Crescimento do PIB do Brasil pela S&P

Escutei muita gente simpatizante do governo federal falar mal da revisão de estável para negativa da classificação de risco em moeda estrangeira de nossa divida pela Standard & Poor’s (S&P). A agência não tinha muito o que fazer dada a nova trajetória de superávit primário, os elevados juros e o baixo crescimento econômico. Tudo isso agravado ainda pela crise politica.

As outras agências de classificação de risco devem rebaixar a nossa nota, mas ainda manteremos o grau de investimento, com a possibilidade de termos também perspectiva negativa. Essa novela vai continuar até o final do governo Dilma.

Vale lembrar que, no caso da Moody’s, no ultimo relatório da agência do dia 5 de junho eles já alertavam que o Brasil passaria a Índia em 2016 e seria o país com maior endividamento (% do PIB) no grupo de emergentes e o único país no grupo de emergentes que desde 2010 teve uma sensível piora tanto na relação divida bruta/PIB como no pagamento de juros. Se já havia a perspectiva de rebaixamento em junho agora ela passou a ser uma certeza.

Mas apesar da perspectiva negativa da S&P para a nossa nota, muita gente não percebeu que a agência ainda trabalha com um cenário de recuperação da economia um pouco melhor que a do mercado.

– Projeções de crescimento do PIB Relatório da S&P de março de 2015 quando manteve a classificação de risco do Brasil com perspectiva estável.

2015: -1,0%

2016:  2,0%

2017:  2,3%

2018:  3,0%

– Projeções de crescimento do PIB Relatório da S&P de julho2015 quando a perspectiva de classificação de risco do Brasil passou de estável para negativa.

2015: -2,0%

2016:   0 %

2017: 1,5%

2018: 3,5%

Esse cenário de recuperação do crescimento da S&P é um pouco melhor que o da pesquisa FOCUS e mostra como a agência acredita na recuperação do Brasil, pelo menos por enquanto. As expectativas de crescimento do PIB pela última pesquisa FOCUS são as seguintes:

2015: -1,8%

2016:   0,2%

2017:   1,7%

2018:   2,0%

A diferença é pequena. Crescimento médio do PIB pela S&P do Brasil no segundo governo Dilma será de 0,7% ao ano e, pela pesquisa FOCUS, 0,5% ao ano. O problema é que a tesouraria dos grandes bancos no Brasil tem uma trajetória de crescimento médio do PIB que pode ser de “zero” a 0,2% de 2015 a 2018, e com dois anos consecutivos de queda do PIB (2015 e 2016).

Assim, com os dados de hoje, o crescimento médio do PIB do Brasil de 2015 a 2018 de 0,7% ao ano previsto pela S&P é o que temos de mais otimista. Por aqui, as projeções são ainda piores.

Qual é hoje a meta do governo para crescimento do PIB de 2015 a 2018? Bom, parece que “a meta está aberta mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”. Ainda bem que não tem meta porque se não teríamos mais medidas mágicas de curto prazo.

Em tempo, jornais estão falando que o Congresso Nacional recebeu recado da S&P. Mas quem recebeu recado foi o governo. Há hoje no Brasil uma espécie de esperança coletiva que o Congresso Nacional faça um ajuste fiscal com forte apoio da oposição e do Executivo. Ou seja, as pessoas querem um parlamentarismo branco pró-reformas em um regime presidencialista.

Chegamos em um ponto que o “deixar sangrar” ou o “quanto pior melhor” é ruim para todo mundo. Congresso precisa ter uma postura muito mais positiva pró ajuste e pró reformas. Mas o exemplo tem que vir do governo a começar com uma agenda positiva que o governo simplesmente não consegue colocar no papel.

Por exemplo, a simples proposta de retirar a obrigatoriedade de a Petrobras ser operadora única do Pré sal, um projeto do senador Jose Serra (PSDB-SP) que interessa a Petrobras, é hostilizado pela “esquerda” e até pelo Ministro da Educação sem nenhum argumento técnico. Os que falam contra adoram o  termo “soberania”nacional” e aplaudem quando a Petrobras vende ativos ou quando a China sinaliza que pode nos “ajudar”. Falar que o projeto tira recursos da educação é de um desconhecimento tão grande quanto aqueles que acham que o fim da CPMF tirou recursos da saúde.

O governo e o seu partido tem que parar de procurar falsos fantasmas e achar que a “elite”, da qual faz parte boa parte daqueles que se auto intitulam de esquerda, tem uma agenda contra os pobres. Não há nada pior para os pobres e não pobres  do que um pais que deverá crescer 0,5% ao ano ou menos nos próximo anos e a decepção que as pessoas terão com promessa feitas há pouco mais de um ano que não serão cumpridas dada a falta de recursos orçamentários.

Em resumo, o Congresso precisa ser mais responsável. Mas para isso precisará da ajuda do governo. Não dá para cobrar responsabilidade do Congresso e atirar pedra nos deputados e senadores quando esses querem debater algumas temas, como a terceirização, que não conta com a simpatia do governo, ou quando qualquer tentativa de ajudar a Petrobras é interpretada como uma invasão de americanos gananciosos no Pré Sal.

9 pensamentos sobre “Crescimento do PIB do Brasil pela S&P

  1. É essa visão equivocada que vem prejudicando o país. O Governo e o partido que o lidera não vêem que o viés ideológico carcomida está deixando o país na rabeira, causando estragos que dermorarão pra ser revestidos.

  2. Obrigado Mansueto pela eficácia das análises, é uma pena essa miopia econômica que contamina o Executivo, sobrando ao BC e um pouco ao Congresso realizar mudanças que tanto o país precisa.

  3. A oposição não tem nenhuma obrigação de votar conforme os anseios do governo, quando este próprio não consegue organizar sua própria base aliada. Quer votar uma agenda positiva, primeiro resolva com seus aliados e depois vai discutir com a oposição.

  4. Mansueto: você estima (ou mesmo “acha”) que deveria haver uma deterioração das projeções de crescimento em quantos décimos porcento para que a S&P rebaixasse a nota do Brasil em um degrau, saindo assim do grau de investimento?

  5. É curioso o posicionamento do partido do governo no Congresso, esperando que a oposição e o PMDB abracem ajuste e reformas que o próprio partido do governo denuncia. (Claro que após votarem por ajustes ou reformas seriam acusados de inimigos do povo).

  6. Problema não é pauta-bomba do Congresso. A questão é: Um administrador(a) ainda pode continuar ocupando cargo público se desrespeitou, de forma reiterada, a LRF? É questão de cassação?
    Caso as contas desse gestor(a) forem aprovadas, sugiro que revoguem no dia seguinte a LRF e permitam aos estados reconstituírem seus bancos públicos, pois de nada valeu isso.
    Ainda sonho com José Guimarães na Fazenda (rs!)

  7. Nao existe pauta bomba, isto e coisa de jornalista. O motivo dos deputados não é nobre, entretanto os aposentados do INSS deveriam ter suas aposentadorias corrigidas pela regra do salario minimo. Acho que manter o fator previdenciario mais importante. O governo nao vai conseguir aprovar a nova regra com progressividade. Garfar os aposentados 2 vezes nao da. O aumento do judiciario é um escandalo mas vão vetar . E depois? O governo tem que ser objetivo no corte. Querer responsabilidade da oposição com o programa do governo principalmente quando a responsavel pela lambança ainda manda e ela mesma nao concorda com o ajuste – é brincadeira. Que se perca tudo….vamos começar de novo sem o PT. Nao existe economia sem politi ca.

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