Água fria

Já falei aqui que me surpreendi com relatórios de bancos que falavam da economia do governo com as propostas até aqui anunciadas. Me surpreendi porque os bancos acreditavam nas contas do governo como se as  propostas de mudanças no seguro desemprego, abono salarial e pensões fossem aprovados integralmente pelo Congresso Nacional. A probabilidade de isso acontecer é “zero”.

Imaginem o que fará um deputado e um senador do PT quando deputados e senadores da oposição assinarem emendas propostas pelas centrais sindicais? Os políticos ainda não pararam para pensar nas medidas propostas pelo  governo pois há no horizonte de curto prazo algo muito mais importante para eles: a eleição para as mesas da Câmara e do Senado, e a formação das comissões nas duas casas. Depois, as medidas propostas pelo governo serão todas modificadas.

Aliás, hoje a Folha de São Paulo traz matéria (clique aqui) que mostra que o  governo federal quer ele próprio mudar as suas propostas devido as criticas das centrais sindicais. Qual a supresa? Essa criticas tendem a piorar e não a diminuir. Por mais que o governo queira fazer um ajuste, haverá uma continua queda de braço entre a agenda do governo para agradar os mercados e a agenda do governo que agrada a sua base política.

O que me supreende é alguns amigos meus acharem que um ministro da fazenda brilhante e bem intencionado tem o poder de aprovar medidas necessárias. Não tem. O sucesso do ajuste que vem da Fazenda dependerá do apoio do Ministério do Planejamento, que tem uma agenda de desenvolvimento MUITO diferente da Fazenda, e do apoio politico da Presidente da República que passou, da mesma forma que simpatizantes do PT nas redes sociais, ter medo de falar em público tão logo Joaquim Levy e equipe foram nomeados.

De qualquer forma, os simpatizantes do PT e a Presidente da República estão agora com a difícil tarefa de defender a ortodoxia da Universidade de Chicago e do FMI. Infelizmente para eles, este é o preço a pagar por anos de uma política econômica desastrosa.

Por fim, as últimas projeções do FOCUS apontam para crescimento médio do segundo governo Dilma de 1,54% ao ano. Mas há uma GRANDE chance de ser ainda pior, e um chance muito pequena de ser melhor.

2015 = 0,13% ; 2016 = 1,54% ;  2017 = 2,00% e 2018 = 2,50%

E neste período, pelas projeções do mercado, teremos um ciclo de quatro anos de taxa de juros elevada (Selic): 2015 = 12,50%;  2016 = 11,50%; 2017 = 10,50% e 2018 = 10%.

O que isso tudo significa? Na expectativa do mercado significa que, mesmo que o governo Dilma faça tudo certo, teremos um ciclo de baixo crescimento e juros altos. Para que se tenha uma ideia do tamanho da piora nas expectativas, no inicio do primeiro governo Dilma, em 2011, o mercado esperava um crescimento médio do PIB de 4,5% ao ano. O resultado será algo perto de 1,6% ao ano.

Assim, apesar de todas as noticias sobre ajuste fiscal e a retomada da racionalidade da política econômica, o mercado aposta hoje em ciclo de baixo crescimento e juros altos. Por que o empresário deveria estar otimista? Não está e, antes de investir, vai esperar por uma sinalização mais clara do governo e de São Pedro. O que ele sabe com certeza é que ele paga agora 12% ao ano de juros para financiar a compra do mesmo caminhão que, em outubro, financiava por 6% ao ano.

5 pensamentos sobre “Água fria

  1. Mansueto,

    Dessa vez, discordo parcialmente, boa parte das medidas podem ser criadas por medidas provisórias, que estarão em vigor ate a apreciação do congresso, tempo suficiente para negociar com a base.

    O que realmente me espanta e ,como a presidente convence os membros de se partido a seguir uma cartilha que eles não acreditam e concordam

    Abraços!

    • O fato de ser criadas por MP não significa que serão aprovadas. O próprio governo já sinaliza mudanças na sua proposta de seguro desemprego e haverá mudanças também na proposta do abono salarial e de pensões. é impossível que a economia com essas medidas alcance os R$ 18 bilhões que Nelson Barbosa chegou a divulgar. O ambiente politico hoje é totalmente diferente de 2003. Naquela época do inicio do governo Lula, a oposição tomava café com José Dirceu e havia uma boa vontade para aprovar medidas do governo. Não é mais o caso.

      • Não tenho a menor dúvida de a “governabilidade” está muito comprometida, isso se deve a vários fatores ( resultado econômico baixo, crescimento da oposição e desgaste da base, dentre outros)

        Ainda assim, acho que o novo ministro, caso tenha carta branca poderá fazer os ajustes “na marra”, por meio de medida provisoria .

        Pode acontecer do congresso derrubar, mas só sentiremos em 2016, essa e minha opinião.

        Alem disso, essas medidas podem ser questionadas, porem o caminho adotado pela presidente e o mesmo defendido por boa parte da oposição, ou seja, se a oposição derrubar todas as medidas pode estar ” atirando no próprio pe”

      • Não é derrubar. Mas modificar o teor das medidas. A economia jamais será R$ 18 bilhões como foi divulgada. Sé se faz reforma via MP quando se tem base parlamentar para aprovar MP. caso contrário, medida não passa ou passa com várias modificações. Em pouco mais de 3 meses teremos o teste do pudim.

  2. O que acho, meu caro professor, é que como um advogado (embora não militante, pois sou empresário) sei que as medidas provisórios tem um “péssimo” costume de se prorrogar no tempo, sendo renovadas por outras MP, mesmo que em tese isso não seja permitido. Nosso STF é frouxo, aceita qualquer desmando.

Os comentários estão desativados.