O ajuste difícil

Vou escrever uma série de posts sobre problemas relacionados ao nosso ajuste. Converse com o seu economista preferido para ver o que ele tem a dizer. Mas se o seu economista começar com o papo furado que esses economistas que falam de ajuste são contra os pobres, ou que são neoliberais sem coração, sugiro procurar um outro economista preferido.

Eu ainda acho que o ministro da fazenda deveria ter sido um economista do PT e, de preferencia, um daqueles que assinaram a carta de apoio a presidente Dilma Rousseff nas eleições. O problema é que a presidente Dilma e o ex-presidente Lula parecem não confiar nos economistas do seu próprio partido. Se confiassem teriam convidado para ministro da fazenda algum economista do próprio partido.

Dito isso, vamos ao meu primeiro ponto. Olhem o gráfico abaixo do IPC-FGV da inflação de bens comercializáveis versus bens não comercializáveis (sem tarifas públicas). Notem o pico dos preços do bens comercializáveis em 1999 (12,1%) e 2003 (13,9%) que se traduziu em inflação dos bens comercializáveis e, logo, em aumento de rentabilidade dos bens comercializáveis versus os não comercializáveis.

Inflação Anual – Preço dos Comercializáveis versus Não Comercializáveis (sem tarifas públicas) – 1997-2014 (IPC-FGV)

inflação

E agora? Neste ano a taxa de câmbio (R$/US$) já se desvalorizou em mais de 20%, mas nos dois primeiro meses do ano, a inflação de bens não comercializáveis (sem preços públicos) medida pelo IPC-FGV foi de 3,4% ante 1% dos preços comercializáveis, ou seja, a correção de preços relativos até fevereiro não ocorreu e, ao longo dos quatro anos do governo Dilma, apesar da desvalorização do real em 60%, a inflação dos não comercializáveis foi cerca de 8,5% ao ano muito acima da inflação dos comercializáveis (abaixo 6% ao ano).

Em resumo, a desvalorização nominal da nossa moeda de quase 80% do final de 2010 até março deste ano pouco adiantou para corrigir a “taxa de câmbio real” – preços bens comercializáveis versus os não comercializáveis. Mas como corrigir essa relação? A inflação dos bens comercializáveis precisa ser maior que a dos não comercializáveis. Mas como fazer isso? como evitar que uma desvalorização do Real seja repassada para inflação de serviços? Deixo a resposta para os “economistas do bem” que acreditam que todos que propõe ajuste são contra os trabalhadores e contra os pobres.

21 pensamentos sobre “O ajuste difícil

  1. Parece-me que o exagerado aumento dos preços de serviços (excluindo os do governo), que já vem de varios anos, só pode ser controlado com maior concorrência. Concorrencia (sem distorções artificiais) é o melhor remedio! Seria bom se nossos governantes aprendessem isso.

    • Medidas do atual governo são todas contra a livre concorrência. O governo já fala em negociar e renovar as atuais concessões de distribuição de energia elétrica que estão por vencer neste e no próximo ano em direção contrária ao que determinam as leis atuais que exigem nova licitação. Parece que o MP vai entrar com ação para barrar tais medidas ilegais. Governo defende as empreiteiras envolvidas na Lava-Jato. Melhor seria abrir o mercado para médias empresas nacionais e do estrangeiro.

  2. Para corrigir os preços e para eles se estabilizarem em um patamar adequado ao mercado teremos que esperar e uma pequena recessão já está instalada.
    O governo esqueceu que dinheiro não da em arvore e como gastou a vontade agora a sociedade tem que pagar a conta.

  3. “Uma idéia verdadeira, mas complicada tem sempre menos chance de sucesso que uma idéia falsa, porém simples”. Alexis de Tocqueville. Acho que essa foi a dinâmica da campanha, até por que vale o que o Prof. Gustavo Franco disse uma vez: “todos querem mais investimentos sociais, mas ninguém quer pagar mais impostos”. Bem, as próximas eleições na França poderão dar um indicativo de como pode se comportar o eleitor depois de anos de seguidas desaprovações do presidente, até pq o François Holland prometeu um afrouxamento e entrou com ajuste e manutenção do tripé macro. Enquanto isso, é esperar pra ver se a verdade passará de “ruim” à “necessária” na mente da população e isso deverá depender em muito dos próximos passos desse ajuste. Não acredito que a popularidade da presidente vá muito longe, mas espero que o momento traga para o escopo de discussão decisões econômicas há tanto adiadas, até pq o nível de discrição realmente passou do limite…

  4. Mansueto, já imaginou o Belluzzo ou o Mercadante na Fazenda? Mas a minha preferida – e atualmente disponível porque não dá mais aulas – é a Maria da Conceição Tavares.
    Teríamos a décima-primeira praga bíblica.

  5. perfeito. So acho que choques de produtividade em um dos setores podem explicar a nao convergencia da taxa de cambio real para o mesmo patamar anterior. A evidencia indica que esses choques tem uma persistencia que talvez explique o fato.

    • Mas o deficit em conta corrente de 4,2% do PIB com crescimento zero e queda do investimento mostram que ganhos de produtividade não foram suficientes para compensar valorização da taxa de câmbio sem corrigir pela produtividade. Não teremos que voltar para o valor lá de trás mas precisaremos de alguma correção de preços relativos que ainda não ocorreu.

