O tamanho do problema – 2

Nesta última terça-feira tivemos dois fatos que mostram muito bem o tamanho da encrenca do governo com uma ala do PT e a dificuldade de sinalizar de forma clara como recuperará o superávit primário.

O primeiro grande fato desta terça-feira foi a forma que se deu a saída da ministra Marta Suplicy do ministério da cultura que, na sua carta de demissão, falou de forma muito clara que a presidente Dilma não pode mais continuar errando na escolha de sua equipe econômica e que deve deixar de ser a ministra da fazenda. A senadora Marta Suplicy falou que:

“Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo e que, acima de tudo, esteja comprometida com uma nova agenda de estabilidade e crescimento para o nosso país. Isto é o que hoje o Brasil, ansiosamente, aguarda e espera.”

Este trecho da carta de demissão mostra muito bem a pressão que parte do PT e o próprio presidente Lula estão fazendo na presidente. A presidente Dilma agora corre o risco de tomar medidas duras que, para o PT, seria uma situação de win-win. Se houver um forte ajuste e o crescimento voltar ainda no final do governo Dilma, o PT pode ser competitivo em 2018 com ou sem Lula.

Mas se o ajuste vier e o crescimento não chegar tão rápido, o PT poderá ainda sacrificar a presidente Dilma acusando-a de medidas duras contra as bandeiras históricas do partido e que, com Lula (depois de quatro anos de ajuste), o partido iria resgatar os seus compromissos históricos. Dilma sairia odiada pelo povo, que não gosta de ajuste, mas sim de crescimento e não dá bolas para causalidade. Mas uma Dilma reformista mesmo com baixo crescimento poderia salvar o próximo governo, quem quer que seja o presidente pós-Dilma. Mas sem ajuste algum, não há cenário positivo para o PT, em 2018.

O segundo fato inusitado desta terça feira foi o pronunciamento na comissão mista de orçamento da ministra do planejamento Miriam Belchior. Na ultima semana, a presidente da República e o seu futuro ex-minstro da fazenda falaram que o governo teria que adotar medidas de austeridade e até citaram as medidas preferidas do economista Nelson Barbosa: corte do seguro desemprego e abono salarial, reforma do sistema de pensões, controle do auxilio doença e  redução dos subsídios financeiros (aumento da TJLP).

Mas  logo hoje que o governo mandou um projeto maluco (veja minha análise desta quarta-feira no Estado de São Paulo e minha entrevista à rádio Jovem Pan) que é um cheque em branco para descontar mais de R$ 100 bilhões da meta do primário e que, assim, permite que o setor público tenha um déficit primário e o chame de superávit, a ministra do planejamento Miriam Belchior teve a coragem de dizer no Congresso que a situação fiscal do Brasil é confortável. Acho que de fato é “muito confortável” em relação ao Brasil da década de 1980.

Se é confortável, porque então promover o estelionato eleitoral que o governo já vem anunciando antes mesmo da nomeação do novo ministro e da nova (ou velha) equipe econômica? se é confortável porque o governo pediu aumento dos descontos para cumprir a meta reduzida de 1,9% do PIB?

Ademais, o governo continua cometendo os mesmo erros e agora insiste em trabalhar com uma expectativa de crescimento da economia no próximo ano que é três vezes superior (3%) à expectativa de crescimento do mercado (1% com viés de baixa). Ao invés de começar a desarmar a bomba relógio fiscal, ainda há pessoas no governo que acreditam que “a fada madrinha da cinderela” resolverá nossos problemas com um feitiço para aumentar a confiança dos empresários.

Acho que as mudanças na área econômica precisam acontecer rapidamente e não apenas no ministério da fazenda, mas também no do planejamento. Até a senadora do PT Marta Suplicy sabe disso. Mas será que a presidente reconhece essa necessidade? governo novo, dúvidas novas.

18 pensamentos sobre “O tamanho do problema – 2

  1. Meu caro Mansueto,posso até estar errado mais essa carta de Marta é só o começo de uma estratégia que o PT começa a adotar para se desvincular de Dilma,já descobriram que Dilma não vai resolver os problemas da economia e não querem ser taxados também como responsáveis,e assim dificultar a eleição de LULA EM 2018,nem o PT nem Lula ficaram ao lado de Dilma.Espere e verá.

    • Nâo existe “um” PT, são várias alas no partido, e Marta nunca representou o pensamento do PT. Ela representa a sí própria, sempre foi assim. A carta é ruim para o Governo mas também é ruim para a própria, que sai de maneira deselegante. Ela está pensando o que, que terá chances de suceder Haddad em 2016 ? Claro que não né, óbvio que ele tentará a reeleição.

