Questão fiscal: todo mundo em crise? Não.

Nas últimas semanas o governo vem enfatizando que vários países da Europa têm déficit primário maiores do que o do Brasil e, assim, a deterioração das contas públicas seria um fenômeno mundial que atingiu vários países devido aos efeitos da crise financeira no crescimento dos países.

Será que isso é verdade? Não. O melhor indicador para olharmos não é primário mas sim o resultado nominal. O Brasil, como tem juros muito alto, precisa de um primário maior que outros países para estabilizar a sua divida em relação ao PIB. Assim, vamos olhar para o resultado nominal.

Nesta comparação dois pontos são importantes. Primeiro, a deterioração fiscal de um grupo de países da Europa (Reino Unido, Itália, França, Portugal e Espanha) foi maior de 2007 a 2010. Nos últimos anos esses países vem reduzindo rapidamente o déficit nominal e se espera que esse processo continue pelos próximos anos como se observa abaixo nos dados do FMI.

Déficit Nominal Países Selecionados Europa – % do PIB

Deficit nominal

Fonte: FMI. 2014* = projeção FMI de outubro de 2014.

Segundo, este não é o caso do Brasil. No nosso caso, o nosso déficit nominal não piorou muito no auge da crise, em 2009, mas piorou bastante neste ano e tudo indica que poderá ainda ser pior em 2015. O Brasil está perigosamente caminhando para um déficit nominal na faixa de 5% a 6% do PIB, o mesmo déficit que tínhamos em 2002 e 2003.

 Déficit Nominal do Brasil – 12 meses – % do PIB – Nov/2002-Set/2014

def nominal

Fonte: Banco Central

A nossa forte deterioração fiscal é fruto de uma combinação perversa de gasto público crescente em relação ao PIB e aumento de juros para combater a inflação. Se o governo prosseguir com a expansão das despesas e o BACEN com o aumento dos juros terá início um debate sobre dominância fiscal.

Assim, quanto mais rápido o governo sinalizar um plano sério de recuperação do primário melhor será para a economia e para todos nós. Quanto maior a leniência do governo com o fiscal maior será a chance de pagarmos mais juros, aumentar ainda mais a dívida publica e termos crescimento médias inferior a 1,5% ao ano ao longo dos próximos quatro anos. A bola está com o governo que, por enquanto, fez apenas gol contra.

11 pensamentos sobre “Questão fiscal: todo mundo em crise? Não.

  1. Se permite “vulgarizar”, deixar o.deficit primário “solto” é mais ou menos como eu deixar de pagar o cheque especial: a dívida só aumenta, mesmo que não faça novos saques do cheque especial.
    Abs

  2. “A nossa forte deterioração fiscal é fruto de uma combinação perversa de gasto público crescente em relação ao PIB e aumento de juros para combater a inflação.”

    Quais medidas, no curto/médio/longo prazos, precisariam ser feitas para termos uma inflação normal, de 2% a.a. por ex.?

    Já li em alguns lugares que o plano real ainda não terminou de ser executado, e assim faltam medidas (de vários tipos) a serem tomadas para terminar de matar o bicho da inflação.
    Tem como descrever estas medidas/ações em termos ‘leigos’? =)

    []´s

  3. Vamos aos fatos:
    1) o governo central vem sistematicamente culpando a performance da economia mundial, para justificar a crise econômica pela qual o país passa, e para ratificar a sua incompetência de não cumprir o superávit primário, estabelecido na LDO/2014;
    2) o déficit primário que se apresenta é decorrência de políticas econômicas erráticas, equivocadas e mal concebidas, que se limitam meramente a políticas demagógicas e populistas, sem nenhum efeito multiplicador na eficiência, dinâmica e competitividade dos setores econômicos, especialmente o industrial;
    3) é inconcebível, que se queira adotar cada vez mais e mais políticas de caráter exclusivamente social, sem que em contrapartida, o país não esteja experimentando crescimento econômico. Este é o nosso Caso. É a velha máxima econômica: ” Não existe almoço grátis”. Alguém tem que pagar esta conta;
    4) com toda certeza a deterioração das contas públicas no Brasil, é, entre outras fatores, fruto da irresponsabilidade do governo central na realização de gastos públicos, por sinal equivocados, em consonância com aquilo que a equipe econômica atual – e os simpatizantes da Unicamp – denominam de política econômica desenvolvimentista;
    5) a atual crise econômica que passa o país, bem como a difícil situação das contas públicas, exigem a adoção de medidas econômicas corretivas que devem ser implementadas o mais rápido possível, sob pena da atual conta que já imensa, ficar ainda maior, trazendo a reboque situações econômicas indesejáveis, tais como: inflação mais alta, crescimento econômico zero ou negativo, contas externas mais desequilibradas, maior desemprego, queda acentuada na arrecadação de impostos, e por vai…………………. Será que vamos pagar para ver? e
    6) finalmente, os nomes até agora mencionados pela mídia dos possíveis responsáveis pela área econômica, para este segundo mandato da atual presidenta, honestamente, para mim não tem perfil para enfrentar os desafios que estão a espera de soluções.

