O tamanho do problema

Algumas matérias dos jornais de ontem e de hoje dão a dimensão do tamanho do problema que o novo governo da presidente Dilma irá enfrentar. A solução desses problemas encontra-se em aberto e acho que o governo ainda subestima o custo do ajuste (e os eleitores também).

Enquanto isso, há ainda um “grupo de intelectuais” que acredita que o real debate deveria ser entre as propostas de esquerda e da direita no Brasil. Vamos fazer o seguinte. Assim que resolvermos os nossos problemas imediatos de baixo investimento, redução do superávit primário, inflação elevada, reajuste ou não das tarifas dos transportes público, etc. podemos debater propostas da esquerda e da direita para deixar os intelectuais felizes.

Segue abaixo um exemplo da lista de problemas imediatos para o início do segundo governo Dilma:

(1) Claudia Safatle em matéria no Jornal Valor Econômico de hoje: “O segundo mandato de Dilma começou na segunda feira após o segundo turno das eleições mas, até o momento, ela não escolheu quem será sua equipe econômica nem definiu o que fará nos próximos quatro anos……. Quem conhece bem a personalidade da presidente decifra o enigma: “A pessoa jurídica da Fazenda está decidida e é ela. O que se procura é a pessoa física que vai ocupar a cadeira de ministro”. Enquanto isso, o dólar sobe, os juros também, tornando cada dia mais onerosa a espera sobre a definição dos rumos.”

O governo está fazendo de tudo para dar sinais positivos ao mercado, mas o que se destaca é uma sucessão de noticias negativas e a impressão cada vez maior que o governo está perdido, simplesmente não sabe o que fazer e parte dos assessores da própria presidente sonham com um banqueiro para “controlar” a presidente.

O próximo governo deverá combinar um esforço fiscal de 3 a 4 pontos do PIB e ainda encarar um crescimento da divida/PIB. Além disso tudo, nas atuais circunstâncias, não se espera um crescimento médio do PIB no próximo governo Dilma muito diferente de 2% ao ano (mas crescente ao longo dos quatro anos).

(2) Matéria do valor sobre reajuste das tarifas dos ônibus urbanos: O fim da corrida eleitoral traz de volta uma “bomba tarifária” prestes a explodir no colo de prefeitos e governadores. Alvo das manifestações de junho do ano passado, as tarifas de ônibus acumulam defasagem de até 16% em um conjunto de cinco grandes capitais ou regiões metropolitanas – Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Goiânia – e precisam de reajustes “salgados” nos próximos meses”.

Se os governos municipais não autorizarem os reajustes terão que pagar do próprio bolso os prejuízos das companhias de transporte urbano. Ou seja, o que este em jogo aqui é se o custo recairá sobre os usuários do transporte público ou sobre os contribuintes do município.

Esta matéria traz uma informação que não tinha a mínima ideia: “O número de usuários (de ônibus) nas nove maiores regiões metropolitanas caiu 35%, entre 1995 e 2013. De todos os deslocamentos urbanos motorizados, 65% serão em transporte individual em 2030, conforme projeções da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Eram 25% em 1980”. Essa é uma notícia péssima.

(3) Matéria do Valor sobre reajuste do preço das energia nos trens urbanos e metrô:Com pressões de custos e sem clareza sobre eventuais reajustes, as operadoras de trens urbanos e metrôs também veem um cenário nebuloso pela frente. Uma das maiores preocupações do setor é com o encarecimento da energia elétrica. Para a ANP Trilhos, entidade que representa as principais operadoras do país, o início da aplicação de “bandeiras tarifárias” nas contas de luz, a partir de janeiro, gera receio entre as empresas. A eletricidade representa de 20% a 25% dos custos operacionais no transporte sobre trilhos.”

Em resumo, como a tendência agora é de reajuste no preço da energia em valores próximos ou acima de 20%, isso vai se refletir no aumento do custo de operação dos trens urbanos e metrô. Qualquer aumento de tarifa pode ser postergada, mas neste caso alguém tem que bancar o subsidio e, esse alguém, é o contribuinte.

(4) Matéria do Ribamar Oliveira no Valor sobre a renegociação da divida dos estados e municípios:O principal alívio para os governadores e prefeitos é que o projeto de lei permite que todos os Estados e municípios fiquem enquadrados nos limites máximos de endividamento, definidos por resolução do Senado…….O projeto de lei abriu, portanto, um espaço para que governadores e prefeitos se endividem para fazer novos investimentos.”