  2. Com relação aos possíveis corte que o governo fará,realmente é algo inacreditável principalmente vindo de um governo que se diz dos trabalhadores,auxilio doença é talvez o beneficio mais importante para o trabalhador brasileiro uma vez que,uma pessoa doente não pode fazer absolutamente nada.Enquanto esse Desgoverno pensa uma insanidade dessa deveria rever sim outros como auxilio detenção e auxilio detenção,pois esses sim são dispensáveis e um mal que o governo faz a própria sociedade brasileira.

  3. E as medidas do Barbosa não são boas medidas e necessárias, Mansueto ? Aonde está o estelionato, se o Governo nunca disse que não tomaria tais medidas ?

    Se me permite a crítica, o seu tom está meio pesado Mansueto. Voce, infelizmente, está indo pelo caminho fácil da retórica agressiva, e com isso, seus bons argumentos podem ir ficando cada vez mais escondidos.

    Campanha eleitoral são slogans que se utilizam. O que Dilma sempre disse é que não iria usar de grandes cortes e choques, como o psdb já fez no passado e têm fama de querer fazer, aliás, tudo isso corroborado por desastradas falas do Armínio Fraga, durante a campanha ou mesmo antes dela.

    Mas é claro que ela precisa fazer alguns ajustes e creio que isso deva ser comemorado e não atacado como “estelionato eleitoral”.

    Essa retórica agressiva não ajuda a ninguém, muito menos ao Aécio. Quem já está se firmando como oposição moderada e de estadista é o governador Alckmim, que apesar de não ser lá muito muito em gestão hídrica, é moderado nas palavras e está compondo bem com o Governo.

    Seu blog tem muito conteúdo, mas pode virar um blog tipo Rodrigo Constantino ou Reinaldo Azevedo da economia. Veja que mais de 90% dos comentários já são laudatórios, e muitos chegam a ser raivosos com expressões deselegantes contra outros comentaristas ou partidos e políticos adversários. É assim que começa.

    • Daniel,

      a favor do governo está o fato que outros governos fizeram também estelionato eleitoral. Mas o governo h;a pouco mais de um m6es falava categoricamente que cumprira a meta de primário de 1,9% do PIB e que não haveria necessidade de ajuste e de medidas necessárias ou impopulares como falava a oposição.

      As propostas do Nelson são sim impopulares. Acabar com o abono salarial é sim um medida impopular (não significa que seja necessariamente errada) e uma perde de direito para mais da metade dos trabalhadores com carteira de trabalho. Reduziu subsídios financeiros do BNDES nunca foi dito pelo governo.

      Na campanha e quando a oposição falou isso, os dois candidatos de oposição foram tachados como sendo contra bancos públicos e contra subsídios para indústria. Me desculpe, pode até ter sido apenas jogo eleitoral, mas o governo prometeu coisas e gerou expetativas irreais e agora busca fazer exatamente o contrário.

      Arminio falou a verdade e suas declarações antigas foram colocadas fora do contexto. Me desculpe, o problema não é o Arminio. O problema é um governo que foi excessivamente intervencionista e incompetente e criou para si próprio uma herança maldita. Isso até Nelson Barbosa sabe e acho que concorda.

      Sim, a questão do blog corre este risco. Já havia barrado comentários justamente por isso porque detesto comentários raivosos. Mas ainda não sei muito bem como lidar com isso. No caso do governo Dilma, a presidenta pode surpreender a todos nós e fazer um excelente governo – tudo isso está em aberto. Mas para isso, terá que fazer ajustes e não é certo a sua real convicção de adotar uma agenda reformista e sabemos que mesmo medidas corretas não necessariamente se transformam em crescimento imediato.

      Quanto ao papel da oposição, o correto não é “ajudar’o governo. O papel da oposição é de fato criticar o governo e com suas criticas contribuir para o debate. Claro que há limites, diferente do PT da década de 1990 que votava contra tudo (ver caso da LRF, entre outros) independentemente do mérito da matéria.

      A oposição poderia sim aprovar modificação na LDO, pois será impossível setor público cumprir a meta de 1,9% do PIB. Mas não deveria aprovar nos moldes que o governo pede – a possibilidade de descontar qualquer coisa que seja classificada como despesa do PAC e renuncia tributária. Assim, há muito espaço para oposição no Brasil e será boa para a nossa democracia, O debate não é em relação aos fins – todos queremos mais crescimento com igualdade de oportunidades e redução de desigualdades. O debate é relação aos meios. E aqui há muito espaço para um debate aberto sem precisar ser agressivo.

