Política Econômica Bipolar-2

Hoje à noite depois do debate acalorado na TV Câmara (depois coloco o link aqui) fiquei com uma certeza: o governo vai sofrer muito com a oposição do seu partido, o PT. Em determinado momento do debate tive que defender o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy e, se o programa tivesse durado um pouco mais, acabaria defendendo a presidente, pois o PT “defende” o ajuste de forma dúbia, pensando que será um coisa pequena e temporária apenas em 2015. Engano deles. Serão quatro anos de choro, suor e lágrimas.

Mundo maluco esse onde a oposição tem que mostrar para o partido do governo que é preciso fazer ajuste em um programa de televisão. Confesso que teve uma hora que perdi a calma quando meu companheiro de debate, o Deputado Afonso Florence (PT-BA), falou dos grupos que querem acabar com o estado de bem estar social, que o PSDB gosta de juros altos,  e que o PSDB se submete aos desejos do mercado, etc. Absolutamente impressionante!

Na verdade, o governo Dilma hoje está de joelhos para o mercado e tenta convencer as agências de rating que fará ajustes para não perdermos o grau de investimento. E o mais engraçado é alguém acreditar que o Joaquim Levy no momento que aceitou participar do governo passou a concordar com as teses do PT. Como diria meu filho pequeno: “Sonha Alice no País das Maravilhas”.

No mais, tive a péssima ideia de passar parte da minha tarde conversando com pessoas de NY por telefone. Fiquei com uma certeza: a turma de lá não “comprou” pelo valor da face a apresentação do ministro ou seja, não acredita por enquanto na meta de 1,2% do primário.

E, para terminar, um conhecido de NY me alertou que a tempestade política perfeita, com o downgrade confirmado da Petrobras, possibilidade de queda do PIB de 1,5% em 2015, inflação acima do teto da meta que agora o próprio presidente do BC reconhece, greves, reajuste de 50% na tarifa de energia, reajuste das tarifas do transporte urbano, gasolina cara, etc. vai levar a popularidade da presidente para um nível mais baixo do que já está. O que vai acontecer?

Só falta o desemprego crescer? mas pelo menos quatro ex-diretores do BC todos da era do PT me garantiram que isso vai acontecer logo logo. E depois melhora? depois melhora sim, mas o “depois” pode ser meses ou anos. O fato é que as pessoas vão começar a sentir no bolso o custo de seis anos (2008-2014) de erros de política econômica e, o pior de tudo, é que desconfio que todos nós vamos pagar a conta com um aumento de carga tributária de, no mínimo, dois pontos do PIB: R$ 100 bilhões.

O que pode piorar? já ia esquecendo, uma forte queda do investimento público e privado, pois a dificuldade de acesso ao crédito das maiores empreiteiras privadas do Brasil terá um efeito em cascata brutal nos investimentos em infraestrutura. No caso do investimento público, espero uma queda de uns  R$ 30 bilhões para cumprimos metade da meta do primário anunciada.

No meio desse desastre ainda tem gente que defende expansão dos gastos públicos como forma de reativar a economia. O pensamento de parte dos “intelectuais” é que maior crescimento do gasto público leva a mais crescimento e, logo, mais emprego e arrecadação. Ou seja, se deve fazer ajuste fiscal gastando mais como Arno Augustin e Guido Mantega tentaram por anos. Quase quebraram o Brasil, mas o crescimento não veio. E pode ainda piorar.

Crescimento médio anual real da Despesa Primária do Governo Central e do PIB – 2011-2014

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22 pensamentos sobre “Política Econômica Bipolar-2

  1. Como sempre elucidativo.
    Assisti o debate e foi ótimo, a resposta final ao deputado que quer as mãos do estado mais pesadas do que já são nas costas dos outros, melhor ainda.

  2. Mansueto.
    Ótima a tua participação e o didatismo com que expuseste tuas teses. Lamentável o deputado, mas mais lamentável ainda foi o teu colega da UNICAMP, ao defender que uma família pode endividar-se em mais de 100% da sua renda. Onde ele estudou economia????????

