Para ler neste domingo e sugestão de entrevistas.

Este domingo tem vários artigos e matérias interessantes nos jornais. O fato de ser interessante não significa que você tenha que concordar 100% com o teor desses artigos e matérias de jornais. Segue abaixo a minha lista de indicações.

Recomendo o artigo na Ilustríssima do economista Samuel Pessoa (FGV-RJ) e do cientista político (e médico) Carlos Pereira (FGV-RJ) sobre a real diferença entre PT e PSDB (clique aqui). Os autores mostra que a real diferença entre os partidos não é a prioridade de gastos sociais. Eu já fiz também esse levantamento e já falei várias vezes. Todos os presidentes do Brasil pós-Constituição de 1988 priorizaram gastos sociais. O que mudou foi a composição do que se chama de gasto social.

O artigo de Pessoa e Pereira mostram que a rela diferença entre PSDB e PT está no administração da coalizão partidária. O PSDB soube monstra um ministério que refletia melhor o espectro ideológico do Congresso Nacional e o PT se baseou mais uma tentativa (tosca) de controlar os demais partidos da coalizão por meio de um governo de cooptação (de partidos) que funcionou por algum tempo, apesar do elevado custo de administrar a coalização (ou cooptação).

Um outro artigo excelente é do economista Affonso Celso Pastore (clique aqui para ler a ilusão de um mudança de rumo). Pastore mostra que a nossa (grave) recessão atual antecede a indicação de Joaquim Levy e mostra desconforto com a ideia de volta da CPMF como uma ponte para um ajuste fiscal mais estrutural.

Na visão de Pastore, dada a falta de credibilidade de governos do PT, aumento de impostos não serão temporários coisa nenhuma, mas uma forma de reduzir a restrição orçamentária (falta de recursos orçamentários) para eleger Lula. Vários amigos meus economistas famosos pensam o mesmo. ­Pastore acredita que o momento seguinte de saída da recessão neste governo seja um longo período de estagnação.

Há ainda neste domingo uma excelente entrevista com o economista que é talvez o melhor analista da economia real: José Roberto Mendonça de Barros (clique aqui). José Roberto acredita que não há como o governo atual terminar com essa falta de estabilidade de um governo politicamente fraco sem força de resolver os nossos problemas estruturais.

Há um grupo no mercado financeiro (não saberia dizer se grande ou pequeno) que acredita que o segundo governo Dilma possa repetir o governo Sarney, um governo fraco para aprovar reformas mas forte o bastante para evitar uma crise de governabilidade com impeachment ou renúncia. Jose Roberto Mendonça de Barros parece não acreditar nesse hipótese.

Um ponto que José Roberto Mendonça vem falando há tempo para conhecidos (eu inclusive) é do risco de quebradeira até o final do ano. Comecei a escutar o mesmo de gestores de fundos de hedge recentemente. Até o final do ano saberemos como isso irá se desenrolar. A propósito, quem for rico e quiser comprar um jatinho espere um pouco que a oferta deverá aumentar.

Agora, fugindo um pouco do tema econômico, sugiro a todos que leiam a estreia do Lauro Jardim (ex-titular da coluna RADAR da Veja) no jornal o Globo (clique aqui) e a entrevista do senador e presidente do PSDB ao Estado de São Paulo (clique aqui).

Por fim, deixo aqui uma dica para os jornalistas. De todo esse debate sobre dominância fiscal, dois economistas da PUC conseguiram sintetizar de maneira clara a teoria e mostrar indicadores relevantes para acompanhar esse debate no Brasil. Esses economistas são Tiago Berriel e Carlos Viana da PUC-RJ.

Se eu fosse jornalista varia uma entrevista de domingo com os dois para esclarecer para o grade público o que é, se estamos ou não lá e como evitar que o Brasil chegue a uma situação de dominância fiscal. Seria bom ver caras novas e d economistas competentes nos jornais de domingo.

Na lista de economistas novos e competentes entrevistaria também Vinicius Carrasco (PUC-RJ) e João Manoel Pinho de Mello (INSPER) sobre o papel do BNDES, o custo de proteção comercial e como melhorar os leilões das novas concessões. Entra também nesse grupo Bernardo Guimarães (FGV-SP) e Carlos Eduardo Soares Gonçalves (professor licenciado da USP que está no FMI) para falar de nossas escolhas erradas e da agenda de reformas microeconômicas.

Resumindo, adoraria ver os seguintes nomes em entrevistas nos jornais nos próximos domingos: (1) Tiago Berriel e Carlos Viana da PUC-RJ; (2) Vinicius Carrasco (PUC-RJ) e João Manoel Pinho de Mello (INSPER) , e a dupla (3) Bernardo Guimarães (FGV-SP) e Carlos Eduardo Soares Gonçalves (FMI). Cada uma dessas duplas têm vários trabalhos publicados, são excelentes economistas e extremamente didáticos.

8 pensamentos sobre “Para ler neste domingo e sugestão de entrevistas.

  1. Se me permite, sugeriria um texto na área da c. política, de Francisco Ferraz, publicado hoje, no Estadão, A Função da Substituição Institucional.
    Gosto muito de ler seus textos e ouvir suas entrevistas, apenas discordo da uilização do termo “a gente” para referir-se às ações do governo. É muito importante fazer uma clara e nítida separação entre o joio e o trigo…
    Obrigada por seu esforço incansável de tentar nos esclarecer sobre questões tão importantes para a vida do país.

    • Muito bom o nível do debate sobre dominância fiscal entre Mônica e Ellery, que discorda de Mõnica.

      Mônica colocou no twitter dela os links para os artigos dela e de outros sobre o assunto.

