A equipe econômica do segundo governo Dilma

Dos nomes divulgados ontem para o Ministério da Fazenda, não conhecia o do novo Secretário do Tesouro Nacional e não conheço sua atuação no debate de finanças públicas. Mas isso, sinceramente, não importa.

O que interessa é que o novo secretário seja um bom gestor, aumente a transparência das ações do Tesouro Nacional e trabalhe em sintonia com os outros membros da equipe econômica. Acredito que isso acontecerá, o que é algo muito positivo.

Não teremos o risco de ter o secretario-executivo do Ministério da Fazenda discordando do secretario do Tesouro Nacional, como aconteceu com Nelson Barbosa e Arno Augustin no primeiro governo Dilma, o que levou a saída temporária de Nelson Barbosa do governo.

Tarcísio Godoy, novo secretário-executivo da Fazenda e Jorge Rachid, o ex e agora novo Secretário da Receita Federal, já trabalharam com Levy na época Palocci e são nomes de confiança do novo ministro, o que é algo positivo.

Por fim, gosto muito do novo Secretário de Política Econômica, o professor da FGV-RJ Afonso Arinos Neto, que tem o hábito saudável de gostar de avaliação de políticas públicas.

Isso significa para mim que a SPE terá um papel muito mais ativo na avaliação de diversos programas do governo e será o braço teórico do ministro que usará os seus estudos para mostrar ao governo o que funciona e o que não funciona. Joaquim Levy e Afonso Arinos Neto são economistas que se dobram à evidência empírica e, assim, entrarão nos debates internos, munidos com estudos de avaliação.

Deixo aqui meus votos de sucesso para o trabalho da nova equipe econômica. Dito isso, não posso me furtar de fazer dois comentários. Primeiro, ainda não digeri completamente a surpreendente mudança radical da presidente Dilma e seus assessores mais próximos em relação à política econômica. Segundo, o maior problema para o conjunto de reformas que precisam ser aprovadas não é econômico, mas sim político.

(1) A conversão para o liberalismo

Há poucos meses, qualquer economista que tivesse dito o que o novo ministro da fazenda disse na sua entrevista do final do ano ao Valor e no seu discurso de posse ontem no Banco Central teria sido violentamente atacado por pessoas muito próximas a Presidente da República, como é o caso do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e por diversos senadores do PT.

Será que essas pessoas de forma repentina começaram a acreditar em não intervenção do Estado na economia? Começaram a acreditar que incentivos setoriais são ruins para promover o crescimento? O mesmo valeria para reserva de mercado e a definição de taxas elevadas de conteúdo nacional.

Será que essas pessoas começaram a acreditar que um maior esforço fiscal e aumento da poupança pública é a melhor forma de reduzir de forma permanente a taxa de juros de maneira sustentável? Será que essas mesmas pessoas que há meses atrás defendiam com convicção o patrimonialismo agora o condenam?

Tenho dúvidas. Não acredito em uma mudança tão radical de pessoas que há bem pouco tempo usavam o termo “economista liberais ou neoliberais” de forma pejorativa e que agora passaram a acreditar em uma agenda não apenas diferente, mas o oposto daquela que defenderam ao longo de suas vidas. De uma duas. Ou essas pessoas não tinham convicção alguma do que defendiam ou essa conversão simplesmente não aconteceu. Vamos torcer pelo primeiro caso.

(2) O problema político

Tenho um enorme respeito e admiração pelo novo ministro da fazenda Joaquim Levy. Mas o maior desafio de ajuste não é econômico, mas político. Alguém no seu bom juízo acha que a oposição vai ficar dormindo e que não irá fazer barulho em relação as MPs 664 e 665 que tratam das alterações nas pensões por morte, seguro desemprego e abono salarial?

Uma rápida olhada de como esses programas funcionam em outros países mostra de forma clara que não há “a política de seguro desemprego”, mas diversas formas e regras que cada país adota para definir as regras desse benefício. A carência de 18 meses para o trabalhador usufruir pela primeira vez do benefício não é uma “verdade técnica”.