      Abs, Mansueto

    • É óbvio que foi estelionato eleitoral. Ou a expressão “tarifaço” e a propaganda da família sem comida na mesa porque “eles irão subir os juros” não fornecem nenhuma inferência. O PT condenou os ajustes que agora sabe que deve fazer, fez o “diabo” nas eleições como havia prometido.

      Particularmente eu também prefiro os posts sobre política fiscal neste blog.
      Mas seu dono/autor tem a liberdade de falar sobre o que quiser e inclusive utilizar expressões deselegantes (nunca vi nenhuma aqui).

  4. O PT vai provar do próprio veneno que utilizou na campanha política contra seus adversários. Marta Suplicy teve coragem e altivez em dizer tudo aquilo que todo petista de bom senso (se é que tem algum) gostaria de dizer. Recentemente, a Presidenta Dilma disse numa entrevista “que não representa o PT”. Se ela não representa o PT qual partido político então representa, será, por exemplo, o PCC – Partido Comunista Cubano?
    O PT que trabalhou para reeleger a Presidenta Dilma, fez uma campanha tão nefasta e suja que agora vai aplicar nos seus 55 milhões de eleitores, a sua maioria recebedores do Bolsa Família, políticas econômicas tão duras que se traduzirão em um verdadeiro “estelionato eleitoral”. Serão políticas amargas e impopulares que afetarão principalmente a população de baixa renda, exatamente a grande maioria do eleitorado do PT.
    A verdade é uma só: “O PT deu um grande tiro no pé”.

  5. Mansueto

    Mercadante já havia cantado essa bola no Enai anunciada ontem por M. Belchior.

    É evidente que a decisão de mandar o PL que dá cheque em branco já estava tomada há algum tempo.

    A verdade é que Dilma não teve a coragem de vir a público e anunciar a medida. Foi com Mantega para o Catar e deixou a tarefa do anúncio para a ministra do planejamento. Simples assim. A costumeira desfaçatez.

    Talvez essa artimanha de Dima e de seu fiel escudeiro Arno Augustin explique o teor da inusitada carta de demissão da ministra da cultura.

    Polianas estão dizendo que o objetivo do PL é zerar as criativas mandrakarias perpetradas (atrasos, pedaladas etc) e prepara o terreno para promover um forte ajuste em 2015. Sempre haverá quem acredite nisso e em duendes.

    PS: Quanto a suposição de agressividade sua e de comentaristas, a meu ver ela é o que é: uma suposição.

  6. Mansueto

    Você está devendo um artigo do FI-FGTS no Blog.
    Ah antes que eu me esqueça! A CBIE afirmou esses dias que o custo das políticas adotadas no setor elétrico ultimamente chegou a R$ 105 bilhões……………tenho uma sensação tão ruim quando começo a pensar nesse quadro…….

    • Só atualizando a questão da energia elétrica a Eletrobrás teve prejuízo de 2,7 bilhões!
      Dobro minha aposta que o racionamento de energia será combinado com crise financeira das distribuidoras!

  7. No meu entender o que a Marta está tentando fazer é se salvar eleitoralmente. Onde foi a maior rejeição ao PT? Foi em São Paulo.
    Com essa carta a Marta está tentando se descolar da Dilma e do PT, mostrando que é diferente. Já se especula que ela vá disputar a indicação do partido com o atual impopular prefeito Haddad (queridinho do Lula) para a prefeitura em 2016.
    Acho que com isso ela está tentando marcar uma posição para o eleitorado e assim se viabilizar. Acho que está com medo de acontecer o que aconteceu com seu ex e o Padilha.