Aumento da divida para novos investimentos, embora a causa seja meritória, significa queda do primário em uma conjuntura na qual o resultado primário em 12 meses até setembro dos governo estaduais e municipais foi de R$ 3,9 bilhões ou 0,08% do PIB.

Na verdade, como estados e municípios contraíram dívidas novas nos últimos dois anos, o primário desses governos precisará crescer para algo como 0,5% a 0,7% do PIB, no mínimo, para arcar com o custo das dividas antigas e novas em 2016 ou 2017. Mas abriu-se agora espaço para novas dividas. Essas coisas não batem: mais necessidade para aumentar a divida e necessidade de aumento do primário.

(5) Entrevista do jornal o Globo de domingo com o presidente do BNDES Luciano Coutinho: “Segundo presidente mais longevo do BNDES, Coutinho afirma que banco precisa reduzir sua participação no apoio aos investimentos do país. Mas diz que ‘as mudanças vão ser graduais’ e não descarta novos aportes do Tesouro. (leia entrevista completa aqui).

O papel dos bancos públicos em um segundo governo Dilma ainda é incerto para mim. O governo fala na redução gradual de subsídios e repasses do Tesouro para bancos públicos, mas a situação é muito mais complicada do que parece.

Primeiro, se o aumento da TJLP afetar os contratos passados, quase todas as concessões recentes terão que ser renegociadas. Segundo, se o aumento da TJLP afetar apenas o futuro, o impacto na redução do custo de juros para o Tesouro será menor do que se afetasse o passado. Terceiro, redução gradual dos repasses do Tesouro poderá levar dois, três ou quatro anos. Ninguém sabe. Quarto e último ponto, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal precisarão de aportes: capitalização.

(6) Matéria do site da Revista Veja: Arno Augustin continuará um homem forte no próximo governo: “Arno guarda as chaves do Tesouro Nacional desde 2007. No governo e, sobretudo, fora dele, as preces são para que sua temporada na administração federal termine este ano. Contudo, o caminho será inverso. O secretário deverá ganhar mais poder. Dilma o quer mais perto e, por isso, deve “promovê-lo” a assessor especial, com direito a sala no Palácio do Planalto….. No novo governo, Arno Augustin deverá servir de ponte entre o Palácio do Planalto e o Ministério da Fazenda. A depender de quem ocupe essa pasta, pode ser uma tarefa muito, muito árdua.” (Leia aqui matéria completa)

Situação atual: temos um Congresso Nacional mais dividido, uma presidente que foi e possivelmente será o ministro da fazenda, Arno Augustin que “fez o diabo” para “cumprir” as metas fiscais continuará forte no próximo governo e não se sabe ainda nada da nova equipe econômica.

Em resumo, por enquanto, não há como ser otimista porque, passadas duas semanas da eleição, o governo continua imerso em um conflito interno sem saber o que fará para desfazer a Nova Matriz Econômica que tanto defendeu e, ao mesmo tempo, agradar os seus eleitores, colunistas simpatizantes do PT que esperavam uma guinada do governo para esquerda e economistas que assinaram o “manifesto pelo desenvolvimento e pela inclusão social”.

13 pensamentos sobre “O tamanho do problema

  1. Mansueto: vc esqueceu de colocar na agenda da discussão algo que tem sido esquecido sistematicamente: o meio ambiente. A destruição frenética do Cerrado e da Amazônia para atender uma agropecuária exportadora que não compensa a destruição ambiental nos preços e só atende um setor intensivo em capital e não em mão de obra, está destruindo as bases hídricas do
    Brasil, que hoje corre um sério risco de virar um deserto. Antonio Donato Nobre e outros estudiosos mostram que os biomas atingiram seu limite de colapso e que se não for feito um esforço enorme de recuperação, Brasil ficará sem água. O Guarani já muito poluído e destruído, some sem o Cerrado. A água do Sudeste some sem Amazônia. Isso sem colocar na equação as mudanças climáticas e atmosféricas em curso… Desastre à vista. O fim da água em São Paulo é uma prova do erro fatal da economia tradiconal. Essa agenda entre direita e esquerda no mundo todo não teve serventia alguma, exceto explorar os seres humanos, concentrar riqueza e suprimir os direitos de todos. Direita e esquerda são as faces da mesma moeda da destruição social e ambiental. Precisamos hoje de discussões menos ideológicas e mais humanitárias. Abraço Hugo