  6. Por não ser economista, não sei o autor da frase: “em economia tudo tende ao natural”. Portanto, seja da esquerda ou da direita, não adianta tomar medidas afastadas da realidade. Tudo voltara ao normal, mais cedo ou mais tarde. O preço a pagar varia na proporção do tamanho e da duração do desvio.

  7. “A inflação dos bens comercializáveis precisa ser maior que a dos não comercializáveis. Mas como fazer isso? como evitar que uma desvalorização do Real seja repassada para inflação de serviços?”

    Com uma recessão “de cavalo”. O ajuste fiscal tem um papel muito importante de âncora das expectativas.

  8. “Eu ainda acho que o ministro da fazenda deveria ter sido um economista do PT e, de preferencia, um daqueles que assinaram a carta de apoio a presidente Dilma Rousseff nas eleições.”

    Mansueto, falando assim você parece um adepto do “quanto pior, melhor” (e eu acredito que não seja).

    “Deixo a resposta para os “economistas do bem” que acreditam que todos que propõe ajuste são contra os trabalhadores e contra os pobres.”

    Poderia citar alguns nomes (ou links)? Felizmente, não tenho me deparado com esse tipo de declaração nas minhas parcas leituras.

    • Na verdade não. Seria bom que o reconhecimento do necessários ajuste fiscal fosse uma política aceita por qualquer partido politico e não algo que se espera apenas de economistas liberais na linha do Joaquim Levy. Me assusta que o PT há doze anos no poder não tenha sido capaz de costurar uma solução do tipo Palocci que fez no primeiro governo Lula.

      N0 ano passado, todas às vezes que falei que não havia como reduzir carga tributária e aumentar em 2015 os programas sociais, fui várias vezes atacado como “neoliberal” e contra os pobre. Adicionalmente, vários dos economistas que supostamente apoiam o governo falam muito mal do Joaquim Levy como se ele fosse o culpado pela recessão.

      Os economistas que se autodenominam progressistas precisam ter a coragem de mostrar para a sociedade qual a a su proposta de ajuste fiscal, o que exatamente a proposta deste grupo se diferencia do plano de ajuste dos economistas liberais que criticam. Mas hoje o que temos é um grupo de economistas que se autodenominam “progressistas” mas que não têm uma agenda de política econômica que não seja o aumento puro e simples da despesa publica para o governo que apoiaram na eleição.

      Seria bom para o debate que os economistas do PT ou simpatizantes do PT tivessem um proposta de ajuste fiscal e, assim que o governo não precisasse chamar para coordenar a sua equipe econômica um economista que sempre pensou não um pouco, mas 100% diferente do que o governo Dilma fez de 2011 a 2014. Me parece esquisito que apenas um economista liberal seria duro (ou ruim o bastante) para promover o ajuste fiscal. Já passou da hora de os partidos de esquerda e os economistas que se autodenominam progressistas sejam mais claros no que exatamente propõe como modelo econômico e ajuste fiscal. A estratégia de quando a coisa piora chamar um economista liberal para resolver o problema me parece uma grande anomalia e um atestado que o governo não confia em um grupo grande economistas que apoia as teses do partido do governo.

      • Concordo com o que você diz nesse comentário, só achei um pouco questionável (e suscetível a interpretações ou distorções mal-intencionadas) aquelas primeiras aspas.

        Como eu disse, não tenho me deparado com declarações tão ofensivas assim dos economistas do PT ou simpatizantes ao partido, mas acredito no que você afirma, até porque percebê-las é fácil quando se é o alvo dos ataques. Espero que venham apenas de personalidades mais insignificantes (com as quais o melhor é nem perder muito tempo discutindo).

        Minha maior dúvida é exatamente por que o PT não “costurou uma solução do tipo Palocci”. E, pelas conversas que tive, aparentemente nem o próprio partido sabe a resposta. Minha sensação é de que o PT está perdido e acuado, muito em razão dos erros cometidos nos últimos anos. Se há algo de bom nisso tudo é que parte dele parece ter reconhecido isso. (Mas não espere que admitam publicamente, claro.)

      • Sem duvida. Mas que o PT reconheça internamente é bom para o próprio processo de mudança do partido. Ao contrário da turma do Fla-Flu, eu acho positivo que existam partidos de esquerda e diversidade de opniões. A dinâmica dos partidos lutando pela aprovação dos seus diversos projetos é muito positivo para democracia. Vou circular aqui depois um texto sobre o Bolsa Família do cientista politico Marcus Melo que mostra a dinâmica positiva da competição entre partidos para se apropriar a ampliar o programa. No final quem se beneficiou foi a população. Abs,

  9. Bom ponto como sempre. A única maneira de fazer isso é deixando o desemprego deflacionar os bens não comercializáveis. No entanto isso demora, portanto temos q conviver com uma inflação mais elevada por um período longo.

  10. Mansueto,

    Estou gostando muito das postagens mais concisas. Quanto aos adjetivos, penso que não vale a pena entrar nesse jogo de que alguns são isso e outros não. Já fui chamado de neoliberal, elitista, entre outras coisas. Esses adjetivos são usados para buscar desqualificar as pessoas que pensam de outro modo.

    Claro que existem interesses e visões distintas, algo comum em uma democracia. Você deve conhecer aquela famosa passagem de Keynes (1936, capítulo 24): “Estou convencido de que a força dos interesses escusos se exagera muito em comparação com a firme penetração das ideias (…) Porém, cedo ou tarde, são as ideias, e não os interesses escusos, que representam um perigo, seja para o bem ou o mal”.

    Abraço,

    Rodrigo

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