Entrevista à rádio CBN

Segue abaixo o link para a longa entrevista que dei hoje ao jornalista Carlos Alberto Sardenberg no programa CBN Brasil que vai ao ar a partir das 12:00. Conversamos sobre a mudança na LDO de 2014 e os desafios para a próxima equipe econômica – clique aqui.

Entre as várias coisas que falei, quero destacar quatro pontos. Primeiro, a mudança da LDO pode ajudar o governo  Dilma-I a pagar várias despesas no final do ano e, assim, limpar um pouco a casa para a equipe econômica que está assumindo. Mas isso não justifica a mudança da LDO.

Segundo, o governo foi sim irresponsável. Todo mundo sabia que seria impossível o governo cumprir com a meta de 1.9% do PIB, mas a equipe econômica atual não cansava de prometer que alcançaria esta meta com tranquilidade, o que não era verdade. O governo escondeu a conta de políticas públicas da população.

Terceiro, dado o marco institucional em vigor, não vejo como a despesa pública (% do PIB) possa cair ao longo dos próximos quatro anos. Nenhum governo conseguiu isso desde 1990. Por que agora seria diferente? será que o governo conseguiria aprovar medidas impopulares no congresso? falei hoje que é muito mais difícil do que em 2003, quando havia uma boa vontade da oposição com o governo Lula. Hoje, não há espaço para negociação entre situação e oposição e a bancada do governo está desorganizada. A oposição, com numero inferior, conseguiu adiar por três semanas a mudança na LDO que em outros tempos aconteceria na mesma semana. E poro pouco ontem não derrubou mais uma vez a sessão.

Quarto e último ponto, nos últimos anos o governo fez um aposta que deu errado como aconteceu no Brasil da segunda metade da década de 1970. O governo quis “empurrar” o crescimento com aumento da divida e com intervenções setoriais. Mas o resultado não foi maior crescimento. Ao contrário. O resultado foi o aumento da fragilidade da economia brasileira com aumento da divida bruta, déficit nominal de 5% do PIB (100% maior do que em 2012) e déficit em conta corrente de quase 4% do PIB.

Qual a opção que temos? ou se faz um ajuste forte nos próximos anos ou corremos o risco de empurrar o problema com a barriga e fazer um ajuste ainda maior no futuro, exatamente como ocorreu, guardada as devidas proporções, na dedada de 1980 quando a conta da marcha forçada dos anos 70 chegou.

A questão em aberto é: será que a presidente Dilma e seus conselheiros mais próximos estão cientes do tamanho do problema? A ver. A equipe econômica que entrou e boa e tem o diagnóstico correto, mas antes essa equipe terá que mostra ao outros o tamanho do buraco fiscal.

 

11 pensamentos sobre “Entrevista à rádio CBN

  1. Mansueto, excelentes os pontos levantados. Agora, árece ocioso dizer que a nova equipe terá de contar com o total apoio político para poder levar a cabo os ajustes que não serão pequenos para colocar a casa em ordem. Esse apoio teria, ou melhor, terá, de vir da presidente. Contudo o caso da mnabra com a LDO é emblemático. Como escolher um equipe econômica para colocar ordem na casa e ao mesmo tempo empenhar-se com toda força num remendo que aprofunda o buraco em que a economia do setor público está metido? Será mesmo que a presidente tem intenção de dar apoio à nova equipe ou ficará como parte da base aliada que não queira ajustes duros, que possam afetar suas emendas e compromissos com suas bases em termos de obras, contratações etc. 2015 nem começou e parece já ser um ano que nunc acabou.

  2. Prezado Mansueto,

    Tem circulado nas redes sociais posts de psolistas, como o Chico Alencar, falando em auditoria da dívida pública e questionando a manutenção da política de metas fiscais e superávit primário (com a alegação de que a economia é para pagar juros e amortização da dívida, que acabam sendo a maior despesa do governo).

    Interessante ir na página do Chico Alencar no FB para ver o que ele comenta, e repercute na rede, sobre a dívida pública e pq votou com o governo neste PL polêmico que mudou a meta. Há tb o blog Auditoria Cidadã, que abastece de dados os radicais da esquerda que viralizam a questão nas redes: http://www.auditoriacidada.org.br/e-por-direitos-auditoria-da-divida-ja-confira-o-grafico-do-orcamento-de-2012/

    Seria interessante um artigo sobre a questão, até mesmo para podermos refutar, com uma base melhor, em grupos de discussão. Sinto que este tema vai voltar à tona por agora.

