Depois de um ano

Não vou falar muito o que aconteceu depois de um ano da vitória da presidente Dilma. Acho que os dados são muito claros. Mas o que vou fazer aqui é, rapidamente, comentar uma entrevista do ex-Ministro da Fazenda Guido Mantega à Folha um pouco antes do segundo turno e dois artigos no Estado de São Paulo, um de minha autoria com Armínio Fraga e outro do ministro Mercadante, publicados no dia do segundo turno da eleição presidencial de 2015.

Vamos começar pela entrevista do ex-Ministro Mantega que deve ser talvez o maior critico da politica econômica atual baseado no que ele declarou no passado (clique aqui para ler a entrevista completa à Folha no dia 19 de outubro de 2014). Algumas coisas que o ex-ministro falou:

(1) “….Deve ter tido erros de calibragem. Mas no essencial nós acertamos, fizemos política anticíclica, desenvolvimentista. O que prova isso é que a economia brasileira gerou emprego, está com um dos menores níveis de desemprego. Portanto, a população brasileira não pagou o preço da crise”.

Em outubro de 2014, já era muito claro para todos com alguma capacidade mínima de analise econômica o agravamento da crise da economia brasileira, mas o então ministro da fazenda ainda falava que o governo acertou na politica anticíclica desenvolvimentista. Hoje é difícil alguém acreditar nesta tese e a recessão atual é resultado do que o ex-ministro chama de “acerto” da política anticíclica desenvolvimentista.

(2) sobre uma forte desvalorização do Dólar com a vitória da presidente Dilma “….Rally contra o câmbio vai quebrar a cara porque nós temos US$ 380 bilhões de reservas. Somos poderosos nessa área. Não tem razão para fazer rali, mesmo porque a política que nós vamos praticar está clara, não tem mistério. E acredito que é uma política que interessa a todos, à maioria da população.”

Bom, quando o ex-ministro falou isso a taxa de câmbio era R$ 2,43/US$. Hoje está em R$ 3,91; um aumento de 61% em um ano. Pode ainda ser pior a depender da capacidade do governo entregar o ajuste fiscal prometido. Ou seja, quem acreditou no ministro teve um senhor prejuízo e quem não acreditou no ministro se deu muito bem. Um retorno de mais de 60% em um ano é algo excepcional!

(3) Sobre a questão da contabilidade criativa e as pedaladas fiscais: “Olha, até agora não vi o Tribunal de Contas se manifestar sobre a chamada contabilidade criativa. Porque as contas são auditadas de forma muito rigorosa. A CGU (Controladoria Geral da União) audita nossas contas. Não foi apontada nenhuma irregularidade com as nossas contas. Então elas são aprovadas, estão corretas. Eu só pedalei quando andei de bicicleta, dei umas pedaladas”.

Bom, agora por unanimidade, algo que me surpreendeu, o Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou a rejeição das contas do governo federal de 2014 devido, entre outras coisas, as pedaladas fiscais. Mais uma vez esse tipo de declaração do ex-ministro mostra que o governo não tinha noção do tamanho do problema que estava criando ou se tinha noção achava que não era nada demais. O que surpreende não foi a recomendação do TCU para  a rejeição das contas de 2014, mas como isso não ocorreu antes, já que parta das pedaladas vem de 2012 e 2013.

(4) Quando os repórteres da Folha perguntaram: “Como pode garantir que o Armínio Fraga, se ele sentar nessa cadeira, vai subir os juros?” Mantega prontamente respondeu: “Só se mudou a ideologia dele, a vertente econômica. Ainda mais ele, que vem do meio financeiro. Ele vem de um trabalho com banqueiros. Ele compartilhava daquela ideia de que a economia brasileira precisa ter um juro mínimo real de 10%, lembra? Será que ele mudou? Então ele deixou de ser neoliberal, deixou de ser ortodoxo? Eu não ouvi ele dizendo isso em nenhum momento. Então sabemos qual é a prática, só ver a prática que os ortodoxos fazem no mundo todo. Ajuste fiscal mais duro, mais rigoroso, mais rápido. Significa derrubar a economia, causar uma recessão. Isso está no manual deles, se ele mudou, não sei. Não vi ele afirmando nada que levasse a entender isso.”

