O ajuste fiscal e o combate à inflação: o que dizer?

Algumas pessoas, em geral estúpidas, acham que o fato de você não apoiar o governo significa que a pessoa torce sempre para “o quanto pior melhor”. Por favor, me retirem deste grupo.

Independentemente de apoiar ou não o governo, gostaria muito de ver a presidente Dilma nos surpreender, montar uma boa equipe econômica e conseguir negociar um pacote de reformas que aumentasse a confiança dos empresários e recuperasse o superávit primário do setor público.

No entanto, o governo está emitindo sucessivos sinais equivocados para o mercado, o que aumenta cada vez mais o custo de ajuste. Infelizmente, por enquanto, não tenho uma única noticia positiva para dar para as pessoas que converso e que visitam o Brasil, pois o governo está batendo cabeça. Há vários erros.

(1) a novela de quem será o ministro da fazenda já deveria ter sido resolvida. Os nomes que circulam nos jornais e a relutância da presidente definir quem quer que seja passa a impressão de uma disputa entre ela e o ex-presidente Lula. Nada bom para acalmar os mercados;

(2) O governo vem falando de um ajuste fiscal duríssimo para 2015 sem aumento de carga tributária e apenas com cortes de gasto, mas sem prejudicar o investimento e o social. Qualquer economista com conhecimento básico de finanças públicas sabe que isto não é possível. O governo não deveria prometer ajuste “duríssimo” para 2015 porque não poderá entregar;

(3) O governo deveria se comprometer com a recuperação do primário maior para 2016 e 2017 e, ao longo de 2015, fazer o que for possível em conjunto com uma agenda positiva de reformas estruturais junto ao Congresso. Mas para ganhar a confiança do mercado precisaria de uma equipe econômica muito boa, convicção para negociar reformas estruturais com o Congresso e administrar de forma exemplar a sua base aliada. O problema do presidencialismo de coalizão é quando o presidente é um mau gestor de sua base;

(4) Governo precisa de um bom portavoz na área econômica que pode ser o novo ministro. Mantega e Mercadante dão sinais contraditórios que aumentam, desnecessariamente, o nervosismo do mercado. Nada contra os dois que fazem o melhor que podem para ajudar a presidente, mas não estamos mais em campanha eleitoral e já deveriam falar dos detalhes do que pretendem fazer. Falar em ajuste fiscal com a manutenção do emprego e da renda não significa coisa alguma. A propósito, não entendo porque o ministro Mantega ainda não se desligou do governo. Será que quer ficar?

(5) O PT e seus economistas simpatizantes atrapalham enormemente a tarefa do ajuste econômico do governo. Aqui a única saída é pedir ajuda ao presidente Lula para controlar o PT, algo que só ele consegue fazer. A resolução do PT foi um convite ao acirramento dos ânimos e, hoje, circulou na internet um manifesto de economistas por desenvolvimento com inclusão social (clique aqui), no qual defendem a manutenção do crescimento dos gastos públicos, juros reais baixos e se mostram contra aumento do superávit primário. É uma visão alternativa que a meu ver é totalmente equivocada e dificulta o trabalho do governo. O mais irônico é que a grande maioria deles votou na presidente confiando que não haveria necessidade de ajuste.

(6) Por fim, como a eleição já acabou, chegou a hora de o governo apresentar um plano econômico muito claro do que pretende fazer. Ele pode decidir que não vai fazer ajuste algum e xingar o mercado financeiro. Seria uma loucura, mas se esse for o plano que então anuncie. Mas se pretender corrigir o rumo equivocado e porque não dizer desastroso de sua política econômica, mostre rapidamente de que forma fará isso. Mas e se o ” tempo” do governo for diferente do “tempo” do mercado? Neste caso nós pagaremos o pato, pois precisamos muito das verdinhas que vêm de fora.

A impressão que tenho é que o governo se preparou muito para as eleições e pouco para o pós-eleição. Se não corrigir rapidamente esta falha, pagará muito caro por subestimar o tamanho do ajuste necessário e correrá o risco de, em menos de um ano, se transformar em um governo “pato manco”, que ficará reagindo à crises e aos movimentos do mercado.

O que fará o governo?

10 pensamentos sobre “O ajuste fiscal e o combate à inflação: o que dizer?

  1. Na minha opinião o governo não conseguirá montar uma equipe que passe credibilidade ao mercado, lembrando que não adianta somente um ministro da fazenda, mas sim um conjunto fazenda/planejamento/BC/BNDES/tesouro. Não creio que o PT tenha quadros com expertise suficiente pra todas estas pastas.

