Programa Painel: hoje às 23:OO hs.

Vocês teriam curiosidade para ver em um programa de TV um debate entre um economista e dois sociólogos sobre a crise?

Hoje vou estar no programa painel conduzido pela jornalista Renata Lo Prete, com o sociólogo e professor da USP, Glauco Arbix, ex-presidente do IPEA no primeiro governo Lula e ex-presidente da FINEP no primeiro governo Dilma Rousseff, e com o Sociólogo e editor Cesar Benjamin, um dos fundadores do PT e há muito tempo critico feroz do PT e do ex-presidente Lula.

Acho que foi um bom debate, pena que o tempo passou muito rápido. Temos visões diferentes mas todos nós conseguimos discutir, concordar e discordar de forma civilizada. Isso é bom. É necessário que em um momento tão difícil todos consigam debater de forma aberta seus pontos de vista.

Espero que gostem do programa que vai ao ar na GloboNews neste sábado às 23:00 hs, com reprise no domingo às 04:05, 11:05, e 19:05.

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Todos contra a CPMF

Acho legítimo e compreensível a sociedade se revoltar contra qualquer aumento de imposto, ainda mais um imposto ruim como é a CPMF. O Brasil tem uma carga tributária elevada para o seu nível de desenvolvimento e, assim, aumentar impostos parece um contra senso.  Não há muito o que discutir aqui.

O que me parece supreendente é que muitos que hoje criticam o aumento da carga tributária tenham sido coniventes com a criação de novos programas e aumentos de subsídios desde 2009/2010.

Muitos se lambuzaram na festa e agora se recusam a pagar a conta que será dividida tanto por aqueles que comeram pouco quanto por aqueles que comeram muito. O que fazer?

O esforço fiscal (aumento de impostos e/ou corte de despesa) para o próximo ano é de cerca de R$ 65 bilhões, mas pode ser de R$ 90 bilhões a depender do crescimento do PIB e do resultado fiscal deste ano. Eu não vejo como se fazer ajuste dessa magnitude exclusivamente do lado da despesa em um ano. Se alguém souber me diga que quero aprender.

Se o governo cortasse todo o MInha Casa Minha Vida (15 bi), o PRONATEC (3 bi), o ciência sem fronteira (3 bi) ainda assim não seria suficiente. E não dá para cortar todo o minha casa minha vida porque há ainda muita conta atrasada para ser paga.

O governo federal este ano cortará o seu investimento (sem estatais) em valores reais por volta de 40%. O investimento do governo federal, incluindo o  MCMV, foi de R$ 77 bi, em 2014, e este ano será perto de R$ 50 bi. Dá para cortar mais? Dá para cortar, mas é ruim. Há alguém que defenda investimento “zero” do governo federal?

E despesas com pessoal? A grande maioria tem estabilidade e não há como cortar em 12 meses. Poderia se livrar de 5.500 cargos comissionados (DAS) ocupados por funcionários sem vínculo. Mas a economia seria de R$ 350 milhões por ano. Relevante, mas pequena dado o buraco fiscal.

E o custeio? 85% do custeio são com cinco programas : (1) previdência pública e INSS, (2) LOAS/Bolsa Família, (3) seguro desemprego e abono salarial, (4) saúde, e (5) educação.

Alguém imagina a possibilidade de se aprovar uma reforma da previdência que é mais da metade do custeio para vigorar já a partir de 2016? É impossível.

Cortar seguro desemprego e abono salarial ? Será que congresso que diminuiu o impacto da proposta do governo este ano estaria agora disposto a tornar as regras de concessão desses programas ainda mais rígidas?

Há espaço para cortar saúde e educação. Governo já está cortando investimento, Ciência sem Fronteira e PRONATEC. Pode cortar ainda mais. Mesmo assim, nada que evite aumento de impostos. Até ano passado não havia espaço para cortar despesas com saúde agora com a mudança da regra de vinculação há espaço, mas acho MUITO difícil fazer cortes nessa área. Depois detalho isso.

Assim, se tem algo que posso me orgulhar é que, desde 2009, quando criei este blog, “fiquei de fora da festa” gritando sobre a conta elevada que todos teriam que pagar. Muitos me chamavam de pessimista.

