Indicação de leitura: Economia sem truques

Quem primeiro me falou sobre Carlos Eduardo Gonçalves, o Dudu, foi o meu colega Samuel Pessoa. Samuel fez grandes elogios como uma dos professores mais brilhantes da nova geração da USP.

Depois de muito tempo almocei com Carlos Eduardo e Marcos Lisboa em um restaurante português em Pinheiros e presenciei os dois combinando um curso de microeconomia a partir de exemplos do dia a dia da mesma forma que Carlos Eduardo e Bernardo Guimarães ensinam no livro “Economia sem Truques”.

O livro está disponível na loja da Amazon na sua versão eletrônica por apenas R$ 6! (clique aqui) Acabei de comprar o meu exemplar para ler no carnaval e compraria se o preço fosse R$ 60. Um livro bom como esse que sai mais barato que um chopp é um bem público para aqueles que se interessam por economia. Os autores são economistas brilhantes e didáticos.

No capitulo 8, “vegetarianos, preços e bois”, os autores explicam de forma ultra didática o funcionamento do sistema de preços e as distorções decorrentes da “ajuda” do governo por meio de subsídios setoriais. Em um mundo que as pessoas querem consumir mais soja comer menos carne, o excesso de demanda por soja e o excesso de oferta por carne levaria a uma queda do preço da carne (e queda na rentabilidade dos pecuaristas) e aumento da rentabilidade dos produtores de soja.

Esse movimento de preços levaria, ao longo do tempo, a transferência de mais recursos para plantação de soja e menos recursos para a criação de bois. Depois de algum tempo, os preços voltariam ao normal e as rentabilidades dos dois setores voltariam a ser iguais, mas teríamos um maior numero de produtores de soja e um menor número de criadores de bois.

O que poderia dar errado? O governo resolve “salvar” os pecuaristas e evitar a queda do preço do bois, concedendo um subsidio e, assim, muitos produtores que deixariam de produzir bois não o fazem e o lucro maior de plantar soja não levaria ao mesmo aumento da produção que ocorreria sem a concessão de subsídios para os pecuaristas. No final, uma parcela da sociedade, os vegetarianos, pagariam mais caro pela soja e ainda financiariam o socorro as pecuaristas. A intervenção do governo distorceu o funcionamento do sistema de preços relativos e não permitiu o ajuste da oferta frente à mudanças da demanda.

Mas sempre uma intervenção do governo no sistema de preços é ruim? Claro que não. Nos capítulos seguintes os autores já começam a dar exemplos das condições que a intervenção do governo para corrigir problemas de externalidade, por exemplo, seria positivo. O problema é que, em geral, o governo quer “ajudar setores e empresas” e essa ajuda tem custo elevado. Alguém já escutou aqui no Brasil autoridades econômicas falar em subsídios para “mater” os empregos no setor “X” ou “Y”? e que tal aumento de tarifa de importação para “proteger” setor “Z” de concorrência “desleal”?

O livro é instigante e cobre uma grande variedade de assuntos de forma didática. Há ainda um grande benefício. Os autores estão aqui no Brasil e podem ser convidados para palestras e aulas para falar sobre o livro. Esse livro não era para custar apenas R$ 6. Mas ele está praticamente de graça! Comprem porque vale a pena. Estou adorando a minha leitura de carnaval. Se a antiga equipe econômica conhecesse metade do que os autores explicam neste livro estaríamos hoje em uma situação bem melhor e, talvez, nem fosse necessário o estelionato eleitoral.

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13 pensamentos sobre “Indicação de leitura: Economia sem truques

  1. Infelizmente o exemplo tem um erro. Vegetarianos não comem essencialmente soja. A maior parte esmagadora da plantação de soja é utilizada para produzir ração para animais. Sejam eles bois, galinhas, porcos, gatos ou cachorros. Há 5 anos 89% do desmatamento no Brasil era para criação de gado. O segundo lugar ficava com a soja, alimento desse gado e outros, os vegetarianos são culpados de uma pequena parcela desse problema ambiental e econômico.

    • Eu ia justamente falar isso. A soja é usada quase toda como alimento para ovinos e bovinos basicamente. Eu sou vegetariano, posso dizer que a soja não faz bem para consumo humano, apesar da propaganda mentirosa de algumas marcas, somente a soja convertida em tofu e shoyo é benigna. Os vegetarianos reduzem o impacto ambiental ao extremo, quanto mais nos alimentarmos próximo da base vegetal e menos alimentos intensivos em proteína animal, a equação solo, água, devastação é reduzida ao extremo. Não comemos a vida do boi, mas apenas a sua morte, a vida ficou para ele e toda a água e alimento que ele consumiu para viver foi usada 90% na sua vida e quando ele é cruelmente abatido, sobra muito pouco. Hugo Penteado

  2. Prezado Mansueto,

    Li um artigo do Instituto Ludwig Von Mises Brasil chamado “O seu estado é um pagador ou um recebedor de impostos federais?”. O autor Leandro Roque levantou o quanto cada estado paga ao governo federal com base nos dados de “arrecadação por estados” da Receita Federal. Os dados sobre quanto cada estado recebe, por sua vez, foram obtidos no Portal da Transparência. A diferença entre estes dois dados mostraria se o estado é um recebedor ou um pagador.

    No entanto, tenho dúvidas se a metodologia é correta. Não há outras contas a serem consideradas? Esta simples subtração é correta?

    Att

    • Edson, não sou o Mansueto, mas alguns livros que poderia indicar:

      -Complacência (Giambiagi/Schartzman): muito boa análise sobre os últimos 12 anos do Brasil

      -O Mito do governo grátis (Paulo R. de Castro): além de um panorama do brasileiro, apresenta casos de diversos países, com diversos destinos (desde Singapura até o Chile, passando por Suécia e Canadá), coisa que em geral a academia brasileira não faz: estudar e comparar o Brasil com outros países.

      Recomendo ambos.

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