Depois de um ano

Não vou falar muito o que aconteceu depois de um ano da vitória da presidente Dilma. Acho que os dados são muito claros. Mas o que vou fazer aqui é, rapidamente, comentar uma entrevista do ex-Ministro da Fazenda Guido Mantega à Folha um pouco antes do segundo turno e dois artigos no Estado de São Paulo, um de minha autoria com Armínio Fraga e outro do ministro Mercadante, publicados no dia do segundo turno da eleição presidencial de 2015.

Vamos começar pela entrevista do ex-Ministro Mantega que deve ser talvez o maior critico da politica econômica atual baseado no que ele declarou no passado (clique aqui para ler a entrevista completa à Folha no dia 19 de outubro de 2014). Algumas coisas que o ex-ministro falou:

(1) “….Deve ter tido erros de calibragem. Mas no essencial nós acertamos, fizemos política anticíclica, desenvolvimentista. O que prova isso é que a economia brasileira gerou emprego, está com um dos menores níveis de desemprego. Portanto, a população brasileira não pagou o preço da crise”.

Em outubro de 2014, já era muito claro para todos com alguma capacidade mínima de analise econômica o agravamento da crise da economia brasileira, mas o então ministro da fazenda ainda falava que o governo acertou na politica anticíclica desenvolvimentista. Hoje é difícil alguém acreditar nesta tese e a recessão atual é resultado do que o ex-ministro chama de “acerto” da política anticíclica desenvolvimentista.

(2) sobre uma forte desvalorização do Dólar com a vitória da presidente Dilma “….Rally contra o câmbio vai quebrar a cara porque nós temos US$ 380 bilhões de reservas. Somos poderosos nessa área. Não tem razão para fazer rali, mesmo porque a política que nós vamos praticar está clara, não tem mistério. E acredito que é uma política que interessa a todos, à maioria da população.”

Bom, quando o ex-ministro falou isso a taxa de câmbio era R$ 2,43/US$. Hoje está em R$ 3,91; um aumento de 61% em um ano. Pode ainda ser pior a depender da capacidade do governo entregar o ajuste fiscal prometido. Ou seja, quem acreditou no ministro teve um senhor prejuízo e quem não acreditou no ministro se deu muito bem. Um retorno de mais de 60% em um ano é algo excepcional!

(3) Sobre a questão da contabilidade criativa e as pedaladas fiscais: “Olha, até agora não vi o Tribunal de Contas se manifestar sobre a chamada contabilidade criativa. Porque as contas são auditadas de forma muito rigorosa. A CGU (Controladoria Geral da União) audita nossas contas. Não foi apontada nenhuma irregularidade com as nossas contas. Então elas são aprovadas, estão corretas. Eu só pedalei quando andei de bicicleta, dei umas pedaladas”.

Bom, agora por unanimidade, algo que me surpreendeu, o Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou a rejeição das contas do governo federal de 2014 devido, entre outras coisas, as pedaladas fiscais. Mais uma vez esse tipo de declaração do ex-ministro mostra que o governo não tinha noção do tamanho do problema que estava criando ou se tinha noção achava que não era nada demais. O que surpreende não foi a recomendação do TCU para  a rejeição das contas de 2014, mas como isso não ocorreu antes, já que parta das pedaladas vem de 2012 e 2013.

(4) Quando os repórteres da Folha perguntaram: “Como pode garantir que o Armínio Fraga, se ele sentar nessa cadeira, vai subir os juros?” Mantega prontamente respondeu: “Só se mudou a ideologia dele, a vertente econômica. Ainda mais ele, que vem do meio financeiro. Ele vem de um trabalho com banqueiros. Ele compartilhava daquela ideia de que a economia brasileira precisa ter um juro mínimo real de 10%, lembra? Será que ele mudou? Então ele deixou de ser neoliberal, deixou de ser ortodoxo? Eu não ouvi ele dizendo isso em nenhum momento. Então sabemos qual é a prática, só ver a prática que os ortodoxos fazem no mundo todo. Ajuste fiscal mais duro, mais rigoroso, mais rápido. Significa derrubar a economia, causar uma recessão. Isso está no manual deles, se ele mudou, não sei. Não vi ele afirmando nada que levasse a entender isso.”

É claro que o ex-ministro deve achar que se o governo tivesse continuado com as pedaladas, tivesse reduzido os juros, etc. a economia estaria crescendo mais rápido. É difícil saber se o ex-ministro Mantega hoje reconheceria os seus erros. Mas pela resposta acima nota-se que o ex-ministro não perdia a chance de levar um debate técnico para um debate pessoal: “Eu Mantega sou um ministro do bem e Arminio é um economista do mal porque trabalha no mercado financeiro”.

A estratégia de “demonizar” os ortodoxos mostra muito bem o tipo de debate rasteiro que vários dos membros da antiga equipe econômica do primeiro governo da presidente Dilma faziam. Era simplesmente impossível ter algum debate sério. Hoje, a radicalização do debate reflete um pouco essa intolerância com todos aqueles que discordavam da política econômica do governo anterior.