    Provavelmente veremos algumas medidas engana trouxa (que não é o mercado) e a aposta dobrada no ano que vem.

    Preparem suas economias, a renda fixa vai bombar.

  2. Entendo o governo e sua base, ao menos em parte, apostam na crise, pois acham que assim poderão emparedar o Congresso e impor a agenda que lhes interessa. Em caso de nova multiplicação de manifestações de rua, não seria difícil encontrar na imprensa e na academia quem demonizasse os recalcitrantes e exaltasse os niilistas, apontando para a necessidade de uma revisão profunda do sistema parlamentar e um aprofundamento das políticas redistributivas via tributação reforçada.

  3. Mansueto, desculpe-me discordar do seu ponto 5: não são os economistas do PT que atrapalham, é a própria Dilma que se atrapalha. Se tiver alguma dúvida quanto a isso, basta ler a entrevista dela hoje nos principais jornais. Culpar somente os economistas do PT é uma grande injustiça.

  4. Analise precisa, como sempre. Também sou contra PT, esquerda etc..mas torço pelo pais. por uma economia forte e crescente…mas querer é diferente de entender as coisas como são. Dilma e Mercadante pensam assim…pessoas (ainda mais quando reeleitas) não mudam. As credenciais do Mercadante, braço direito da Presidenta, tanto como economista quanto como politico dificilmente o credenciam para garantir confiança do mercado. Mas quem disse que eles entendem o ¨mercado¨ Quando a Dilma, bem..é a Dilma. Com final de semana Mansueto…vê se descansa!

  5. Mansueto, a discordância em relação ao manifesto dos economistas se dá sobre qual argumentação? São apenas visões diferentes? é uma questão de fé?
    Acho que seria interessante, além de apontar que a sua não concordância com o referido manifesto, elencar os motivos subjacentes. Assim, nós, leigos, teríamos informações mais qualificadas.

    • Mas tudo que está escrito no arquivo deste blog aborda detalhadamente os pontos do manifesto. Qual o sentido de se repetir novamente? O Mansueto realmente precisaria explicar novamente porque é a favor de equilíbrio fiscal?

  6. O “manifesto” dos economistas e personalidades defendendo a manutenção das coisas como elas estão, baseia-se, estranhamente, numa convicação de que está tudo bem. Que o ajuste que se pede, por economistas e analistas e pela oposição parlamentar, visa tão somente agradar “o mercado”. E tudo o que agrada o mercado, não serve para para o povo brasileiro, que prefere aumento de renda e investimentos. Na medida que se lê, percebe-se um claro viés ideológico. Até ai, tudo bem. Não fosse um diagnóstico baseado em objetivos difíceis de serem atingidos. Se fossem possíveis, o Brasil estaria já como a 5ª economia do mundo, a Educação estaria tinindo, a pobreza reduzindo, os investimentos crescentes e as obras de infraestrutura prontas ou em estágios avançados a ponto de entrarem em operação. Só que esse mantra, recitado desde 2002, não se concretizou até 2014. Assim, mantendo o mesmo “modelo”, como poderá ser concretizado até 2016 mantendo-se as mesmas premissas? Além do que, nas últimas eleições, ficou claro que os brasileiros não deram carta branca ao governo atual. Pelo contrário, votaram de forma massiva nas oposições, resultando numa diferença de 3.9%, apenas, pró-governo. Ou seja, o manifesto desconhece solenemente este fato em suas linhas. Afinal não foi 100% dos eleitores que, através do voto, avalizaram o modelo agonizante vigente. Precisam atentar para este fato antes que seja tarde demais.

  7. Mansueto, eu como estudante de graduação de economia fico abismado quando pessoas da importância de Maria da Conceição Tavares (que escreve brilhantemente sobre a perspectiva historica da America Latina) defende uma posição que é incrivelmente parecida com a que vivemos em 1974, pós primeira crise do petroleo em que ja estavamos super endividados e que o governo teria duas opções. Ou ele fazia recessão, ou então entrava com tudo no endividamento para tentar contornar com gastos e contração de dividas a níveis brutais a crise daquele momento, sabendo que corria o risco da piora da situação internacional, o que aconteceu com a 2 crise do petroleo em 1979 e com a alta dos juros Norte Americanos em 1980. Como sabemos, o governo escolheu a opção de crescimento com endividamento externo e em 1980 tivemos uma decada muito difícil por aqui.

    Por isso eu gostaria de saber sua opinião de forma mais detalhada quanto a esse manifesto assinado por economistas “decentes” na minha opinião (Como o Belluzo), tentando explicar porque eles teriam uma posição como essa?

    Isso não valeria um post unico?

    abraços

    Henrique Pontara

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