A batalha errada do Banco Central

Eu tinha quase certeza que a confusão crescente do governo, por enquanto, se restringia a péssima coordenação política e a oposição do Partido dos Trabalhadores (PT) ao plano de juste econômico. A cada dia que passa é certo que o governo está conseguindo de uma forma impressionante aumentar o custo do ajuste e, na minha visão, isso tudo vai piorar porque o governo não tem credibilidade. Como falou recentemente um ex-diretor do Banco Central: “este governo deveria aprender que acertar de vez em quando também é humano”.

Qual não foi a minha surpresa ao ler neste sábado que o Banco Central se deu ao trabalho de publicar uma nota atacando o economista Affonso Celso Pastore (clique aqui), que em palestra esta semana em Riberão Preto criticou a gestão do economista Alexandre Tombini na presidência do Banco Central e a perda de credibilidade da autoridade monetária, o que dificulta que a inflação, em 2016, seja de 4,5%.

A nota para imprensa do Banco Central, segundo matéria do Estado de São Paulo, lembrava que, quando presidente do Banco Central entre 1983 e 1985, o economista Affonso Celso Pastore deixou uma inflação anual de três dígitos. Se o Banco Central está lutando para perder ainda mais sua credibilidade junto ao mercado deu um excelente passo. A comparação é desonesta e distorce um debate relevante em relação a inflação atual. Aqui vou listar apenas cinco pontos.

Primeiro, comparar a situação atual com a inflação da década de 1980 quando Pastore foi presidente do Banco Central é de uma desonestidade intelectual impressionante. Naquela época pouco se conhecia o que era inflação inercial e levamos dez anos de 1985 a 1994 para, finalmente, conseguir estabilizar a inflação com o Plano Real de 1994.

Segundo, a inflação média no primeiro governo Dilma foi de 6,2% ao ano para uma meta de 4,5%. Se alguém acha que o Banco Central fez um bom trabalho  esse alguém deveria explicar melhor como uma inflação consistentemente acima da meta e com a expetativa de inflação se afastando do centro da meta poderia ser considerada um sucesso.

Terceiro, a critica que Pastore fez ao Banco Central é quase consensual entre nove de cada dez ex-diretores do Banco Central, inclusive colegas de Tombini quando este era diretor do Banco Central na gestão do presidente Henrique Meirelles e de economistas que foram seus superiores. É claro que há atenuantes. O trabalho do BACEN nos últimos quatro anos foi prejudicado pelo expansionismo fiscal e pelas decisões equivocadas do Ministério da Fazenda. No início do governo Dilma, por exemplo, Tombini chegou a convidar uma economista do mercado para ser diretora do Banco Central, mas o nome foi vetado pelo ministro Mantega. Todo mundo sabe dessa história, inclusive quem é a economista e isso mostrou, logo no início do governo Dilma, que a independência do BACEN seria limitada.

Quarto, na semana passada tive a chance de encontrar com seis ex-diretores do Banco Central em São Paulo e Rio de Janeiro e todos não escondem  que esperam para, este ano, uma inflação entre 8% e 9%, mas alguns já falam em até 10%. Adicionalmente, quase todos têm dúvidas do real compromisso do Banco Central com a meta de 4,5% para 2016. Os senadores do PMDB não escondem nas conversas do cafezinho no Congresso que escutaram do próprio Tombini, no famoso jantar da equipe econômica com o PMDB, que a inflação este ano será acima do teto da meta de 6,5%. A dúvida do economista Affonso Celso Pastore não é exclusiva dele, mas sim de vários economistas, inclusive, vários que passaram pelo Banco Central nos últimos 15 anos e que conviveram com o atual presidente Alexandre Tombini.

Quinto, as paredes de Brasília são cheias de buracos. Não saberia dizer se é desgaste natural do tempo, falta de manutenção ou trabalho de ratos. Assim, as conversas de gabinete vazam com uma rapidez incrível, mas nem todos boatos são verdadeiros porque sempre alguém aumenta o que escutou. Mas uma fofoca que escutei em Brasília de políticos com boa circulação nos órgãos públicos é que algumas pessoas da direção do Banco Central estavam irritadas com as declarações do ministro da fazenda sobre taxa de câmbio e o reajuste elevado das tarifas de energia. Não sei se a irritação é do Presidente do Banco Central ou de algum diretor. Alguns políticos me perguntam: “será que a Fazenda quer mais inflação para entregar o ajuste fiscal?” Não acredito, mas essa é uma pergunta que rola por aqui. No final do ano teremos a resposta.

Concluindo, se o Banco Central quiser provar que o economista Affonso Celso Pastore e muitos outros estão errados ao levantar dúvidas do real compromisso do Banco Central com o centro da meta de inflação já em 2016, a melhor coisa a fazer é entregar a inflação no centro da meta no próximo ano e depois.

O Banco Central errou ao publicar uma nota para imprensa contestando o economista Affonso Celso Pastore (não consegui encontrar a nota) e tornando um debate técnico em um debate pessoal, quando todos sabem por pessoas que hoje estão no governo as decisões erradas da equipe econômica do primeiro governo Dilma. O mais irônico disso tudo é que ninguém tem nada contra o presidente Alexandre Tombini e todos torcem para que ele e sua equipe consigam trazer a inflação para o centro da meta custe o que custar, como ele próprio Tombini costuma falar.

