Brasil e Índia

No último domingo (1 de março de 2015), o The New York Times trouxe um artigo interessante sobre a Índia (clique aqui). Além do fato de o Brasil e Índia serem classificados como emergentes e de pertencerem ao grupo dos BRICS, os dois países não têm muito em comum a não ser o fato de os dois serem os emergentes com maior dívida pública (% do PIB) de acordo com o FMI.

É importante destacar que, até 2013, a comparação entre os dois países nem sempre era favorável a um ou ao outro. No caso do Brasil, o déficit público (nominal) era de 3,2% do PIB, ante 7,2% do PIB na Índia, nossa inflação (5,9% ao ano) menor do que a deles (8,3% ao ano) e não tínhamos e nem temos o mesmo problema de informalidade da Índia e a burocracia lá é muito pior do que aqui

Mas já em 2013, ao contrário do Brasil, a Índia vinha mostrando uma rápida melhora nos seus indicadores econômicos. O déficit em conta corrente em dois anos havia passado de 4,1% para 1,7% do PIB, a taxa de investimento se reduziu, mas continuava acima de 30% do PIB, ante 18% no caso do Brasil, e o crescimento da Índia em 2013 foi quase o dobro do crescimento do Brasil.

Em 2014, as diferenças entre os dois países se acentuaram. Enquanto o Brasil apresentou um déficit público nominal de quase 7% do PIB, o déficit público na Índia projetado para 2014 é de 4,2% do PIB (Fonte: The Economist); a Índia apresentou crescimento de 6% (Fonte: The Economist) para o nosso crescimento zero ou negativo; e um déficit em conta corrente de apenas 1,8% do PIB ante mais de 4% do PIB para o Brasil, apesar da enorme diferença a favor deles da taxa de investimento.

No ano passado, a Índia elegeu como primeiro ministro o líder da oposição, Narendra Modi, que fez campanha a favor de uma agenda de reformas estruturais e o país, antes mesmo das eleições, já vinha mostrando melhoras. Em 2015, a nova proposta orçamentária do governo indiano sinaliza para um forte aumento do investimento público, redução do imposto de renda das pessoa jurídicas e a possiblidade, ainda que vaga, de algumas reformas.

Aqui no Brasil, a população decidiu, em 2014, dar continuidade ao governo apesar da piora dos indicadores econômicos, em especial, a forte deterioração fiscal que será corrigida com aumento da carga tributária, corte do investimento público e o término de várias das políticas de estímulo. Enquanto o consenso do mercado é que o crescimento do Brasil, em 2015, seja 0,5 negativo, o mercado espera crescimento da Índia próximo a 7%.

Como escutei uma vez de um investidor de fora, até 2011, o Brasil era o modelo de país emergente que investidores repetiam para outros como exemplo do que fazer. Não é mais. O Brasil dos últimos quatro anos é um bom exemplo do que não se deve fazer.

A Índia tem muitos problemas e uma classificação de risco igual a do Brasil que está em revisão como a nossa. Mas as projeções de crescimento deles são muito maior do que a nossa e pagam uma taxa de juros no título de 10 anos de 7,7% ao ano ante 12% para o Brasil. É impressionante como, em 2010/2011, olhávamos para a Índia com um certo desprezo pela sua burocracia ineficiente, corrupção, evasão fiscal, elevada informalidade, inflação alta e desequilíbrio macroeconômico.

Enquanto a Índia melhorava, nosso governo fazia uso de políticas rudimentares que agravou o desequilíbrio macroeconômico e que nos levará uma um ciclo de oito anos de baixo crescimento (2011-2018). E ainda tem gente que ver mérito no que fizemos nos últimos quatro anos e defende hoje mais expansão dos gastos públicos.

O governo conseguiu com seus sucessivos erros nos levar a um ponto no qual não existe alternativa à austeridade a não ser que algum “desenvolvimentista” nos garanta acesso a um mercado de US$ 15 trilhões mesmo sem termos o grau de investimento. Adicionalmente, o mega escândalo de corrupção, envolvendo a Petrobras e nossas grandes empreiteiras, manchou nossa reputação.

