As dúvidas para 2015

Em geral, deveria neste final de ano falar sobre temas positivos para o próximo ano. No entanto, algumas coisas que marcarão o ano de 2015 têm forte relação com os erros da política econômica do governo dos últimos anos.

Nós economistas sem ligação com o governo nos dividimos em dois grupos. Um grupo acha que os políticos do PT são muito mais inteligentes que os economistas simpatizantes do partido e que o grupo político reconhece a necessidade de mudança de rota para continuar no poder.

Alguns amigos meus economistas acreditam genuinamente que a mudança da politica econômica é para valer e, portanto, no ano de 2015 teremos um conjunto de ações diferentes daquelas que marcaram a condução da política econômica dos últimos cinco anos.

Este grupo chega mesmo a apostar que, dado o excesso de intervenção do governo na economia nos últimos anos, qualquer correção na margem levará a uma forte recuperação da produtividade e do crescimento.

A ideia é que correções marginais da política econômica na direção correta (recuperação do tripé macroeconômico, maior transparência fiscal, fim da contabilidade criativa, etc.) iniciaria um processo gradual de reformas e de crescimento da produtividade. Mas isso é uma tese sem comprovação empírica.

O segundo grupo de economistas não acredita em mudança da política econômica. Este segundo grupo tem um enorme respeito pelo novo ministro da fazenda Joaquim Levy, mas acredita que o economista foi chamado para resolver um problema que, na visão da presidente e de seus assessores mais próximos, seria um problema passível de ser resolvido em um ou dois anos de maior esforço fiscal.

Para este segundo grupo de economistas, nós assistiremos nos próximos 18 meses uma queda de braço entre o novo ministro da fazenda e políticos do PT que continuam acreditando no papel forte da intervenção do Estado na economia.

Assim, apesar deste grupo acreditar em melhora no resultado fiscal acredita também que teremos um conjunto de políticas contraditórias com avanços de um lado sendo compensado por politicas contraditórias de outro lado.

Por exemplo, governo busca maior equilíbrio fiscal, mas para isso recorre a novos aumentos de impostos que prejudicariam a nossa competitividade. O governo sinaliza um papel menos ativo para o BNDES, mas continuaria com o arcabouço de medidas protecionistas e com as mesmas regras de conteúdo nacional.

Por que essa falta de confiança no “novo” governo? Porque políticos do atual governo em várias vezes deram declarações que são estranhas para dizer o mínimo. O atual ministro chefe da Civil, Aloizio Mercadante, em entrevista ao jornal Valor Econômico no dia 10 de outubro, falou que:

“A nossa concepção de desenvolvimento é a ideia do social como eixo estruturante do desenvolvimento econômico. O emprego para nós não é uma variável de ajuste como é para a oposição. Temos uma política econômica onde o social é estratégico para as nossas decisões. A oposição não consegue ter uma visão que não seja economicista de manual. PIB para o povo é emprego e renda. Dizer, como está dizendo, que é preciso tomar medidas impopulares e que quanto mais rápido isso for feito, menor será o custo… menor para quem?”

Qualquer pessoa de bom senso sabe que a política de ajuste fiscal reduzirá o crescimento, no curto prazo, e levará sim a um aumento do desemprego. O desemprego e renda é sim variável de ajuste. O que acontecerá quando a presidente e o seu ministro chefe da casa civil tiverem que conviver com um governo que não poderá cumprir nem metade do que prometeu ao longo da campanha eleitoral aliado, no curto prazo, ao ônus político de uma taxa de desemprego em alta?

Este segundo grupo de economista acredita também que a deterioração fiscal foi tão grande que a sua recuperação exigirá um ciclo de reformas ao longo dos próximos quatro anos e não apenas um maior esforço fiscal nos próximos 18 meses. Para esses economistas, não é claro que a presidente e o seu partido passaram a acreditar em uma menor intervenção do Estado na economia, redução do conteúdo nacional, maior abertura comercial, etc. Assim, os ajustes seriam incompletos e, na melhor das hipóteses, o segundo governo Dilma empataria com o crescimento da economia de 2011 a 2014: crescimento médio de PIB de 1,6%.

