidade, sendo o próprio PSDB, um partido de centro-esquerda.

  5. PS: não é negligenciável que qualquer um que se propõe a criticar os modelos econômicos aventados pela esquerda – que a experiência histórica revelou que estão quase fadados ao fracasso – nunca possam enunciar uma saída que inclua liberdade econômica, segurança jurídica aos agentes, em síntese, qualquer diagnóstico que já não exista nas cartilhas desta corrente.

  6. No Brasil, partidos de esquerda, centro e direita (se é que temos), não passam de agremiações corruptas, corporativistas, achacadoras e nefastas, sendo que em muitos casos, abrigam bandidos no sentido “strictus” da palavra.
    A classe política brasileira está destruindo o país.
    A crise econômica que hoje o país enfrenta, tem como principal fator a irresponsabilidade fiscal dos governantes, bem como a sagacidade dos políticos por nacos de poder.
    Não tenho vergonha de ser brasileiro.
    Minha vergonha é deste bando de políticos abutres e safados.

  7. Exatamente o que está acontecendo no Brasil, principalmente o “joguinho” de colocar o norte contra o sul, São Paulo contra o Nordeste, pobre contra a elite branca, etc., etc., essa elite política podre menospreza nossa inteligência.

  8. A esquerda tirou brasileiros da miséria mas foi com transferência de renda e endividamento. A conta agora não fecha. Nem o Seguro Defeso que tem um monte de canalha recebendo, conseguimos parar de pagar. Depois de os grupos conseguirem um privilégio, não tem como voltar atrás.
    Ano que vem vai ser pior. E vamos conseguir mexer na previdência, que é deficitária pelo lado rural?

  9. Como se sente ler como leitores todos esses direitistas do tipo “nós contra eles”, os mesmos que também dão de ombros para a desigualdade e advogam como alternativa o “capitalismo de compadres”? É serio que a seriedade na política e na boa administração pública radica numa esquerda à altura dessa direita aí? Esses acadêmicos…

  10. Mansueto, eu não acredito que hoje em dia falar em esquerda e direita signifique muita coisa,e classificar as correntes políticas nessa categorias não ajuda em nada o debate. É fato entretanto, que existe um discurso por aí do tipo “mim esquerda, mim bom, você direita, você mau”. Por conta disso, acho, ninguém (com raríssimas exceções) se assume como sendo de direita. E por isso, por falta de auto declaração, não sabemos afinal o que é um ser de direita. Já do lado da “esquerda”, há muitos que se se orgulham do rótulo, o ostentam como um troféu, e pelo que dizem, pensam e falam formamos um retrato do que seja afinal o “pensamento de esquerda”. E o que se vê não é bom … A “esquerda” brasileira é formada de um amontoado de gente boba e de cabeça oca, que repete velhos mantras e que adora carregar bandeiras que os fazem se sentir bem e bons. Associados a grupos maliciosos que almejam o politburo e postos de poder, dentre os quais existem bandidos e ladrões na acepção mais original. Não, Mansueto, não espere que exista uma esquerda responsável, ou razoável. Seus princípios mais fundamentais são irrazoáveis, irreal istas e irresponsáveis.

  11. PELAS NOTICIAS DE HOJE,DOS JORNAIS,IREMOS REVIVER MAIS UM MOMENTO DE CRÉDITO FARTO,OU, COMO DIZIA O LEGIAO URBANA:É PRECISO “AMAR”,AS PESSOAS COMO NÃO SE HOUVESSE O AMANHÃ;O AMANHÃ,A DEUS PERTENCE;E, COMO HOJE ,ESTOU MUSICAL,COMO DIZIA CHICO: E SE DEUS NÃO DÁ,COMO É QUE VAI FICAR;FORTE ABRAÇO,MANSUETO,DISCIPLINA É PROS FORTES E CRENTES;VAMOS EM FRENTE!

  12. O fato da esquerda denominar de “esquerda” os governos populistas latino-americanos revela, principalmente, o atual estado de indigência intelectual dessa esquerda.

    Até onde conheço, o último debate teórico realmente fecundo, ocorrido no campo da esquerda, deu-se na Itália, a partir do PCI, sobretudo durante as décadas 1950 e 1960. No Brasil, esse importante debate, marcado pela reviravolta anti-hegeliana no pensamento de esquerda italiano, é até hoje completamente ignorado pela esquerda.

    Nesses anos de robusto debate (e ao contrário dos nossos esquerdistas de hoje, os comunistas do PCI também abriam-se para um não menos importante debate com os liberais), a esquerda brasileira, sempre disposta a quebrar os ovos alheios para fritar o omelete da “boa história”, rezava o terço da DIAMAT (Dialética Materialista) e dobrava a espinha para a Razão de Estado soviética, justificando os seus estupros em nome de uma certa realpolitik.