      O comentário do Ellery ao debate proposto pela Mônica está no blog dele.

      Hoje na CBN ela foi enfática ao afirmar que para a ela o regime de metas já foi para o saco faz tempo, e desde que Tombini virou “Pombini” (há ótimos artigos e posts do Alexandre Schwartsman sobre o abandono de regime de metas por Tombini desde 2011). Por isso Mônica diz que a questão agora é escolher uma saída que tenha menor custo do que simplesmente deixar que a inflação faça o “trabalho sujo”. Esse é o principal receio dela: a conta paga com a barbárie da inflação sobre os que não têm como dela se defender.

      Mônica e Ellery concordam que nenhum ajuste fiscal merecedor do nome vai se efetivar sob este governo. Eu compartilho essa visão cética sobre o governo Dilma II.

      E se bem entendi, Mônica não fez proposta (propõe um debate) para o governo Dilma, mas para a oposição.

      Mônica fez no facebook dela um comentário ao comentário do Ellery, que respondeu nos coments.

      Vale a pena ler.

      Mônica:

      Roberto Ellery, vejo a discussão assim:
      1. Suponhamos que estejamos sob dominância fiscal. Neste caso: (a) o BC nada faz e tolera mais inflação; ou (b) o BC institui outra âncora nominal, porque o regime de metas não funciona. O julgamento aqui é determinar qual estratégia tem o menor custo, já que não estamos em situação de colher benefícios.
      2. Não estamos sob dominância fiscal, caso em que alguém tem de explicar porque o déficit nominal que cresce exponencialmente não é um problema. (De 3% no início de 2014, para 6% ao final do ano passado, para 9% agora).
      De todo modo, o regime de metas de inflação com câmbio flutuante é o melhor sob condições normais de temperatura e pressão. O problema é que ele não resiste a todo e qualquer tipo de abuso. O Banco da Inglaterra o abandonou temporariamente em 2009 em favor de um regime de metas de PIB nominal. Vários países emergentes em 2011 o deixaram de lado (tacitamente), o Brasil incluído, quando os QEs dos países desenvolvidos os obrigaram a instituir as famosas medidas macroprudenciais.
      Enfim, o regime de metas requer o que qualquer outro regime também requer: consistência entre a política monetária, a fiscal, e a cambial. Quando um desses elos se quebra, ele morre.

      Ellery

      Roberto Ellery Com relação ao regime de metas creio que foi abandonado (quase que) oficialmente em 2011 quando Tombini avisou que a convergência seria no ano seguinte (continua repetindo o mesmo até hoje) e na sequencia de uma ata do Copom que mandava para política fiscal a conta do controle da inflação. O decreto que estabelecia o regime de metas deveria ter sido revogado naquele momento, só não foi por uma esquisitice do governo que ao mesmo tempo que anunciou uma nova política com direito até mesmo a nome tentou nos convencer que não estava alternado a política vigente. Sendo assim não reclamo pelo fim do regime de metas, dado que isso é fato antigo.

      Minha preocupação é com a não elevação de juros pelo BC. Como você bem diz na entrevista a proposta de usar as reservas para colocar uma âncora cambial é essencialmente transitória, aí aparece o primeiro e maior problema: não estamos em transito. Apesar dos discursos está claro que o governo não está disposto a fazer um ajuste fiscal, o recuo no congelamento do salário dos servidores e a aposta em uma mudança constitucional para trazer de volta mais um imposto me parecem sinais suficientes que o ajuste é para inglês, ou agências de rating, ver. É sempre bom lembrar que a mesma maioria necessária para trazer de volta a CPMF seria suficiente para mudar a constituição visando controlar gastos, por exemplo, criando idade mínima de aposentadoria. Sendo assim temo que o uso de reservas nos levaria a uma situação onde ficaríamos sem reservas, com o câmbio ainda mais desvalorizado (até aqui parece que concordamos) e sem ajuste fiscal. O controle de capitais e todas as conhecidas medidas que nos levariam adeira abaixo seriam inevitáveis. O segundo e menor problema é que uso de reservas pode não funcionar para controlar o câmbio e pode até ter um efeito contrário, penso no caso da Rússia onde a desvalorização só foi amenizada quando o BC aumentou juros.

      Da forma que vejo a alternativa seria o BC realizar um forte aumento dos juros. Entendo que a medida seria contraproducente em caso de dominância fiscal e entendo que o gráfico do seu texto é um forte indício de dominância fiscal, mas o aumento dos juros poderia servir de incentivo para o ajuste (não creio que vá acontecer, mas é uma esperança semelhante a de que o regime de bandas móveis vai servir de incentivo para o ajuste) e daria um sinal que o BC não jogou a toalha (sinal tardio, mas antes tarde do que nunca).

      Enfim, creio que não temos muita escapatória. A última chance de retorno foi desperdiçada com a recondução do governo ano passado, agora é ladeira abaixo. De toda forma agradeço a consideração de responder o comentário que fiz. Temo que no final do dia estejamos em situações parecidas: sabemos o tamanho do problema e buscamos, talvez com graus diferentes de esperança, saídas para o que parece ser inevitável.

  2. Prezado Mansueto. Parabens pelos ensinamentos e sugestões. Não sou economista. Como muitos dos seus leitores. Precisamos de gente assim, divulgando cultura. Desejo que sua carteira de clientes aumente cada dia mais e permita que voce continue nos brindando com artigos.

  3. Caro Mansueto, é óbvio que o aumento de carga tributária será permanente. Não sei como você não consegue perceber isso, que longe de equilibrar as contas, esse aumento visa possibilitar um relaxamento ainda maior no lado das despesas. Não existe ajuste fiscal que não seja 100% baseado no lado das despesas.

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