E aqueles que falam que economistas sempre erram deveriam lembrar que há diversos tipos de economistas. Os do governo erraram e os de fora do governo simpatizantes do PT também.

E continuam errando aqueles que acham que a crise atual decorre das medidas do ministro Joaquim Levy. Não é verdade. A crise atual foi gestada no Lulopetismo e vai se agravar. Não está descartada que a “solução”, se não houver consenso político, seja mais inflação, pois será muito difícil convencer a sociedade a pagar a conta de uma festa que no convite havia escrito “free lunch”. Como agora todos sabem e já deveriam saber, “there is no free lunch”.

Ajuste Inevitável: vídeos de apresentações.

Para quem acompanha este blog, já sabe do texto que eu, Samuel Pessoal e Marcos Lisboa publicamos juntos no dia 19 de julho de 2015no caderno Ilustríssima na Folha de São Paulo. A versão da Ilustríssima e a versão maior com uma tabela que retiramos por questão de espaço da versão do jornal pode acessar aqui.

Além do artigo que publicamos, depois fomos convidados para fazer algumas apresentações. Em apenas duas delas tivemos a sorte de estar juntos: (i) uma apresentação no dia 30 de julho no Instituto Fernand Braudel, em São Paulo, a convite do jornalista Norman Gall que dirige o instituto; e (ii) um debate que tivemos no jornal o Estado de São Paulo em agosto com os jornalistas Ricardo Grinbaum e Alexa Salomão.

Quem tiver interesse e paciência pode assistir aos dois vídeo no YouTube. É sempre bom estar ao lado de amigos em um bom debate. A minha apresentação no video do instituto Fernand Braudel foi de 19 minutos, mas como falo MUITO rápido, abordei várias coisas antes de passar para meus amigos Samuel Pessoa e Marcos Lisboa. No inicio tem um barulho de buzinas do trânsito de São Paulo, mas depois passa.

Vídeo YouTube Instituto Fernand Braudel – São Paulo – Julho de 2015

Vídeo YouTube – Jornal o Estado de São Paulo – São Paulo – Agosto de 2015

Palestra evento ITV/PSDB – Conjuntura Macroeconômica

Na ultima quinta-feira dia 17 de setembro de 2015, o Instituto Teotônio Vilela (ITV) presidido pelo ex-Deputado Federal e ex-Secretário de Energia de São Paulo José Aníbal, reuniu um grupo de economistas que participou da elaboração da proposta do candidato Aécio Neves.

Estavam lá para falar, eu, Samuel Pessoa, Gustavo Franco e Armínio Fraga. No final do evento tivemos também a palestra brilhante do senador José Serra (PSDB-SP). Na mesa, além do presidente do ITV, José Aníbal, o presidente do PSDB, o senador Aécio Neves, e o governador do PSDB de Goiás, Marconi Perillo.

ITV 01

Nós economistas tínhamos cada um 20 minutos para falar e corri para falar metade do que gostaria nesse tempo. Para isso, resolvi abrir mão do powerpoint e apenas falar o que vinha na minha cabeça. Mas acho que dei o recado que gostaria de dar.

Nem preciso dizer com foi bom rever meus colegas economistas e tantos políticos que conheço. Para quem tiver interesse, segue abaixo a minha palestra de 19 minutos sobre a questão fiscal e o link para as demais palestras dos economistas Samuel Pessoa (clique aqui), Gustavo Franco (clique aqui), Armínio Fraga (clique aqui) e do Senador José Serra (clique aqui).

Cotas para mulheres?

Confesso que tenho muitas dúvidas sobre o funcionamento do sistema de cotas, mas quando vejo o trabalho árduo da secretária da fazenda do Espírito Santo, Ana Paula Vescovi, e da secretária da fazenda de Goias, Ana Carla Costa, fico inclinado a lutar por cotas para termos mais mulheres como titulares das fazendas estaduais.

Uma reunião de uma hora com cada uma delas  é uma verdadeira aula dos problemas com as finanças estaduais e, ao contrário de tentar  provar que ES ou GO são os dois melhores estados do Brasil, mostram as dificuldades e propostas para solucionar os problemas.