Não será preciso muito tempo para se ter uma ideia que de qual grupo de economistas tem razão. O governo nos últimos cinco anos criou tantas medidas malucas que para sabermos para onde estamos caminhando é só observar se o governo revogará várias dessas medidas nos próximos 12 meses. Há vários exemplos, mas vou deixar para outra oportunidade a análise dessas medidas que deveriam ser revogadas.

O que queria destacar neste post é que os economistas que converso se dividem em dois grupos: (1) aqueles que acreditam em uma mudança genuína do governo decorrente da visão pragmática dos políticos do PT, que já reconhecem o fracasso da Nova Matriz Econômica; e (2) o outro grupo que não acredita neste pragmatismo e que a correção da política econômica é muito mais um esforço de curto prazo para evitar a perda do grau de investimento e recuperar a confiança do mercado.

Assim, que houver alguma melhora, começaria um processo de reversão para as políticas identificadas com o nacional desenvolvimentismo que marcaram os últimos cinco anos e o segundo governo Dilma, como o primeiro, teria um baixo crescimento.

Vamos ver com o tempo qual grupo está com a razão. O que receio é que a piora da economia brasileira não tenha sido ainda suficiente para induzir essa “mudança pragmática” nos políticos do PT que os meus colegas do primeiro grupo acreditam.

8 pensamentos sobre “As dúvidas para 2015

  1. Estou no 2º grupo, e na ala eadical. Acho que o PT precisou de um nome tapa buraco para dar uma roupagem de mudança que sequestre alguma credibilidade ao governo. Levy não resistirá ao assédio hostil e, se quiser preservar sua reputação, pedirá o chapéu rapidamente.
    Feliz 2015 e lute para devolverem a liberdade de pensamento neste país.

  2. Parafraseando o artigo do schwartzman dessa semana… No período entre 2011 até final de 2014, o crescimento da carga tributária mais a queda do superávit primário (o real, que tá negativo), equivalem a algo em torno de 6,5% do PIB. Mais que o próprio crescimento do PIB no período. O Brasil tá perdido, não tem saída facil. 2015 será uma catástrofe, 2016 será ainda pior. Só mesmo reformas profundas, podem nos salvar. Mas nada disso será feito.

  3. Mansueto, concordo com a análise do segundo grupo, infelizmente. O que você acha de Mises e Rothbard? Quando lembro desses dois, penso que a coisa será muito pior, quando considerarmos o futuro dos EUA na conta. Será um belo cisne negro Talebiano, na pior hora possível, se a teoria austríaca estiver correta. Cisne negro para o “mainstream”, é claro.

  4. Estou com o segundo grupo de economistas. Deixo, abaixo, um belo provérbio chinês como justificativa: “Não adianta você pintar um pardal de amarelo pois ele nunca cantará como um canário!”. Minhas felicitações pelo excelente blog.

  5. Mansueto

    Desde que o PT chegou ao poder em 2003 esta é a primeira vez que Mercadante assume papel central no governo. Isto é, Mercadante nunca teve tanto prestígio político quanto tem agora com Dilma.

    Mercadante fala o que Dilma gosta de ouvir. E Dilma gosta de ouvir que “O emprego para nós não é uma variável de ajuste como é para a oposição”.

    Em novembro, na entrevista para o jornal O Globo, Dilma repetiu por outras palavras o que Mercadante disse em outubro:

    “O Globo: Reduzir a inflação com mais esforço fiscal e menos monetário?

    Dilma: Isso. Fazer uma política de inflação que leva em conta o fato também que nós não vamos desempregar neste país. Ponham na cabeça isso.

    O Globo: Mas isso não depende do governo…

    Dilma: Você que acha.”

    (“Confira, ponto a ponto, a entrevista completa da presidente Dilma”, O Globo, 06/11/2014).

    Eu suponho que a resposta de Dilma para o seu comentário sobre o aumento do desemprego como um produto inevitável do ajuste está dada e não difere da de Mercadante: “Você que acha”.

    Affonso Celso Pastore escreveu um ótimo artigo apontando que é um erro redução analítica que vê a crise de 2015 como um repeteco da de 2003.

