Resultado da enquete sobre mudança do primário

A minha enquete sobre a mudanças do primário não teve grade repercussão com os leitores. Pouco mais de 500 pessoas responderam as opções. O resultado vencedor foi que o governo deve mudar a regra do primário devido a forte piora do crescimento esperado – ver abaixo. Os votos contrários a qualquer mudança da meta foram 125 (24,6% dos 508 que votaram). A boa notícia que acabei de ler no Folha (clique aqui) é que a Standard & Poor’s sinalizou que se o governo alcançar um primário de 0,8% do PIB já seria positivo.

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Vale lembrar que este governo assumiu com um déficit primário de 0,6% do PIB, o que por si só já tornou o cumprimento da meta muito mais difícil. Assim, como escreve abaixo Marcos Lisboa, o debate não é se o governo deve ou não cumprir a meta, pois a realidade vai impor esta decisão ao governo, mas sim o que o país deve fazer para fazer uma ajuste estrutural. Caso contrário, vamos continuar neste debate eternamente.

A realidade vai mudar a meta. Fazer um ajuste sustentável requer uma agenda fiscal muito mais profunda e coerente do que aquela que está sendo feita. Já se nota uma inflexão em relação ao que foi feito nos últimos seis anos. Mas a gravidade do desequilíbrio estrutural que vivemos, porém, contamina os anos à frente e vai muito além das medidas que tem sido tomadas. A equipe atual tem o mérito de ter interrompido a piora. No entanto, estamos muito distantes de reverter o descontrole do último governo e caminhar para um equilíbrio das contas públicas neste ano e nos próximos.”

 Marcos Lisboa – Presidente do INSPER

Da mesma forma, neste e nos próximos anos, como lembra José Roberto Afonso, será necessário dar mais transparência as contas públicas e limpar o passado – pagas as contas acumuladas. Se a meta for muito rígida, corre-se o risco de alguns passivos continuarem na sombra.

“À escura, assim foi fixada a meta de 2015 no apagar das luzes do ano passado, quando ninguém sabia da tragédia em que estavam as contas públicas. Ainda estão na sombra parte dos gastos (como subsídios) e da dívida (restos pagar, bancos estatais..). Não está passando a hora de se acender as luzes sobre as contas públicas?”

 José Roberto Afonso – Pesquisador do IBRE e especialista em finanças públicas

Se fosse destacar em poucas palavras o que penso deste debate, colocaria da seguinte forma:

“O gasto público não financeiro do governo central de 2011 a 2014 cresceu 1,8 pontos do PIB, valor próximo ao crescimento da despesa do governo central nos doze anos anteriores a 2011. O governo Dilma terminou com um déficit primário do setor púbico de 0,6% do PIB e com atraso de pagamentos de mais de R$ 50 bilhões apenas com subsídios. Mais importante que a meta de 1,2% do PIB ou 0,6% do PIB, em 2015, é uma debate mais profundo da dinâmica do gasto púbico e como fazer um ajuste fiscal permanente sem mais uma nova rodada de aumento de carga tributária. O risco é que, mais uma vez, o ajuste se transforme em aumento da carga tributária sem mudanças no crescimento da despesa. 

Mansueto Almeida

Isso tudo mostra que dificilmente neste mandato alcançaremos uma meta de primário superior a 2% do PIB no final do governo, o que significa que, se não houver uma grande perda de reservas, no final do governo Dilma II a divida bruta será ainda maior do que, em 2014, e o Brasil passará a India e será o país emergente de maior endividamento bruto. (PS: Grécia não é país emergente).

Por sinal, esse é exatamente o cenário para a divida bruta da agência de classificação de risco Moody’s no seu ultimo relatório sobre o Brasil de 3 de junho de 2015. Como alerta a agência (clique aqui), que também não acredita que o governo consiga cumprir com as metas de primário anunciadas:

“……Brazil’s debt levels will continue to increase through 2016 and remain high despite the government’s fiscal consolidation efforts, potentially weakening the sovereign’s credit profile, says Moody’s Investors Service. The country’s debt levels are higher than its Baa-rated peers, and Moody’s analysis indicates that Brazil’s debt ratios will diverge even further.”