É claro que o ex-ministro deve achar que se o governo tivesse continuado com as pedaladas, tivesse reduzido os juros, etc. a economia estaria crescendo mais rápido. É difícil saber se o ex-ministro Mantega hoje reconheceria os seus erros. Mas pela resposta acima nota-se que o ex-ministro não perdia a chance de levar um debate técnico para um debate pessoal: “Eu Mantega sou um ministro do bem e Arminio é um economista do mal porque trabalha no mercado financeiro”.

A estratégia de “demonizar” os ortodoxos mostra muito bem o tipo de debate rasteiro que vários dos membros da antiga equipe econômica do primeiro governo da presidente Dilma faziam. Era simplesmente impossível ter algum debate sério. Hoje, a radicalização do debate reflete um pouco essa intolerância com todos aqueles que discordavam da política econômica do governo anterior.

Vale a pena ler o resto da entrevista. Entre outras coisas o ex-ministro fala em entregar um superávit primário de 1,9% do PIB, em 2014, quando hoje sabemos que o resultado do ano passado foi um déficit de 0,6% do PIB – um erro “pequeno” de 2,5% do PIB feito em outubro de 2015, quando já era claro para todo mundo que o governo não teria como fechar as contas no azul.

Por fim, sugiro também a leitura de um artigo que assinei com Armínio Fraga no Estado de São Paulo no dia 26 de outubro de 2014 (clique aqui). No meu artigo com Armínio mostrávamos que o governo do presidente FHC foi bastante ativo em politica social, ao mesmo tempo que fez reformas e implementou o Plano Real, e que os erros de politica econômica, a partir de 2009, deixariam para o próximo presidente eleito uma herança maldita:

“O governo atual termina com inflação no teto da meta, crescimento perto de zero, forte desequilíbrio das contas públicas, agravamento do processo de desindustrialização e estagnação da produtividade desde 2011. Sem dúvida, ao contrário de 2003, o próximo presidente recebe uma herança maldita e a necessidade de reequilibrar as contas públicas, combater a inflação e retomar as reformas estruturais, com destaque para a tributária.”

Acho que hoje é claro que o governo deixou um grade problema para ele próprio. Tudo previsível por qualquer bom aluno do curso de “Introdução à Economia”. Mas no mesmo jornal no mesmo dia o ministro Mercadante falava do início de um novo ciclo de desenvolvimento (clique aqui) e ainda defendia os subsídios: “Nós construímos uma política industrial baseada em crédito subsidiado, apoio à inovação, desonerações, simplificação tributária e compras públicas com exigência de conteúdo local.”

Recentemente, o ministro Mercadante parece ter feito uma “mea culpa” que o governo anterior exagerou na concessão de subsídios e na expansão fiscal. Mas mais uma vez surpreende ver como os ministros do primeiro governo Dilma acreditavam que a politica de forte expansão fiscal e as intervenções setoriais do governo na economia levariam a um novo ciclo de crescimento.

Não gosto de ficar remoendo o passado. Mas a campanha eleitoral do ano passado foi difícil porque economistas do governo pintavam como pessimistas e neoliberais quem ousasse falar em crise econômica e em desequilíbrio fiscal. Muitos ainda acham que a crise é criação da “grande imprensa” ( há coisa mais ridícula que esse termo “grande imprensa”? A (grande e pequena) imprensa também sofre com a crise).

Em 2014, em um debate na TV, um representante do governo falou que eu tinha cabeça de contador (o que tomei como elogio, mas não era) e que meu amigo Samuel Pessoa estava desatualizado. Armínio Fraga foi massacrado com mentiras de que iria fechar bancos públicos, acabar com os concursos públicos, etc. No final da eleição de tanto falarem mal de alguns de nós economistas eu comecei a ficar com raiva de mim mesmo!

