A agenda negativa

Depois de quatro dias de muitas reuniões e na ponte Brasília-São Paulo, volto a escrever. Neste post, falo sobre a agenda negativa que começou a tomar conta dos noticiários.

No final do ano passado e inicio deste ano, todos foram surpreendidos por uma agenda positiva que começou a ser esboçada no Ministério da Fazenda. A nova equipe declarou que não é normal favorecer setores, que o governo precisa controlar o crescimento da despesa e que o governo terá, entre outras coisas que reduzir a concessão de subsídios e adotar uma política de reajuste tarifária realista.

Adicionalmente, governo mandou para o Congresso Nacional medidas de ajustes estruturais como a reforma do sistema de pensões, seguro desemprego e abono salarial. Nas medidas enviadas, há coisas positivas e coisas negativas que precisam de uma maior discussão, mas o governo pelo menos mostrou disposição para colocar em debate temas polêmicos.

Mas depois de dois meses (dezembro e janeiro) de uma agenda positiva que surpreendeu os mercados, desde o final de janeiro tomou força uma agenda negativa que pode anular no todo ou em parte as noticias positivas da nova equipe econômica. Destaco quatro noticias negativas.

Primeiro, a eleição para a mesa da Câmara. Todos se surpreenderam com o amadorismo politico do governo. O Partido dos Trabalhadores (PT), que é o maior partido da Câmara, ficará sem assento na mesa da Câmara e a tentativa de derrotar o PMDB foi um verdadeiro desastre. O governo terá agora que “aprender” a negociar com o PMDB na Câmara e muito da agenda positiva que o governo esperava vai depender se o PMDB concorda ou não com essa agenda positiva.

Segundo, a eleição da mesa do Senado foi outro problema. O candidato do governo e do PT, senador Renan Calheiros (PMDB), ganhou. Mas no dia seguinte,a escolha dos demais componentes da mesa foi um desastre. Não houve consenso entre partidos de oposição e o presidente do Senado sobre a composição da mesa e, assim, PSDB e PSB ficaram fora da mesa. Isso é bom para o governo? Não. O PMDB passou a controlar as duas casas e, o governo, pode se tornar refém do seu maior “aliado”. O governo Dilma II começa com uma base de coalizão até mais fraca que o primeiro e muito dependente do PMDB. Como esperar reformas estruturais em um ambiente como este?

Terceiro, o escândalo da Petrobrás não para de crescer e as tentativas de esclarecimentos pela empresa e pelo ex-presidente José Sergio Gabrielli (ver entrevista na edição segunda do Valor Econômico) não esclarecem coisa alguma e aumentam a indefinição sobre o futuro da companhia. Nos encontros que tenho com investidores de fora me impressiona as perguntas sobre a Petrobras: há risco de falência? Isso poderá levar a um processo de impeachment? O governo vai fazer nova capitalização na empresa? etc. Para os estrangeiros, o que surpreende não é o fato que se descobriu um esquema de corrupção na Petrobras, mas sim a extensão do esquema de corrupção que além da Petrobras envolve as maiores empreiteiras do Brasil. Muito dos investimentos programados de empresas estrangeiras no setor de petróleo e gás foram adiados até que se tenha maior clareza da proximidade do fim de uma dos maiores escândalos de corrupção do período recente da história do Brasil e que lembra muito o caso do mensalão.

Quarto, a curva de reação do governo está novamente atrasada. A renuncia coletiva da diretoria da Petrobras pegou o governo de surpresa que agora está desesperado atrás de alguém com alguma credibilidade junto ao mercado para assumir a presidência da companhia. Adicionalmente, a perspectiva de crescimento negativo do PIB para este ano e o tamanho do déficit primário do ano passado de 0,6% do PIB praticamente inviabiliza a meta do primário de 1,2% do PIB, sem truques, para este ano. A nova equipe econômica já deveria ter vindo a público com uma nova proposta de meta do primário menor para este ano.

Dada a extensão das noticias negativas, tem-se a nítida sensação que estamos no final de um governo, quando, na verdade, o novo governo assumiu recentemente no início deste ano. Mas o que se vê é um governo reagindo de forma confusa aos fatos.