Vale a pena ler o resto da entrevista. Entre outras coisas o ex-ministro fala em entregar um superávit primário de 1,9% do PIB, em 2014, quando hoje sabemos que o resultado do ano passado foi um déficit de 0,6% do PIB – um erro “pequeno” de 2,5% do PIB feito em outubro de 2015, quando já era claro para todo mundo que o governo não teria como fechar as contas no azul.

Por fim, sugiro também a leitura de um artigo que assinei com Armínio Fraga no Estado de São Paulo no dia 26 de outubro de 2014 (clique aqui). No meu artigo com Armínio mostrávamos que o governo do presidente FHC foi bastante ativo em politica social, ao mesmo tempo que fez reformas e implementou o Plano Real, e que os erros de politica econômica, a partir de 2009, deixariam para o próximo presidente eleito uma herança maldita:

“O governo atual termina com inflação no teto da meta, crescimento perto de zero, forte desequilíbrio das contas públicas, agravamento do processo de desindustrialização e estagnação da produtividade desde 2011. Sem dúvida, ao contrário de 2003, o próximo presidente recebe uma herança maldita e a necessidade de reequilibrar as contas públicas, combater a inflação e retomar as reformas estruturais, com destaque para a tributária.”

Acho que hoje é claro que o governo deixou um grade problema para ele próprio. Tudo previsível por qualquer bom aluno do curso de “Introdução à Economia”. Mas no mesmo jornal no mesmo dia o ministro Mercadante falava do início de um novo ciclo de desenvolvimento (clique aqui) e ainda defendia os subsídios: “Nós construímos uma política industrial baseada em crédito subsidiado, apoio à inovação, desonerações, simplificação tributária e compras públicas com exigência de conteúdo local.”

Recentemente, o ministro Mercadante parece ter feito uma “mea culpa” que o governo anterior exagerou na concessão de subsídios e na expansão fiscal. Mas mais uma vez surpreende ver como os ministros do primeiro governo Dilma acreditavam que a politica de forte expansão fiscal e as intervenções setoriais do governo na economia levariam a um novo ciclo de crescimento.

Não gosto de ficar remoendo o passado. Mas a campanha eleitoral do ano passado foi difícil porque economistas do governo pintavam como pessimistas e neoliberais quem ousasse falar em crise econômica e em desequilíbrio fiscal. Muitos ainda acham que a crise é criação da “grande imprensa” ( há coisa mais ridícula que esse termo “grande imprensa”? A (grande e pequena) imprensa também sofre com a crise).

Em 2014, em um debate na TV, um representante do governo falou que eu tinha cabeça de contador (o que tomei como elogio, mas não era) e que meu amigo Samuel Pessoa estava desatualizado. Armínio Fraga foi massacrado com mentiras de que iria fechar bancos públicos, acabar com os concursos públicos, etc. No final da eleição de tanto falarem mal de alguns de nós economistas eu comecei a ficar com raiva de mim mesmo!

Nós economistas do outro lado fomos apontados como o “diabo”, neoliberais sem coração, economistas a serviço do mercado financeiro, etc. O que mais espanta é ver hoje pessoas que ainda acreditam que os dois lados fizeram o mesmo jogo e que todos mentiram. Não é verdade. Mas se você tiver dúvidas é só olhar o que cada economista falava e escrevia.

Mas chega de remoer o passado porque ainda estamos com um imenso problema para resolver e o futuro é incerto. O triste é constatar que tem um bocado de professor de economia que ainda acredita que a crise econômica é resultado de politicas de 2015 e não dos erros do passado. Eu confesso que adoraria ver esses economistas em algum governo testando suas teses que nem sei se poderiam ser chamadas de heterodoxas, pois vários economistas heterodoxos não compartilham dessas maluquices e agora querem distância desse outro grupo de heterodoxos  (ver artigo do economista Bresser Pereira na Folha – clique aqui).

Agora, há dois grupos de heterodoxos: os do tipo 1 (que amam Keynes e querem mais gasto público) e os do tipo 2 (que amam Keynes e querem um ajuste fiscal). Daqui a pouco teremos heterodoxos tipos 1,2,3 etc. e o mesmo vale para os ortodoxos. Imaginem um debate no qual um economista pergunta ao outro:  “Mas qual a sua versão de ortodoxia ou de heterodoxia”? A minha é a 5, mas antes eu era do tipo 4″.

Depois de uma semana fora do Brasil volto nesta terça para o país sem saber o que sou – economista ortodoxo ou heredoxo e qual versão. Espero que ao chegar no Brasil nesta terça-feira à noite eu tenha alguma noticia positiva ou descubra a minha versão de ortodoxia.

11 pensamentos sobre “Depois de um ano

  1. Excelente artigo ! Mansueto, Você vai encontrar o país da desilusão ! Como disse Serra na sua campanha de 2010: O Governo vai fazer um vôo de galinha !

  2. No artigo, a cantilena do Bresser de hoje praticamente repete o que ele escreveu em “Meu voto em Dilma”, publicado em 19/09/2014 no site Carta Maior.