O debate fiscal no Brasil é apenas um dos debates importantes. O problema é que há hoje no Brasil uma imensa expectativa que um ajuste fiscal de um ano conserte as coisas e que o governo possa voltar a gastar como antes para atender as demandas urgentes da sociedade. Isso não será possível. Por outro lado, não vejo ainda convicção e muito menos consenso que será preciso fazermos algo mais radical do lado do crescimento da despesa. Esse é um debate “impopular” e difícil que só tem início quando fica claro que não há alternativas. Chegaremos lá?

Assim, pelo que está na mesa atualmente, teremos uma redução da despesa primária do governo central este ano perto de 0,5% do PIB devido à forte queda do investimento público, mas crescimento nos próximos anos e a necessidade de aumentar receita para alcançar meta de primário de 2% do PIB talvez em 2017/2018. Tudo isso será agravado se no próximo ano o PIB crescer “zero” ou apenas 0,5% – um cenário que deixou de ser impossível.

No mais, mesmo que o governo faça tudo certo, alguém vê a possibilidade de crescimento do PIB por volta de 4% ao ano em 2017 e 2018, a nossa média de 2003 a 2010? Ninguém. E o “governo fazer tudo certo” pressupõe uma coalizão política forte que hoje não existe.

6 pensamentos sobre “Resultado da enquete sobre mudança do primário

  1. Mansueto: comemore muito! Índice de resposta de 5,5% neste tipo de enquete é um índice elevadíssimo. Considerei as 508 respostas e os 9.220 seguidores do blog. Abraço!

  2. Mansueto, acha que se os bancos fixassem um limite de saque de dinheiro num valor fixo pra pessoa física ou jurídica por dia ou por semana ou mês ou o governo limitar a emissão de moeda para os bancos poderá ajudar a reduzir a inflação? Mesmo que seja só o INSS, salários públicos?

    • Parece idéia do Belluzzo ou dos economistas dos planos Cruzado e Collor. Ninguém usa muito papel moeda hoje. Empresas usam cheques ou TEDs, pessoas físicas pagam com cartão de débito ou crédito, TEDs ou cheques. Por que limitar saque de papel moeda?

  3. Mansueto, pode ser que seja minha experiencia de ter trabalhado a vida toda em empresa americana séria, mas ali aprendi que não se mexe em metas. Se trabalha para atingi-las mas não para mudá-las no meio do caminho. De repente, como a imensa maioria até dos seus seguidores mostram, esse tipo de mentalidade de jeitinho já imbuiu o povo, e não vai ser assim que as coisas melhorarão. Ao não se mudar, não s eatinge, e não se pagam premios pela improdutividade, mas se pode aprender como melhorar para o futuro. Mudar metas transforma o jogo do trabalho em brincadeira, me engana que eu gosto.
    Tanto que vc só comentou sobre o resultado do ‘não’, pois também sabe que as outras respostas não levam a nada.

    • O problema é que a meta quando fixada o contexto era muito diferente. Eu até diria que a equipe atual foi surpreendia com o tamanho do buraco nas contas. Assim, para cumprir eles teriam que aumentar a carga tributária ou o governo não investir nada e ainda atrasar pagamentos. Cortar gastos na velocidade necessária para atingir a meta é dificílimo, teriam que fechar na um ou dois mas diversos ministerios.

  4. Meu Deus, limitar o saque??
    Muito mais fácil é acabar com novos empréstimos da CAIXA, BB e BNDES, acabar com FIES e privatizar tudo o que é empresa estatal. Se não for o suficiente, não contrate mais nenhum funcionário público, se não for suficiente, reduz a zero o investimento.
    Tudo mesmo essa ideia de limitar o saque.

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