Nova “equipe” econômica: Dúvidas.

Imagine que você é analista de um fundo estrangeiro que aplica mais de US$ 2 bilhões na América Latina e a cada dia se surpreende com as noticias que lê nos jornais sobre Venezuela e Argentina? Mas você sabe que o Brasil é diferente.

É diferente, mas mesmo assim sujeito a mudanças bruscas na direção da politica econômica. Quando se olha hoje o que o país fez desde 2008/2009, a impressão que se tem é que o progresso institucional que o Brasil vinha alcançando foi interrompido nos últimos cinco anos.

A política econômica em vigor desde 2009 aumentou o nosso endividamento em mais de 10 pontos do PIB para turbinar bancos públicos sem que isso tenha ocasionado crescimento da taxa de investimento, conseguiu desorganizar a rentabilidade e investimentos das empresas do setor elétrico, tornou uma dádiva de Deus, o Pré Sal, em um problema porque o governo insistiu em transformar a Petrobras em operadora única dos novos campos, aumentou excessivamente a exigência de conteúdo nacional, etc.

Mas os erros não param por ai. A tentativa tupiniquim de tentar reduzir os juros na marra, em 2012, não se mostrou sustentável; as desonerações foram promovidas de forma irresponsável, pois o governo não havia criado o espaço fiscal para essa política e agora começou a rever essas desonerações ; e a expansão do gasto público dos estados por meio empréstimos dos bancos públicos agravou o desequilíbrio fiscal do setor público.

Por fim, a dimensão do escândalo de corrupção da Petrobras com o envolvimento de políticos e a acusação dos delatores do uso da estatal para a manutenção do partido do governo no poder aumentaram o “risco Brasil”. Deixamos de ser o país modelo para os demais emergentes para ser mais um emergente com os conhecidos problemas da falta de transparência entre o setor público e privado – um problema que não é exclusivo dos emergentes.

Diga-se de passagem que a atuação do Ministério Público, da Justiça Federal e do STF serão mais importantes para nos diferenciar dos demais emergentes do que a nossa política econômica. A solução do Petrolão pode mostrar se o caso do Mensalão criou ou não jurisprudência. No longo prazo isso é mais importante que o nome do ministro da fazenda.

Quando me perguntam sobre a nova equipe econômica falo que a “nova equipe” é na verdade não mais que seis pessoas no Ministério da Fazenda. Assim, os estrangeiros começaram a entender que a nova política econômica é muito dependente de uma única pessoa , Joaquim Levy, e que isso é um fator de risco.

Qualquer país do mundo cuja diretrizes da política econômica dependem excessivamente de uma pessoa não é um bom exemplo de estabilidade institucional e, assim, o risco de mudanças bruscas para o “bem” ou para o “mal” é grande.

Hoje eu não me recordo do nome do Secretário do Tesouro dos EUA, mas ele pode ser trocado amanhã e, mesmo assim, essa troca terá pouco impacto no rumo da política econômica dos EUA. O mesmo vale para Argentina e Venezuela. Podem trocar ministros que ninguém espera nenhum mudança para melhor na política populista desses países.

O caso do Brasil é intermediário. O novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, inspira confiança, mas uma confiança institucional “frágil” que é muito dependente do “ seu nome” e que dá uma garantia que não vai além de um mandato de quatro anos (ou menos).

O maior fator de estabilidade econômica do Brasil hoje é o risco de perdermos o grau de investimento que força o governo a aceitar um economista brilhante como Joaquim Levy. Mas a política econômica ou o plano de governo depender tanto de uma pessoa e não resultar de um programa construído por meio de um amplo debate político do governo eleito com a sua base é também o nosso maior fator de risco.

Não há no Brasil planejamento de longo prazo e não há um modelo de país. Ao contrário. O nosso horizonte de planejamento continua restrito a quatro anos e sujeito a mudanças radicais que, no curto prazo, sinalizam “pragmatismo do governo de plantão”. Mas em uma análise ex post apenas sinaliza instabilidade institucional com mudanças radicais “das regras do jogo”.

