O silêncio dos inocentes

Uma coisa que tem me chamado atenção é o silêncio dos “inocentes” dos colunistas de esquerda dos nossos grandes jornais. Esses mesmos colunistas que vêm a possibilidade concreta de um radicalismo nos levar ao risco de um golpe militar, o que é um evidente delírio, se mantêm em silencio em relação aos escândalos envolvendo a Petrobras e que dizimou o valor de mercado da companhia com profundo e ainda incerto impacto no seu plano de investimento, nos partidos da base aliada, na política industrial do governo e no cronograma de obras públicas.

Acabei de voltar de uma rodada de encontros em NY com gestores de fundos e economistas e todos, sem exceção, perguntaram sobre o escândalo da Petrobras. Todos se preocupam com o possível efeito deste episódio na governança da empresa e na governabilidade do “novo” governo, pois grande parte das medidas fiscais necessárias para viabilizar o ajuste prometido precisa da aprovação do Congresso Nacional.

Um governo fraco correndo atrás de apagar escândalos recorrentes que a imprensa passou a noticiar todas as semanas é um péssimo sinal para o início de governo que se inicia e de um ano que seria de reformas econômicas. Cada vez mais me parece difícil que o “novo” governo tenha espaço político para mudanças profundas.

No caso da Petrobras, me impressiona como tanto desmando tenha passado tanto tempo despercebido pela grande maioria daqueles com algum envolvimento com a empresa. É claro que há muita gente envolvida. Não se desviam bilhões de Reais por anos sem a conivência de muitas pessoas que “não sabiam de nada”.

O tamanho da deterioração da Petrobras é de uma extensão que será impossível recuperar a governança da empresa em um curto espaço de tempo. O ideal seria que toda a sua diretoria fosse destituída e se colocasse na direção da empresa pessoas com reconhecida competência na área aqui no Brasil e no exterior recrutadas por headhunters.

Qualquer solução parcial de ajuste gradual na governança da Petrobras com a atual diretoria terá um custo elevado e será inócua. Os trabalhadores da Petrobras, os filiados do Sindipetro e os participantes do fundo de pensão da estatal, a Petros, que por tantas vezes levantaram a bandeira do fortalecimento da empresa e defesa do conteúdo nacional, deveriam agora ser os primeiros a exigir maior transparência da empresa e mudança radical da atual administração. A administração atual pode até ser bem intencionada, mas foi de uma incompetência extraordinária para descobrir o que seus colegas e subordinados faziam à luz do dia.

Muita gente critica o “too big to fail” quando se trata de instituições financeiras. E por que não quando se trata de empreiteiras? Onde estão os nossos progressistas que atacam bancos e se calam sobre a relação incestuosa entre nossas grandes empreiteiras e governos? Não há risco sistêmico algum em fechar grandes empreiteiras e a entrada de grupos estrangeiros nos processos de licitação no Brasil deveria agora ser incentivada. As grandes empreiteiras brasileiras têm um mercado doméstico protegido que não se justifica qualquer que seja o critério.

O governo subestima o escândalo da Petrobras como fez no passado recente com a piora dos indicadores macroeconômicos e com a piora fiscal. Há pouco mais de dois meses era normal escutar do secretário do Tesouro Nacional e do nosso já demitido ministro da fazenda que a meta de 1,9% do PIB seria cumprida.

A mesma ousadia parcial que o governo mostrou na área econômica deveria mostrar com uma mudança radical na Petrobras, caso contrário, a empresa que já foi orgulho de todos nós brasileiros continuará a se destacar mais pelo escândalo de corrupção do que pelo brilhantismo dos sucessivos recordes de exploração de petróleo em águas profundas que destacou a história da companhia.

No caso dos colunistas “progressistas” dos nossos meios de comunicação, estes continuarão atrás de um golpe militar ou choramingando a suposta guinada de 180o da política econômica, ao invés de discutirem profundamente o uso politico de estatais e o capitalismo de compadres que pode surgir quando há excesso de intervenção do governo na economia. A esquerda brasileira  (como a direita) precisa se modernizar.

O biênio 2014-2015 será marcado na história do Brasil não pela Copa do Mundo ou por uma eleição competitiva, mas sim pela descoberta de um caso de corrupção em uma extensão que ninguém imaginava e que muita gente muito próxima aos envolvidos falava e ainda fala  que “não sabia”. A esperança é que esse episódio leve a uma mudança institucional positiva para o país que agora sabemos que não veio com o caso do mensalão.