  8. Daniel fez o seguinte comentário: “Nâo existe “um” PT, são várias alas no partido, e Marta nunca representou o pensamento do PT. Ela representa a sí própria, sempre foi assim.”(….)
    Este comentário cabe a seguinte indagação: “Que partido é este que tem não unicidade partidária, coerência com os princípios ideológicos e os fundamentos que balizaram a sua criação/fundação?”
    Se tem várias alas dentro do partido, como disse Daniel, então pode-se inferir que o PT é um conjunto biunívoco formado por vários grupos que não comungam o pensamento petista (se é que tem algum), e que tem em comum apenas a sigla do parido, qual seja PT.
    Creio ser extremamente difícil ou quase impossível que um partido político mantenha em seus quadros várias correntes, cada uma com pensamento ideológico próprio. Se isto for verdadeiro, o PT funciona com cada grupo “puxando a sardinha para sua brasa”. Haja esforço.
    E o que dizer da Presidenta Dilma, qual ala do PT ela pertence? Ela, Dilma, recentemente disse numa entrevista que não representa o PT. Que coisa mais estranha e esquizofrênica. O partido que ajudou a reelegê-la, que foi, ao que me consta, o PT, não é o partido que ela representa? Daniel, vc poderia me explicar esta esquizofrenia política-partidária?.
    PS: Tudo indica que o PT passa por série crise de identidade, se é que já teve alguma, pois, segundo o próprio Daniel, o partido possui várias “alas”, Isto contrasta com as escolas de samba (obviamente muito mais organizadas e unívocas), que tem em seus quadros várias “alas”, que mesmo com adereços e fantasias diferentes, tem princípios e objetivos comuns, que é ser Campeão na Passarela.
    E viva o carnaval brasileiro!!!!!

    • Caro, pelo jeito vc não é lá muito entendido da política nacional. 99% dos partidos são assim ou são muito piores. O PSDB é pior ainda, pode ter certeza disso. Existem os partidos médios que possuem “donos” literalmente. E os nanicos também. Muitos dos candidatos nanicos da campanha vivem disso, voce sabia ? Bem vindo à política brasileira, meu caro. Tática sempre manjada é esta de pegar alguma declaração de alguem do pt ou de outro partido e, generalizar, dizendo que representa o pensamento do partido.

      • Caro Daniel, com todo respeito, seus comentários postados às 4:44 PM, não merecem nenhuma consideração de minha parte. Lamento, mas não vou perder meu tempo discutindo e rebatendo suas obtusidades político-partidária.
        Um grande abraço.

  9. Não tenho muito como provar credenciais antipetistas, e sei exatamente como “não sou petista mas…” soa. É o novo “não sou racista mas…”.

    Contudo – talvez a única coisa saudável do processo do PT – e isso erodida em anos mais recentes – são suas primárias, tendências explícitas e debate aberto. Já desde o apogeu de Dirceu circa 2006 as tendências minoritárias do PT reclamam que isso vem se tornando mais uma ficção do que uma dinâmica dominante, mas é algo que falta a todos os outros partidos políticos no país.

    Os partidos brasileiros ou bem são siglas sem muito sentido (o PP abriga Dornelles e Bolsonaro, e nem duvido que ambos sejam inocentes do PP do Petrolão), ou clubes de caciques que decidem as coisas em jantares em São Paulo. Como resultado disso e da tal polarização com o PSDB (que cá pra mim é mais um efeito retórico do PT do que uma situação tipo Democratas-Republicanos nos EUA), nós na oposição ficamos dependendo da influência relativa do Serra, do Alckmin, etc. para saber quem será a luz máxima a fazer frente ao PT. E eles se sabotam: o Estadão já publicou matérias antiaecistas na pré-campanha de 2010 que…

    Por outra: enquanto que alguns partidos são meras siglas como o já citado PP, o PT radicaliza na formação de frentes parlamentares fechadas, quase despersonalizadas. O Eduardo Jorge (deputado constituinte pelo PT ao lado do Lula) depois do primeiro turno esteve dando entrevistas e contou a sucessão de “suspensões” e “punições” que sofreu por não votar com o bloco. Já aconteceu do PT não soltar nem campanhas parlamentares individuais em alguns estados, como em São Paulo/2010 – as propagandas rogavam “Vote nos Deputados do PT”.

    Não deveria chocar a Marta. Nem a Heloísa Helena, no fim das contas; o Aécio está à esquerda do Alckmin, mais duro em questões como segurança (e herdeiro do bastão do Mário Covas) e à direita do Serra, formado pela CEPAL, desenvolvimentista no sentido clássico brasileiro. E quer dizer, o processo implícito do PSDB permanece exatamente isso: implícito, secreto, entreouvido apenas por garçons; em princípio, o processo do PT é claro.

    Mansueto: fique à vontade pra não aprovar (ou apagar) este comentário, que é bem fora do assunto. Ainda mais dada a sua nova diretriz de despolitizar um pouco. Eu escrevo essas coisas e depois dou um ctrl-C ctrl-V para arquivos pessoais, para talvez desenvolver um dia. Não é perda.

  10. Interessante seu comentário Mansueto: PT votou contra a LRF. Votou contra e praticou contra no atual mandato. O Lula é que destoou do partido.

Os comentários estão desativados.