O primeiro ano da nova matriz econômica – 2012

O meu amigo Samuel Pessoa ficou impressionado quando, há cerca de um mês, participou de um debate em Brasília e não encontrou nenhum defensor da nova matriz econômica, apesar de vários participantes do seminário terem participado do primeiro governo Dilma (mas a falta de defensores da nova matriz econômica vem desde o ano passado -clique aqui). Em 2011 e 2012, uma das tarefas mais difíceis era encontrar no governo alguém que fosse contra a nova matriz econômica.

Os defensores do Plano Brasil Maior, a terceira versão da politica industrial lançada em agosto de 2011, eram muitos. Alguns acreditavam, ingenuamente, que reserva de mercado e compras públicas do ministério da saúde com margem de sobre-preço (legal) de 25% ocasionaria uma revolução na produção de medicamentos do Brasil, outros acreditavam que tínhamos uma indústria naval que se tornaria com as demandas da Transpetro uma das mais competitivas do mundo, que os juros reais haviam sido reduzidos de forma permanente para 2% ao ano, que o custo da energia havia se reduzido de forma permanente em 20% e que o Plano de Investimento e Logística (PIL) ocasionaria um boom de investimento em infraestrutura. Nada disso aconteceu.

A propósito, a expansão da dívida púbica bruta não era problema porque, primeiro, a divida liquida estava controlada, segundo, o aumento dos empréstimos dos bancos púbicos e o efeito multiplicador desses empréstimos ocasionaria um aumento do investimento e da arrecadação para pagar o aumento do crescimento da divida.

Apesar do fracasso da “nova matriz econômica”, não sei se os defensores da nova matriz econômica reconhecem um erro de concepção. Já escutei de alguns que o erro não foi a nova matriz, mas: (1) “o mundo teve um piora muito além do que nós esperávamos”; ou (2) “o governo fez desonerações muito além do que deveria”; ou (3) “as taxas de empréstimos do BNDES deveriam ter sido um pouquinho maiores para reduzir o custo de equalização de juros”; etc.

A mea culpa que vários economistas do primeiro governo Dilma fazem é muito mais de intensidade do que uma critica ao modelo. E outras vezes culpam pessoas do seu próprio grupo e não o modelo. Arno Augustin que, por muito tempo foi considerado um herói por dar “soluções práticas” para falta de recursos, passou a ser considerado o único responsável pelos fracassos da nova matriz econômica. Mas a nova matriz econômica foi resultado de ideias de um grupo de pessoas que tem uma visão “especial” de politica econômica.

Em resumo, eu tenho dúvidas se de fato os defensores da nova matriz econômica mudaram de opinião ou se estão apenas escondidos, esperando que Joaquim Levy e equipe consigam fazer um ajuste mínimo para que eles voltem a defender de forma mais aberta o “novo estado desenvolvimentista”.

No mais, vale a pena ler o artigo publicado no jornal Valor Econômico do dia 17 de dezembro de 2012, quando o então ministro Guido Mantega fazia uma análise de um ano de aniversário da nova matriz econômica (clique aqui). Reproduzo abaixo os três últimos parágrafos do artigo:

“Não podemos deixar de falar da agenda de melhoria no perfil tributário do país. Estamos em pleno esforço para acabar com a guerra fiscal, por meio da mudança no ICMS interestadual, cujas negociações têm avançado tanto com os governadores como com o Senado Federal. Vamos melhorar também a legislação do PIS/Cofins, simplificando esses tributos.

A falta de resolução da crise internacional nos permite antever mais alguns anos de crescimento baixo no mundo. Infelizmente, os países avançados têm optado por um caminho que não permite a retomada rápida do crescimento econômico e que, equivocadamente, busca a correção do alto endividamento apenas com medidas de austeridade fiscal, que levam a deterioração das condições econômicas e sociais. O Brasil tem buscado outro caminho, o da política fiscal anticíclica, estimulando investimento, reduzindo custos, e mantendo a solidez fiscal, sem deixar de preservar os direitos e conquistas de nossos trabalhadores, especialmente aqueles de menor renda.

