A “maravilhosa” democracia Venezuelana

Há alguns anos tive a chance de conversar em Washington com o professor de economia de Harvard Ricardo Hausmann que me falou que o governo Lula não gostava dele devido as suas criticas constantes sobre a  omissão do governo brasileiro quanto a violação de direitos humanos na Venezuela.

Segundo Hausmann, dada a importância do Brasil na América Latina, o país deveria ser mais duro no trato com a Venezuela. Em uma entrevista à revista Veja (clique aqui), em 2013, o professor de Harvard declarou:

A Venezuela é uma tragédia. É um dos experimentos econômicos e sociais mais desastrosos jamais feitos em toda a história. Nunca houve um boom no petróleo tão grande e prolongado como o recente. Ainda assim, o país começou a ter problemas quando o barril do petróleo custava mais de 100 dólares. Perdeu o controle da inflação e entrou em recessão, mesmo quando os preços do petróleo ainda eram favoráveis.

 O governo destruiu a sociedade civil, as liberdades individuais, a iniciativa privada. Infelizmente, esse processo de destruição contou com a colaboração da América Latina, em particular do Brasil. O apoio brasileiro à Venezuela não foi compatível com seus compromissos com a Organização dos Estados Americanos e com os direitos humanos.

O desastre venezuelano terá repercussão em todo o continente, com impacto também no Brasil. Será um problema regional. O Itamaraty terá de repensar seu papel na gestão desse desastre. Terá de repensar os efeitos de subcontratar Marco Aurélio Garcia para cuidar da política externa.

Em uma entrevista em janeiro deste ano em Davos o professor Hausmann foi ainda mais enfático sobre o fracasso que se tornou a Venezuela, um país com inflação anual de 200% (clique aqui) que é o modelo de “democracia” para muitos da esquerda que supostamente defendem os pobres.

O que impressiona é que o governo brasileiro passou a olhar a Venezuela como um pais que precisa da nossa ajuda. Mas a ajuda que oferecemos parece ser muito mais um ato de solidariedade ao falecido presidente Hugo Chávez e agora ao seu sucessor Nicolás Maduro, dois bons exemplos de governantes populistas, do que ao povo venezuelano.

Não existe democracia sem oposição e está claro que o governo Chávez e Maduro não são o que se poderia chamar de tolerantes com a oposição. O governo Maduro hoje não garantiu salvo conduto para um grupo de senadores brasileiros que foi ao país para visitar lideres da oposição que estão presos. Qual o problema? só pode visitar a Venezuela  quem gosta do presidente Nicolás Maduro? Os senadores brasileiros estavam levando um telefone azul com conexão via satélite com o exército dos EUA que se preparava para invadir a Venezuela?

Há grupos de esquerda no Brasil que consideram a Venezuela como um exemplo de democracia porque o presidente do País se autodefine como socialista. Por exemplo, pode-se ler na página do PSOL– cliquem aqui– que:

“…, o PSOL declara solidariedade ao povo venezuelano e apoio à candidatura de Nicolás Maduro, por expressar a continuidade dos valores da Revolução Socialista Bolivariana. Segundo o texto, o PSOL já havia manifestado sua solidariedade ao povo venezuelano, em duas oportunidades recentes: na eleição presidencial de 2012, em apoio político à candidatura de Hugo Chávez, e mais recentemente, em clima de profunda tristeza, manifestou seu pesar pelo falecimento do ex-presidente, “tão significativa personalidade na luta antimperialista latino-americana”.

Bom, esse “exemplo de democracia” desrespeitou senadores brasileiros que tentaram visitar presos políticos. Em uma democracia, qualquer pessoa pode dizer abertamente que não gosta do governo e do Presidente da República e nem por isso acabar na prisão. Mas é claro que a Venezuela é um tipo diferente de democracia, aquele tipo que causa uma enorme sedução em alguns segmentos da esquerda Latino Americana que falam mal dos EUA e veneram a “bondade” do governo Chinês com países de esquerda como a Venezuela.

20 pensamentos sobre “A “maravilhosa” democracia Venezuelana

  1. Alon Feuerwerker lembrou no twitter dele que “Qdo alguns de nossos hj governantes estavam na cadeia a ditadura bras acusava os EUA (Carter) de ingerência por pressionar pelos dir humanos”

    • É o desejo íntimo do comissariado petista – com certeza alguns – transformar o partido no Estado Brasileiro, assim como foi na URSS.
      Em certa medida estão conseguindo já destruíram a economia mesmo e empobrecerão o povo até 2018. O povo brazuca devia tomar vergonha na cara e votar com mais consciência em 2018.

