Ajuste fiscal, bancos públicos e o falso consenso.

Há cerca de dois anos estava em uma reunião com um grupo de empresários em São Paulo e, nesta reunião, vários empresários elogiavam o crescimento do BNDES e as várias linhas de crédito subsidiadas do Banco. Até mesmo um secretário de fazenda de um estado da federação presente elogiou a celeridade do banco para liberar recursos para o seu estado.

No final da reunião pedi a palavra e disse: “se todos aqui estão contentes com o crescimento dos empréstimos do BNDES por que vocês não fazem uma proposta para o governo, sugerindo a criação de um novo imposto ou aumento do PIS/PASEP para que o BNDES tenha mais recursos para emprestar de forma sustentável”?

Todos olharam para mim com a expressão assustada. Moral da história. Muitas pessoas que elogiaram a atuação do BNDES nos últimos anos não estavam dispostos a discutir a fonte de recursos para o Banco. Queriam um BNDES mais ativo, mas não se importavam que a contrapartida desse ativismo fosse um forte crescimento da divida pública bruta.

Hoje vejo nos jornais algumas dessas pessoas defendo um maior rigor fiscal. As mesmas pessoas que há pouco mais de dois anos elogiavam a forte expansão do BNDES com aumento da dívida pública bruta. Assim, acho difícil que as pessoas que não se importavam com a divida ontem aceitem pagar mais juros, em 2015, por que precisaremos fazer um maior esforço fiscal.

A extensão do ajuste fiscal esperado será inversamente proporcional as criticas e xingamento que a equipe econômica receberá ao longo do próximo ano. Não existe “boa vontade” quando se trata de corte de despesas. Sempre alguns grupos serão prejudicados mais do que outros e esses grupos usarão seu poder de lobby para reagir. O quase consenso que hoje existe sobre a necessidade de ajuste fiscal terminará tão logo a primeira medida de ajuste seja anunciada pela nova equipe econômica.

Mas acho que chegou o momento de sermos adultos e encararmos no Congresso Nacional esse debate da forma mais aberta possível e transparente, colocando na mesa o custo das politicas, quais grupos serão prejudicados e a relação custo benefício. Não será fácil, mas não há outra opção.

Sim, no meio do caminho a oposição tem o dever e direito de criticar o governo que há poucos meses falava que os empréstimos subsidiados eram bons para economia e que a oposição queria reduzir esses empréstimos. No fim, o governo mentiu e ele próprio fará aquilo que acusou que os seus adversários fariam: reduzir o papel dos bancos públicos e aumentar a TJLP. Para muitos, não ter dito a verdade é justificável por se tratar de uma campanha eleitoral. Para outros, isso é puro estelionato eleitoral.

A dúvida é se a racionalidade continuará ou se o marketing do João Santana, em algum momento, voltará. A grande dúvida de muita gente no mercado não é o que será feito, mas se a presidente terá sangue frio para manter o ajuste fiscal quando, em um primeiro momento, o crescimento do PIB cair ainda mais, taxa de desemprego aumentar e renda real dos trabalhadores cair.

Mas depois melhora? Sim, mas até a melhora chegar haverá um custo. O que preocupa muita gente é não saber se a presidente, que nas eleições mandou seus economistas falarem em ajuste não ortodoxo, aceitará agora um ajuste ortodoxo. Por enquanto, não dá para falar nem que sim nem que não. Se olharmos para o passado a aposta é que a presidente não terá paciência para se manter na rota de ajuste com baixo crescimento. Mas as circunstâncias agora são diferentes e muito piores.

O problema é que a grande maioria dos políticos do PT continuam o mesmo e negam erros dos últimos quatro anos. Um bom exemplo  disso são as declaração da Senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) ontem na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, quando além de citar dados errados e falar que a nossa divida pública bruta era de de menos de 60% do PIB, falou que o primeiro governo Dilma não fez nada de errado e adotou uma política fiscal responsável. Se é assim, por que então convidaram Joaquim Levy, que pensa o oposto de Mantega e Augustin, para o governo? o problema de muita gente do partido da presidente é este. Falam não mesmo quando dizem sim. A nova equipe econômica e a presidente Dilma terão um grande trabalho pela frente.

 

7 pensamentos sobre “Ajuste fiscal, bancos públicos e o falso consenso.

  1. A dúvida é se a presidente consegue domar a base aliada durante esse processo. Pq se vc conta uma mentira várias vezes ela vira uma verdade e agora como é que vai se desfazer isso?

  2. Prezado Mansueto,
    Não obstante as questões políticas, parece-me que o governo brasileiro sofre de uma grave miopia que o impede de enxergar no longo prazo. E isso é sistêmico, estrutural. Tem acometido o país ao longo de sua história.
    É uma lógica quase maldita de pensar somente no curto prazo. Seria plausível se pensasse no curto prazo, considerando os impactos de longo prazo, mas parece que isto não acontece.
    Exemplos temos aos montes: uma política de substituição de importações que foi longe de mais e, por fim, não permitiu uma industrialização completa (discutível); um programa de câmbio fixo que durou tempo de mais e levou o país a uma crise (1994-1998); incentivos demais ao consumo, fazendo com que as famílias se endividassem; em suma, sempre demais.
    Bem, o assunto é vasto e a discussão pode valer a pena.
    Forte abraço, parabéns pelo excelente trabalho. Você tem sido uma grande fonte de inspiração para alguns de meus modestos projetos.
    Franklin.

    • Bondade sua Franklin. Mas espere para ver mais dessas contradições que você aponta. Muito dos programas criados nos últimos anos sofrem dessa miopia de curto prazo.

      Em especial, o que se fez com o “fortalecimento”de bancos públicos que nos deixou com um passivo para as próximas décadas, intervenção política nas agencias reguladoras, mudanças de regras no setor elétrico e no setor de petróleo e gás.

      Vamos acompanhar para ver se o governo terá o bom senso para desfazer muita coisa que ele próprio fez nos últimos anos.

  3. A miopia continua. Não vejo nada de novo no front. Apenas o discurso. Há embates internos que não serão fáceis de vencer. Muitas que se reúnem com a atual equipe sofrem desta miopia, trata-se de uma questão de fé. As distorções se acumulam. Creio que a realidade se imporá. Vamos ver no dia a dia. E parabéns, como sempre, você contribui imensamente para o debate. Abraço
    Vania

  4. A moça manteve Tombini, levou para o ministério Barbosa e Levy, mas não disse o nome do responsável que deverá pôr ordem nas contas do governo federal, o “cara’ que pode contribuir (ou não) para o crescimento da dívida pública. Eu estou falando da STN.
    Estou com uma sensação tã ruim ao falar da Petrobras, mas ninguém fala da situação da Eletrobrás e de suas subsidiárias de distribuição de energia problemáticas!

  5. Caro Nelson, tudo é tão estapafúrdio que, infelizmente, o que vier de bom, mesmo o pouco que seja, merecerá comemoração. O que não dá para aguentar é essa sensação de estarem tratando os brasileiros como crianças de jardim de infância em eterno recreio. Ao menos, nas últimas eleições presidenciais, a diferença entre o governo e as oposições foi de apenas 3,4 milhões de votos.

  6. Prezado Mansueto,
    Imagino que você deve já ter escrito sobre o tema, mas eu não consegui achar. Estou tentando descobrir quanto dos gastos do INSS são para operar a “maquina” do INSS. Ou seja, quanto dos gastos são com os escritórios, pessoas, custeio e quanto são de fato benefícios para os pensionistas e beneficiários em geral? Imagino que os gastos não são eficientes.
    Em tempo, sou um admirador.
    Abs,
    Gustavo

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