Além disso, o PMDB, passou a controlar de forma talvez excessiva a agenda do Legislativo, o partido não ficou satisfeito com as nomeações confirmadas até o momento, há ainda uma grande indefinição dos desdobramentos econômicos e políticos do caso de corrupção da Petrobras, risco crescente de racionamento de água e de energia.

Não há como em um ambiente desses alguém esperar um choque de confiança e que os empresários daqui e lá de fora voltem a investir rapidamente no Brasil. Com juros altos de mais de 12% ao ano, o Brasil continua um país muito bom para ganhar dinheiro em renda fixa, mas um país com o horizonte turvo.

Possivelmente, esse cenário ruim vai ainda se prolongar e aumentar o custo do ajuste fiscal. No momento em que termino esta nota há em curso uma nova fase da operação Lava Jato de nome “my way’ em homenagem ao ex-diretor de serviços da Petrobras, Renato Duque, que segundo a imprensa cobrava propinas para o Partido dos Trabalhadores (PT), o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto,  está prestando depoimento neste momento à Polícia Federal, e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), acabou de confirmar a criação de uma nova CPI da Petrobras.

Nem o mais pessimista dos pessimistas poderia esperar no início de dezembro um ambiente tão negativo no início de governo. Apenas uma coisa nos salva. Depois de passarem pelo Brasil, os estrangeiros dão um pulo na Argentina e, assim, nossa imagem melhora um pouco porque a Argentina é um dos melhores exemplos do que não se deve fazer.

11 pensamentos sobre “A agenda negativa

  1. Acho que a pior notícia é o tamanho do déficit primário de 0,6% do PIB.

    Li hoje que se as receitas extraordinárias fossem abatidas o déficit saltaria para 1,2%.

    A insanidade de estimar um superavit de R$ 10 bilhões em novembro, e a conta fechar com o estrondoso déficit pouco mais de dois meses depois, sugere que Levy não tinha pleno conhecimento do tamanho do rombo, ao propor o superávit de 1,2%.

    Acho que breve vamos assistir a uma rodada de apostas sobre quando Levy virá a público para dizer que a meta de 1,2% não será alcançada.

  2. “Nos encontros que tenho com investidores de fora me impressiona as perguntas sobre a Petrobras: há risco de falência?”……

    eu sinceramente responderia : primeiro : olhe a série histórica dos balanços ….verás que que o patrimônio da empresa nunca fora superado pela divida….segundo, é uma empresa que tem o governo como sócio majoritário e portanto não deixará a mesma quebrar. Além do que , seja eu sócio ou não da bendita, vou ter que ajudar-la via impostos……

  3. E agora estamos na expectativa da última fase da Lava Jato. Queremos debater com a PF qual será o nome dela: se NOVE DEDOS ou MINDINHO PERDIDO.

  4. Mansueto, com esses reajustes dos preços administrados, decorrentes, dentre outros, do aumento da CIDE e IOF, não acredita que estamos no ápice, ou já na descendente, da Curva de Laffer?

  5. Em outubro de 2014 o povo tinha duas escolhas: tentava a mudança de governo, mesmo sabendo que o que viria pela frente seria um ambiente pesado, mas suportável ou a continuação do desastre com efeitos deletérios que poderão ser sentidos pelas próximas duas décadas.Eu concordei com o Samuel Pessoa quando ele disse numa entrevista ao Jornal da Cultura que a madame imitou Geisel. O problema, dizia Pessoa, é que depois do Geisel veio o Figueiredo. Acho que a madame está se saindo muito pior que o “cavalariano”

  6. Dois pontos:

    1) Nem todos “se surpreenderam com o amadorismo político do governo”. A derrota não foi surpresa até mesmo para alguns setores do PT.

    2) Na verdade, é normal vermos muitas notícias negativas no começo de um novo governo quando ele não é tão novo assim — ou seja, após uma reeleição. (É até lógico. Se vemos notícias negativas no final de um governo, seria contraditório vê-las sumirem após a reeleição.)

    • Caro Emerson

      “A derrota não foi surpresa até mesmo para alguns setores do PT”

      Além de Marta Suplicy e da deputada do PT/RJ Benedita da Silva, flagrada em foto comemorando no plenário a derrota do partido dela, quem mais não teria sido surpreendido? Lula, Gilberto Carvalho, Zé Dirceu? Pode nominar os indivíduos políticos do suposto conjunto “alguns setores do PT”?

