O investimento cresceu no governo Dilma? Não.

Ontem em um debate acalorado que participei na TV Câmara, um dos participantes, o professor Pedro Rossi da Unicamp falou que no governo Dilma não houve queda do investimento (% do PIB) – taxa de formação bruta de capital dividido pelo PIB. Não há o que discutir quando se olha a série do PIB trimestral a valores correntes, que mostram de forma clara uma queda da taxa de investimento. Mas o que falar quando se olha a série anual a preços constantes?

O professor Pedro Rossi da Unicamp me garantiu que o investimento havia crescido. Me surpreendi porque a série que conhecia mesmo a preços constantes que vi em uma apresentação do atual Ministro Nelson Barbosa mostrava que, de 2010 a 2013, a taxa de investimento havia ficado constante. No entanto, com as projeções para 2014, ano que a produção de bens de capital teve queda de mais de 9%, a taxa de investimento a preços constantes deveria ter caído fortemente, algo que 9 entre 1o economista concordam.

O que se deve fazer quando temos uma duvida? simples, voce procura o melhor cara da área para tira sua dúvida. Hoje a primeira coisa que fiz, porque se eu tivesse errado pediria desculpas, foi mandar e-mail para Régis Bonelli (IBRE-FGV) para tirar a dúvida. Como desconfiava, eu estava certo. No governo Dilma, calculando a taxa de investimento a preços constantes de 2000, não houve aumento algum de investimento e, em 2014, a taxa de investimento deve ter apresentado forte queda e foi para 18% do PIB, valor inferior aos 19,40% do PIB de 2010 (ultimo ano do governo Lula).

Mas não se preocupem que vai cair novamente este ano para 17% do PIB ou menos e tem gente que vai culpar a política de austeridade do Joaquim Levy quando, na verdade, os culpados foram aqueles que estavam no governo de 2008 a 2014. Ainda acho que teria sido bom que o PT tivesse nomeado um dos seus simpatizantes como ministro da fazenda ao invés de pedir a bênção ao mercado que tanto irrita a “turma de esquerda” que ainda acha que foi FHC que pôs fogo em Roma.

Taxa de Investimento a preços de 2000 – FBCF/PIB – %

FBCF

Fonte: IBGE e IBRE-FGV.

10 pensamentos sobre “O investimento cresceu no governo Dilma? Não.

  1. Mas aí vc vai escrutinar esses ”investimentos” vai achar um monte de investimento mal feito. Por ex, em 2013 o país bateu recorde de vendas de caminhões pesados. Resultado? Um excesso de veículos rodando e agora temos excesso de concorrencia no setor. Esses caminhões adicionais vão adicionar algo ao PIB? Dificilmente. Pra ajudar tão até protestando (sem entender as reais causas do preço do frete ter caído tanto do ano passado pra cá, ao mesmo tempo que os custos sobem).

    Foram o que foi perdido em campeões nacionais, eike batista, petrobras (que investiu um monte e praticamente não consegue extrair resultado dos investimentos).

    Pior que não haver investimento, é investimento errado e ainda com dinheiro público. Aí é desastre na certa.

  2. Mansueto, quando assisti ao debate, notei que essa parte da discussão ficou um pouco confusa, mas deixei pra lá. Agora, lendo esse post e a réplica do Rossi (que já deve ter chegado a você), resolvi rever o trecho.

    Ao meu ver, houve desentendimento de ambas as partes. Veja a transcrição que fiz:

    MA: O investimento total da economia brasileira nos últimos quatro anos caiu.
    PR: Depende do indicador que você usar.
    MA: O indicador do IBGE, Pedro, qual foi o investimento…
    PR: Se você pegar preços correntes, você tem um aumento do investimento.
    MA: Nem preços correntes nem preços constantes… Me desculpe, me desculpe, isto é muito sério. O investimento no final do governo Lula estava perto de 19% do PIB. O último dado do IBGE tá abaixo de 18% do PIB. Isso é dado oficial do IBGE, pelo amor de Deus.
    PR: Isso é dado de preços correntes. Se você pegar preços constantes, aí tem um aumento…
    MA: Se for pegar preços constantes, é a mesma coisa, não tem aumento. (…) Quem faz essa comparação a preços constantes é o nosso Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Olha o dado a preços constantes, o investimento não aumentou nos últimos quatro anos.

    Resumindo, vejo duas grandes confusões, muito provavelmente derivadas do calor do debate.

    A primeira foi a discussão entre preços correntes e constantes. No programa, o Pedro começou a falar em preços correntes; depois, inexplicavelmente, mudou para constantes. E você disse que não houve aumento nem em preços correntes nem em preços constantes.

    A segunda foi como cada um comparou o investimento. Você comparou a taxa de investimento de dois anos: 2010 (último de Lula 2) e 2014 (último de Dilma 1). O Pedro (na réplica) comparou a média da taxa de investimento de dois governos: 2007-10 (Lula 2) e 2011-14 (Dilma 1).

    Diante disso, e levando-se em conta o calor do debate, acho difícil apontar o dedo e dizer que um ou outro estava definitivamente errado.

    De qualquer maneira, esse post teve um lado positivo, que foi o de esclarecer um ponto que você levantou no debate. (Aliás, esses posts pós-debates costumam ser interessantes; continue a fazê-los.) Mas acho que teria sido ainda melhor se você tivesse incluído também o gráfico com a taxa de investimento para preços correntes.

    • Obrigado emerson pelo excelente esclarecimento. Me mandaram agora a resposta do Pedro e não quis ou tive a intenção de ofende-lo e pensava que com o post estava continuando o debate. Tenho muitos amigos na Unicamp. Fico triste que ele tenha achado o tom do meu post deselegante. Se fui, peço desculpas. Se há uma coisa que admiro e acho positivo no Brasil são pessoas que pensam diferentes e podem debater de forma civilizada. Eu adorei ter conhecido o Pedro e escutar os seus argumentos. Vou depois colocar dados a preços correntes.

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