Nós economistas do outro lado fomos apontados como o “diabo”, neoliberais sem coração, economistas a serviço do mercado financeiro, etc. O que mais espanta é ver hoje pessoas que ainda acreditam que os dois lados fizeram o mesmo jogo e que todos mentiram. Não é verdade. Mas se você tiver dúvidas é só olhar o que cada economista falava e escrevia.

Mas chega de remoer o passado porque ainda estamos com um imenso problema para resolver e o futuro é incerto. O triste é constatar que tem um bocado de professor de economia que ainda acredita que a crise econômica é resultado de politicas de 2015 e não dos erros do passado. Eu confesso que adoraria ver esses economistas em algum governo testando suas teses que nem sei se poderiam ser chamadas de heterodoxas, pois vários economistas heterodoxos não compartilham dessas maluquices e agora querem distância desse outro grupo de heterodoxos  (ver artigo do economista Bresser Pereira na Folha – clique aqui).

Agora, há dois grupos de heterodoxos: os do tipo 1 (que amam Keynes e querem mais gasto público) e os do tipo 2 (que amam Keynes e querem um ajuste fiscal). Daqui a pouco teremos heterodoxos tipos 1,2,3 etc. e o mesmo vale para os ortodoxos. Imaginem um debate no qual um economista pergunta ao outro:  “Mas qual a sua versão de ortodoxia ou de heterodoxia”? A minha é a 5, mas antes eu era do tipo 4″.

Depois de uma semana fora do Brasil volto nesta terça para o país sem saber o que sou – economista ortodoxo ou heredoxo e qual versão. Espero que ao chegar no Brasil nesta terça-feira à noite eu tenha alguma noticia positiva ou descubra a minha versão de ortodoxia.

Para ler neste domingo

As sugestões de leitura deste domingo, como de praxe, deixarão o seu dia de descanso um pouco amargo com as noticias ruins dos jornais. Mas é bom que as pessoas tenham consciência do momento difícil que passamos para que possamos tomar atitudes para melhorar o nosso país.

Ser realista é diferente de ser pessimista e não adianta esconder o fato que estamos passando por uma crise muito séria sem perspectiva ainda de solução. Eu, como muito dos meus colegas economistas, não conseguimos mais fazer cenários.

O constante bombardeio da equipe econômica por supostos aliados dificulta qualquer esperança e otimismo quanto a possibilidade de algum ajuste mais estrutural.

Os desdobramentos sempre surpreendentes da operação Lava Jato, o maior escândalo de corrupção da nossa ainda nova democracia pós-ditadura militar, deixam todos nós surpresos quanto a frequência e intensidade de desvios de recursos públicos e tráfico de influência de pessoas nomeadas pelo governo nos últimos anos.

É com esta sombria introdução que começo a minha lista de sugestão de leitura de jornais deste domingo. Recomendo de inicio a coluna da Folha de São Paulo assinada pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles na qual Meirelles fala da reversão rápida e brutal das expectativas de crescimento e estabilidade econômica, que deixou um sabor amargo nas pessoas e sentimentos até de revolta que estimulam o desejo de desistir e de deixar o país (clique aqui). Embora o numero de pessoas que deixam o Brasil ser ainda pequeno é um sinal ruim.

Recomendo também na Folha de São Paulo a entrevista do presidente do PT, Rui Falcão (clique aqui). Nessa entrevista o presidente do PT fala de uma suposta nova estratégia econômica baseada na redução de juros e na expansão da crédito. A ideia parece ser convencer a presidente Dilma e, assim, impor essa nova politica ao Ministro da Fazenda com ou sem a sua concordância.