      O que surpreendeu foi a acachapante derrota (267X136). Ninguém no PT esperava isso. O que todos no PT esperavam era que a disputa fosse para o segundo turno.

      Eduardo Cunha não precisou dos votos da oposição (Júlio Delgado obteve quase 100% dos votos estimados pela oposição). Ele conseguiu o que precisava na base de apoio do Chinaglia.

      • Paulo, perdoe-me se minha interpretação estiver incorreta, mas sua frase sobre a Marta e a Benedita dá a entender que, para haver surpresa, é preciso ter torcido por aquele resultado. Não conferi quais eram as expectativas de Marta e Benedita, mas mesmo torcendo por aquilo elas podem também ter sido surpreendidas.

        E mesmo um resultado diferente do esperado não necessariamente é uma surpresa. Alguém pode dizer, por exemplo: “Espero uma vitória do Corinthians, mas não ficarei surpreso se o Palmeiras vencer”, “Espero uma derrota no segundo turno, mas não ficarei surpreso de ela ocorrer no primeiro” etc.

        O que sei é que, para alguns membros do PT, o resultado não foi surpresa. Mas não posso citar nomes.

        O problema, para mim, foi Mansueto ter usado a palavra “todos” — uma generalização equivocada que já vi muitos jornalistas cometerem (especialmente em início de carreira). Ora, uma única exceção já invalida o uso de “todos” (e de outras palavras como “sempre”, “nunca”, “nenhum”, “ninguém” etc.).

        Aproveito para fazer um adendo: Mansueto também diz que “todos foram surpreendidos por uma agenda positiva que começou a ser esboçada no Ministério da Fazenda”. Nem todos. Conheço economistas que mesmo durante o período eleitoral tinham dúvidas sobre o que o PT faria no campo econômico caso fosse reeleito, até porque muita gente do partido (ou próxima a ele) na verdade concordava com — algumas, se não todas — as críticas à política econômica do governo Dilma.

        (Pra falar a verdade, no caso da tal “agenda positiva” eu conheço até mais gente que não foi surpreendida do que o contrário, mas pode ser que meu círculo de contatos seja meio excêntrico…)

  7. Emerson

    Além do que leio nos jornais, o que sei do PT me é dito por amigos petistas, antigos militantes com nenhuma atividade na burocracia partidária

    Foi por um deles que fiquei sabendo do caso Benedita. Ontem ele desmentiu o que me tinha dito dias atrás. Corrijo, portanto: a deputada Benedita NÂO comemorou a derrota do PT no plenário da Câmara.

    É consensual no PT que mudanças de rumos na economia e na política são necessárias. O que não é consensual é o que precisa ser alterado e em qual direção seguir.

    Hoje li que Zé Dirceu afirmou que o petrolão pode ser a pá de cal na imagem do PT. É pouco? Acho que não.

    Meus amigos diziam que era um equívoco político medir força com o PMDB. Eles defendiam que o PT buscasse uma composição com o PMDB, principalmente porque o grupo do Eduardo Cunha iria dar muito trabalho se Chinaglia ganhasse. Seria, diziam, uma vitória de Pirro.

    O PT partiu com tudo para derrotar Eduardo Cunha e o resultado desse custoso investimento foi muito ruim.

    Risco de perder eleição sempre há. O que ninguém esperava, mesmo os meus amigos contrários ao enfrentamento, era que Chinaglia fosse derrotado de forma tão fragorosa no primeiro turno. Que eu saiba, isso ninguém do PT previu. Todos esperavam uma acirrada disputa no segundo turno.

    A aliança de Cunha somava 218 votos. Cunha teve 267. Isto é, 49 a mais. A do Chinaglia somava 180 votos. Ele teve 44 votos a menos.

    Conclusão: Cunha ganhou no primeiro turno com votos de sua base fiel somados com parte dos votos (44 = 24,4%!) que deveria ter ido para Chinaglia.

    PS: Ainda não conversei com meus amigos sobre a pesquisa do datafolha.

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