Primário de 1,2% do PIB em 2015: como?

Algumas pessoas me perguntam porque eu não acredito na meta de primário de 1,2% do PIB para 2015. Simples, porque o governo ainda não divulgou exatamente como essa meta será atingida, apesar do enorme respeito e admiração que tenho pelo Ministro da Fazenda e sua equipe. Joaquim Levy é um dos mais brilhantes economistas do Brasil e sua nomeação foi bastante positiva para o Brasil.

Quando a meta de 1,2% do PIB foi anunciada, no final de novembro de 2014, expectativa do governo e do mercado era que o crescimento da economia este ano fosse perto de 1% e que o resultado primário do setor público, em 2014, fosse positivo ou, no pior dos casos, “zero”. Tudo isso mudou para pior.

O crescimento esperado para 2015 está em “zero”, muitos apostam que será negativo em pelo menos 0,5% e, no ano passado, o resultado primário consolidado do setor público foi de -0,6% do PIB, um déficit primário. Assim, o ponto de partida piorou.

Adicionalmente, com uma economia em recessão, a tendência da receita é cair e o crescimento da despesa pesar mais na economia (% do PIB). Assim, o esforço fiscal terá que ser maior e, por enquanto, não é claro como o governo conseguirá fazer o esforço fiscal frente ao resultado do ano passado e crescimento negativo esperado para este ano.

O Ministério da Fazenda tem feito um esforço enorme para aumentar a economia do governo, mas o resultado ainda é incerto e mesmo que todas as projeções das medidas anunciadas até o momento se materializassem ainda assim seriam insuficientes para atingirmos a meta de 1,2% do PIB de primário.

Os dados preliminares de arrecadação e despesa para o mês de janeiro foram ruins. Em janeiro de 2014, a receita arrecada apresentou crescimento real de 1%. Mas em janeiro deste ano, de acordo com dados preliminares, deverá haver queda real da arrecadação. O imposto de renda de pessoas jurídicas, por exemplo, no mês passado teve uma queda de arrecadação em mais de R$ 2 bilhões frente a janeiro de 2014!

Do lado da despesa, o governo em janeiro teve a surpresa de contas apresentadas que não tiveram nem mesmo os recursos empenhados no ano passado precisaram ser pagas. No caso de restos apagar, apesar do crescimento do saldo das contas de custeio em quase R$ 20 bilhões, o governo até diminui os pagamentos dessas despesas empenhadas em exercícios anteriores e continuou sem pagar as despesas de subsídios.

Assim, os dados de janeiro não mostram ainda uma situação de recuperação do esforço fiscal seja do lado da receita ou do lado da despesa. No mais, o governo ainda falta detalhar o plano de ajuste 2.0, pois o ajuste fiscal 1.0/2015 não tem como entregar a economia de 1,2% do PIB prometida.

Não tenho má vontade com o governo. Mas o ajuste prometido não se sustenta frente as medidas já anunciadas e o contexto político piorou muito nas ultimas duas semanas, o que aumenta o risco de frustração das propostas de reforma do governo. Assim, para acreditarmos na meta de 1,2% do PIB de primário o governo precisa explicar exatamente como entregará esta meta.

12 pensamentos sobre “Primário de 1,2% do PIB em 2015: como?

      • Em BH, o PT deixou bastante claro que o neoliberal Joaquim Levy “não nos representa”. No PT, “nous sommes Syriza”, que derrotou nas urnas a política de austeridade fiscal e a quem o PT desejou “êxito em sua batalha contra as políticas neoliberais que vêm revogando direitos e promovendo recessão e desemprego”.

        A comunicação precisaria ser mais direta do que foi para que todos aceitem que o PT, o partido da presidente Dilma, fechou questão contra a política de ajuste do Levy, o neoliberal que “vêm revogando direitos e promovendo recessão e desemprego”?

        O PT e Dilma jamais vão reconhecer que na origem dos graves problemas de hoje estão o amadorismo e a irresponsabilidade de economistas do PT.

        Se, na maior caradura, o PT esculacha a política de ajuste fiscal do ministro Levy, por que raios os outros partidos da base aliada não fariam o mesmo?

        Se Dilma não vier a público para defender assertivamente a política de ajuste do seu ministro, quem o fará?

