A renovação ou crise da imprensa?

De todos os artigos que li no final de semana nos jornais o que mais me impressionou não foi nenhuma das matérias da área econômica. Na verdade, a cobertura dos jornais impressos na área econômica têm variado muito. Em alguns domingos a cobertura é excelente, mas em outros tem-se a impressão que não estamos no meio de um furação representado por baixa confiança das empresários, aumento do desemprego, queda da renda real, dificuldade de o governo cumprir com a meta do primário, etc.

Há uma lista de temas importantes que poderiam ser abordadas pelos jornais de forma mais profunda em matérias no domingo. Por exemplo, a aprovação do fim do fator previdenciário poderia ter sido a razão para várias matérias sobre a previdência pública e privada no Brasil, inclusive o crescimento projetado pelo governo para despesas do INSS de 2015 a 2018, que sinaliza um crescimento de 0,7 ponto do PIB, maior do que no primeiro governo Dilma. Por que não fizeram isso? Os jornais se concentraram apenas em reportar o fim do fator previdenciário como aprovado no Congresso, sem uma análise mais profunda do tema.

Já no caso do FIES, a cobertura dos jornais foi muito boa com várias matérias sobre o assunto, falhas do programa, criticas das universidades privadas, a defesa do governo para alterar o programa, etc.

De qualquer forma, o que me chamou atenção no final de semana foi a matéria do ombudsman da folha, Vera Guimarães Martins, sobe o enxugamento do jornal (clique aqui). A matéria diz que:

“……a reformulação juntou em três cadernos editorias antes separadas, eliminou seções e colunistas e cortou sem dó um espaço que já não era generoso. “Esporte”, reduzido a uma página às terças e sextas e a duas páginas às quartas e quintas, liderou as reclamações.

“Comida” voltou a ser seção na “Ilustrada”. Integrantes do time de 125 colunistas que o jornal acumulou nos últimos anos vão escrever só no site. Dos seis de “Mundo”, só Clóvis Rossi continua no impresso.”

Acho isso péssimo para o país. Uma imprensa forte e independente é essencial para a democracia e o conteúdo independente da internet para mim não substitui os cuidados do jornalismo profissional impresso (e o impresso publicado digitalmente). A Folha de São Paulo não é o único jornal a passar por dificuldades. Nos últimos dois anos o Estado de São Paulo reduziu o seu time e também a Revista Veja.

É verdade que a internet é um enorme desafio para os jornais. Quem está disposto a pagar por informação de jornais se essas mesmas informações estão disponíveis de graça na internet? Em um país como o Brasil, que nem teve a chance ainda de massificar a leitura de jornais impressos, os jornais impressos (e revistas semanais) terem que passar por uma restruturação radical é algo que me preocupa, que não gosto e não acho saudável para democracia.

13 pensamentos sobre “A renovação ou crise da imprensa?

  1. Em um país onde reitores de universidade cometem erros de Português em seus comunicados oficiais, parece-me almejar demasiado que jornais cotidianos cubram temas complexos para a população em geral, que com sorte não é analfabeta funcional.

    Um tema complexo exige capacidade de leitura, capacidade de concentração, capacidade de entender o que está sendo lido e capacidade de meditar sobre o que está sendo apresentado. Pelos exemplos recentes, até professores universitários seniores apresentam dificuldade de conseguir a maestria nos quesitos anteriores.

    Assim, sobrou a internet para os menos analfabetos se informarem ou as poucas revistas semanais que prezam pelo conteúdo no lugar de simples matérias chamativas ou fotos apelativas.

    Mansueto Almeida, Obrigado pelo seu tempo e esforço em nos manter informados.

  2. Você tem razão, Mansueto! Eu me apoio nas edições do domingo para saborear as análises econômicas que fornecem combustível para as minhas salas de aula, durante a semana. Mas hoje tá fraco demais. O Globo publicou até entrevista com o ex-marido da Dilma… que disse que o governo só tomou consciência da gravidade da crise econômica brasileira no meio da campanha eleitoral de 2014… Francamente!

  3. Compartilho da preocupação, mas sou mais otimista. Acho que os paywalls já estão suficientemente espalhados a ponto de secar as fontes gratuitas de informação de qualidade. Estadão, Jota, Valor, Economist, todos têm paywall. Talvez haja até um nicho não explorado de consumidores que estão dispostos a pagar não só a assinatura, mas também um extra para não ter publicidade.

    Idealmente, isso ajudaria a conter a mentalidade do “a internet me dá o direito de ter tudo o que eu quero de graça”.

    (Sim, já ouvi justificativa para pirataria em termos muito parecidos: “a internet trouxe um novo paradigma de compartilhamento de informação”. Sei.)

  4. Quantidade não quer dizer qualidade. É muita gente despreparada dando palpite. Por oportuno, por que continuar falando em Previdência se ela não mais existe constitucionalmente? Já não existia matematicamente.