  2. Excelente texto! Além da “ingerência” do Carter, citada acima em comentário, a história latinoamericana tem muitos episódios de políticos e autoridades de outros países intercedendo em defesa de presos políticos… de esquerda. A atitude do governo brasileiro é uma lástima, imensa lástima.

  3. Caro Mansueto, a Venezuela há alguns anos deixou de ser uma democracia, não é correto afirmar que lá existe um tipo diferente de democracia, a situação é tão grave que mesmo em sentido irônico tal afirmação deve ser evitada.

    Lá existe um regime político de hegemonia fechada que foi PLANEJADO para ser assim. A constituição venezuelana foi reescrita na metade da década passada de acordo com o modelo proposto por um centro de estudos sociais marxistas de Madri. Há uma clara oposição as liberdades individuais, a propriedade privada, liberdade de imprensa, pluralismo político e democracia representativa, afinal, todos esses “gostos burgueses” estão do lado errado da história. Na constituição venezuelana o sistema político apresenta dois Poderes principais; Executivo e povo, e três Poderes secundários; o Judiciário, o Legislativo e o Ministério Público. Na prática, regimes de Executivo forte conseguem facilmente manipular o povo, ou seja, gera um único Poder. É tão grave a situação lá que há milícias armadas que atacam opositores e ocupam os espaço do povo para “fazer democracia direta”. Os Poderes secundários são subjugados ao Executivo, vide que Maduro se valeu da Constituição para transferir o Poder Legislativo para ele.

    Não foi um acidente histórico a tragédia venezuelana, mas um percurso cuidadosamente planejado em Madri. O sangue dos mortos pelo regime estão nas mãos desses “intelectuais”.

    O professor Ives Granda Martins chamou atenção para esse problema durante muito tempo, mas teve pouco destaque no debate público.

    • Perfeito. Todos os países cujos governos são signatários do foro de são paulo buscam um arcabouço político semelhante ao Venezuelano. A Venezuela foi a mais bem sucedida até o momento. Corremls o mesmo risco aqui se nao1nos mantivermos vigilantes

  4. Espero o momento em que nossos gloriosos senadores se deslocarão rumo a Guantánamo para conversar com os presos políticos que estão sob os cuidados amorosos do governo americano. Falar em democracia tendo como companheiros de viagem Ronaldo Caiado e agripino maia é até engraçado

    • Cara, esse reletivismo político de vocês eh assustador. Nem quando vidas humanas estão sob tortura vocês deixam a crueldade de lado.

      Guantánamo tem terroristas presos. A Venezuela não. Deixa de ser desumano, rapaz! Que coisa mais baixa, meu Deus.

      • Nao tem jeito. Esses caras foram transformados em robôs que só enxergam e falam aquilo que lhes foi programado. Preferem morrer defendendo um partido e sua ideologia do que aceitar o quão podre ele é.

        Estamos aqui falando de valores absolutos, liberdade, direitos humanos e democracia, mas o cidadão argumenta com viés partidário e revanchismo politico.

        Infelizmente o Brasil está caminhando a passos largos para uma guerra civil.

  5. Com todo o respeito e pelo nivel (excelente diga se de passagem) dos debates que ocorrem neste blog, achar que o PT tem um plano para transformar o país numa Venezuela é algo que surreal pra não dizer outra coisa. Somos unanimes em reprovar o que eles vem implementando mas dai falar isso tipo de coisa não faz sentido algum. O Brasil é uma economia aberta e está proximo de se juntar a OCDE, somado a isso FMI, agencias de rating caso percebessem qualquer sinal forte o suficiente de que eles desejam realmente transformar tudo isso aqui numa Venezuela não manteriam os ratings e avaliações…

    • Podem não ter um plano de transformar o país numa Venezuela propriamente dita, mas o receituário político que eles seguem é exatamente o mesmo. Tal receituário é proveniente do foro de são paulo e tem clara intenção de enfraquecimento da democracia e da oposiçao.

      1 – alto nível de intervenção estatal
      2 – tentativa de desnivelamento entre os três poderes, com fortalecimento do poder executivo diante dos demais poderes. Os conselhos populares são um dos exemplos.
      3 – aparelhamento dos demais poderes e instituições
      4 – tentativa de controle da imprensa. Sob a desculpa de regulação económica e de monopolio tentam enfraquecer a midia. Quem regula economicamento regula conteúdo também, pois torna a imprensa financeiramente dependente da boa vontade estatal. Inclusive os recentes cortes de verbas publicitárias para o estadão, globo e veja são exemplos de punição económica.
      5 – populismo em nível elevadíssimo

      Pode olhar os quatro bolivarianos: venezuela, bolivia, equador e argentina. Todos seguem esta receita. Uruguai e chile estão em nível mais atrasado.