    Reflexão: Não seria um grande ato de nobreza e humildade, o Governo Federal reconhecer que a situação econômica e fiscal que enfrenta o país, é fruto de adoção de políticas erradas?

  4. Tudo bem, Mansueto. Sim. Dois mais dois são quatro. E daí? Todo mundo sabe disso. Não precisa ser economista para escalar esse time, não.
    .
    Você que me desculpe, mas a turma de Bizâncio, aquartelada no Ministério da Fazenda, faz o discurso contrário, mas, no quesito profundidade, rivaliza com a da LRF.

  5. Caro Mansueto

    1) Honestamente, eu NÃO acredito que Levy (mesmo porque a imprensa publicou e depois o governo recuou) será o novo ministro da Fazenda. Ele NÃO é o tipo de profissional que age para atender anseios, NÃO age para apenas servir como procurador de “chefes”, pois teve alguns choques com figuras proeminentes do 1º mandato do Sr. Lula. Creio que Tombini será o próximo ministro da Fazenda. Acho que, infelizmente, Augustin e Mercadante terão forte presença no 2º mandato da presidentA. Não há fatos para ficarmos animados!

    2) Aumentando IPI das montadoras, a tendência é de retração ainda maior nas vendas e aumento dos PDV’s. Tem muita gente que perdeu emprego e muita fábrica que foi prometida que não saiu do papel.

    3) Visto que o Brasil tem um déficit nominal de 5% do PIB e observando que os países europeus que possuíam/possuem déficits semelhantes e/ou maiores demoraram para reduzi-los desde o início da crise, infelizmente, acho difícil o Brasil voltar a ter superávit primário antes de 2017. Com uma economia estagnada, com perda do investment grade, aumento nos juros dos EUA, e ainda coloco nessa lista de desgraças uma política monetária expansionista da UE e do Japão (a China reduziu sua taxa de juros!!!!) podem estraçalhar a já destruída competitividade brasileira. O futuro que o governo enxerga para o Brasil é vender frango e torresmo para China. Afinal,só temos vocação pra ser o “fazendão do mundo” mesmo!

    4) Setor elétrico. Bom como o setor elétrico foi entregue a São Pedro, o lucro no setor caiu 30%.no 3º trim, conforme matéria da Exame. Nesse levantamento foram analisadas 17 empresas, menos as subsidiárias da Eletrobras que reportaram prejuízo de 2,7 bilhões. Se as subsidiárias da estatal fossem analisadas conjuntamente, o setor teria um prejuízo de R$ 300 milhões. Agora vejamos:

    4.1) O risco de racionamento é real, não é nada desprezível. Com a redução das tarifas de energia em 2012 (Lei 12.783/13) levou as empresas a um risco em suas finanças. E não são só as empresas distribuidoras do sistema Eletrobrás, mas empresas privadas (ex-Grupo Rede) que tiveram prejuízos consideráveis. Como desgraça pouca é bobagem, temos que considerar que foi formado, depois da fantástica redução de 20% na tarifa de energia, um pool de bancos para auxiliar no financiamento do setor elétrico. Ao que me parece o Tesouro foi incluído nessa estória, como um “fiador desse empréstimo”. O que irá acontecer agora no começo do ano, momento em que geralmente são acionadas as usinas termelétricas (energia cara) com o sistema elétrico? Como as empresas comprarão essa energia cara produzida, se estão em dificuldades? Os bancos continuarão prestando esse auxílio financeiro (empréstimo)? Serão mais criteriosos em futuros empréstimos para as distribuidoras? Lembrando que teve empresa que triplicou o prejuízo entre 2011 e 2012.

    4.2) Ainda no mesmo tema, mas por outro ângulo, será que os bancos não avaliam também a situação do “fiador desse empréstimo” (Tesouro)? Forte deterioração fiscal, economia cambaleante, ameaças externas fortíssimas. Creio que os bancos têm uma “leve” preocupação sobre a saúde fiscal do estado brasileiro. A CBIE disse que essas medidas de redução nas tarifas custaram até agora 105 bilhões!

    4.3) Não falarei nem dos atrasos (ou “outros motivos”) nas obras das hidrelétricas e dos linhões. Apesar de já terem sido licitados, as linhas de transmissão são concluídas num prazo de 30, 40 meses. Teremos um apagão? Comprem suas lanternas, velas e lampiões porque o pior está por vir.

    5) Você está devendo um artigo do FI-FGTS

    • Levy NÃO suportará trabalhar em um ambiente autocrático, só isso. Qual profissional vai querer trabalhar sabendo, desde o início, que terá uma autonomia limitada? Que terá de comprar brigas desnecessárias? Que terá que entrar em conflito com quem o colocou no cargo ou terá que recuar para atender demandas? Ele não será ministro, se for durará pouco no governo.

  6. Mansueto,
    What do you think Levy is likely to do specifically on fiscal policy?
    What kind of primary do you think he will be aiming at?
    Thank you

    • 5727 – NFSP sem desvalorização cambial (% PIB) – Fluxo acumulado em 12 meses – Resultado nominal – Total – Setor público consolidado – %

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