Investimento e os “tratores” do governo

Esta semana, ao ler o noticiário político nos jornais sobre a tentativa desastrada do governo de enfraquecer o PMDB, vi em alguma noticia o uso da palavra “atropelar”. De acordo com as análises politicas, o governo tentou passar por cima do PMDB, o seu maior aliado, na eleição para mesa da Câmara.

Não saberia explicar tamanha trapalhada do governo na negociação política, mas alguns dos ministros próximos a presidente tem uma grande familiaridade com investimento em máquinas pesadas. Mas “tratorar” em política não funciona.

Um dos programas de investimento de maior sucesso do governo Dilma em 2013 e 2014 foi um programa do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) coordenado por dois ministros muito próximos à presidente Dilma: Pepe Vargas (ministro do MDA de março de 2012 a março de 2014) e Miguel Rossetto (ministro do MDA de março a setembro de 2014).

Como se observa no gráfico abaixo, o investimento do MDA teve um crescimento expressivo nos últimos dois anos do primeiro governo Dilma. De 2007 a 2012, o investimento médio anual do MDA foi de R$ 1,7 bilhão a preços de dezembro de 2014. De 2013 a 2014, o investimento do MDA cresceu fortemente: crescimento real de 104% , em 2013, e de 90,3%, em 2014. Em 2014, o MDA investiu R$ 4,7 bilhões!

Gráfico 1 – Investimento do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) de 2007 a 2014 – R$ bilhões de dezembro de 2014

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Como um ministério que tradicionalmente investia pouco conseguiu em dois anos aumentar a execução (pagamento do orçamento do ano e restos a pagar) do investimento em 289% em termos reais? A resposta está ligada a um programa de distribuição de “tratores”.

O Programa 2029 (Des. Regional, Territorial Sustentável e Economia Solidária) é um programa que, em 2012, teve uma execução de apenas R$ 3,6 milhões. Em 2014, dois anos depois, a execução deste programa havia crescido para R$ 3,6 bilhões – crescimento real de 1.000 vezes!

Neste programa (ver tabela abaixo) o que de destaca é a ação 12NR – Aquisição de máquinas e equipamentos para recuperação de estradas vicinais para municípios com até 50 mil habitantes. Essa ação, de acordo com informação do MDA (clique aqui) visa fomentar a infraestrutura de pequenos municípios (abaixo de 50 mil habitantes), por meio da compra direta de RETROESCAVADEIRA, MOTONIVELADORA E CAMINHÃO CAÇAMBA e posteriormente sua doação, garantindo a melhoria no transporte de produtos e pessoas no meio rural.

Tabela – Investimento do Programa 2029 (Des. Regional, Territorial Sustentável e Economia Solidária) – MDA – R$ milhões de 2014

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Fonte: SIAFI.

Aqui há duas lições. Primeiro, há alguns programas de elevado retorno eleitoral e de fácil execução como a compra de retroescavadeiras, motoniveladoras e caminhões caçambas que pesam pouco no despesa agregada, mas parecem ser programas de elevado retorno político. Aposto que este programa terá baixa execução este ano e voltará a se destacar no proximo ano, 2016, quando teremos eleições municipais.

Segundo, a negociação política é muito mais complicada do que comprar tratores. Assim, os ex-titulares do MDA, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Pepe Vargas, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, precisam melhorar em muito a articulação política do governo. Devem, por enquanto, esquecer os tratores!

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OBS: Não tentem passar com uma dessas por cima do PMDB!

5 pensamentos sobre “Investimento e os “tratores” do governo

  1. Esse programa ai é o das emendas parlamentares. A tendência é que a execução orçamentária aumente se for aprovado o “orçamento impositivo”

  2. Na realidade estamos ferrados. Um Município que não seja politicamente amarrado ao Governo Federal e/ou Estadual, pode ficar sem os equipamentos. Se aderir terá, talvez, até em detrimento de outras rubricas. Ou será, ou melhor seria otros equipamentos mais e também necessárias, como as casas de Saúde 24 horas e Hospitais. As Santas Casas que eram eferência em qualquer município, estão à mingua. As UPAS em vários municípios estão deterioradas em termos de atendimento, pelo conta a matutada. Enfim, ainda estamos, politicamente, na idade da pedra em termos políticos.

    • E as que estão construidas, novinhas, e não foram inauguradas por que o município não tem como dar sua contra partida para a contratação de pessoal/equipamentos e o governo federal não acenou com os repasses de sua responsabilidade e que são necessários para contratar/manter a MO?

  3. Mansueto,

    Muito bom este tópico.

    1° erro: Muitos municípios receberam estas maquinas, inclusive aqueles que não tem MO qualificada para operá-los.
    2º erro: Em vários municípios houve renovação da frota com dinheiro vindo do BNDES à taxas negativas.
    3º erro: Foram comprados de “empresas campeãs”!

    Este “investimento” foi o que alavancou a FBCF em 2012/13.

    4º erro: comprar novas maquinas nas eleições de 2016(pra quê?)!

    Os acessos ao municípios deveriam receber asfalto e não patrolas para suas estradas empoeiradas!

  4. Mansueto, você poderia comentar sobre o parágrafo que trata dos restos a pagar na PEC do Orçamento Impositivo (aprovada em 2o. turno na Câmara)? Antecipadamente, agradeço.

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