22 pensamentos sobre “O silêncio dos inocentes

  1. Seria muito útil se você nomeasse quem são os colunistas de esquerda e, em analogia, os de direita (ou, pelo menos, os progressistas e, como dizer, não progressistas ou, sei lá, conservadores). abrs

    • Os leitores do blog do Mansueto acompanham atentamente o noticiário da economia. Portanto, não é necessário nomear nem os de lá e nem os de cá. Ou, como dizia Millor, “para bom entendedor, meia palavra bas”.

      No mais, uma simples pesquisa no Google com as palavras-chaves “Petrobrás” + “capitalização” + “cessão onerosa” + “conteúdo nacional” é suficiente para se saber quem foi quem em mais essa barca da ideologia do ufanismo dos vira-latas.

      Hoje ficamos sabendo que a Sete Brasil, mais um retumbante fracasso da política nacional-desenvolvimentista, e pelo qual mais uma vez pagaremos caro, não vê saída para seus imbróglios econômicos-operacionais que não seja pela porta do Tesouro, via bancos públicos.

      E aí, Levy, vai encarar?

      E lembrando que foi diretoria da Petrobras que indicou o comando executivo da Sete Brasil. Coube ao ínclito Renato Duque emplacar o réu confesso Pedro Barusco na empresa.

      Os três grandes fundos de pensão estatais (Previ, Petros e Funcef) têm, se não me engano, 37,5% na Sete Brasil.

      O que gostaria de saber é quando os articulistas da economia vão tomar coragem e iniciar um debate sério a respeito da urgência da privatização da petrolífera, que hoje é muito mais causa de vergonha do que orgulho nacional.

      Até quando vamos continuar aceitando que o dinheiro dos nossos impostos seja objeto de distribuição entre amigos do alheio?

      • Numa busca no Google sobre a Sete Brasil, encontrei o post abaixo de 29 de abril de 2014, publicado por Lauro Jardim, colunista de Veja:
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        “Graça Foster acaba de emplacar uma troca que buscava há tempos em uma área sensível para a encrencada estatal: a presidência da Sete Brasil, responsável pelos contratos de 28 sondas que irão atuar no pré-sal. Sai João Carlos Ferraz, indicado pelo ex-presidente José Sérgio Gabrielli, e entra Luiz Eduardo Carneiro, ex-presidente da OGX e homem de confiança de Graça.
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        O nome de Carneiro foi aprovado num comitê de acionistas que detém 95% da empresa. Petrobras tem a prerrogativa de indicar o comandante da Sete e acionistas como BTG, Santander, Bradesco podem aprovar ou vetar o nome.
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        Graça nunca se deu bem com Ferraz, que é próximo de Lula. Dona dos maiores e mais estratégicos contratos da Petrobras, a Sete está na mira da oposição, que adoraria inclui-la nas investigações da CPI da Petrobras.”
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        A teia une Lula, Dilma, Gabrielli, Graça, Eike. É o sequestro de um país por um partido, e seus afilhados, que atua com a fúria de bárbaros dividindo o produto de seus saques, ou melhor, dos seus arrastões.

      • Já o Jânio de Freitas continua militantemente vociferando bobagens em seus textos da Folha… Parece até aquele indivíduo que compra um imóvel pra investir, paga caríssimo e morre abraçado com ele ao se recusar baixar o preço pra reaver parte do dinheiro perdido rs

    • Poderiam acrescentar tbm ,além dos já citados, o Delfim Netto, Luis Nassif e Luiz Gonzaga Belluzzo!
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      Mas não somente estes do “mainstream” midiático-econômico ! Cadê o seu colega de Estadão Luis Fernando Veríssimo? Cadê a “intelligentsia” da Carta Maior,DCM e Carta Capital ?

      À época do Mensalão, houve o que ficou conhecido como “Silêncio dos Intelectuais” aturdidos pela avalanche de revelações ! Irá se repetir desta feita?

    • Mansueto,

      Como já repeti outras vezes, sou fã do seu trabalho. Os seus melhores artigos são sobre política fiscal no Brasil. Merecidamente, você hoje é uma referência nessa área.

      Quando você se arrisca a comentar outros assuntos, o resultado é inevitavelmente inconstante. Esse post, por exemplo, deixou a desejar.

      A primeira dúvida que me veio à mente quando li o texto foi exatamente a do Kupfer — quem seriam esses colunistas? (Coincidentemente, assim como ele, sou jornalista.)

      Você diz: “Esses mesmos colunistas que vêm a possibilidade concreta de um radicalismo nos levar ao risco de um golpe militar, o que é um evidente delírio, se mantêm em silencio em relação aos escândalos envolvendo a Petrobras”.

      Depois, dá como exemplos André Singer, Ricardo Melo e Clóvis Rossi.