  5. Os jornais estão morrendo porque perderam o bonde dos negócios. Estão muito defasados, muitos continuam sobrevivendo apenas por publicidade oficial ou por expedientes velhos, como por ex, a obrigatoriedade de se publicar balanços de empresas de capital aberto.

  6. Mansueto,

    Não é de se esperar, num país onde o ensino é de péssima qualidade, que o jornalismo também seja vítima disso. Os jornalistas com alguma capacidade técnica para montar uma notícia com análises são poucos.

    Posso te citar mais de 20 pequenos portais que consulto que dão um show de análise econômica e que reduzem e muito a importância da imprensa na minha vida.

  7. Não seria resultado da baixíssima qualidade dos jornais, revistas e outros? Nas poucas vezes que me dou ao trabalho de ler jornais, revistas ou sites do UOL, G1, Estadão, Globo, a maior parte do que leio é porcaria. As análises são geralmente ruins e ideologizadas. O viés de esquerda predomina e não atende aos anseios da população que é de maioria conservadora.

    Pegue o caso da redução da maioridade penal. Mesmo com 90% da população a favor da redução, os jornalistas e analistas insistem numa suposta “polêmica” em torno do assunto. Sonegam informações, distorcem dados e relativizam os crimes cometidos por menores apenas para seguir defendendo o indefensável. O ponto não é se reduzir a maioridade é uma boa idéia ou não, é o fato de que a mídia não traz nada de novo ao debate e segue insistindo na cartilha esquerdista de que os menores são vítimas da desigualdade social. As pessoas sabem que isso não é verdade, e com o tempo perdem o interesse pelas notícias.

    Existem inúmeros problemas como o modelo de negócios citado acima. O essencial no entanto me parece ser que o produto que eles tentam vender é ruim. As notícias são ruins. As análises pior ainda. O Mansueto é um dos poucos que vai na contramão, tenta buscar e discutir a verdade. E talvez por isso não consiga o espaço que mereceria.

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  9. se considerarmos a pobreza de matérias sobre economia do País nos finais de semana entedemos que o enxugamento é crise mesmo e nào renovação. Lamentável!

  10. Quem vai perder seu tempo em ler notícias de ontem? Quer saber o resultado de um jogo pelo jornal? Você assiste um gol da série B do Amazonas no Youtube e de graça.
    Quanto aos comentários, principalmente econômicos, criou-se um grupo de “analistas” que se revezam nos principais jornais e revistas com as mesmas críticas e sem nenhuma solução para elas. Falar mal é fácil. Ler o jornal de janeiro ou de domingo último não faz a menor diferença.

    Duro é criticar e apontar para uma (possível?) solução do problema. Quando o Giannetti disse, com todas as letras, que era necessário um ajuste duro, rápido, recessivo, que provocasse desemprego suficiente para controlar a inflação, o debate poderia ter sido sério. Faltam generais para vencer essa guerra.

  11. Mansueto e leitores do blog

    Conhecem o Brio?

    Vale a pena dar uma olhada, se não conhecem.

    Recebi e-mail hoje que avisando que o Brio liberou “digratis” uma vasta reportagem (watchdog) sobre o BNDES:

    “Para jogar luz no assunto, BRIO convidou 17 profissionais — entre repórteres, fotógrafos, infografistas e cineastas — na Argentina, Bolívia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela, países nos quais foi possível levantar documentos e dados de interesse público, em meio a uma cultura de sigilo. Engenheiros, advogados, diplomatas, economistas, cientistas políticos, antropólogos, entre outros, foram convidados para analisar os dados. Uma equipe de filmagens viajou mais de 9.000 quilômetros para registrar o trabalho dos jornalistas e especialistas.

    Nas próximas páginas, as descobertas são relatadas em seis capítulos, um para cada país. Primeira constatação. Alguns dos projetos com financiamento do BNDES seguem primeiro critérios políticos, mas não levam em conta estudos sobre custos, impactos sociais e ambientais. Na definição de um documento do Itamaraty obtido por BRIO por meio da Lei de Acesso à Informação: “Conviria revisar cuidadosamente os parâmetros para a aprovação dos financiamentos”.

    Ainda não tive tempo de ler. Se interessar

    http://brio.media/pt/title/224/preview?utm_source=Brio_Dev_Pt&utm_campaign=672b78f782-A_New_Website_PT&utm_medium=email&utm_term=0_1edf939f21-672b78f782-206332953

  12. Cacildis! No politburo do PT, que ocorrerá no próximos dias, os dirigentes da corrente majoritária proporão documento em que “é preciso reformar o mercado e a instituição de novos bancos públicos”.
    Estamos mal! Estamos muito mal!
    Realmente o PT está como o cachorro que corre atrás do próprio rabo.

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