Como fala o presidente do PT: “A lógica do regime presidencialista é que os ministros devem seguir a orientação do presidente da República. Se ela entender que essa política que está sendo realizada deve ter correções, no todo ou em parte, ela determina isso.”

É claro que, se isso acontecer, Joaquim Levy deixará o governo e o PT vai se ver com suas próprias politicas. Seria um desastre para o Brasil, mas seria bom para acabar de vez com a suposta “agenda alternativa” e desmascarar soluções mágicas.

Vale a pena ler também a coluna do economista Samuel Pessoa (pedalando o BNDES – clique aqui) sobre as pedaladas, envolvendo o BNDES. Essa pedaladas consistem na concessão de subsídios pelo Banco, subsídios esses que o Tesouro Nacional levava dois anos para reconhecer como devido graças a Portaria 357 do Ministério da Fazenda de outubro de 2012.

É muito importante também ler a entrevista com o colunista do Financial Times, Martin Wolf, ao jornalista João Villaverde publicada no jornal o Estado de São Paulo (clique aqui). Martin Wolf defende um forte ajuste fiscal para o Brasil e ele está certo. Em uma das respostas ele fala que:

“Em muitos países, e esse é o caso do Brasil, não há alternativa a um duro aperto fiscal. O novo ciclo das commodities, com preços baixos, é algo permanente. Alguns preços podem subir, eventualmente, mas de modo geral o ciclo está instalado. A renda geral dos países exportadores será mais baixa. Ponto. Entendendo isso, não há outra alternativa a não ser apertar os cintos, algo até que deveria ter sido feito antes. Essa me parece ser a vontade do ministro da Fazenda, a partir de encontros que tive com ele. Mas fato é: se há perdas permanentes para a economia, ajustes são necessários. O País está mais pobre do que pensavam que estaria. Mais desvalorização cambial deve ocorrer, o que ampliará as exportações. A política monetária deve ser usada como estabilizadora da economia, mas para isso, as contas públicas precisam melhorar. As taxas de juros são elevadas no Brasil e inibem o crescimento, mas antes de uma mudança neste lado é preciso melhorar o lado fiscal. Acredite, é inevitável.”

E por fim, recomendo a leitura da coluna da jornalista Miriam Leitão no jornal O Globo que mostra como as trapalhadas do governo estão afetando a credibilidade da equipe econômica (clique aqui). O último paragrafo da coluna mostra bem o desalento da jornalista com qualquer progresso do governo na área econômica:

“Encurralada como está, não há o que a equipe econômica possa fazer para aliviar o quadro de recessão, inflação alta e incerteza fiscal que o país está vivendo. Os que querem no governo e no petismo derrubar Levy não sabem o que propor como alternativa. Por isso, o movimento não faz sentido. Mas nada mais faz sentido neste governo.”

Sei que é difícil dizer isso, mas bom domingo a todos. Amanhã viajo para o exterior e fico uma semana longe do Brasil, mas será impossível não “pensar” todos os dias no Brasil.

Sem rumo ou “comprado em Dólar”.

O governo federal, com a ajuda do ex-presidente Lula, tem consigo a incrível façanha da apressar a perda do segundo grau de investimento do Brasil, postergar a retomada do investimento, aumentar a volatilidade cambial e as expectativas de inflação.

O pedido do ex-presidente Lula para a saída de Joaquim Levy noticiada fortemente pelos jornais de sexta-feira e que levou a uma reunião entre o Ministro e a Presidente da República, reunião esta em que supostamente o ministro carregava em seu bolso uma carta de demissão (não confirmado), deixou o mercado nervoso e aumentou ainda mais as incerteza da economia.

Por que tanto nervosismo com a troca de um ministro da fazenda? Por pelo menos quatro motivos. Primeiro, a agenda do ajuste fiscal, independentemente de quem sente na cadeira que é hoje ocupada por Joaquim Levy, é a mesma. Assim, alguém achar que a troca de um ministro faria muita diferença está equivocado. Mas a depender de quem seja o novo ministro e do seu desejo de agradar politicos do PT  o quadro econômico pode piorar ainda mais.