  3. As coisas piorarão muito ainda Mansueto. O rebaixamento da Petrobras hoje é o prenúncio de que a Moody’s, a Standard and Poor’s e a Fitch rebaixarão o Brasil também. Enquanto temos um mundo em deflação, a maioria dos países apresentando um crescimento razoável o Brasil tem uma inflação que já está beirando os 7,5%, namorando os 8%, um encolhimento da economia em 2014, que será mais severo ainda em 2015 e um câmbio namorando os R$ 3, o que será um complicador para o controle da inflação. Honestamente não sei se esse câmbio ajudará muito a indústria, o tarifaço indiscriminado “que quase não está pressionando a estrutura de custos das empresas” (ironic mode). Estou com seríssimas dúvidas se o Bacen e a equipe econômica terão capacidade de evitar que a inflação chegue aos dois dígitos. Vislumbra-se uma carga tributária de 40%.Temo que esse cenário seja a repetição do que está escrito naquela coleção do Profº Yoshiaki Nakano e do Profº Bresser Pereira, Economia Brasileira, publicada em 1985 onde o Bresser traça um histórico da inflação. Em 1974 nossa inflação caminhava no mesmo patamar que a taxa de outros países. A coisa começou a mudar em 1978. Se a inflação de 74 era de 20%, em 78 era de 48%. Aí concordo com Samuel Pessoa, nesse exato momento (Fevereiro de 2015) a “ilustríssima” está deixando de ser um Geisel de saias para ser um Figueiredo de saias. Infelizmente terá consequências nefastas para a nova (ou inventada) Classe C que provavelmente experimentará uma regressão de seu status social. Parafraseando o Ernane Galveas que disse que o Brasil com o Figueiredo ficou mais pobre, infelizmente a Sra. Rousseff deixará o Brasil mais miserável em 2018.
    Acho que seria interessante para Levy e quem viesse assumir as diretorias da Petrobras e da Eletrobras ( que está agonizando em praça pública e ninguém fala dela **** principalmente suas subsidiárias de distribuição******) discutir seriamente um fechamento de capital dessa(s) empresa(s). Não acredito em recuperação para elas pelos próximos 4 anos, haverá uma sangria muito grande de recursos, uma baixa contábil da Petro de proporções cataclismáticas e se a Lava Jato se alastrar para outras estatais produzirá uma hecatombe ainda maior na economia. Talvez essa medida – uma OPA – pudesse garantir uma reestruturação mínima de suas finanças, claro com pessoal competente para fazer isso. Talvez injetando mais recursos públicos nas duas empresas (Petro e Eletro). (****sei que isso é condenável e passível de críticas, mas no atual estágio das coisas o que se pode fazer? Não tenho a menor ideia de onde o governo iria tirar dinheiro para isso****)

  4. Dr. Mansueto, Fiquei horrorizada com a indigência o programa com a participação pífia da apresentadora, o cenário semelhante ao do filme expressionista alemão ‘O Gabinete do Dr. Caligari’ porém decadente, a indigência mental do deputado do PT da Bahia e do babaca da UNICAMP, todos defendendo as aberrações petistas, o estado de bem estar social, as desonerações, a renúncia fiscal, a o aumento do bolsa-família e outras distorções.. O sr. merece ser entrevistado pelo William Waack no programa Painel. Caminhamos, sim, para a instauração do caos, da anomia social. Aliás aproveito para pedir que minimamente responda ao questionamento que fiz em outra postagem sobre a Caixa Econômica, se a ela se aplica ainda o “too big to fail”, ainda sem resposta. Em outras palavras, no limite, o que pode acontecer com os bancos públicos? Quebrarem? Deixarem de honrar os contratos?

    • Claudia, a CEF e BB estão no grupo do Too Big do Fail. No pior dos casos a CEF será vendida por um valor baio para acionistas privados, mas o risco de não honrar os depósitos dos correntistas e poupadores é proximo de zero. Seria mais fácil o Brasil perder o grau de investimento.