Neste episódio, o Banco Central deu um grande tiro no pé e escolheu uma batalha errada. Um dos economistas mais brilhantes do Brasil se chama Affonso Celso Pastore. Querer desacreditá-lo por meio de uma nota para imprensa de teor tão rudimentar é de uma “……….” que impressiona – complete com a palavra que você leitor quiser e ninguém poderá processá-lo.

15 pensamentos sobre “A batalha errada do Banco Central

  1. Olá Mansueto.
    Não sou economista então preciso perguntar. Quando cita “será que a Fazenda quer mais inflação para entregar o ajuste fiscal?”, como isso funcionaria?
    Obrigado.

  2. Também não sou economista. Sei que quem gosta de gastança gosta de inflação. Aliás, em matéria de orçamento público, nada que uma “boa inflação” não resolva. Desde que não haja correção monetária.

    • Bem, em ambiente hiperinflacionário, tem o problema da desvalorização real das receitas (efeito Tanzi).

      Hiperinflação é uma faca de 300 gumes.

  3. Caro Mansueto, não sei porque esta boa vontade com o Tombini. A verdade é que ele sempre se curvou perante o governo para se manter no cargo. A presidência do Banco Central é um cargo técnico, como aliás todos os outros deveriam ser, e nenhum economista que se preze teria aceitado o nível de interferência que ele aceitou. Só seria aceitável se ele parasse de se dizer economista e passasse a ser politico, que alias é a única coisa que justifica a sobrevida dele. A atuação de Tombini no Bacen foi equivocada desde o inicio quando eles derrubaram a taxa de juros de maneira intensa e rápida sem nenhuma justifica técnica, apenas para agradar ao que queria a presidente. Some-se à atuação desastrada do Bacen a política fiscal implantada e temos o desastre que vivemos agora. Deveríamos ter políticas fiscal e monetária consistentes. Quando uma não funciona, seja por incompetência ou por motivos politicos, a outra tem que segurar. Com as duas frouxas, tchau Brasil…E o Tombini se diz economista?? E essa do Bacen criticar quem os critica??? Primeiro foi o episódio da tentativa de processo ao Schwartsman, agora esta nota ao Pastore. Vergonhoso.

  4. este é o segundo comentário que deixo no blog e por coincidência, é sobre o bacen . . . É incrível que depois de tanto torcer e aguardar que a nomeação do presidente do Bacen, deveria ser alguém de carreira da Instituição e não ” paraquedistas” nomeado ao sabor do executivo. Tinha a concepção, que se assim fosse, haveria maior compromisso do presidente do bacen, com as reais diretrizes do Bacen, controle da inflação. Ou estive redondamente engano a vida inteira, ou o Sr.Tombini é militante partidário. A nota à Pastore é de um descabimento, de um rancor . . . beira a estupidez. O Brasil passa por um péssimo momento de sua história, e eu, cada dia me sinto um sonhador mais desesperançoso com o futuro.

  5. Não estou dizendo que seja uma situação igual, pois não é. Mas a inflação da década de 80 e a de hoje guarda algumas semelhanças sim, Mansueto.
    No livro Economia Brasileira do Bresser e do Nakano eles mostram um histórico da inflação a partir da de fins da gestão Médici. 1973 Naquela época a inflação acompanha o restante do mundo, que era em torno de 20%. Assumiu o Geisel e em 1978 já resvalava em 49%.e a coisa ficou feia com o Figueiredo onde a inflação no fim de seu mandato era de 100%. Em todo esse tempo, a inflação repousava na deterioração das contas públicas além de outras variáveis não lineares como forte endividamento externo e déficits na BP. E o que temos hoje? Não são as mesmas variáveis que estão atacando novamente? Lembra-te que saiu notícias esses dias que algumas pessoas de Brasília iria tabelar preços de mensalidades das universidades, para que as instituições se enquadrem ao percentual máximo de reajuste estabelecido pelo MEC. Isso pra mim é congelamento. Estamos revivendo a era Sarney em alguns setores (nem falo da eletricidade e combustível, que são exemplos notórios e estão sendo corrigidos violentamente agora)

    • Opa! Congelamento não. É pior, é tabelamento de preços. Ah! Vi uma coisa bem interessante agora o Ministério da Saúde quer tabelar preço dos planos. Pura era Sarney! Dilma McFly e De volta para o Passado!

  6. Tombini falou bobagem. Aliás, querer comparar situações é sempre uma tarefa arriscada. Ele deveria explicar se agiu tecnicamente na época em que reduziu a Selic para 7%!
    Deveria explicar por que voltou correndo com a Selic à 11,75%!
    Deveria explicar por que inflação está em 8%, com sinais que saltará para 10%.
    A inflação alta na década de 80 era outro mundo. Desorganizou o sistema econômico de tal forma que o BACEN não conseguia domar a inflação. Tombini deu uma Tombada

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