Pare ler neste domingo

Ao contrário do domingo passado, quando eu e muitos outros estávamos na expectativa de qual seria o resultado das urnas, este é um domingo normal depois de uma semana que ficou claro que o mundo real é muito diferente do mundo de ficção da propaganda oficial do governo.

Na campanha, o governo vendeu para a população um Brasil no qual o progresso social não dependia do crescimento econômico, a inflação estava controlada, e a oposição queria acabar com os programas sociais. Este não era o debate. O debate real era como fazer o país crescer mais com estabilidade econômica para que continuássemos com os avanços sociais.

Neste domingo, há vários textos bons nos jornais para começarmos a pensar no pós-eleição. O artigo do Samuel Pessoa – o debate eleitoral e a derrota tucana – na Folha de São Paulo está excepcional e resume bem o desafio para o governo eleito. O governo tem que consertar seus erros, caso contrário, a oposição tem elevada chance de ganhar em 2018. Mas, mesmo que “arrume a casa”:

 “……a chance de transição política em 2018 cresceu muito, pois a situação deteriorou-se de tal maneira que será muito difícil a arrumação e talvez, como ocorreu com os governos tucanos nos anos 1990, mesmo arrumando não haja tempo hábil e a colheita fique para outrem.”

No mesmo jornal há um artigo fantástico – herança maldita – do poeta Ferreira Gullar que lembra que: “Não resta dúvida que a festa acabou e, como não há almoço de graça, o país vai pagar o preço das bondades que permitem ao lulismo se manter no poder.” Entre essas bondades temos os subsídios via BNDES e desonerações que o governo concedeu sem ter o espaço fiscal para conceder esses benefícios. O resultado é que o governo aumentará outros impostos.

A Folha de São Paulo traz ainda uma entrevista com os economistas José Roberto Mendonça de Barros (clique aqui) e Delfim Netto (clique aqui). Os dois economistas destacam os grandes temas para o próximo governo e o desafio de recuperar a competitividade da indústria. Um desafio nada trivial, pois a simples concessão de subsídios pontuais não resolverá o problema. Como destaca José Roberto Mendonça de Barros:

“A retomada do investimento tem que começar pelo ganho de credibilidade. A tarefa de construir reputação é difícil e vai muito além de uma pequena alta de juros ou de um novo ministro da Fazenda. As empresas, especialmente as multinacionais, serão iguais a são Tomé: vão precisar ver para crer.”

O ponto acima é importante porque o mercado está apostando muito no nome do novo ministro da fazenda quando o desafio é muito maior como Marcos Lisboa explica em mais um dos seus brilhantes artigos que será publicado amanhã. A postura da presidente e sua articulação com o congresso para aprovar reformas serão importantes para definir o que será o governo Dilma-2. A minha opinião é que o governo subestimou o tamanho dos problemas que criou e não acredito que eles conseguirão resolver os problemas.

Por fim, sugiro a quem puder ler a interessante matéria do jornal The New York Times sobre o capitalismo de compadres da Rússia. O jornal traz uma interessante matéria que mostra mais um episódio da relação entre governo e um grupo de empresários ligados ao presidente Putin (clique aqui). O episódio desta vez é ainda mais triste porque afetará a qualidade do capital humano do país.

O ministério da educação da Rússia tirou da lista de fornecedores para escolas públicas diversas editora de livros didáticos para favorecer um única editora, a Enlightenment, que foi privatizada e comprada por um dos aliados do presidente Putin. A matéria é longa e muito ilustrativa do que se chama de capitalismo de compadres, um prática comum em países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, e mesmo em países desenvolvidos. O que muda é a extensão dessas práticas.

Na Rússia, a relação entre o grupo no poder controlado pelo presidente Putin e um pequeno grupo de bilionários tomou tamanha proporção que será difícil reverter este processo sem um movimento de oposição muito forte com consequências imprevisíveis. Antes que alguém culpe as mazelas do país ao capitalismo é justamente o contrário. O problema da Rússia é o excesso de poder na mão de poucos e um dirigismo estatal que escolhe quem serão os vencedores. O país sofreu com a experiência fracassada do socialismo e agora sofre com o fracasso do capitalismo de compadres.

Boa leitura neste domingo.