      O PT pode não estar conseguindo hegemonia política, mas não não é por falta de vontade nem de tentativas. É por incompetência apenas.

    • Ulisses, concordo com o nível dos debates, mas discordo da surrealidade.

      Talvez o fato de a Venezuela ter se transformado nesse Frankenstein da América Latina possa ter nublado a visão de algumas pessoas de que existe um planejamento em todos os Estados ditos Bolivarianos para transformá-los no tipo ideal de Estado no molde Gramsciano.

      Acredito que, a exceção de Estados subjugados militarmente, nenhuma sociedade aceita por muito tempo essa “ideologia predominante” se a economia não andar de acordo com o discurso.

      Se nós somos “unânimes em reprovar o que eles vem implementando”, infelizmente não é motivo nenhum para que não continuem tentando, ou alguém esqueceu a primeira proposta do Berzoini no Min.das Comunicações?

      Estamos longe do exemplo da Venezuela? Sim, mas poderíamos estar muito mais. Já estivemos muito mais longe, embora tenhamos estado mais próximos também. Nossa sorte é que essa esquerda (detesto esse termo, mas para me fazer entender é difícil usar outro) adora pensar em política, mas é quase analfabeta em economia e, dessa forma, é só aguardar o ocaso econômico para que a ideologia perca força entre boa parte das massas.

      Agora, devemos realmente permanecer bem vigilantes, pois quanto mais enraizada esta ideologia estiver, mais difícil abrir os olhos, mesmo com a economia em frangalhos. Já basta o trabalho que temos em nos desvencilhar do maniqueísmo ensinado nas escolas e nas universidades, especialmente as públicas.

      Ah, quanto às agências de rating, me parece que elas servem somente a um propósito econômico, legítimo, por sinal, já que nem tudo precisa ter um viés político. OCDE? Ok, somos key partners, mas a China também é, daí que a questão política não deve ser levada tão a sério por lá, não é?

      Adoro esse blog e espero que ele nunca termine, Mansueto. Treine uma irmandade para ficar no seu lugar nos próximos séculos!

  6. Essa viagem foi simplesmente ridícula. Pelo visto Aécio está desesperado com os movimentos de seus opositores no próprio partido. Se juntar com gente do naipe de um Agripino ou Caiado e ir fazer essa palhaçada, com dinheiro público na Venezuela, independente dos problemas que eles têm é realmente um absurdo. O impressionante é o blog tratar essa viagem como se fosse algo natural, sem nenhuma crítica.

    • Essas pessoas tem mandatos – foram eleitas pelo povo como foram os deputados e senadores do PT. O fato de alguém não gostar da ideia deles não os torna menos legítimo que outros parlamentares. Falar do “naipe de…” é uma posição tão elitista quanto aquela daqueles que falam mal de alguns políticos do PT.

      Sim trato como natural e vou tratar como natural porque acho equivocada a política externa do Brasil em relação à Venezuela.

      Mas isso não impede que você pense diferente de mim. O bom de uma democracia é que as pessoas podem pensar diferente, memo que pensar diferente para alguns seja absurdo.

      • Ta bom Mansueto, mas eu falei do “naipe”, para não falar das diversas denuncias que existem contra eles, no mínimo. Na boa, o Aécio não precisava disso.

    • Eu ainda não consegui entender qual a real intenção do Daniel neste blog…
      Que gente cruel, esses petistas. Mais preocupados com a oposição fazer seu trabalho que com as vidas humanas sendo torturadas em nosso vizinho.

      • A minha é comentar e dar minha singela contribuição ao debate. A sua, pelo jeito é patrulhar comentários alheios e bajular a posição majoritária do blog de maneira hipócrita Mesmo os jornais contra o Governo fizeram críticas á postura de Aécio e aqui não pode criticar, segundo voce, é isso ? Cada um na sua, não é mesmo.

  7. Acredito que a política externa brasileira é conduzida de forma errada desde 2003. O fato de colocar como objetivos da diplomacia a mudança da geografia comercial mundial usando a diplomacia do eixo Sul-Sul e que o Brasil será ator principal disso é ter uma visão míope e estrábica de mundo.Pior ainda quando essa diplomacia não leva em conta ganhos comerciais com as trocas com outros atores, mas sim preferências ideológicas. É um desastre sob qualquer ângulo que se olhe para o Brasil.

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