Segundo, uma dos grandes ou o maior entrave ao processo de ajuste fiscal e que alimenta as incertezas é a atuação dos parlamentares e simpatizantes do PT. A cada dia população é bombardeada com criticas do PT ao Ministro da Fazenda e a sugestão de um suposto plano de ajuste alternativo que, ao contrário de resolver a crise, agravaria a crise fiscal. Apenas alguém muito inocente (mesmo com Ph.D. e com título de professor titular) poderia achar que aumento do gasto publico em um país com déficit nominal de 9% do PIB resolveria uma crise fiscal.

Terceiro, um outro entrave ao ajuste econômico é o governo do PT. Entre os parlamentares de oposição há a convicção que não há como negociar com um governo do PT porque, um mínimo consenso politico pró-reformas hoje, seria utilizado em um momento seguinte pelo PT para acusar políticos dos partidos de oposição de promoverem uma agenda liberal contra os trabalhadores e as classes de renda mais baixa do país.

Ou seja, muitos parlamentares de oposição acreditam que o governo que hoje pede ajuda do Congresso Nacional para aprovar o aumento da CPMF será o mesmo que amanhã usará a aprovação de qualquer reforma para jogar a culpa dessas mesmas reformas no colo da oposição. Tem dúvidas? Quem foi o senador que primeiro criticou veementemente o ultimo plano de ajuste fiscal? Um senador do PT: Lindbergh Farias.

Quarto, muitos alegam que, mais do que trocar o Ministro da Fazenda, o processo de ajuste seria mais fácil com a troca de governo. Mas como estamos há três anos de uma nova eleição, os analistas vêm duas possibilidades com o governo atual. O governo se mantém até 2018 em um cenário de estagnação, com um ajuste fiscal incompleto e com pouquíssimos avanços estruturais. A outra possibilidade é a presidente não terminar o seu mandato e, por isso, analistas de mercado hoje visitam mais Deputados e Senadores do que Ministério da Fazenda, Planejamento e Banco Central.

E a possibilidade de o governo conseguir se fortalecer politicamente e aprovar uma agenda de reformas estruturais? Hoje, quase ninguém acredita nessa possibilidade e o PT junto com o ex-presidente Lula, ao atacarem sistematicamente a equipe econômica do governo Dilma, aumentam as incertezas e faz com que todos fiquem trabalhando com os dois cenários possíveis apontados acima.

O PT e o ex-presidente Lula ou não sabem o mal que fazem quando criticam a política econômica e pedem a cabeça do Ministro da Fazenda ou estão “comprados em Dólar” (linguagem do mercado para quando alguém compra Dólar no mercado futuro por um preço pré-estabelecido e, se o valor da moeda dispara, a pessoa tem um grande lucro, pois  vai comprar a moeda por um preço menor no dia de fechamento da operação e vender a um preço mais alto).

Desafio Fiscal: Despesa, Tributos, Gasto Social e Ajuste.

Em julho, publiquei junto com Marcos Lisboa e Samuel Pessoa texto sobre o ajuste inevitável no qual mostrávamos a necessidade de um ajuste fiscal estrutural. A partir desse artigo, o embaixador Rubens Barbosa gentilmente nos provocou para aprofundar alguns pontos do artigo para publicarmos na edição de outubro da revista Interesse Nacional.

O resultado é a edição de outubro da Revista Interesse Nacional – Ano 8, número 31, outubro-dezembro de 2015 (clique aqui), com artigos de vários colegas: Samuel Pessoa, Bernard Appy, Fábio Giambiagi, Náercio Menezes, Marcos Lisboa, Marcos Mendes, Sérgio Lazzarini e o colunista do Estado de São Paulo José Roberto de Toledo.