      • O Brasil pode perder o grau de investimento (…) Fico honrada em receber uma resposta sua. Sem dúvida, o maior especialista brasileiro em contas públicas (em especial restos a pagar). O sr. é um patrimônio nacional.

      • Bondade sua como sempre. Eu que fico honrado em saber que, depois de tanto tempo, voce continua lendo o meu Blog. É um grande incentivo para eu melhorar. Obrigado.

  5. Assisti o debate e fico entristecido com a briga de gato e rato dos parlamentares de PT e PSDB, que abriram mão de discutir os desafios futuros para continuar o debate pré-eleitoral. Mansueto, em uma próxima oportunidade, bem que você poderia cobrar do Pedro Rossi que ele nomeasse quem são aqueles contra a melhoria de bem-estar da população. Além dos nomes, ele poderia também nos elucidar com as evidências que comprovam essa tese. Ele estaria fazendo um grande favor ao debate político.

  6. Caro Mansueto, cadê aquele economista tão otimista? Estou brincando porque quase sempre fui mais pessimista do que você e, agora, sua análise está batendo praticamente 100% com o que eu penso. Grande abraço!

    • É isso ai Luciano. Tenho conversado com muita gente aqui e lá fora, conversado com politicos, participado de debates e com os dados que trabalho não dá mais para ser otimista. Assim, nos aproximamos. A propósito, vamos marcar um chopp em Riberão Preto um dia desses.

  7. “No meio desse desastre ainda tem gente que defende expansão dos gastos públicos como forma de reativar a economia.”
    Para este pessoal que ainda acredita nesta teoria, fica uma sugestão de estudo: expectativas racionais do Prêmio Nobel de Economia de 1995 Robert Lucas Jr.
    Parabéns Mansueto

  8. Esse pessoal do PT ainda não caiu na real do que está acontecendo no Brasil

    Alguém tem que explicar pra eles, que a única coisa que separa o governo de uma hecatombe fiscal, economica e social, neste momento, é a figura do respeitadíssimo Sr. Joaquim Levy. Se ainda há alguma confiança do mercado em algum ajuste fiscal, em diminuição de excessos, se ainda há algum fio de esperança de que o país possa sair combalido da crise daqui a uns tres ou quatro anos, mas sair, é pq o Levy tem biografia.

    Se o PT continuar sabotando o próprio ajuste fiscal, se daqui a seis meses não houverem progressos e o pior, se o Levy daqui a pouco dizer, ”assim não dá, tchau”, o PT vai ver o que ainda resta do próprio governo desmoronar em questão de dias.

  9. Mansueto,
    Desculpe-me, mas tem um erro brutal em seu post! Não posso concordar com isto de modo algum!!!!
    No seu gráfico, o título é “taxas de crescimento”. Nas variáveis, você coloca “taxa de crescimento do PIB” e “gastos públicos”. Ou você tira as “taxas de crescimento” do título e coloca, nas variáveis, “taxa de crescimento dos gastos” ou deixa o título e tira a “taxa de crescimento” da variável PIB!!!! 😎
    Não aguentei e fiz esta piada boba. Ótimo post. Infelizmente, os problemas são gravíssimos e não acredito que o atual governo tenha condições de resolvê-los.
    Um grande abraço!

  10. Mansueto, parabéns pela participação no programa, você foi sem dúvida alguma o destaque positivo dele. Pena que o formato com quatro debatedores tenha limitado bastante o seu tempo.

    O ponto fraco obviamente foi o bate-boca entre os deputados, com destaque negativo para o Florence e suas colocações sem cabimento algum. Não sei se ele realmente acredita nas coisas que disse ou se apenas cumpre seu papel de defensor de governo (o que exige uma boa dose de desonestidade intelectual) — talvez seja uma mistura das duas coisas.

    Se fosse apenas você e o Pedro Rossi, a discussão seria muito melhor — e mais útil ao debate público, pois faltam no Brasil confrontos mais diretos entre especialistas que pensam diferente.

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