A Índia é um país com muito problemas e com dificuldades para criar consenso pró reformas como nós. Mas quando se olha a história recente dos dois países tem-se a nítida impressão que eles melhoram muito nos últimos anos e nós andamos para trás. É mais frustrante ainda saber que há quatro anos chegamos até mesmo a ser modelo para os demais países emergentes e hoje comparações com o Brasil são evitadas.

8 pensamentos sobre “Brasil e Índia

  1. lá eles aprenderam algo com anos de pensamento nacional-desenvolvimentista que só fez o povo ir pra miséria com o semi-socialismo. aqui nunca vão aprender. especialmente pq as elites politicas dominantes resolveram usar o Estado para manter seus beneficios (como sempre). não queremusar o Estado para aderir ao capitalismo. fazem o Estado ser a sua fonte de renda e não o trabalho.

    que pena. triste futuro para o país.

    deixa o povo miserabilizar.

    1994 FHC foi escolhido pq o povo sofreu muito, nao aguentava mais a inflação e resolver aceitar a hipotese de diminuir o Estado e deixar os competentes trabalharem.

    quem sabe ele toma no ** e aprende de novo. pena que o aprendizado é de curto prazo. como os programas de TV que eles adoram.

  2. Isso tudo, sem falar que a Índia tem um sólido programa espacial, que já mandou inclusive uma sonda à lua (enquanto que o programa espacial brasileiro regrediu… )

  3. Não parece lógica essa comparação. Recursos naturais, população, cultura, tudo diferente. Seria interessante mostrar o que o governo fez ou faz. Como cresceu a tal classe C? Quanto se produziu de riqueza para ser distribuída?
    Só se criticam os últimos quatro anos? E os oito que foram contemplados com a mega-sena dos preços das commodities?

    • Mas até 2011, pelo menos nossa situação fiscal ainda era boa (primário de 3,1% do PIB e deficit nominal de 2,6% do PIB) e nossa perspectiva de crescimento boa. Mas depois de 2011 aprofundamos os erros de 2010 e isso nos levou a situação atual, Mas os erros começaram em 2008. Os países emergentes são muito diferentes mas a turma a’de fora quando quer nos comparara no coloca no grupo onde esta a India, Turquia, etc e não no grupo dos EUA e Alemanha, que conseguem se financiar com juros reais negativos.

  4. Índia tem sólida indústria farmacêutica e é líder mundial em serviços de TI. Forma milhares de engenheiros por anos. Tornou-se um polo de atração do turismo médico, por causa da boa relação custo-benefício de certos segmentos de saúde. Fabrica armamentos, tem projetos aeroespaciais em operação e está bem posicionada no Oceano Índico, que será o Pacífico do século XXI para muitos. Se diminuir a burocracia e continuar incluindo mais pessoas no mercado consumidor, seguirá crescendo a taxas elevadas por vários anos.

  5. Caro Monsueto, vc esqueceu de citar que enquanto a India começou 2015 cortando a taxa de juros pra 7,25 o nosso BC continua apertando para quase o dobro, conforme tese que vc tem continuamente defendido nesse blog. Apesar da absoluta discrepância de crescimento entre os dos PIBs.

  6. Tenho notado ao longo do tempo a miopia dos investidores estrangeiros em relação aos países periféricos. Desde 2013 os estrangeiros têm jorrado dinheiro mensalmente na bolsa brasileira, salvo algumas exceções. (dados da bolsa brasileira). O mês de fevereiro não foi diferente. Entraram um pouco mais de R$ 3 bilhões (reais).

    Me lembro que em 2007 eu discuti via blog de um economista europeu com algum renome sobre o nosso país. Ele estava hiper otimista com o Brasil e eu contrapus que o nosso país somente vivia no meio da euforia devido à monumental melhora dos termos de troca. Não chegamos a um acordo.

    Na década de 90 julgavam Buenos Aires a capital do Brasil (atualmente já distinguem as capitais). Um caso emblemático foi um analista da Merrill Lynch que visitou o México na véspera do colapso do peso mexicano em 1994. Saiu de lá com análise super otimista. Isso cerca de um mês antes da eclosão da crise.

    Em 2000 o analista-chefe do Morgan Stanley para o Brasil morreu de amores pelo nosso país. Até o crash da bolsa eletrônica. Foi despachado para a Hungria e, provavelmente, deve ter continuado a falar besteira sobre esse país.

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