      Desculpe, mas não vejo em nenhum dos três essa paranoia com o golpe militar. Aliás, acho que essa fixação com os radicais golpistas aparece mais em reportagens, não em colunas de opinião — e até por isso me perguntei de que colunistas você poderia estar falando. (Estou falando da grande imprensa, claro.)

      Você ainda diz que os três mostram uma “indignação maior com a nomeação do Joaquim Levy do que com os escândalos da Petrobras que estão ausentes”.

      Vejo dois problemas com essa frase.

      A primeira é que ela não está correta — pelo menos não ao todo. André Singer sozinho já desmente a frase, pois é impossível enxergar nos artigos dele isso que você descreveu. Singer cita Levy e a Petrobras apenas rapidamente e de maneira bem equilibrada. Clóvis Rossi fez críticas ao Levy, mas também à Petrobras. Ou seja, pelo menos no caso desses dois (1), a Petrobras não está “ausente”. Talvez apareça pouco, mas ausente não está.

      O segundo problema com a sua frase é que não entendo essa oposição entre Levy e Petrobras. Por que alguém indignado com a nomeação de Levy deveria mostrar-se também indignado com os escândalos da Petrobras? Parece-me um falso debate, um antagonismo inexistente.

      Até porque, no momento, Levy obviamente suscitou discussões melhores e mais diversificadas. É possível gostar ou não gostar de Levy. É possível concordar ou não com as suas ideias. Quanto à Petrobras, é impossível gostar do escândalo ou concordar com o que foi feito. Todo mundo (minimamente decente) pensa mais ou menos a mesma coisa sobre o escândalo, e isso desestimula discussões mais elaboradas que vão além da indignação.

      Tanto é assim que, ao meu ver, o assunto tem sido pouco abordado por (bons ou razoáveis) colunistas de todas as “ideologias”, não apenas pelos que você chama de “progressistas”. Pense bem: quantos textos opinativos bons sobre o escândalo você chegou a ler?

      As eleições já acabaram (em tese), mas sinto que o seu discurso, quando foge da questão fiscal, ainda está um pouco contaminado pelo partidarismo que elas exacerbaram. (O que é compreensível, como já lhe disse anteriormente.)

      Nesse caso, não apenas o discurso, mas a sua própria leitura parece ter sido afetada.

      Vejo muitas pessoas formarem opiniões (contra e a favor) equivocadas sobre alguns colunistas — frequentemente baseadas apenas na preferência partidária ou ideológica deles. Tais opiniões não raro levam essas pessoas a abordar os colunistas com um preconceito que as leva a impressões precipitadas, como nas injustas acusações aqui feitas a André Singer e Clóvis Rossi.

      Acho que vale um esforço para tentar fazer uma leitura menos preconceituosa e valorizar o nível da argumentação de cada um, mesmo discordando da conclusão dele.

      Assim como um petista pode ganhar lendo Sergio Fausto, por exemplo, um tucano pode tirar coisas boas de André Singer. (Clóvis Rossi vale mais pelas reportagens e informações de fontes, não pelas análises e opiniões. O mesmo para Jânio de Freitas e Elio Gaspari.)

      Como é de costume, peço desculpas de antemão por qualquer exagero que eu tenha cometido.

      Abraços.

      (1) Talvez a sua frase esteja correta quanto a Ricardo Melo, mas confesso que não tive paciência para conferir, pois não acho que vale a pena perder tempo com ele. (Basta lembrar que a Folha chamou Melo para ser colunista neste ano com Reinaldo Azevedo, justamente para servir de contrapeso. Não se ganha muito lendo um nem outro.)

  2. Concordo com a análise. Vamos ter uma paralisia no Congresso e o governo não terá condições de implementar reformas econômicas. Serão quatros anos de um governo “manco”.

  3. Mansueto

    Eu concordo integralmente contigo. Porém, discordo com o trecho em que você disse que houve “ousadia parcial na economia”. A “supergestora” nomeou as pessoas certas para os lugares certos, menos o responsável pela cadeira da STN (Aí dá medo!). O que dá mais medo também são as sucessivas notícias de possíveis capitalizações da CEF, do BB e do BNDES. Não seria uma medida diametralmente oposta àquilo que se prega, em direção a uma política econômica mais austera e ortodoxa? Tenho dúvidas se isso é “ousadia” ou se é “teimosia”.

  4. Uma pergunta Mansuetto :…..Porque a Odebrecht e outras por ai não abrem o capital na bolsa ?…..será que mais transparência dá azar ?…pode ser né !

