O plano que naufragou

No dia 2 de janeiro de 2011, Nelson Barbosa deu uma entrevista ao jornalista Fernando Dantas na época do jornal o Estado de São Paulo sobre o que seria o governo Dilma. Nelson estava otimista com o que ele via como a continuidade de um processo de crescimento rápido, mais um período de queda da pobreza e redução da desigualdade de renda. Como fala a introdução da entrevista:

“Barbosa assegura que no governo Dilma o superávit primário vai subir para 3% do PIB, a inflação vai ser combatida, os juros serão determinados pelo Banco Central (BC), e não por outras áreas do governo, e o câmbio permanecerá flutuante. A queda dos juros reais para 2% ao ano em 2014, ele frisa, é uma referência, e não uma meta como a de inflação ou do superávit primário. O economista diz ainda que o próximo governo dará continuidade a uma agenda de redução dos custos tributários, financeiros e de logística, para aumentar a competitividade prejudicada pelo real forte – uma consequência, para ele, do sucesso brasileiro. Outra prioridade será melhorar a qualidade dos serviços públicos universais, como educação, saúde e segurança. Ele prevê crescimento de 5,5% nos próximos anos”

Não dá para culpar Nelson Barbosa de ter errado tanto porque vários economista de bancos privados tinham um cenário um pouco menos otimista, mas ainda muito otimista. Setor privado apostava fácil em crescimento de 4% ao ano e crescimento do investimento. O cenário pessimista para a área fiscal de vários bancos privados, por exemplo o Itaú/Unibanco, em 2011, era que o governo Dilma terminaria com um superávit primário de 2,5% do PIB.

Achava tudo isso excessivamente otimista, porque não via consistência nas ações do governo a começar pelo lançamento do Plano Brasil Maior e da maior proteção do mercado, compras públicas para saúde com margem de até 25% para estimular produção nacional e por ai vai. Mas mesmo assim diversos economistas na reunião da ANPEC de 2011 esbanjavam otimismo.

Mas a entrevista do Nelson Barbosa de janeiro de 2011 é um bom resumo para ver a difrença do que aconteceu e como era o script e, na tentativa de garantir o que estava planejado, se aprofundou a crise e os problemas. Em julho de 2013, o próprio Nelson Barbosa sai do governo pela perda de espaço e, dizem as fofocas nos corredores de Brasilia, por desentendimentos com o secretário do Tesouro Arno Augustin.

Cliquem aqui e leiam a entrevista do Nelson Barbosa do que seria o primeiro governo Dilma em janeiro de 2011.

9 pensamentos sobre “O plano que naufragou

  1. Importante destacar que tinha um economista que foi durante um bom tempo ligado ao PSDB – se não me falhe a memória trabalhou em SP – que dizia que o Brasil havia entrado em uma nova de etapa de desenvolvimento, “avançando para um crescimento acelerado”.
    Caso achem que estou mentindo procurem no Valor Econômico, por um texto intitulado “Mudança de regime”, publicado bem na época da redução da tarifa de energia. Vocês que estão lendo esse comment se assustarão em saber ou lembrar quem o escreveu. Talvez, devesse abrir mais os olhos. O que me chama a atenção nesse texto é que tal economista afirmava que a a política monetária estava amadurecendo desde a era Lula (referia-se a nova matriz econômica) e que a política monetária perseguiria os seguintes objetivos: inflação, crescimento e nível de emprego. Se bem me lembro dúzias de economistas na época falavam que o BACEN deveria ter olhos na inflação e no nível de emprego. Creio que em entrevista a um determinado jornal a Sra. Cristine Lagarde afirmou que bancos centrais devem se preocupar única e exclusivamente com a inflação. Não tem esse negócio de banco central olhar nível de emprego. Se os bancos centrais servem somente para ver o nível da taxa de inflação e – não raras as vezes – falham imagine colocar mais uma tarefa para eles perseguirem, que é a verificação do nível de emprego. Certamente, os bancos centrais falhariam em tudo.

    Não tem nada a ver com o post, mas merece questionamento.
    Alguns gestores inventaram uma “nova moda” na administração de seus estados: pegar dinheiro de depósitos judiciais. Um moço que governa certo estado da região sudeste utilizará 75% dos depósitos judiciais depositados em juízo (sei que é redundante, mas é para ressaltar). Não é só depósito envolvendo dinheiro do estado, mas nisso aí estão incluídos dinheiro de pessoas físicas, empresas privadas e até de municípios.
    Esse moço que resolveu entrar nessa “moda” de gestão utilizará os recursos para custear a previdência, pagamento de precatórios,, assistência judiciária e amortização da dívida do estado com a União.
    Importante lembrar que o STF já julgou leis semelhantes no PR, RS, GO e RJ e as declarou inconstitucionais. Faltando só a publicação do acordão.
    Por que há essa “moda” na gestão dos estados?

