Para ler neste domingo

As sugestões de leitura deste domingo, como de praxe, deixarão o seu dia de descanso um pouco amargo com as noticias ruins dos jornais. Mas é bom que as pessoas tenham consciência do momento difícil que passamos para que possamos tomar atitudes para melhorar o nosso país.

Ser realista é diferente de ser pessimista e não adianta esconder o fato que estamos passando por uma crise muito séria sem perspectiva ainda de solução. Eu, como muito dos meus colegas economistas, não conseguimos mais fazer cenários.

O constante bombardeio da equipe econômica por supostos aliados dificulta qualquer esperança e otimismo quanto a possibilidade de algum ajuste mais estrutural.

Os desdobramentos sempre surpreendentes da operação Lava Jato, o maior escândalo de corrupção da nossa ainda nova democracia pós-ditadura militar, deixam todos nós surpresos quanto a frequência e intensidade de desvios de recursos públicos e tráfico de influência de pessoas nomeadas pelo governo nos últimos anos.

É com esta sombria introdução que começo a minha lista de sugestão de leitura de jornais deste domingo. Recomendo de inicio a coluna da Folha de São Paulo assinada pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles na qual Meirelles fala da reversão rápida e brutal das expectativas de crescimento e estabilidade econômica, que deixou um sabor amargo nas pessoas e sentimentos até de revolta que estimulam o desejo de desistir e de deixar o país (clique aqui). Embora o numero de pessoas que deixam o Brasil ser ainda pequeno é um sinal ruim.

Recomendo também na Folha de São Paulo a entrevista do presidente do PT, Rui Falcão (clique aqui). Nessa entrevista o presidente do PT fala de uma suposta nova estratégia econômica baseada na redução de juros e na expansão da crédito. A ideia parece ser convencer a presidente Dilma e, assim, impor essa nova politica ao Ministro da Fazenda com ou sem a sua concordância.

Como fala o presidente do PT: “A lógica do regime presidencialista é que os ministros devem seguir a orientação do presidente da República. Se ela entender que essa política que está sendo realizada deve ter correções, no todo ou em parte, ela determina isso.”

É claro que, se isso acontecer, Joaquim Levy deixará o governo e o PT vai se ver com suas próprias politicas. Seria um desastre para o Brasil, mas seria bom para acabar de vez com a suposta “agenda alternativa” e desmascarar soluções mágicas.

Vale a pena ler também a coluna do economista Samuel Pessoa (pedalando o BNDES – clique aqui) sobre as pedaladas, envolvendo o BNDES. Essa pedaladas consistem na concessão de subsídios pelo Banco, subsídios esses que o Tesouro Nacional levava dois anos para reconhecer como devido graças a Portaria 357 do Ministério da Fazenda de outubro de 2012.

É muito importante também ler a entrevista com o colunista do Financial Times, Martin Wolf, ao jornalista João Villaverde publicada no jornal o Estado de São Paulo (clique aqui). Martin Wolf defende um forte ajuste fiscal para o Brasil e ele está certo. Em uma das respostas ele fala que:

“Em muitos países, e esse é o caso do Brasil, não há alternativa a um duro aperto fiscal. O novo ciclo das commodities, com preços baixos, é algo permanente. Alguns preços podem subir, eventualmente, mas de modo geral o ciclo está instalado. A renda geral dos países exportadores será mais baixa. Ponto. Entendendo isso, não há outra alternativa a não ser apertar os cintos, algo até que deveria ter sido feito antes. Essa me parece ser a vontade do ministro da Fazenda, a partir de encontros que tive com ele. Mas fato é: se há perdas permanentes para a economia, ajustes são necessários. O País está mais pobre do que pensavam que estaria. Mais desvalorização cambial deve ocorrer, o que ampliará as exportações. A política monetária deve ser usada como estabilizadora da economia, mas para isso, as contas públicas precisam melhorar. As taxas de juros são elevadas no Brasil e inibem o crescimento, mas antes de uma mudança neste lado é preciso melhorar o lado fiscal. Acredite, é inevitável.”

E por fim, recomendo a leitura da coluna da jornalista Miriam Leitão no jornal O Globo que mostra como as trapalhadas do governo estão afetando a credibilidade da equipe econômica (clique aqui). O último paragrafo da coluna mostra bem o desalento da jornalista com qualquer progresso do governo na área econômica:

“Encurralada como está, não há o que a equipe econômica possa fazer para aliviar o quadro de recessão, inflação alta e incerteza fiscal que o país está vivendo. Os que querem no governo e no petismo derrubar Levy não sabem o que propor como alternativa. Por isso, o movimento não faz sentido. Mas nada mais faz sentido neste governo.”

Sei que é difícil dizer isso, mas bom domingo a todos. Amanhã viajo para o exterior e fico uma semana longe do Brasil, mas será impossível não “pensar” todos os dias no Brasil.

9 pensamentos sobre “Para ler neste domingo

  1. Dr Mansueto, li ontem uma informação que me deixou ainda mais intrigado e preocupado, não só com os rumos da economia brasileira, mas da economia do mundo. A informação, que não sei se é verídica, é que o aumento das commodities nos últimos anos foi puxada pela China (como todos sabem), porém pelo fato de que os chineses “superinvestiram” em infra estrutura, ou seja, eles tem “reserva de infraestrutura” hoje para muitos anos para a frente e agora desaceleraram esses investimentos por esse motivo. Ou seja, eles vão poder reduzir seus investimentos durantes muitos anos sem perder a capacidade de crescimento (coisa de sábio chinês). Essa informação é correta?

      • E o que acontece se o governo baixar o juros (ou o BC, enfim…)?
        O governo vai captar recursos mais baixos? Alguém vai emprestar para ele, na taxa que ELE vai determinar?
        O perfil da divida muda favoravelmente pro governo?

        O governo vai diminuir os juros para estimular a demanda, mas sem injetar crédito dele próprio via bancos públicos? Isso destrava investimento privado via redução do custo de oportunidade (pelo menos?) ?
        E a inflação, decola de vez? (essa deve ser a resposta mais facil…)

        Abraço a todos

    • Vi em vários lugares uma notícia que corrobora essa tese de que a China consumiu em 2 anos mais cimento do que os EUA em 100 anos.
      Se isso for verdade não há dúvidas que a há uma bolha de infraestrutura na China. Imagine a quantidade de fatores de produção ocupados para da conta de tamanho consumo de cimento. A quantidade de caminhões, materiais de construção e pessoas envolvidas.
      Se a China desacelerar seu investimento em infraestrutura, todos esses fatores de produção ficaram ociosos. O que reduzirá a demanda por combustível e minerais por um bom tempo.

  2. Fiquei impressionado com como o Rui Falcão escancaradamente deixa de responder 2/3 das perguntas do entrevistador.

    Seria mais honesto se dissesse: “Quero que Levy saia. Sem mais perguntas.”

  3. Mansueto, tenho estudado todos seus artigos e do Samuel Pessoa além da análise do Bernard Appy sobre o sistema tributário. Sugiro que vcs ponham em gráficos aquelas planilhas, o que vai mostrar visualmente as quedas das receitas recorrentes e a tendência de alta dos gastos sociais do Governo Central com as regras atuais que levarão ao agravamento do déficit primário. Também ficará evidente que o governo não tem de onde tirar recursos para essa “politica alternativa” que o PT propõe, aliás razão maior do atual estado de coisas. Reformas estruturais nas regras da previdência, gastos sociais e do sistema tributário levarão tempo para ser feitas e nem acredito, com a atual bagunça no sistema politico.

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