    Cito trechos:

    “As condições econômicas herdadas em 2003 eram indubitavelmente melhores do que as atuais, frustrando expectativas apressadas dos que ACREDITAM QUE BASTARIA UM NOME RESPEITÁVEL à frente da Fazenda para criar um choque de credibilidade e um círculo virtuoso levando à retomada do crescimento. A competência de Joaquim Levy tem sido amplamente demonstrada ao longo de sua carreira. Contudo, nem a sua excelente formação acadêmica, nem o seu sucesso profissional no FMI, ou como secretário do Tesouro, ou ainda como secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, O QUALIFICAM PARA REALIZAR MILAGRES. “ (Os ajustes de 2003 e de 2015: algo em comum? ESP, 21/12/2014)

    Imagino que você esteja inserido no conjunto dos economistas para os quais é claro que “diferentemente do que ocorreu em 2003, a retomada do crescimento econômico e a queda da inflação somente ocorrerão depois de um extenso período de taxas de crescimento baixas ou mesmo negativas; de elevação do desemprego; e de inflação excedendo o limite superior do intervalo que contém a meta. Em 2003 as reformas do governo anterior pavimentaram o caminho para um ajuste rápido e com baixos custos; AGORA O PAÍS SOFRE AS CONSEQUÊNCIAS DOS ERROS ACUMULADOS NO PRIMEIRO MANDATO DA PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF. ” (Pastore, 21/12/2014)

    Isto é, a nossa grave situação é produto histórico das políticas nacional-desenvolvimentistas implementadas com apoio de Dilma desde o segundo mandato Lula.

    A situação ficou tão complicada que para tentar resolvê-la foi preciso pedir ajuda a um outsider, mesmo que a contragosto. O petismo vai tentar ocultar de todas as formas o que a nomeação de Levy é: um atestado do fracasso das teses nacional-desenvolvimentistas.

    E Dilma vai reconhecer o fracasso e fazer a necessária autocrítica dos erros cometidos? Vai dar uma de FHC (“esqueçam o que escrevi”) e romper com o ideário nacional-desenvolvimentista, adotando as políticas ortodoxas como diretrizes econômicas ESTRATÉGICAS do seu governo? A ver.

    A tese da “mudança genuína” é sustentada muito mais pela suposição de que há no petismo uma influente ala chinesa (“não importa a cor do gato desde que cace ratos”) do que por elementos empíricos verificáveis. Precisamos aguardar o pudim do Levy para ver se os supostos chineses do petismo vão aprovar e defender a receita.

    Os elementos disponíveis para análise sugerem que para Dilma e os petistas ditos pragmáticos a virada ortodoxa é apenas um recuo tático. Não há evidência empírica de que os alvos estratégicos do ideário nacional-desenvolvimentista de “intervenção do Estado na economia, redução do conteúdo nacional, maior abertura comercial, etc.” foram abandonados

    Fico com a turma do segundo grupo. Mas espero estar equivocado e que os fatos se imponham contra o meu ceticismo.

  6. Ficou confuso o que escrevi: “Não há evidência empírica de que os alvos estratégicos do ideário nacional-desenvolvimentista de “intervenção do Estado na economia, redução do conteúdo nacional, maior abertura comercial, etc.” foram abandonados”.

    Queria dizer que não há evidência para sustentar a hipótese de que a escolha de Levy é prova de ruptura de Dilma (“mudança genuína”) a fé do nacional-desenvolvimentismo na indução de crescimento econômico pela via da intervenção do Estado na economia, de imposições de conteúdo nacional, do protecionismo comercial, etc.

  7. Pode ser apenas estória,mas vou contar algo que ouvi de uma pessoa que trabalha na BRAM. Levy não tá nem ai para Petro, sabe que isso vai dar pano pra manga, tbm sabe que o BB é mais fácil de o mercado fiscalizar…guidance, balanço e etc. sua verdadeira preocupação é com a CEF! O cabo de guerra já começo pq ele gostaria de influenciar lá, mas a economista-em-chefe parece que tem outros planos…dizem que vai nomear a atual ministra do desPlanejamento e turbinar o “my house your debt .Além do mais, não sabemos quem vai ser o secretário do tesouro. “Ponto para os que estão no segundo grupo!

  8. Prof Mansueto, iniciando agora de maneira séria e correta, melhoras só viriam para nosso país ao longo de toda uma geração. Admiro muito as suas análises, elas são calcadas em números reais e em restrições também reais.
    Tentei colocar no papel uma Lei, que chamei de Lei Cidadã, para tentar colocar o país nos eixos ao longo dos próximos 30 anos. O senhor permite que eu mande uma cópia ao senhor para seus comentários?

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