Por enquanto, ainda bem que as seis pessoas da nova “equipe” econômica estão promovendo mudanças radicais. Depois podemos pensar nas questões estruturais de mais longo prazo. Mas para isso, a nova “equipe” precisaria ser formada por mais de seis pessoas e a política econômica resultar de um amplo debate politico com a sociedade.

A solução para o Brasil passa pelo debate político e não por uma tentativa tosca de terceirizar responsabilidades por meio da nomeação de um “salvador da pátria”. Se há algo muito claro hoje é que a sociedade brasileira foi convidada a referendar um modelo que nem mesmo o próprio governo que o “vendeu” acredita ou faz de conta, por enquanto, que não acredita.

14 pensamentos sobre “Nova “equipe” econômica: Dúvidas.

  1. Não sou economista, mas tento me informar. Diante do cenário atual, há alguma chance de confisco ou congelamento das cadernetas de poupança? Os boatos lançados devem ser considerados ou são mera especulação? Na época do Collor, também houve a promessa de que não mexeriam com o investimento dos mais pobres. No entanto, foi aquela tragédia. Agradeço. Um abraço.

    • Isso é puro boato. Joaquim Levy jamais participaria de um governo que pensasse em tal absurdo. E não estamos com risco de hiperinflação como foi o governo Collor.

      • Concordo Mansueto. Neste caso, a queda de popularidade do governo e da credibilidade do Parlamento, realizando apenas embates paroquiais, não daria a ambos espaço e sutentação para uma passo de tal magnitude, nem agora e nem nesta quadra. É de crer-se que há “incediários de circo” de plantão”. Mas, não deverão loggrar êxito em tal empreitada caso intentarem. Isso porque não há claro ninguém que pudesse levar algum tipo de vantagem com tal iniciativa.

  2. Mansueto, parabéns pelo seu comentário da atual situação em que se encontra nosso pais. Como trade de investimentos desde 1971, posso sentir realmente a incerteza que estamos vivendo, provocando o aumento da taxa de risco por conseguinte o aumento dos juros para captação de recursos para cobrir dividas e investimentos.
    O maiores beneficiários dessa incerteza são os especuladores e intermediários do mercado financeiro.
    Os partidos políticos infelizmente não pensam no pais apenas na forma de ficar no poder e para isso praticam o populismo que sabemos o mal que causa em toda nação que se enveredou por essa pratica.

    • Creio que nem os especuladores arriscar-se-iam tanto. Há uam variáveil, um aincógnita, a internacional. O FMI estaria disposto a fornecer um “colchão de liquidez”, que pudesse sustentar por algum tempo a festança com o R$, com debacle de tal monta?

  3. A minha vivência (76) detecta alguns equívocos no seu comentário. 1) Economistas tidos como brilhantes nunca resolveram os problemas nacionais. 2) Ainda que pudesse, não é ele quem decide. 3) Houve e continua, avaliação equivocada do governos Lula. O Brasil acertou na mega-sena com os preços das commodities e, a exemplo de muitos pobres que ganharam na loteria, botou tudo fora.

    • Hélio as commodities são cíclicas e altamente voláteis em função da teoria das expectativas em relação a demanda e oferta, portanto mais a frente com certeza teremos nova oportunidade. O governo Lula tem algum mérito nos programas de transferência de renda mas falha ao intervir nos mercados com politicas populista e pior beneficiou setores onde proliferaram a corrupção para conseguirem se manter no poder e enriquecimento da sua trupe.

    • Caso não tivesse economistas de peso naquela época, para indicar o “boom” de commodities e mesmo o espírito público do antecessor em realizar uma transição civilizada, as coisas não seriam como o foram. Basta comparar com a transição de 2012/2015 e de 2016 a esta parte. A economia já estava cambaleante nestes períodos e estamos no início de um segundo período pouco promissor, eivado por crises econômico-financeiras e morais, com corrupção em várias áreas da administração pública. Ou seja, algum ajuste teria de ser realzado antes do período 2012/2015.