A grande incerteza é em relação a negociação dessas e outras reformas no Congresso Nacional, que será ainda “tumultuado” pelos reflexos da operação Lava Jato. Vale lembrar que, no primeiro governo Lula, havia um canal de interlocução aberto entre governo e oposição, que aprovou a grande maioria dos projetos enviados pelo governo no Senado Federal, inclusive, a reforma tributária. Não é mais o caso.

Assim, precisaremos esperar os primeiros testes do novo governo em votações no Congresso e de que forma o governo reagirá quando líderes de oposição acatarem emendas sugeridas pelas centrais sindicais em propostas de projeto de lei do próprio governo. O governo aceitará que seus tradicionais aliados recorram à oposição ou os políticos do PT que farão este papel de canalizar mudanças em projetos do próprio governo e do interesse direto da equipe econômica?

Conclusão: vamos esperar e ver ações concretas do dia a dia.

Só poderemos saber ao certo ser houve a conversão para o “liberalismo” no dia a dia, mas o dia a dia ainda está nebuloso e confuso. O episódio recente do desmentido das mudanças da política do salário mínimo foi ruim, não tanto pela manutenção da política em si, mas pelo ruído de comunicação entre a Presidente e o seu novo ministro do planejamento.

Adicionalmente, no dia 4 de janeiro de 2015, quando a Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO) foi sancionada, a Presidente da República teve o “cuidado” de vetar uma emenda do senador Aécio Neves (PSDB-MG) -Inciso VII do § 4º do art. 52- que determinava que o Poder Executivo informasse na internet e encaminhasse ao Congresso e a outros órgãos relatório os valores devidos pelo Tesouro aos bancos públicos e ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Essa emenda do Senador Aécio Neves seria irrelevante se tivéssemos a transparência que todos querem em relação a contabilidade pública. Por que a sociedade não pode saber quanto Tesouro deve ao bancos públicos de subsídios concedidos e não pagos? O mesmo em relação ao FGTS que pagou parte da conta do Minha Casa Minha Vida e que tem um crédito a receber junto ao Tesouro Nacional?

Sim, o novo ministro da fazenda prometeu maior transparência, mas será que a presidente da república acredita nisso? Se sim, porque vetou uma emenda do senador tucano que vai justamente ao encontro da maior transparência que o novo governo se propõe? Talvez tenha sido um erro da equipe econômica que estava de saída e que tinha calafrios quando escutava a palavra “transparência”.

Vamos torcer para que a presidente Dilma e sua nova equipe de governo adotem as medidas necessárias para o crescimento do país. Vamos esperar para conhecer o plano de governo deste segundo governo da presidente Dilma, pois aquele conjunto de diretrizes entregues ao TSE perdeu validade no exato momento que a presidente fez a “faxina” na área econômica.

12 pensamentos sobre “A equipe econômica do segundo governo Dilma

  1. Prezado Mansueto. Parabens pelo blog. Não estranhe o comportamento destes comunistas, agora rendendo-se às novas diretrizes do Ministro. Eles se convenceram que o Socialismo não funciona como eles pensavam. Vão deixar a economia fluir como o capitalismo e vão se concentrar agora no DOMINIO da sociedade, da midia, do nosso comportamento, da familia, das religiões, da mente da juventude, do apoio às drogas e banalização da moral. Assista à entrevista de Olavo de Carvalho, que em duas horas resume do novo comportamento destes comunistas. Liberalismo de mercado com forte controle da sociedade, da midia, dos costumes. Mudaram de tatica. Mas o povo não os aceita. O Exercito não está na mão deles. Nas Agulhas Negras, existe uma enorme rejeição ao comunismo, Enorme. O povo brasileiro não concorda com o comunismo. Alguém precisa levantar esta bandeira e dizer que o Brasil não concorda com o comunismo.Dizer que são comunistas disfarçados.

      • Sr. Dawran, não existe respaldo algum. Enquanto as medidas a serem tomadas não ameaçarem a continuidade do poder, serão mantidas. Saiu do trilho traçado por eles, cortam a cabeça do ministro e dizem que ele era incompetente.