No Brasil, há muita gente séria no setor público trabalhando, apesar das circunstancias adversas. Parabéns as duas economistas.

OBS: O meu post deu uma certa confusão. O exemplo dessa duas mulheres é justamente um excelente  exemplo de meritocracia e que chegaram a onde chegaram sem precisar de cotas. E as duas são mães.

O Ajuste Fiscal, o PT e o Orçamento

Uma das coisas que me deixa feliz é quando o PT ensaia algum apoio ao seu governo e ao plano de ajuste fiscal. Há amigos meus que querem que a oposição defenda o governo e vá para as ruas defender o ajuste fiscal porque a oposição sabe que o ajuste é importante para o Brasil.

Acontece que cabe ao PT, que é o partido do governo, tomar a liderança na defesa do ajuste fiscal e no aumento do CPMF. Mas o PT passa a impressão para a sociedade que tem uma enorme dificuldade de apoiar o ajuste fiscal e, assim, suas manifestações não são suficientes para diminuir as incertezas.

Hoje, o partido publicou uma nota bem interessante. A nota pode ser lida aqui. Uma parte que me chamou atenção foi a seguinte:

“A direita e os neoliberais consideram insuficiente o conjunto de medidas. Assim entendem porque propõem revogar a lei do salário-mínimo, o fim do Fies, do Prouni, do Minha Casa Minha Vida e do Bolsa Família, entre outros programas sociais criados e ampliados nos governos do PT”, afirmam, e citam também as investidas “dentro e fora do parlamento”, para derrogar a Lei do Pré-Sal, a política de conteúdo nacional e o regime de partilha da Petrobrás. O PT reitera, no entanto, que prevaleceu, na decisão do governo, a orientação de não sacrificar os programas sociais.”

Vamos lá. Primeiro, como ser otimista quando o partido reafirma sua convicção que os outros querem “derrogar a Lei do Pré-Sal, a política de conteúdo nacional e o regime de partilha da Petrobrás”? Aqui o partido faz uma falsa defesa da Petrobras que me parece hipócrita porque aquilo que defendem prejudica a Petrobras.

A companhia não tem condições de ser operadora única do pré sal e não consegue cumprir com os índices de conteúdo nacional. O fato de o PT não reconhecer algo tão simples mostra que partido tem ainda um imensa dificuldade de fazer uma auto critica de suas politicas. Logo, por que esperar mudanças se o partido continua insistindo que não há o que mudar, por exemplo, no novo marco regulatório do setor de petróleo?

Segundo, chega a ser risível a afirmação que “A direita e os neoliberais consideram insuficiente o conjunto de medidas”. Aqui o PT chama a matemática de direita e de neoliberal.

O governo manda um orçamento com a projeção de um déficit primário para tentar forçar o legislativo a resolver um problema cuja solução deveria vir do Executivo e depois lança uma “correção” baseada na criação da CPMF, uma proposta que não é bem aceita no seu principal aliado formal, o PMDB, e o PT acha que problema é que “A direita e os neoliberais consideram insuficiente o conjunto de medidas”?

Como ser otimista com o governo quando o partido do governo, o PT, não consegue sair da retórica populista que o mundo é divido entre os neoliberais nefastos e os bons samaritanos que querem aumentar despesas e proteger o mercado nacional? São posições tão retrógradas que não me estimulo a debater.

Terceiro, a nota do PT fala que a direita e os neoliberais querem “o fim do Fies, do Prouni, do Minha Casa Minha Vida e do Bolsa Família”, mas que o “PT reitera, no entanto, que prevaleceu, na decisão do governo, a orientação de não sacrificar os programas sociais”.

 Será que existe alguma alma viva  (ou morta) na assessoria do PT que entenda um pouquinho de orçamento e consiga ler o Projeto de Lei do Orçamento de 2016 elaborado pelo próprio governo do PT? Tenho sérias duvidas. O governo está sim cortando programas sociais, em especial, o Minha Casa Minha Vida e o FIES já neste ano e continuará no próximo.

Será que alguém do PT se deu ao trabalho de checar quanto o governo planeja gastar este ano com as funções sociais e quanto planeja para o próximo? É fácil ver isso e, como a inflação este ano será perto de 9,5%, qualquer crescimento menor do que essa taxa sinaliza queda real para as funções analisadas. Olhem a tabela abaixo.

