Sobre a revisão da meta do primário

Em Abril, um amigo de NY me mandou relatórios de dois bancos brasileiros que mostravam convicção que o governo entregaria uma meta de primário perto de 0,8% do PIB este ano e poderia alcançar a meta do próximo ano. Me surpreendi com os relatórios porque conheço os economistas que escreveram e os dois me pareceram excessivamente otimistas. Tive que refutar as análises com um relatório em inglês do dia 22 de abril de 2015.

É claro que não posso colocar aqui o que escrevi nas 5-6 paginas em inglês. Mas vou colocar partes da minha análise que mostrava que não via como o governo cumprir o que estava prometendo para este e para o próximo ano.

“Unexpected, some economists started to believe the Brazilian financial minister, Joaquim Levy, could deliver the fiscal target this year (1.2% of GDP) cutting public expenditures and, for 2016, the real GDP growth around 1% would translate into higher revenue collection and help Mr. Levy to meet the 2% target for the primary surplus.

Is this true? No. The analysis above is based on many flaw assumptions that do not hold for anyone familiar with the Brazilian fiscal numbers. Let’s look carefully on the numbers and try to evaluate what might jeopardize Levy’s effort to deliver the primary fiscal target for 2015 and 2016.

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 Adding all the numbers, I expect the central government primary expenditure to reach R$ 1,058 billion in 2015, a nominal growth of R$ 27 billion or 2.6%, which means a real cut of 5.4%, given the expected inflation of 8.5% for 2015. Although this is impressive, it is not enough for the ministry to deliver the 1% primary target for the central government. In order to do that, the government needs a revenue increase near R$ 100 billion, a nominal growth of 9.9% or a real one of 1.2%. The problem, however, is that the real growth of the central government’s revenue through April was negative by 4%.

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 In 2014, the central government’s revenue increased by 22.7 billion. In 2015, the central government needs a revenue nominal growth near R$ 100.3 billion to meet the fiscal target of R$ 56 billion, given an expected growth on central government expenditure of R$ 27 billion (already taking into account a 50% cut on public investment . In the case of the revenue growth falls short of the amount required, the central government can cut investment by more than R$ 30 billion and postpone mandatory payments linked to health and education to 2016. But this strategy will require a further revenue growth next year, which might not happen in an economy where GDP growth will be near 1% or less.

Sempre que falei no primário deste e do próximo ano, eu destacava que isso só seria possível com um aumento de arrecadação de, no mínimo, 1,5 pontos do PIB e com um corte de 50% do investimento público. O forte aumento da carga tributária era condição necessária para o cumprimento da meta.

Mas me impressionava como as pessoas confiavam de maneira equivocada e exagerada no “fator Levy” como se o nosso ministro tivesse o poder de fazer mágicas. Eu vejo a revisão da meta como um encontro com a realidade e com três mensagens importantes.

Primeiro, o esforço fiscal não será rápido. Ao contrário. Ele será mais longo e, mesmo se cumprida a nova trajetória de primário, ainda permaneceremos com o risco de perder o grau de investimento.

Segundo, o ministro Joaquim Levy deixou claro que há um desequilíbrio estrutural entre o crescimento das despesas obrigatórias e o crescimento da receita e, para mudar essa situação, será necessário uma discussão mais profunda com o Congresso Nacional. Há anos eu, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa falávamos isso e sempre fomos atacados por pessoas que achavam que medidas simples resolveriam o problema.

Terceiro, o ministro Levy deixou claro que o ajuste fiscal depende também do Congresso Nacional. Sem o apoio do Congresso, não será possível um ajuste fiscal que possibilite a estabilização da relação da divida (% do PIB).

Mas apesar do encontro com a realidade, a impressão que tenho é que o risco hoje de perdermos o grau de investimento é muito maior e  um ajuste fiscal mais profundo ficará para o próximo governo. O critério de sucesso deste governo passou a ser evitar que a relação divida pública bruta (% do PIB) fique acima de 66% do PIB, o que será muito difícil.

7 pensamentos sobre “Sobre a revisão da meta do primário

  1. “Segundo, o ministro Joaquim Levy deixou claro que há um desequilíbrio estrutural entre o crescimento das despesas obrigatórias e o crescimento da receita”

    Interessante. O que ele falou sobre isso? (Não vi a entrevista). É um ponto importante que vcs enfatizaram em “O Ajuste Inevitável”.

  2. Mas não houve ajuste. Daria mais credibilidade ( Já que Dilma não tem e Levy perdeu por dizer lorotas ao mercado e a sociedade) se o governo se comprometesse com metas mais “suaves” para os próximos 3 anos. Algo como 0,2% em 2016, 0,35% em 2017 e 0,5% em 2018.
    Levy saia do governo que você fará um bem ao país.Sempre fui defensor de Augustin na Fazenda ou a volta de Mantega..

  3. Depois desse vexame há a certeza de que o Brasil precisará pagar taxas de juros muito mais altas para rolar a sua própria dívida quando emitir títulos. Já pagávamos taxas de juros mais altas do que a Grécia quebrada e falida quando ainda éramos o país que decolava. Pagaremos muito mais agora. Na prática já fomos rebaixados pelo mercado, só falta o reconhecimento de nossa situação frágil por parte das agências de risco. As coisas piorarão muito mais.
    Volto a dizer que nosso maior problema não é mais econômico, é político.

  4. Previsões da divida pública explodindo pra 70% do PIB em 2017. Como fazer reformas sérias com esse congresso e políticos ‘progressista’?
    Se simples leis como a da terceirização já são achincalhadas midiaticamente, imaginem então leis que mecham de fato nessa farra de benefícios que o Estado oferece.

    Sobre o Levy, o minimo que ele deveria fazer para resguardar o nome dele é pedir pra sair, se não ele vai afundar junto com esse governo.

  5. A atual situação econômica brasileira, é explicada unicamente “pela irresponsabilidade, incompetência e a adoção de políticas pública/econômica equivocadas, populistas e demagógicas do Governo Petista, nos últimos 4 anos.”

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