No meu artigo trato de problemas ligados à rigidez do gasto publico do governo central (clique aqui). Reproduzo abaixo a introdução para ver ser algum de vocês se animam a ler. Os artigos são pequenos: oito páginas. Assim, sem tiverem um tempinho leiam esse numero da revista Interesse Nacional.

A Rigidez do Gasto Público: Problemas e Soluções

Mansueto Almeida

De 1991 a 2014, a despesa primária do governo central cresceu 9 pontos de percentagem do PIB, um crescimento da despesa da ordem de R$ 512 bilhões, dos quais 78,7% decorrente da expansão de programas de transferência de renda: Benefício Mensal de Prestação Continuada, seguro-desemprego e abono salarial, Bolsa Família, INSS e aposentadorias de servidores públicos. Essa tendência do crescimento da despesa do governo central foi agravada, nos últimos três anos, com a criação de novos programas, em especial, subsídios setoriais, subsídios para o Minha Casa Minha Vida e desoneração da folha de salários.

Há hoje na economia brasileira dois grandes problemas. No curto prazo, a despesa do governo central continua crescendo acima da sua receita, o que significa que o resultado continua deficitário. A meta de 2% do PIB de superávit primário até 2018 exigirá que o setor público arrecade R$ 200 bilhões a mais do que arrecadou em 2014.

No longo prazo, regras para previdência (INSS), educação e saúde sinalizam um crescimento da despesa de pelo menos seis pontos do PIB até 2030. Controlar o crescimento da despesa pública significa modificar as regras que determinam a dinâmica da despesa. Não há alternativa que não seja uma profunda reforma nas vinculações e regras de crescimento do gasto público para que um maior crescimento da economia não se transforme, automaticamente, no crescimento mais rápido da despesa.

Este texto aborda a questão da rigidez do gasto público, destacando possíveis mecanismos de desvinculação da despesa à receita e ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Sem alterações das regras atuais que indexam a despesa pública ao crescimento da receita e ao crescimento do PIB, corre-se o risco da necessidade de um aumento da carga tributária de pelo menos oito pontos de percentagem do PIB até 2030, sem que isso signifique aumento da poupança e do investimento do setor público.

Clique aqui para ler o resto do artigo. 

Falando sério: O risco fiscal.

A cada dia que passa, o problema fiscal vai ficando cada vez mais sério devido à falta de consenso politico de como resolver o problema no curto e no longo prazo.

No curto prazo, o governo não sai dessa sem algum aumento de carga tributária pois não há como tapar um buraco entre R$ 65 bilhões a R$ 90 bilhões apenas com cortes de despesas nos próximos 12 meses. Assim, será necessário CPMF e forte aumento de receitas extraordinárias, além de cortes necessários e desejáveis da despesa.

No longo prazo, para evitar que a CPMF se torne permanente, será necessário reforma estruturais que diminuam ou acabem com a vinculação de receitas, reduzam a indexação das despesas publicas, estabelecimento de idade mínima de aposentadoria para 65 anos, acabar com regime especial para professores e aumento do tempo de contribuição para mulheres, entre outas coisas.

Hoje, estamos avançado muito pouco na agenda de curto e na de longo prazo. E se não avançarmos imediatamente na de curto prazo até o próximo ano significa mais uma perda de grau de investimento, juros mais altos e uma taxa de câmbio que poderá ser de R$ 4,50/US$ ou R$ 6/US$ – ninguém sabe exatamente o que será um país em um regime de dominância fiscal: a divida não é compatível com os resultados primários esperados nos anos futuros descontados para o presente.

Meus amigos falam que em uma situação de dominância fiscal a inflação teria que disparar para comer o valor da divida do setor público e torná-la compatível com a capacidade de o governo pagar sua divida com superávits primários menores. Mas o problema é que mais ou menos 57% da despesa do governo central é hoje indexada ao salário mínimo e, logo, à inflação. E se levarmos em conta os gastos que são indexados à receita nominal (que deve acompanhar à inflação em circunstâncias normais), a parcela da despesa pública do governo central que é de alguma forma indexada à inflação vai para 75%. Assim, inflação alta não resolve o problema teria que ser inflação crescente.