PLOA 2015 vs 2016 – Despesa Sociais Programadas – R$ milhões correntes.

tabela

OBS: os empréstimos do FAT para o BNDES foram retirados da função Trabalho.

É fácil ver que, com exceção da função trabalho que deverá crescer puxada pelo aumento da taxa de desemprego, o governo estima uma queda real com todas as demais funções sociais, em especial, uma forte queda real para as funções saúde e educação (lembrem-se que a ultima coluna precisa ser comparada com uma inflação de 9,5% esperada para este ano).

Assim, apesar de acusar os outros de cortarem programas sociais, o governo do PT, na sua proposta de orçamento, sinaliza queda real das funções sociais, em especial, queda real perto de 10% nos orçamentos da saúde e educação. “Maldito PT neoliberal”!

Quarto e último ponto, apesar de um enorme esforço contorcionista que o PT faz para defender o seu governo, a nota do partido escorrega e, no final, fala o seguinte: “O PT está convicto de que, com a continuidade do nosso projeto – e não por meio de concessões às políticas de austeridade antipopulares – será possível suplantar os obstáculos atuais”.

 Ou seja, mesmo quando quer defender a politica econômica do seu partido, o PT critica essa politica. Entendem agora porque não dá para ficar otimista, ainda mais depois e ler duas notas que saíram na coluna Painel da Folha de São Paulo na sexta feira após a reunião:

“Aprovado Embora tenha chamado de impopular o pacote de ajuste fiscal, a nota divulgada nesta quinta pelo PT teve o aval de Dilma e de Lula.

Pelo telefone Logo depois da reunião da Executiva, Rui Falcão interrompeu a coletiva para atender uma ligação. A presidente e o antecessor, que estavam juntos, ouviram e aprovaram o texto.”(painel Folha de São Paulo 18 de setembro de 2015)

Frases que me incomodam

Dias puxados. Muita reunião, muito debate a a sensação incomoda que não estamos saindo do lugar. Tento ver saída para crise, não consigo e vejo muita incerteza. Na correria do dia a dia algumas frases ficam na minha cabeça. Compartilho com vocês.

1- De um grande investidor externo: “Mansueto, o Brasil ficou muito barato. Mas pode ficar ainda mais barato. Vou esperar”.

2 – De um Secretário da Fazenda de um estado: “preciso de mais impostos. Tenho medo de chegar na situação grave de caixa de não ter recurso para pagar minha folha.”

3- De um político: “como posso ajudar o governo se o próprio PT hoje criticou fortemente o pacote de ajuste fiscal do seu governo?”

4-  De um economista amigo: “estimo que sem a aprovação do pacote fiscal perderemos o grau de investimento das outras agências de risco no primeiro semestre do próximo ano e a taxa de câmbio vai para R$ 4,70 no final de 2016”.

5 – De outro amigo economista: “queda do ICMS tem sido muito intensa. Empresas estão preenchendo guia de recolhimento do ICMS mas não pagam. Estados estão desesperados”

6 – De  outro amigo economista que senta em conselho de administração de empresas: “Algumas empresas grandes vão começar a mostra problemas de caixa neste final do ano. Risco grande de aumento de inadimplência”.

7 – Tombini do BACEN na CAE no Senado Federal: “Nas ultimas semanas juros de títulos púbicos cresceram sem alteração de SELIC”.

8 – De um analista político: “meu cenário está piorando. Vou aumentar a possibilidade da presidente Dilma não terminar o mandato nas minhas análises. Não tem como não falar isso agora”.

9 –  De uma reporter: “como podemos sair dessa situação? o que fazer? não quero pagar mais impostos”.

10 – De um investidor externo: por que a presidente não faz uma reforma ministerial e dá mais poder para o PMDB para recompor a sua base política?

Enfim, esse tem sido o meu dia a dia. Cheio de reuniões, sem tempo para escrever,  assustado com o que escuto de amigos e com a certeza  que estamos longe de dar uma solução política para a crise econômica que pode piorar MUITO mais. O mais frustrante é que tudo isso poderia ter sido evitado.