  5. Caro Mansueto,

    Li, acho que no prefácio de Vargas llosa, no livro “A Bíblia do Perfeito Idiota Latino-americano”, que, naquele momento, estava sendo implementado um movimento de reforma liberal no Brasil. Porém, ele não acreditava no seu sucesso devido a não convicção plena do Governo que estava implementando-a. No caso, era FHC. No momento atual com o escândalo da Petrobrás, torna-se mais inteligível a colocação de Llosa. FHC foi, é e será taxado por esquerdistas, centristas e direitistas de “privatista”. Pegou a pecha e está pagando por sua não convicção plena de desestatização da economia brasileira. No ano da comemoração dos 20 anos da privatização da Embraer e seu evidente sucesso como player internacional, fica claro que se o mesmo tivesse ocorrido com a Petrobrás, teríamos, além de evitado um foco crônico de corrupção, termos mais uma grande empresa internacional!

  6. No final da década de 60 iniciei a jornada de cliente da Petrobrás, através de sua subsidiária fabricante de borracha sintética. Na primeira compra fui vítima da corrupção: ou transporta a mercadoria por determinada empresa ou não tem dia certo para entrega. Soube ainda que havia um esquema de “desclassificação do produto” para venda a determinados clientes com preço rebaixado. Sabia-se de propina para fornecimento e que a compra de plataformas era intermediada por brasileiros. Sempre tive certeza de que não se criaria CPI porque todo mundo tinha o rabo preso. O que agora surge um lamaçal por acaso na investigação de outra área. A Petrossauro vem explorando o povo e sendo explorada desde sua fundação. Agora querem “governança”. Como controlar um grupo econômico formado por cerca de 300 empresas no Brasil e exterior, sendo três delas em paraísos fiscais. Esse é um caso de mentira sobre sua eficiência que, de tanto ser repetida, parece verdade. Sessenta anos e não consegue auto-suficiência. Produzia a borracha mais cara e de pior qualidade. Dizem, não entendo da área, que também quanto ao combustível é a mesma coisa. Onde está o avanço tecnológico? Vão me chamar de “entreguista” como fizeram com Paulo Francis. A única saída é privatizar fatiada para não criar monopólio privado.

  7. É verdade Mansueto, 2015 vai ser um ano difícil. Os escandalos atuais evidenciaram que a Petrobras vem sendo usada como lavanderia há muito tempo, mesmo antes dos governos do PSDB ou do PT. Já vi noticias que falam do Shigeaki Ueki, lá se vão trinta anos. Você leu o artigo do Ricardo Semler http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/196552-nunca-se-roubou-tao-pouco.shtml… Impressionante. Não sei se a empresa vai sobreviver no final, acho que algum pacto deverá ser feito para mantê-la como protagonista no futuro, mesmo que o modelo de exploração tenha que mudar. O que acha?

  8. O TCU alertou várias vezes um proeminente cidadão que nunca sabia de nada sobre problemas em obras de refinarias. Vociferou, como se não existisse lei, que não iria parar as obras suspeitas. Gostaria de ver se há alguém nesse país com espírito cívico, que saiba fazer o seu papel e que tenha por princípio o respeito a lei que indiciasse essa pessoa por improbidade administrativa, com consequente perda dos direitos políticos. Como cidadão espero justiça!
    Aliás, cito aqui referências de jornais que já mostravam à sociedade o tamanho do descontrole do governo em se tratando de obras, leiam abaixo:

    1)http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?id=813195
    2)https://contas.tcu.gov.br/juris/SvlHighLight;jsessionid=978372DD8B9575B58E92F3F5194C1CAD?key=ACORDAO-LEGADO-89470&texto=50524f432533413633303632303038332a&sort=DTRELEVANCIA&ordem=DESC&bases=ACORDAO-LEGADO;DECISAO-LEGADO;RELACAO-LEGADO;ACORDAO-RELACAO-LEGADO;&highlight=&posicaoDocumento=0&numDocumento=3&totalDocumentos=6
    3)http://www.parana-online.com.br/editoria/cidades/news/201399/?noticia=TCU+APONTA+OBRAS+PUBLICAS+IRREGULARES+NO+PARANA
    ***** Esse link é de 2006!!!!!******* O governo não teve tempo para paralisar as obras da REPAR?
    4)http://www.jornalwebminas.com.br/politica_noticia.php?noticia=47526
    5)http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lula-defende-obras-de-refinaria-questionadas-por-tcu,523402
    6)http://veja.abril.com.br/noticia/economia/dilma-diz-pedido-do-tcu-de-paralisar-obras-e-absurdo
    7)http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2410200902.htm
    8)http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?id=982400

    Depois desse revival jornalístico não há ninguém nesse país capaz de fazer cumprir a lei? Não há pelo menos prevaricação nesse caso?

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