Ontem, em um debate aqui em São Paulo, eu, Ilan Goldfajn (economista chefe do Itaú) e Otaviano Canuto (Diretor Executivo do FMI) não conseguimos ver alternativa, no curto prazo, que não seja a recriação da CPMF para termos algum primário já no próximo ano. Todos nós achamos que a carga tributária no Brasil já é elevada, mas no curto prazo não há alternativas menos ruim.

E se fizermos algo radical do lado da despesa já para 2016: desvinculação total das despesas à receita, desindexação do salário mínimo, idade mínima de 65 anos já para o próximo ano, etc.? Isso não vai acontecer. É mais difícil do que aprovar a CPMF e reforma da previdência não é algo que se faz para começar a valer daqui a 12 meses. Definir idade mínima para aposentadoria, por exemplo, é em geral acompanhada de uma regra de transição.

É claro que podemos chegar a um impasse e que não haja consenso para aprovar CPMF, dado o medo justificável de alguns que o ex-presidente Lula vai pressionar o governo para gastar mais, e nem para cortes grandes da despesa. Neste caso, caminhamos para o imprevisível e nenhum truque –banda cambial, venda de reservas, etc.- nos salvará de uma situação de crise aguda com uma disparada do dólar, baixo ou nenhum crescimento e inflação elevada e crescente.

Por enquanto, apenas fique com a certeza que a situação econômica vai piorar porque ninguém consegue enxergar uma luz no fim do túnel e, sem essa luz, os empresários não vão investir e continuaremos atolados na recessão com uma arrecadação incerta e que não ajuda no esforço fiscal.

A questão principal para mim hoje é quanto o Brasil precisa piorar para que se crie algum consenso pró reformas? Inflação mensal de 1,5%? Desemprego passando de 10%? Taxa de câmbio perto de R$ 6? Ficou assustado? Eu fiquei ainda mais quando escutei de analistas de mercado que esse cenário catastrófico já começou a afetar a decisão de alocação de carteira. Pode ser exagero, mas o fato é que hoje estamos às cegas com a necessidade de um ajuste profundo em um governo cuja sua base politica não parece ainda totalmente convencida da necessidade do ajuste e da gravidade da situação.

Para ler neste domingo e sugestão de entrevistas.

Este domingo tem vários artigos e matérias interessantes nos jornais. O fato de ser interessante não significa que você tenha que concordar 100% com o teor desses artigos e matérias de jornais. Segue abaixo a minha lista de indicações.

Recomendo o artigo na Ilustríssima do economista Samuel Pessoa (FGV-RJ) e do cientista político (e médico) Carlos Pereira (FGV-RJ) sobre a real diferença entre PT e PSDB (clique aqui). Os autores mostra que a real diferença entre os partidos não é a prioridade de gastos sociais. Eu já fiz também esse levantamento e já falei várias vezes. Todos os presidentes do Brasil pós-Constituição de 1988 priorizaram gastos sociais. O que mudou foi a composição do que se chama de gasto social.

O artigo de Pessoa e Pereira mostram que a rela diferença entre PSDB e PT está no administração da coalizão partidária. O PSDB soube monstra um ministério que refletia melhor o espectro ideológico do Congresso Nacional e o PT se baseou mais uma tentativa (tosca) de controlar os demais partidos da coalizão por meio de um governo de cooptação (de partidos) que funcionou por algum tempo, apesar do elevado custo de administrar a coalização (ou cooptação).

Um outro artigo excelente é do economista Affonso Celso Pastore (clique aqui para ler a ilusão de um mudança de rumo). Pastore mostra que a nossa (grave) recessão atual antecede a indicação de Joaquim Levy e mostra desconforto com a ideia de volta da CPMF como uma ponte para um ajuste fiscal mais estrutural.