  2. ” Ou essas pessoas não tinham convicção alguma do que defendiam ou essa conversão simplesmente não aconteceu.”

    Outra opção é: Essas pessoas não tem ideologia/escrúpulos, e falam o que acham que devem falar para se promover politicamente.

    Ótimo post.

    Abraços.

    • Ou esperam contar com derrotas sucessivas da nova equipe econômica, em medidas que tenham de passar pelo Congresso, para pressionar por sua saída. Difícil crer que haja poder de fogo em Kassab e Katia Abreu, santos novos, para respaldar medidas que sofram forte oposição no Congresso onde o Governo tem maioria. A não ser que as oposições tenham uma capacidade de operação ímpar.

  3. Penso que a incógnita não é a PresidentA. O ministro não a conhece e aceitou por vaidade? Diante do quadro de corrupção, onde se coloca? Terá de lidar com câmbio, inflação, aparelhamento do Estado, políticos inescrupulosos, etc., etc. Será herói?

    • Não. Além da presidente, deverá contar tanto com o apoio da presidente, como com as oposições e ministros liberais. Além de parcela da chamada opinião pública. Mas, tudo se isso redundar em sucessos iniciais.

  4. Incrível como as pessoas são inocentes. Eles claramente não pretendem ter nenhuma transparência. E se os Ministros Levy e Barbosa não aceitarem de bom grado a coleira com a rédea curta, é bom já se prepararem para sair do governo. Levy e Barbosa serão apenas testas de ferro da política econômica da Presidente.

    E já começam alguns membros do governo a falar besteira socialista de sempre: hoje mesmo no rádio escutei um falando que a propriedade privada não deve ser respeitada.

    Por favor gente, menos inocência.

  5. Tenho a impressão que o Levy será um boi de piranha do PT. Em 2018 vão colocar toda a culpa da crise vindoura nele, dizendo que se fosse o Mantega o ajuste não afetaria os trabalhadores e etc. O lula já está plantando na imprensa que está insatisfeito com a conformação de direita que o gov. Dilma está tomando. Depois ele chega em 2018, já com a casa arrumada, e faz uma campanha pregando a volta da esquerda no governo, e o fim dos ajustes do Levy, que prejudicaram a classe pobre e trabalhadora. Quem duvida?

    • Seria um discurso muito sem nexo do ex-presidente. Se optar por isso, estará perdendo boa parte da influência que eventualmente possa ter no governo. E se tentar mobilizar movimentos sociais, seria contra o governo da presidente que acabou de vencer as eleições com uma diferença pequena de 3,4 milhões de votos. Seria um furo n´água uma postura dessas. É mais provável que fique quieto.

  6. Eu penso que no geral você tem razão Mansuetto, o principal problema é político. Penso também que o organograma do ministério está equivocado. Dilma deveria ter juntado planejamento e fazenda em um único ministério da economia e o entregue a algum político com estofo, poderia ser o Jacques Wagner, para fazer o mesmo papel que fez o Palocci.

    Ministério, ainda mais deste porte, é um cargo politico, não é cargo para técnicos, que geralmente são ruins de discurso, não sabem falar com a imprensa e com a sociedade. Abaixo dele, ai sim, ficariam o Levy e o Nelson Barbosa. Eles trabalhariam mais sossegados enquanto o ministro politico aguentaria o tranco lá em cima, inclusive respondendo as estes questionamentos que você faz, a respeito de supostas inflexões do governo.

    Vejam que o Barbosa já falou a primeira bobagem e teve que se retratar. O Levy, pelo que vi até agora, é ruim até para ler em público. Não sei se vai aguentar dar entrevistas coletivas. O Mantega realmente foi mal no Governo Dilma mas este papel institucional ele fazia muito bem, ninguém nega isso. Sinceramente espero estar errado, mas não sei se o Barbosa e o Levy darão conta dessa parte.

    Mas pelo visto, agora parece ser tarde. Torçamos para que o Governo vá bem.

Os comentários estão desativados.