  2. Nelson, por que não entregou logo o nome do economista? O artigo é do Yoshiaki Nakano (Valor, 11/09/2012). Nele, Nakano faz um forte elogio ao que veio depois a ser chamado por Mantega & Cia. de “nova matriz econômica”. Os arquivos são cruéis com os autores. Vão lá e confiram.
    Abs.

  3. Vocês realmente levam a sério o que Nakano e os companheiros da universidade dele, que vou me abster de citar o nome por respeito, falam/escrevem?

  4. Senhores, o foco do artigo é bem claro. A ilusão representada pelo otimismo infundado de Nelson Barbosa com relação à essa política econômica que vem deteriorando as condições deste país e se agravou nos últimos anos pela péssima gestão Dilma. Não é uma questão de partidarizar o problema (como tentou trazer o Nelson em seu comentário que também tinha um economista ligado ao PSDB…). O fato é que Mantega foi um desastre e só um economista mais ortodoxo como Levy conseguirá atenuar esse problema, desde que não seja tolhido pelas mesmas forças “progressistas” que direcionaram Mantega.

  5. Não estou partidarizando coisa alguma. Várias economistas na época de diferentes colorações partidárias e matizes ideológicas bateram palminhas para o plano de Mantega e Barbosa et caterva. Apenas isso. Reduziram os juros na marra. Ótimo. Reduziram a energia na marra. Beleza, ok! Agora é partir para o abraço. Muita gente endossou isso, inclusive tradicionais academias. Não sabia que estavam ensinando em sala de aula rasgar contratos e anulando leis econômicas por decreto.
    O mal de economista não importando coloração partidária ou matiz ideológica (sem querer ofender, mas a maioria dos economistas) – e esse é o cerne de meu comentário – é não analisar com o cuidado necessário os cenários econômicos. Nem falarei sobre as implicações políticas sobre a economia. E em se tratando de política, onde já se viu o mesmíssimo economista falar antes da eleição de 2014 que para melhorar tudo era necessário aumentar a taxa de desemprego?
    É óbvio que isso iria acontecer, pois a economia emitia fortes sinais de deterioração, mas era necessário sambar em cima desse discurso de aumentar a taxa de desemprego pouco antes da eleição? Isso ajudaria o senador em quê?

    • O fato de termos um economista ortodoxo na pasta da Fazenda não é garantia de dias melhores. E isso é um fato. Fala-se abertamente sobre a redução da meta de superávit esse ano, a arrecadação diminui, o desemprego e a inflação aumentam. A economia está muito longe do fundo do poço. Fala-se em ajuste, mas não se coloca tal ajuste em prática. Aumenta-se despesas sem ter receitas. Ainda estão represadas as tarifas de energia e o preço dos combustíveis. Sem contar nas ameaças externas que pairam sobre a economia como o aumento da prime rate nos Estados Unidos, Grécia, redução de exportações para a China ( e o fato novo que é o problema no mercado acionário chinês, que não se sabe realmente qual impacto teria aqui). Mesmo com um chicago boy não se pode comemorar nada. Há fragilidades marcantes na macroeconomia e questões externas que podem interferir severamente na economia brasileira. Talvez fosse mais crível uma meta de superávit de 0,6% esse ano (coisa que a Fazenda fará certamente no 2º semestre dado a ruindade dos números).
      Outra coisa que me chama atenção é que um boletim Focus de fevereiro traçava o panorama de dois anos consecutivos com PIB negativo e isso não chamou a atenção de ninguém.

  6. Como as perspectivas não são das melhores, vamos fazer de conta que dormimos e vamos acordar só em janeiro de 2017. O barco está naufragando e estamos com um caneco tentando tirar a água de dentro. É preciso mais canecos para não deixá-lo ir ao fundo. Esse negócio chamado governo que aí está não tem respeito a nada e a ninguém, eles têm dificuldades de obedecer regras, são perdulários, farristas e inconsequentes, adotam o modelo bolchevique de administração pública e só falam, falam, falam, enquanto afundamos. Na bagunça que virou o país, até agora só quem deu a sua contribuição efetiva foi o trabalhador. Continuamos com 39 ministérios, 23.000 cargos comissionados, o legislativo não deu sua contribuição para a diminuição dos gastos (despesas de viagem, assessores, salários, 81 senadores, 513 deputados, ???, etc.). O judiciário, por sua vez, querendo emplacar 60-70% de aumento no salário, é um verdadeiro paradoxo. A sensação que temos é que o Brasil vai muito bem, a crise é dos outros.

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