  4. Mansueto
    A reportagem “Investidor já trata Brasil como país que perdeu grau de investimento” ( FSP, 14/02/2015) mostra que o CDS (seguro contra calote) para investidores no Brasil está em 238,3 pontos e bem acima de países que já perderam o grau de investimento (189,3 pontos da Turquia, 192,8 pontos da Bulgária e 151 pontos da Indonésia).

    O CDS Brasil ficou mais caro que o turco a partir de novembro. Em 24 de outubro, antes da reeleição, o CDS brasileiro estava cotado a 166 pontos.

    A reportagem mostra que a nomeação de Levy não alterou a tendência de encarecimento (tendência cética) observada após novembro de 2014. Em 31/12/2014, o CDS fechou cotado a 197 pontos, ultrapassando a Turquia. De lá para cá, o CDS Brasil subiu 41,3 pontos, atingindo a marca de .283,3 pontos.

    Lembro que a partir da posse de Levy uma certa onda de otimismo quanto aos rumos do governo Dilma II varreu o Brasil, com poucas e honrosas exceções, e você incluído (ver posts no blog).

    O que me pareceu muito estranho é que prestigiosos economistas tenham deliberadamente omitido em suas narrativas otimistas o estupefaciente fato do encarecimento progressivo dos CDS.

    Hoje, parece ter havido uma adequação e os analistas, antes tão otimistas, mostram-se mais céticos sobre se Levy vai conseguir efetivar os ajustes.
    Engraçado é que praticamente todos os elementos arrolados para justificar o ceticismo de hoje (inflação, PIB zero, juros altos, crise energética, petrolão, descalabro fiscal) já estavam bastante visíveis para análise desde antes do CDS encarecer aos níveis de hoje.

    Resumindo, a maioria dos economistas errou feio ao propagar onda de otimismo e ao apostar na saída “salvador da pátria”.

    E, o pior, fez essa viagem escondendo o fato assombroso do progressivo encarecimento do CDS Brasil desde a reeleição.

  5. Ótimo post. Minha dúvida é quanto tempo o Levy vai aguentar na função. Setores do PT já estão contra ele, a presidente ainda não veio a público defender suas medidas e acho que o Congresso vai barrar algumas de suas propostas.

    Copiando um comentário que fizeram na The Economist:

    “I don’t really think Levy will be able to accomplish much. The sleazy environment of the local politics will eat his University of Chicago diploma alive and spit it out.”

    Infelizmente, o Brasil é um país sem projeto algum e que ainda acredita em salvadores da pátria. Tenho certeza que antes de 2018, se não muito antes, o Levy vai ser substituído, vão acusar o “neo-liberal” (sic) pela situação e vão colocar alguém estilo Mantega no lugar.

    Desculpa, Mansueto, não consigo ser nada otimista com a situação atual.

  6. Muito bom esse artigo, Mansueto! Toca em vários pontos que são fundamentais. Só acho que nossas instituições são um pouco mais sólidas do que você coloca, pois mesmo com a tentativa de mudança de política econômica, o governo federal está percebendo que não vai ser tão fácil assim porque depende do congresso e do apoio popular, forças que são essenciais para equilibrar o poder do executivo e funcionam razoavelmente bem em nosso país. Outro exemplo é que um governo do PSTU ou PCO não iria conseguir fazer quase nada do que gostaria, pois o congresso não permitiria, a não ser que este sofra grandes alterações, o que depende do voto popular.

    • Bom ponto Luciano. Mas por isso mesmo coloco o Brasil como um caso intermediário e falo que, do ponto de vista institucional, é muito mais importante ver o desenrolar do Petrolão do que o nome do ministro da fazenda. Me surpreende no entanto o excesso de dependência que ainda temos do “nome” do ministro o que para mim é sinal de fraqueza institucional. Veja bem, mesmo com a LRF chegamos em uma situação de risco fiscal e, no final do ano passado, o Congresso rapidamente alterou a permissão para o governo gerar um déficit primário, apesar dos relatórios trimestrais da LRF serem o instrumento adequado para o governo antever problemas fiscais e fazer ajustes antes do final do ano.

  7. Um raio X perfeito e cirúrgico do Brasil.
    Pena que as pessoas que deveriam compreendê-lo não o fazem por burrice (duvido) ou outros interesses…

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