  2. Precisamos criar uma nova vertente de regime não ao capitalismo e muito menos ao socialismo,já estar mais do que provado que ambos estão ultrapassados.Uma nova forma de regime que focasse mais no ser humano e não no poder fosse uma solução.Socialismo nada mais é ,do que o capitalismo estatal onde se concentra toda a riqueza de povo nas mãos do estado,além do poder e falta de liberdade a que todos ficam submetidos.Mas nada disso ou aquilo resolverá o problema da humanidade como um todo,se não houver mais amor ao próximo por todos.

  3. O problema é que os ideológicos parecem ainda crer, firmemente, que o humano depende da doutrinação, ou da opção ideológica. Nesse ponto, o Governo, o Congresso etc., que poderiam equilibrar a balança, estão inertes por discussões inertes sobre…ideologia. Como a diferença entre os candidatos à presidência mostrou que a ideologia perdeu, ou não venceu da forma acachapante que previam, não sabem o que fazer numa sociedade dividida entre a coerência e objetividade, de um lado e a ideologia fabiana, de outro.
    Não está mais divertido ver a ideologia não ter respostas para questões velhas e práticas, por ter envelhecido. E ver os não ideológicos mostrando que a saída está no trabalho, no real e não num impossível sonho de miséria igualitária. O deslinde desse nó górdio ainda pode demorar um pouco para uma sociedade que exige soluções. E não ideologias.
    Por incrível que possa parecer, há quem fique elocubrando, como seria e qual seria o papel dos meios de comunicação, caso a “crise hídrica de São Paulo” ocorresse num governo do PT”.
    Ora, a pergunta, que já é resposta, é simples: o Governo de São Paulo, que não é do PT, não está perdendo tempo em ideologizar a questão hídrica. Primeiro, porque a questão hídrica é nacional. E segundo, que há 12 anos o governo federal é do PT.

  4. Os sinais enviados desde o Planalto de que Arno Augustin será o intelectual formulador de política econômica no governo Dilma II são endereçados aos que negociam com Lula a indicação para o MF. São, a meu ver, uma forte evidência de que uma suposta carta-branca concedida por Lula ao ministro-banqueiro, ou mesmo a Nelson Barbosa, em hipótese alguma será endossada por Dilma e por Augustin.

    Não concordo com a análise de que Augustin é docemente subordinado a Dilma. A formação trotskista dele não combina com submissão. O que pode explicar melhor a relação é a afinidade doutrinária e ideológica entre os dois.

    A FSP publicou artigo de Henrique Meireles neste domingo: Navegar sem vento

    Contrariamente ao que afirmam dez entre dez petistas dos mais variados matizes, Meireles ativou a metáfora naval para defender que não há crise do capitalismo neoliberal:

    “Usando a linguagem dos velejadores, estamos no meio de uma calmaria –sem vento para impulsionar o barco, mas também sem tempestade, isto é, sem crise.”

    E ao final conclui que “o mundo, com a exceção dos EUA, não oferecerá grande ajuda à retomada do crescimento. Os emergentes portanto, terão que resolver os seus problemas domésticos de competitividade e produtividade para voltar a crescer a taxas desejadas. A boa notícia é que isso é viável.”

    Meireles parece afinado com os economistas ortodoxos que atribuem o nosso crescimento pífio aos problemas internos ao Brasil e não à crise do capitalismo neoliberal.

    Dilma e Aécio defenderam na campanha que é possível fazer o Brasil voltar a crescer. Assim, a divergência não está localizada na oposição viável e não viável. O que se discute é como viabilizar a volta do crescimento. Sobre isso, o artigo de Meireles é vago. Meireles não diz o que é preciso fazer para viabilizar a volta do crescimento.

    Parece-me que Meireles mandou recado afirmando que não concorda com a visão nacional-desenvolvimentista de um mundo imerso na crise dom capitalismo neoliberal.