    Grato,

    Claudio Szerman

  3. Mansueto

    Eu concordo que o modelo de financiamento que o Brasil adotou na segunda metade dos anos 70 trouxe inúmeros problemas. Porém, é bem verdade que completou a nossa industrialização, fez com que o Brasil tivesse mais hidrelétricas como Itaipu,Tucuruí, indústrias de aço, siderúrgicas, o projeto carajás, a expansão da RFFSA, pólos petroquímicos e refinarias. Foi um endividamento que trouxe um retorno para o Brasil, ainda que o planejamento financeiro dessas inúmeras obras seja bem questionável. Concordo que o modo como foi feito, deixou como herança a década perdida. O governo atual faz a mesma coisa, mas não está legando nada para a sociedade. Qual a herança que o atual governo está deixando para o Brasil em termos de obras? Em equipamentos? Em alguma transformação industrial? Nenhuma. O Geisel teve o mérito de mudar a estrutura industrial do Brasil, apesar do modelo de financiamento de obras públicas, o resultado do II PND colocou mais produtos na pauta de exportação o que auxiliou no aumento dos superávits a partir de 1983, 1984. Mas e agora? Esse endividamento traz algo de bom? Duvido.

  4. Mansueto, sem querer ser muito pessimista, creio que estaremos mesmo “ferrados” com o que está sendo feito aos trambolhões. Como a nova equipe poderá alterar o que foi aprovado e virou lei? Propondo nova lei que revogue a anterior? Ou aproveite a deixa e saia fora antes de assumir, deixando o governo com o monstro que criou? Os próximos quatro anos prenunciam ter o nome de crise. Na Política, no Orçamento Fiscal, no Monetário, no Cambial, no Balanço de Contas Correntes, na Dívida Externa e Interna. Isso sem falar na cabeça, ou melhor, no bolso do brasileiro, que está sendo enfraquecido pela inflação de um lado e pela queda do salário real de outro. Em suma, um cavalo de pau de retorno à década de 70, 80, 90…

    • Do que está falando ? Por que a nova equipe teria que alterar o que fora a aprovado e virou lei ? Mudaram a lei apenas para este ano, ora.

  5. Ferrovia oeste leste
    Ferrovia norte sul
    Integração do São Francisco
    Usina Belo Monte
    Usina Girau
    Esses qe eu citei terão grand peso no avanço do pais.

  6. Pode até trazer um grande avanço para o país, mas vejamos:
    Ferrovia Norte Sul em construção desde 1987. Desanimador, né?
    Pior, é o TCU dizer que vários trechos precisarão ser refeitos, pois os trilhos são de péssima qualidade. A julgar pelo precedente da Norte e Sul, eu terei bisnetos e essa ferrovia não terá sido concluída.
    Transposição do São Francisco se arrasta há 7 anos. Infelizmente o TCU constatou que os equipamentos que serão usados nas obras estão guardados em locais impróprios. Coloca em risco 1 bilhão de reais em máquinas e equipamentos que podem se deteriorar com a ação do tempo.
    Usina de Belo Monte teve uma série de atrasos. As primeiras turbinas poderão ser acionadas em 2016.
    Usina de Jirau atrasos e mais atrasos o que fez com que se dobrasse o custo de sua construção. Estão prometendo o início de sua operação para 2016, mais de 1 ano de atraso, conforme Valor. Mais interessante o que saiu na Folha, dia 09/07 ” Atrasos nas Usinas de Jirau e Santo Antonio geram prejuízo de R$1 bilhão”, por favor, leia.Não sei se você sabe, mas atraso em obra gera aumento de custo.

  7. Importante só destacar que a estreita margem fiscal do governo (na verdade inexistente) deve-se pelas desonerações e isenções tributárias em segmentos escolhidos a dedo e o endividamento que o próprio governo se utiliza, aumentando a dívida pública, para “fortalecer os bancos estatais” achando que isso não trará consequências em longo prazo, uma forma de criar o “Bolsa Empresário”.

  8. Hoje aconteceu algo inusitado. Fui comprar um pingado com um delicioso pão na chapa e, ao pagar, o atendente perguntou: aceita ação da petrobrás de troco. Fiquei surpreso, mas mesmo assim retruquei: depende, aceita lixo reciclável como forma de pagamento?

    Acabei que sai de lá com algumas balas.

  9. Mais um excelente conteúdo. Parabéns.

    Amigos, depois de muito acompanhar os posts, estou ciente do grande nível cultural e curricular de todos envolvidos no site(leitores/editor) Venho por meio deste pedir uma humilde opinião, trabalho com Mercado Financeiro em um Banco, e estou prestes a me matricular no curso Analista Financeiro da FGV (126h), ficaria muito grato se alguém que conhece o curso ou instituição me desse qualquer feedback. Abraços.
    Raphael AZ

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