    Há um ótimo livro que examina esse debate sob a ótica da trajetória de Lúcio Colleti: O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina,1999), de Orlando Tambosi ( tese de doutorado em 1991). Até hoje praticamente desconhecido nos meios acadêmicos brasileiros, o livro foi bem recebido na Itália e ganhou tradução: Perché il marxismo ha fallito (Milano, Mondadori, 2001).

    Leitura bem-vinda para a crítica do passado de uma ilusão.

      • Tambosi escreve bem. A primeira seção é de mais fácil leitura. A segunda seção me foi mais difícil porque não tenho formação em filosofia.

        A lógica do “nós X eles” é herdeira direta da tradição marxista. Por mais bonitinho e arrumadinho e cheirosinho que um socialista moderninho se nos apresente, o que está por baixo dessa aparência “toute douce”, descoladinha, é a velha cartilha do nós X eles.

        Correu mundo a resposta de Giscard d’Estaing ao Mitterrand no debate presidencial de 1974. Mitterand veio com o velho discurso de que os liberais são gente sem coração e que só os socialistas tinha o poder de mudar a sociedade francesa e torná-la menos desigual e blablablá. Basicamente, a mesma conversa mole de hoje de que os liberais tem um coração insensível para a desigualdade social. Giscard deu-lhe um “pra trás” memorável:

        “Eu sempre acho chocante e ofensivo arrogar o monopólio do coração. Você não tem, Senhor Mitterrand, o monopólio do coração […]. Tenho um coração como o seu que bate no no ritmo dele. Você não tem o monopólio do coração […] e não fale desse modo com os outros porque ele é ofensivo para os franceses.

        Vale conferir a passagem no youtube

        O esculacho do Giscard começa em 1:12

  13. Três observações:

    1) quem fomenta a aliança espúria e o ‘capitalismo’ de compadrio são a esquerda e os regimes socialistas. foi assim na ex-URSS; é assim na Rússia, na China e no Brasil. A direita, coisa inexistente no Brasil, apregoa o livre mercado e a restrição do Estado (o liberalismo);

    2) a ‘bonança’ está mais relacionada ao enfraquecimento internacional do dólar (com a valorização do nosso câmbio) do que com o boom das commodities (que também contribuiu, claro);

    3) ressurgimento dialético de uma esquerda que trará novas esperanças ao continente?!! Tá maluco, Mansueto? Ainda não chegou de experimentações coletivistas-revolucionárias?.

    Abraço

  14. Com beneplácito da esquerda que governa o país, a poderosa ANFAVEA age deliberadamente para desestabilizar Levy e sua equipe.

    E assim vamos…

  15. Ótima reflexão. Pessoalmente, não costumo fazer considerações acerca da da esquerda e direita sem antes delimitar alguns conceitos deturpados, seja por sua origem histórica, seja pelo debate político enviesado.

    De toda forma, olho para o presente momento como uma transição que, aliás, já vinha ocorrendo muito antes das eleições de 2014, quando a bandeira política eleita já mostrava sinais de exaurimento, mas foi necessário mais um sufrágio para boa parte do eleitorado se dar conta disso.

    Sei o quão difícil será repensar direitos sociais (eu trabalho com isso o tempo todo), mas lembro que essa não é a primeira crise de natureza política e econômica que passamos e, se pudermos aprender e formos capazes de alterar nossos modelos por algo sustentável do ponto de vista fiscal, acho que toda a sociedade ganha.

    Assim, também desejo sorte à esquerda Latino-Americana.

  16. espero que a esquerda latina suma para sempre. mas para isso precisa minar sua base – professores que doutrinam alunos, sindicatos anti produtividade presentes em todos os setores, igreja catolica anti livre mercado, sistema juridico que distorce tudo e garante corrupcao, universidades cheias de alucinados, empresarios de faz de conta que querem viver do governo etc.

    precisamos de uma direita liberal que finque raizes em todas as bases acima e construa grupos que confronte no debate e na acao aqueles que mantem o Brasil com pe firme no sub desenvolvimento.

  17. Análise muito lúcida, Mansueto. Parabéns! Estamos juntos na torcida por mudanças com aprendizado dos erros do passado e com a consciência que a associação da direita aos empresários para manter os privilégios de pequenos grupos tende a perpetuar uma situação de desigualdade de renda e de oportunidades que é extremamente nociva para a sociedade como um todo. Tocou no ponto crucial que precisamos melhorar as instituições e que essa consciência nasce do conhecimento e aprendizado e não da experiência individual de pobreza de alguns políticos.

  18. Pingback: Mansueto Almeida – Desejo à esquerda Latino Americana muitas derrotas | evolução agregada

Os comentários estão desativados.