Na visão de Pastore, dada a falta de credibilidade de governos do PT, aumento de impostos não serão temporários coisa nenhuma, mas uma forma de reduzir a restrição orçamentária (falta de recursos orçamentários) para eleger Lula. Vários amigos meus economistas famosos pensam o mesmo. ­Pastore acredita que o momento seguinte de saída da recessão neste governo seja um longo período de estagnação.

Há ainda neste domingo uma excelente entrevista com o economista que é talvez o melhor analista da economia real: José Roberto Mendonça de Barros (clique aqui). José Roberto acredita que não há como o governo atual terminar com essa falta de estabilidade de um governo politicamente fraco sem força de resolver os nossos problemas estruturais.

Há um grupo no mercado financeiro (não saberia dizer se grande ou pequeno) que acredita que o segundo governo Dilma possa repetir o governo Sarney, um governo fraco para aprovar reformas mas forte o bastante para evitar uma crise de governabilidade com impeachment ou renúncia. Jose Roberto Mendonça de Barros parece não acreditar nesse hipótese.

Um ponto que José Roberto Mendonça vem falando há tempo para conhecidos (eu inclusive) é do risco de quebradeira até o final do ano. Comecei a escutar o mesmo de gestores de fundos de hedge recentemente. Até o final do ano saberemos como isso irá se desenrolar. A propósito, quem for rico e quiser comprar um jatinho espere um pouco que a oferta deverá aumentar.

Agora, fugindo um pouco do tema econômico, sugiro a todos que leiam a estreia do Lauro Jardim (ex-titular da coluna RADAR da Veja) no jornal o Globo (clique aqui) e a entrevista do senador e presidente do PSDB ao Estado de São Paulo (clique aqui).

Por fim, deixo aqui uma dica para os jornalistas. De todo esse debate sobre dominância fiscal, dois economistas da PUC conseguiram sintetizar de maneira clara a teoria e mostrar indicadores relevantes para acompanhar esse debate no Brasil. Esses economistas são Tiago Berriel e Carlos Viana da PUC-RJ.

Se eu fosse jornalista varia uma entrevista de domingo com os dois para esclarecer para o grade público o que é, se estamos ou não lá e como evitar que o Brasil chegue a uma situação de dominância fiscal. Seria bom ver caras novas e d economistas competentes nos jornais de domingo.

Na lista de economistas novos e competentes entrevistaria também Vinicius Carrasco (PUC-RJ) e João Manoel Pinho de Mello (INSPER) sobre o papel do BNDES, o custo de proteção comercial e como melhorar os leilões das novas concessões. Entra também nesse grupo Bernardo Guimarães (FGV-SP) e Carlos Eduardo Soares Gonçalves (professor licenciado da USP que está no FMI) para falar de nossas escolhas erradas e da agenda de reformas microeconômicas.

Resumindo, adoraria ver os seguintes nomes em entrevistas nos jornais nos próximos domingos: (1) Tiago Berriel e Carlos Viana da PUC-RJ; (2) Vinicius Carrasco (PUC-RJ) e João Manoel Pinho de Mello (INSPER) , e a dupla (3) Bernardo Guimarães (FGV-SP) e Carlos Eduardo Soares Gonçalves (FMI). Cada uma dessas duplas têm vários trabalhos publicados, são excelentes economistas e extremamente didáticos.

Entrevista à Fecomércio-SP

Na semana passada fui à Fecomércio de Sao Paulo e ontem na Fecomércio do Rio Grande do Sul. interessante ver que setores diferentes estão interessados em entender o desafio do ajuste fiscal. Na semana passada quando fui à Fecomércio, em São Paulo, dei uma entrevista de 30 minutos  ao jornalista Adalberto Piotto na série de entrevistas que a Fecomércio faz no seu canal do You Tube. Voce pode assistir integralmente a minha entrevista abaixo.