    A imprensa deu amplo destaque à metáfora capilar ativada por Mercandante no discurso em evento no qual oficialmente representava Dilma. Mas muito pouca atenção foi dada para a visão de que o que se deve fazer hoje no Brasil é não interromper a política anticíclica (leia-se: nova matriz econômica):

    “Eu quero terminar dizendo que nós precisamos, fizemos uma escolha. Espero que o Congresso sustente essa escolha. Nós temos que reduzir o superávit primário nesse cenário [cenário de crise internacional], e fazer política anticíclica, como dos vinte países do G20, 17 estão com déficit primário. Todo mundo fazendo esforço de política anticíclica.” (Mercadante)

    Vejam lá no youtube, a partir dos 14:33
    ENAI 2014 | Discurso de Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil

  5. Difícil acreditar que o país terá um crescimento de 2% a.a. nos próximos 4 anos. Tá uma paradeira generalizada, ao mesmo tempo que preços de commodities estão em queda, inflação em alta prejudicando setor de serviços, juros tb em alta, indústria quase toda deprimida (nos dois sentidos) e a parte da indústria que brilhou nos últimos anos, automotiva, está com vendas em queda antes mesmo dos ajustes começarem… Se ficar no zero a zero até o fim dos ajustes (se é que virão), já é pra se comemorar.

  6. Mansueto,

    só não vê quem não quer que ela vai dobrar (all in) a aposta. Ela já teve a chance de mudar no fim de 2012 e início de 2013, qdo ficou claro o fracasso da “Nova Matriz”, dobrou a aposta, viu os protestos de 2013 e triplicou a aposta… agora que ganhou as eleições do jeito que ganhou vai mudar pra que?

  7. Pingback: O tamanho do problema | Blog do Mansueto Almeida | AdelsonLine

  8. Mansueto, um comentário específico sobre a renegociação do indexador das dívidas dos Municípios e Estados:

    Ainda que o Ribamar Oliveira tenha dito que a mudança abriu espaço para aumento da dívida e investimentos – comprometendo por consequência o primário, acho importante separar as discussões:

    1) perfil da dívida (indexadores, prazos, etc);
    2) gestão das finanças de uma cidade;

    No primeiro caso (1), a mudança objetivou a melhoria do perfil da dívida, trocando o seu indexador (claramente inadequado – IGP-DI + 6 a 9% para outros mais atuais, como SELIC). Na prática os municípios financiavam a União – ou seja, houve melhora no perfil da dívida.

    O segundo caso (2) gera uma discussão em torno da qualidade da gestão por parte dos encarregados das cidades. E ‘gestão’ englobaria capacidade de geração de caixa consistente ao longo do tempo, resultado dos investimentos (sejam eles financiados ou através de capital próprio), crescimento do PIB, primário, entre outros.

    Digo isso porque uma melhora no perfil das dívidas das cidades tem por consequência o aumento gradativo da capacidade de investimentos. Mas é importante mencionar que há limites de alavancagem que devem ser respeitados e a mudança por si só não abre espaço para governadores e prefeitos se endividarem, pois podem estar acima destes limites existentes, como é a maior parte dos casos (claro que poderíamos discutir se somente o limite de 120% do endividamento da receita seria suficiente para garantir uma boa qualidade da geração de caixa ao longo do tempo, mas isso é outra história).

    Minha visão é que a alteração por si só do indexador das dívidas – ou seja – a melhora do perfil da dívida dos estados e municípios (discussão número 1), é uma boa notícia.

    Discutir se a gestão das finanças da cidade será eficiente é legítimo, mas não é possível o copo estar sempre vazio.

    Abraços.

  9. Mansueto, sendo aprovado este PL modificando a meta do primário há algum risco das agências de rating perderem a paciência de vez com a banânia? Seremos apenas rebaixados em 2015 ou perderemos o grau de investimento já no ano que vem?

    • vai depender muito do que o governo vai anunciar para reverter a situação. Por enquanto, estamos caminhando com sucesso para perder o grau de investimento.

  10. Caro/s:
    Sobre ajustes de esquerda ou de direita. Na condição de “intelectual de esquerda”, sugiro:
    .a. para o baixo investimento: o governo gastar em infraestrutura (metrôs, um computador por aluno. um ônibus para 30 alunos)
    .b. para a redução do superávit primário: o governo eleva as alíquotas do imposto de renda
    .c. para a inflação elevada: mais imposto de renda, maiores encaixes no banco central.
    Simplificadamente, é claro.
    DdAB

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