    • Então vamo gasta mais que é certeza de superávit primário. Tenho até uma idéia. Tem aquele estudo que diz que cada 1 real investido no Bolsa Família aumenta em 1,78 o PIB. O governo multiplica por 10 o orçamento do BF, gasta uns 5% do PIB esse ano, o PIB cresce 8%, a dívida volta a cair, o superávit primário sobe pra 4 e tudo se resolve.

      • Obviamente quanto mais se aumenta o valor gasto, menor é o multiplicador. Não existe isso de multiplicador fixo.
        Sem falar que os eventuais benefícios ocorreriam em t+1, tendo o orçamento que reduzir outros gastos em t para aumentar em 10 vezes o BF

    • Vocês precisam parar de gastar lábia com pessoas que declaram inverdades. Eu respondo à afirmativa do Rodrigo Cazes com o seguinte pedido: “demonstre, por favor”.

  1. Comovente o discurso do Sr. Levy agora a pouco. “Os ajustes fiscais torarão a sociedade brasileira mais justa e correta” Insisto para qualquer economista ler – pouco importando a matiz ideológica ou coloração partidária do indivíduo – ´para haver “Justiça”, “Equidade e “Correção” é necessário noção de respeito as leis. O que anda de lado com a transparência. Pegando esse gancho e a discussão sobre o seguro desemprego, gostaria de perguntar se não farão nada (Governo e Sr. Levy) com as empresas que sonegam tributos a rodo e recebem benefícios fiscais como a inclusão no Refis? Até quando desrespeitarão a Constituição?
    Lembrando que:
    1) A sonegação de tributos que custeiam o sistema de seguridade social gira em média R$ 160 bi/ ano, conforme a receita federal
    2) A desoneração absurda, irresponsável, inconsequente feita de forma indiscriminada custa a seguridade R$ 250 bi desde 2009, conforme estudo da FGV
    3 ) Ausência de registro em carteira desfalca o FGTS em R$ 80 bi/ano, conforme departamento de fiscalização do MTE
    4) O descontrole na concessão dos benefícios indica um montante absurdamente monstruoso em benefícios previdenciários irregulares, conforme estudo do TCU feito em 2005 que indicou uma índice de 23% em benefícios concedidos irregularmente. Para se ter uma idéia no ano de 2005 foram concedidos R$ 146 bi em benefícios previdenciários, e estima-se, conforme o TCU, que R$ 33,5 bi foram concedidos de forma irregular. Outro dado interessante é que o suposto déficit na previdência naquele ano foi de R$ 37 bi.

    O Sr. Levy perdeu uma grande oportunidade de esclarecer não só a mim, mas a todos os brasileiros que penam pela irresponsabilidade do governo federal e que pagam essa derrama imposta pela nobre senhora Rousseff a seguinte questão: Até quando o governo será leniente com essa situação? Até quando o governo será condescendente com grandes multinacionais, com grandes empresas que sonegam impostos e usufruem de benefícios tributários e creditórios completamente vedados pela nossa Carta Magna?

  2. Mansueto,

    Uma das propostas ventiladas diz respeito a retirar as desonerações de folha de pagamento, pelo menos para os setores em que o setor produtivo não está satisfeito ou que não mostraram bons resultados.

    Você acha que uma proposta dessas poderia fazer o superávit fechar?

    Existe algum outro low hanging fruit que o governo poderia perseguir na área fiscal?

  3. “O Ministério da Fazenda tem feito um esforço enorme para aumentar a economia do governo”:
    Parece que fez enorme esforço para aumentar impostos, meio na surdina, mas despesas e desperdícios do governo, nada espetacular. Tem que cortar na carne, a gordura é imensa e precisaria um corte de 1-2% do PIB!

  4. Exato. Não houve esforço pra aumentar a economia do governo. Está havendo esforço pra aumentar a arrecadação do governo. E é por isso que o ajuste fiscal não dará certo.

  5. Mansueto, o senhor e sua equipe já cogitaram em suas análises a hipótese de termos tido um crescimento negativo ou 0 já em 2014? E com a hipótese de termos uma contração maior do que 1% em 2015?

  6. Olá Mansueto. Sempre acompanho teu Blog e não sou muito de comentar. Gostaria de te fazer um pedido. Percebi que tu ainda não falou muito sobre o cancelamento da Premium II no Ceará. Como tudo que o governo consegue nos passar é meio mentira. Gostaria de ver tu falando um pouco sobre isso. Se ela era viável, os gastos que o estado teve, como isso vai impactar a economia da região. Grato. Um abraço direto do RS.

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