    Bresser em 19/09/2014

    “Embora um AJUSTE FISCAL FORTE seja essencial para a política novo-desenvolvimentista de colocar os preços macroeconômicos no lugar certo, apenas esse ajuste não basta”.

    E o repisar em conhecidos diagnósticos dos santos guerreiros contra “a direita liberal [que] supõe que basta fazer um ajuste fiscal para resolver o problema:

    “Será necessário também BAIXAR O NÍVEL DA TAXA DE JUROS e DEPRECIAR A TAXA DE CÂMBIO para que a taxa de lucro se torne satisfatória e as empresas voltem a investir. Só assim a economia brasileira deixará de estar a serviço de rentistas e financistas, como está há muito tempo, e os interesses dos empresários ou do setor produtivo da economia voltem a coincidir razoavelmente com os interesses dos trabalhadores.”

    http://www.bresserpereira.org.br/articles/2014/35-Voto-em-Dilma.pdf

    O título do artigo de hoje deveria ser este:

    “Não saia, caro Levy porque nós, se estivéssemos no seu lugar, não saberíamos o que fazer”

  3. Mansueto. Tenho lhe escrito sobre vender as estatais (até a Petrobras) para sanar as contas do governo e dar tempo para uma arrumada geral. Por que vc não comenta isso? Agradeceria saber seu ponto de vista a respeito.

  4. Em meu ponto de vista, acredito que país necessita de restruturação e reforma politica no sistema.
    O excesso de servidores ou funcionários chega a 2.7 milhões, onde gasto com folha de pagamento deixa um rombo no caixa. Pois sistema possui muito funcionários comissionados e em números fantasma, ou seja, sistema tema mais “cacique” do que índio.
    Outra coisa que destrói nossa renda é a falta de planejamento e pesquisa em infraestrutura, e garanto que não é taxa de juros e nem inflação que acaba com país.
    É só observar o tanto de obras feitas em todos os governos, seja eles de qualquer partido sem pesquisa e planejamento. exemplos…Usina de Gás onde não há Gás (Uruguaiana), Barragem do TUA, Barragem Norte, uma série de obras que se inicia com rascunho de projeto se quer com estudo de viabilidade.
    dimitatu

  5. O que acho estranho é você, meu caro Mansueto, tentar enxergar racionalidade no discurso petista.
    Nem Mantega acreditava no que ele falava. Mas e daí? É o poder pelo poder.
    O maior projeto do PT sempre foi manter se no poder. Vendem, ou venderam, a alma ao diabo para não larga o osso.
    Contas públicas, credibilidade, moeda estável? Isso é coisa de neo liberal da elite branca golpista.
    É só ver o cinismo atual do partido, criticam o ajuste e criticam os que são contra. A opinião muda conforme a ocasião, conforme a platéia. E assim vão empurrando com a barriga. Querem segurar Dilma na marra, arrastá la por 4 anos na esperança de nas próximas eleições utilizarem novamente a máquina pública para elegerem o Lula.
    O que é que o Lula faz hoje? Crítica a política atual, tentando se afastar do governo, ao mesmo tempo que defende junto as suas bases a “legitimidade” do governo.
    O Brasil levará décadas para consertar os erros dos PT e cada dia essa conta fica mais alta.

  6. Infelizmente, tenho alguns colegas que insistem em acreditar que a crise “é resultado das políticas implantadas pelo Levy” ou que “Levy acentuou o processo de recessão”. É desalentador ver pessoas leigas dizendo “eu acho que o que estimula a economia a crescer é governo gastar, para que o dinheiro circule, e dessa forma as empresas produzem, etc.” . Em outras palavras, muitas pessoas acreditam no discurso do ex-ministro Mantega, até hoje.

    Foi exatamente essa política expansionista, intervencionista e altamente discricionária que foi praticada de 2011 até 2014. O resultado está aí.

  7. Mansueto, mais um artigo excelente. No debate público atual, dentre as vozes mais lúcidas e racionais, destacam-se as de economistas como você, Marcos Lisboa, Samuel Pessoa, Bernardo Guimarães, Carlos Eduardo Gonçalves, dentre outros.

    Apesar de uma discussão baseada no binômio ortodoxia/heterodoxia sofrer o risco de ser maniqueísta e reducionista, parece-me que, dentre as diferenças entre as posições, assumem relevo duas: a) a ortodoxia prega maior liberdade de mercado e intervenções estatais como exceções e não a regra (tal qual um remédio que serve para casos específicos, mas que pode trazer efeitos colaterais danosos), ao passo que a heterodoxia entende ser o Estado o motor necessário e fundamental do crescimento; b) para a ortodoxia, as políticas monetária e fiscal devem zelar pelo equilíbrio macroeconômico, sanando instabilidades e resolvendo turbulências, de modo que haja espaço e condições para o crescimento, que é determinado por outras razões, como investimento, poupança e produtividade, enquanto a heterodoxia compreende as políticas fiscal e monetária como mais um recurso do Estado que pode promover ativamente o desenvolvimento.

    O que acha?

Os comentários estão desativados.