A despeito do crescimento abaixo do previsto por nós e por todos os analistas, 2012 foi um ano extremamente importante para o futuro da economia brasileira. A recuperação de taxas mais vigorosas de crescimento do PIB já está em curso e isso ficará claro em 2013. Mas o mais importante é que estão fixadas as bases para que o Brasil tenha taxas elevadas de crescimento por muitos anos, melhorando o emprego, a renda e diminuindo as desigualdades que subsistem em nosso país.”

Alguns comentários sobre os trechos acima. Primeiro, a “agenda de melhoria no perfil tributário” que o ministro Mantega fala não avançou em nada. Segundo, “A falta de resolução da crise internacional nos permite antever mais alguns anos de crescimento baixo no mundo” e as medidas corretas que haviam sido adotadas pelo o Brasil teve justamente o efeito contrário. O mundo vai crescer entre 3% e 3,5% este ano e, segundo expectativas do mercado, no segundo governo Dilma (2015-2018) o crescimento médio do PIB será inferior a 1% ao ano. Terceiro, o ministro de fato acreditava que ele e seus companheiros no governo estavam fazendo uma mudança estrutural:

Mas o mais importante é que estão fixadas as bases para que o Brasil tenha taxas elevadas de crescimento por muitos anos, melhorando o emprego, a renda e diminuindo as desigualdades que subsistem em nosso país”.

 

6 pensamentos sobre “O primeiro ano da nova matriz econômica – 2012

  1. O que mais me dói foi a forma de que “reconstruíram a indústria (montadora?) naval”!
    Um negócio tremendamente mal feito e irrigado absurdamente com grana do FGTS.
    Isso sim é de deixar estarrecido!

  2. Um que adorava elogiar essa política intervencionista era o atual Ministro do Planejamento. Hoje em dia… Parece um “Delfimzinho”.

  3. Olha , pior do que o descalabro fiscal e econômico plantado ao longo desses 12 anos – e que são mensuráveis – é a laceração na cultura política desse país patrocinado pelo PT, o que é inestimável. Temo que há uma geração inteira de jovens forjados na mentalidade atrasada do estatismo, do
    pseudo-nacionalismo e do intervencionismo como sinônimos de “justiça social”.

    O Brasil parece adormecido, anestesiado, congelado no tempo a repetir os mesmos velhos bordões e chavões desde a era pós-ditadura. Às vezes me sinto revivendo na época do documentário “Laboratório Brasil – 15 anos do Real” (TV Câmara). Já era p termos superado essa fase, avançado alguma coisa. Impressionante como certos “personagens” ainda tem palco na atual quadra. Mais lançam ruídos no debate do que esclarecem alguma coisa.

    São grandes os desafios pela frente e premente a necessidade de reformas p modernizar e acertar a administração estatal, as contas públicas e a economia em geral com micro-reformas. Porém, não consigo ver no Brasil a possibilidade de formação de uma maioria sólida e duradoura, tanto na arena política quanto na sociedade civil, que dê o suporte suficiente para atingirmos as mudanças imprescindíveis.

    No máximo conseguimos uma maioria episódica como no caso da implantação do plano real, mas somente para no momento seguinte ser
    desfeita e colocar em risco o que foi outrora pacificado. É uma sanha de querer “reinventar” o país, um discurso milenarista, escatológico…. os caras querem ganhar no “berro”, na demagogia, no voluntarismo … cansei !

  4. André Terra aborda um aspecto fundamental, quando aponto “…Temo que há uma geração inteira de jovens forjados na mentalidade atrasada do estatismo, do pseudo-nacionalismo e do intervencionismo como sinônimos de “justiça social”.
    Creio que essa mentalidade ainda demorará muito tempo para ser debelado e permitir que mudanças sejam efetivamente implementadas. E que haja o desmonte dos maus hábitos, da demagogia, do paternalismo ufanista e do triunfalismo vazio.
    Enfim, saberem que o Brasil não é um jardim de infância, sem críticas ao jardim e muito menos às crianças.

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